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Como parte da ofensiva, o gabinete do procurador-geral de Teerã informou que abriu processos contra 25 pessoas ligadas ao meio artístico e esportivo, entre elas atletas, atores e signatários de uma nota divulgada pela Cinema House, principal associação da indústria cinematográfica do país. Segundo as autoridades, os investigados teriam atuado na incitação aos protestos.
O órgão afirmou ainda que bens pertencentes aos acusados poderão ser usados para ressarcir danos causados a propriedades públicas e privadas, caso haja condenação. Parte desses ativos já foi confiscada. A televisão estatal informou também que cerca de 60 cafés foram identificados como apoiadores, de forma “direta ou indireta”, de atos classificados pelo governo como “terroristas”.
A agência Tasnim informou que o empresário Mohammad Saedinia, dono de uma conhecida rede de cafeterias, de um grande shopping center e de outros negócios, foi preso e teve todos os seus bens confiscados. Segundo a agência, o valor dos ativos apreendidos se aproxima do montante estimado pela prefeitura de Teerã para os prejuízos causados durante os protestos: cerca de 30 trilhões de riais iranianos (aproximadamente R$ 148 milhões).
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A repressão se estendeu à imprensa. Na segunda-feira, o Judiciário determinou o fechamento do Ham-Mihan, um dos principais jornais reformistas do país, após reportagens sobre a situação dos hospitais durante os protestos. Segundo a Justiça, o veículo teria desrespeitado uma advertência anterior.
De acordo com o jornal britânico, separadamente, a mídia estatal informou que uma agência de notícias e um site jornalístico passaram a responder por acusações de “divulgação de notícias falsas”.
Aumento da instabilidade interna
As manifestações, que começaram no mês passado, deixaram de se concentrar em demandas econômicas e passaram a incluir pedidos pela queda da República Islâmica e pela saída do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, antes de serem sufocadas por uma repressão violenta.
Desde então, um bloqueio da internet imposto pelas autoridades permanece em vigor em grande parte do país, dificultando a circulação de informações independentes. Ainda assim, a mídia estatal reconhece que milhares de prisões foram realizadas em todo o território nacional.
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Autoridades afirmam que grupos armados mataram centenas de integrantes das forças de segurança e incendiaram prédios públicos, lojas e mesquitas. O governo sustenta que as manifestações foram infiltradas por “terroristas” financiados por Israel e pelos Estados Unidos.
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O chefe da polícia iraniana, Ahmad-Reza Radan, declarou que parte dos jovens envolvidos nos distúrbios pode ter sido “enganada”. Segundo ele, participantes diretos dos protestos enfrentarão punições severas, mas aqueles que teriam atuado como “soldados rasos”, influenciados por serviços de inteligência estrangeiros, teriam três dias para se entregar em troca de penas reduzidas.
Conforme informações divulgadas pelo jornal, a repressão também passou a mirar uma suposta colaboração com emissoras de TV por satélite ligadas à oposição, que seguiram acessíveis no país apesar do bloqueio da internet.
O procurador-geral anunciou que qualquer contato ou compartilhamento de informações com a emissora Iran International, sediada em Londres, será tratado como crime.
Paralelamente, o governo do presidente Masoud Pezeshkian prometeu restabelecer o acesso à internet nos próximos dias e anunciou medidas para tentar conter a insatisfação social. Mais de dois terços dos mortos nos protestos deverão ser classificados como “mártires”, o que garante às famílias benefícios financeiros e vantagens nas áreas de educação e emprego.
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Ainda segundo o Financial Times, famílias de vítimas relatam ter sido procuradas por autoridades com a oferta desse reconhecimento, mesmo em casos em que não havia histórico de participação em manifestações.
O governo também anunciou a entrega de 120 mil moradias a famílias de baixa renda e o pagamento de bônus a professores, no valor de 20 trilhões de riais (cerca de R$ 99 milhões), com novos repasses previstos para o próximo ano iraniano, que começa em março.
Registros da violência
Fotos vazadas à BBC Verify revelam os rostos de ao menos 326 pessoas mortas durante a repressão violenta do regime iraniano aos protestos antigovernamentais.
As imagens, consideradas fortes demais para exibição sem desfoque, mostram vítimas com sinais evidentes de agressões, como rostos ensanguentados, inchados e com hematomas profundos. Entre os mortos identificados estão 18 mulheres.
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As fotografias, feitas em um necrotério no sul de Teerã, se tornaram uma das poucas formas encontradas por familiares para reconhecer seus parentes, diante do bloqueio quase total da internet imposto pelas autoridades. Muitas vítimas estavam desfiguradas a ponto de não poderem ser identificadas e dezenas foram registradas como desconhecidas, sem nome.
A BBC Verify analisou 392 imagens e conseguiu identificar 326 pessoas, algumas fotografadas de diferentes ângulos. Segundo fontes ouvidas pela emissora, o número real de corpos que passaram pelo necrotério pode chegar a milhares.
Uma das noites mais letais ocorreu em 9 de janeiro, data registrada em mais de 100 etiquetas encontradas junto aos corpos.
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Relatos indicam que familiares passaram horas diante de telas exibindo imagens dos mortos, tentando reconhecê-los. Em alguns casos, as famílias precisaram ampliar as fotos para confirmar identidades; em outros, o reconhecimento foi imediato e provocou cenas de desespero.
Em certas situações, o único objeto que permitia a identificação era um cartão bancário colocado sobre o saco mortuário.
Embora o governo iraniano reconheça milhares de mortos, atribuindo a responsabilidade a grupos estrangeiros, organizações independentes enfrentam dificuldades para documentar a violência devido ao apagão da internet. Ainda assim, a Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos Estados Unidos, estima que o número de mortos nos protestos já ultrapasse 4 mil.









