‘Deveria ser grato’: Trump diz que Canadá só ‘vive graças aos EUA’ ao criticar discurso de premier Carney em Davos
‘Sem estar à mesa, você é o menu’: Discurso do premier canadense em Davos repercute ao pedir união de potências médias após ruptura de ordem mundial
— Sempre deixo isso claro em minhas conversas com o [presidente dos EUA, Donald] Trump, e depois passamos a discutir o que podemos fazer juntos — afirmou Carney, acrescentando que o presidente americano nunca mencionou a questão da independência de Alberta durante seus encontros.
Os comentários do primeiro-ministro surgiram depois que David Eby, líder da Colúmbia Britânica, província vizinha à Alberta, acusou os ativistas de “traição” por se reunirem com o governo Trump.
Initial plugin text
Em entrevista ao Financial Times, Eby disse que o encontro entre o grupo, denominado “Projeto de Prosperidade de Alberta”, e representantes do Departamento de Estado dos EUA era “inapropriado” em um momento em que os canadenses deveriam estar unidos em meio às tensões com Washington, mas que entendia o desejo deles por um referendo, discutindo “os assuntos que desejam”.
— Temos liberdade de expressão, isso é importante. Mas ir a um país estrangeiro e pedir ajuda para desmembrar o Canadá é traição — afirmou.
Já a líder de Alberta, Danielle Smith, alertou contra a demonização dos apoiadores da independência, mas disse que não concordava com os objetivos do movimento. Smith tem demonstrado amizade com Trump e outros republicanos, já tendo inclusive visitado o clube privado do presidente, em Mar-a-Lago.
A notícia dos encontros surge num momento, de fato, delicado nas relações entre os EUA e o Canadá. Trump ameaçou repetidamente transformar o país no 51º estado. Enquanto isso, Carney deixou claro que acredita que o Canadá deve trilhar um caminho fora da influência dos EUA, após um ano de negociações de tarifas e retaliações com os Estados Unidos.
Também na quinta-feira, Trump afirmou que jatos da Bombardier e outras aeronaves canadenses podem perder a certificação para operar nos EUA caso o Canadá não aprove a certificação de aviões da americana Gulfstream. Em publicação na sua plataforma Truth Social, o presidente acusou o país vizinho de bloquear de forma “injustificável, ilegal e persistente” a autorização para modelos da Gulfstream e ameaçou impor uma tarifa de 50% sobre aeronaves canadenses vendidas ao mercado americano.
Veja: Premier canadense responde a comentário de Trump e diz que Canadá ‘não existe por causa dos Estados Unidos’
À CNN, o advogado Jeffrey Rath, que fez parte do grupo que se reuniu com autoridades americanas, disse que ele e outros separatistas irão novamente à Washington no próximo mês para explorar a possibilidade de obter crédito financeiro em caso de independência. Eles planejam, segundo a rede americana, solicitar ao Tesouro dos EUA uma linha de crédito de US$ 500 bilhões (mais de R$ 2,5 trilhões).
— Não estamos pedindo doações. Estamos realizando um estudo de viabilidade para descobrir o que é possível — disse Rath.
Na semana passada, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse que Alberta é um “parceiro natural para os EUA”, que tem “ótimos recursos” e que os “habitantes são pessoas muito independentes”.
O movimento separatista
A província de Alberta, rica em petróleo e mais conservadora que o resto do Canadá, possui um movimento separatista bastante ativo. Seus apoiadores argumentam há tempos que os habitantes de Alberta são sobrecarregados por impostos e sub-representados.
Eles argumentam que os esforços do governo federal para conter as mudanças climáticas estão prejudicando a indústria petrolífera de Alberta; que pagam mais impostos federais do que recebem de volta; e que seus valores conservadores são abafados pelos das províncias orientais, mais liberais e populosas.
Não gostou do discurso: Trump retira convite ao premier canadense para participar do Conselho da Paz
O separatismo em Alberta desempenhou, durante muito tempo, um papel secundário na política provincial, mas a vitória do Partido Liberal nas eleições de 2025 reacendeu o movimento, que considera a política de centro-esquerda de Carney como a antítese dos valores conservadores de Alberta. Ironicamente, Carney é natural de Alberta, criado em Edmonton, a capital da província.
Questionado sobre as reuniões, um funcionário da Casa Branca disse à CNN que “representantes do governo se reúnem com diversos grupos da sociedade civil e, [sobre Alberta], nenhum apoio ou compromisso foi transmitido”.
O referendo
Ainda de acordo com a CNN, o governo de Alberta aprovou uma petição para um referendo sobre a independência no início deste mês, e os ativistas têm até maio para coletar 178 mil assinaturas de eleitores elegíveis. Uma pesquisa recente da Ipsos revelou que aproximadamente 28% dos habitantes de Alberta, que tem uma população de cerca de 5 milhões de pessoas, poderiam votar “sim” em um referendo sobre a independência, um nível comparável ao da província de Quebec, onde o separatismo é uma importante força cultural.
— Quando você olha para as pesquisas, elas sugerem que até 30% dos habitantes de Alberta perderam a esperança. E isso representa cerca de um milhão de pessoas — pontuou a líder de Alberta. — Eu não vou demonizar ou marginalizar um milhão dos meus cidadãos quando eles têm queixas legítimas.
Entenda: Em coalizão, e não culto a Trump, movimento Maga é minoria, indica pesquisa
Por outro lado, outra petição, desta vez do lado contrário à secessão, solicitando um referendo, também já foi aprovada, reunindo mais de 400 mil assinaturas. Algumas das críticas mais veementes à ideia vêm de comunidades indígenas, cujos tratados com o Estado canadense são mais antigos que a própria província de Alberta.
Em junho do ano passado, durante um comício pela independência de Alberta, os separatistas usavam bonés no estilo MAGA, com a inscrição “Make Alberta Great Again” (Torne Alberta Grande Novamente), elogiando Trump como “o melhor trunfo da América do Norte” e um potencial aliado.






