O Departamento de Justiça dos EUA indiciou, nesta quarta-feira, o ex-presidente de Cuba Raúl Castro, em um processo ligado à derrubada de dois aviões no espaço aéreo cubano nos anos 1990, e que resultou na morte de quatro pessoas. A decisão é mais uma etapa na crescente pressão de Washington sobre Havana: horas antes do indiciamento, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, prometeu aos cubanos um “novo caminho entre os EUA e uma nova Cuba”, e creditou os problemas da ilha ao Partido Comunista.
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A acusação remete a um indicidente ocorrido em 1996. Na ocasião, três aviões de um grupo chamado Irmãos ao Resgate decolaram da Flórida em busca de cubanos que tentavam fazer a travessia até os Estados Unidos em botes, em momento em que milhares de pessoas tentavam sua sorte no mar. Cuba acusava a organização de violar seu espaço aéreo e de lançar panfletos contra o então líder, Fidel Castro, apesar dos alertas do governo americano. No dia 24 de fevereiro, eles ignoraram os alertas do comando aéreo cubano e, instantes depois, um caça MiG-29 abateu duas das aeronaves. Um terceiro avião pousou em segurança na Florida.
O processo foi moldado inicialmente com base no processo contra o ex-ditador do Panamá, Manuel Noriega, capturado pelos EUA nos anos 1990 e processado por tráfico de drogas, mas ficou quase três décadas parado no Departamento de Justiça. Recentemente, um dos promotores originais do caso, Guy Fowler — cuja família emigrou de Cuba para os EUA — reapresentou as denúncias, e encontrou respaldo dentro do governo Trump.
— Venho tentando indiciar os Castros desde os 9 anos de idade — disse Fowler em entrevista à rede CNN, se referindo à idade que tinha quando deixou a ilha.
Horas antes, no discurso aos cubanos, Rubio afirma que problemas de infraestrutura em Cuba, como os blecautes recorrentes, não são um efeito do embargo econômico em vigor desde os anos 1960, ampliado por sanções e, mais recentemente, pelo bloqueio naval americano. Mas sim, argumenta, “daqueles que controlam o seu país e saquearam bilhões de dólares”.
Segundo o secretário de Estado, Raúl Castro fundou, há 30 anos, a Gaesa, o maior conglomerado industrial do país, administrado pelas Forças Armadas e que administra bens e investimentos de quase US$ 18 bilhões em praticamente todos os setores da economia local. Há anos, a dissidência cubana no exterior acusa a Gaesa de usar o domínio econômico para realizar investimentos que não são revertidos à população.
— Eles lucram com hotéis, construção civil, bancos, lojas e até mesmo com o dinheiro que seus parentes enviam dos Estados Unidos. Tudo, absolutamente tudo, passa pelas mãos deles. Dessas remessas, eles retêm uma porcentagem, mas dos lucros da Gaesa, nada chega até você — declarou.
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O secretário citou o corte no envio de petróleo da Venezuela, imposto depois da intervenção americana na Venezuela e da prisão de Nicolás Maduro, o presidente que hoje está em uma penitenciária em Nova York, e acusou a Gaesa de “comprar combustível para seus geradores e veículos, enquanto o povo é obrigado a fazer sacrifícios”. Desde o início do bloqueio naval, Cuba enfrenta blecautes cada vez mais frequentes, e a falta de combustível fez com que o país entrasse em modo de emergência, com atividades sociais, econômicas e políticas limitadas.
— Hoje, Cuba não é controlada por nenhuma “revolução”. Cuba é controlada pela Gaesa. Um “Estado dentro do Estado” que não presta contas a ninguém e acumula os lucros de suas empresas em benefício de uma pequena elite — continua o secretário. — E o único papel desempenhado pelo chamado “governo” é exigir que vocês continuem fazendo “sacrifícios” e reprimindo qualquer um que ouse reclamar.
O discurso é mais uma ferramenta da mudança brusca na política externa americana para Cuba. Ao invés do apaziguamento de Barack Obama na década passada, a diplomacia trumpista, especialmente em seu segundo mandato, estabeleceu a mudança de regime como objetivo. As sanções e o bloqueio naval convivem com ameaças de intervenção feitas pelo presidente — um processo que tem em Rubio um personagem central: ele é filho de cubanos que emigraram aos EUA dois anos antes da revolução que instituiu a república socialista a pouco mais de 100 km da Flórida, em 1959.
Pessoas caminham por uma rua em Matanzas, Cuba, em 31 de março de 2026
(Foto de YAMIL LAGE / AFP)
Na segunda-feira, em resposta às ameaças, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que qualquer ação militar contra seu país resultaria em um “banho de sangue”, e declarou que Havana “não representa uma ameaça”. As autoridades locais relatam um número acima do normal de drones sobrevoando a ilha, no que passou a ser interpretado como a etapa inicial de um plano de invasão.
— Eu sei que Cuba é um país forte. Os cubanos são muito corajosos e não vão nos pegar desprevenidos — disse Sandra Roseaux, moradora de Havana, à agência Reuters. — Se eles vierem, terão que lutar, porque Cuba vai reagir. Meu país, faminto ou como estiver, vai reagir. É melhor que eles não venham, porque haverá luta.
No vídeo, Rubio reiterou uma oferta de ajuda de US$ 100 milhões, distribuídos através da Igreja Católica (e que Havana diz não ter recebido oficialmente), mas afirmando que os cubanos “não querem uma caridade permanente”.
— Hoje, da mídia ao entretenimento, do setor privado à política e da música aos esportes, os cubanos chegaram ao topo de praticamente TODOS os setores, em todos os países, exceto um… Cuba — disse Rubio. — Hoje em Cuba, apenas aqueles próximos à elite da Gaesa ou que fazem parte dela podem ter negócios lucrativos. Mas o presidente Trump está oferecendo um novo caminho entre os EUA e uma nova Cuba.
Em publicação na rede social X, o chanceler cubano, Carlos de Cossio, disse que “a razão pela qual o Secretário de Estado dos EUA mente de forma tão reiterada e sem escrúpulos ao se referir a Cuba e tentar justificar a agressão à qual submete o povo cubano não é ignorância ou incompetência”.
“Ele sabe muito bem que não há desculpa para uma agressão tão cruel e implacável”, completou.
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