— É glamoroso, muito glamoroso — explicou o presidente enquanto sua esposa posava para fotos em frente a um cartaz brilhante com seu nome. — Precisamos de um pouco de glamour.
Mas o que alguns viram como glamour, outros entenderam como um ato flagrante de corrupção corporativa. A Amazon pagou US$ 40 milhões (R$ 209 milhões) à produtora da primeira-dama pelos direitos do filme e, em seguida, desembolsou outros US$ 35 milhões (R$ 183 milhões) para promovê-lo. O orçamento de marketing do filme é dez vezes maior do que o de um grande documentário normalmente recebe.
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Enquanto Trump desfilava diante de repórteres e fotógrafos que gritavam ao longo de um tapete vermelho — o tapete era, na verdade, preto, em consonância com a preferência de sua esposa por tudo em preto e branco —, ele foi perguntado se todo o evento não seria, na verdade, uma tentativa do fundador da Amazon, Jeff Bezos, e seus executivos de se aproximarem do governo Trump.
— Não sei, na verdade. Não estou envolvido — disse ele. — Foi feito com a minha esposa. Acho que é um filme muito importante. Mostra a vida na Casa Branca. É algo muito significativo, na verdade.
Outro repórter que tentou perguntar sobre o custo exorbitante do filme recebeu uma resposta ligeiramente diferente.
— Acho que você deveria perguntar ao [ex] presidente [Barack] Obama, que recebeu muito dinheiro e não fez nada — respondeu Trump. — Se você observar outros, eles receberam muito dinheiro, mas aqui está alguém, Melania, que realmente produziu, ela fez um ótimo trabalho.
A obra em si parecia quase irrelevante. A noite não era sobre cinema, mas sobre poder. Todo o espetáculo foi uma manifestação vívida do domínio que Trump exerce sobre seu partido e sobre esta cidade.
Os altos escalões da estrutura de poder de Washington — membros do Gabinete, senadores e o presidente da Câmara — compareceram, mesmo com o frio de -10°C, a um prédio que Trump assumiu o controle e batizou com seu próprio nome para celebrar este filme que sua esposa produziu sobre si mesma.
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Metade do Gabinete do presidente compareceu. Estavam presentes o secretário de Defesa, Pete Hegseth; a secretária da Agricultura, Brooke Rollins; e o secretário do Interior, Doug Burgum. E também Robert F. Kennedy Jr., o secretário da Saúde. O prédio em que ele estava foi construído como um memorial ao seu tio assassinado, o ex-presidente John F. Kennedy. Mas o que seu sobrinho achou da decisão de Trump de renomear o local para “Centro Trump Kennedy”?
— Foi construído como um memorial para a nação porque meu tio era profundamente comprometido com as artes — respondeu Kennedy — E acredito que o presidente Trump também seja comprometido com as artes.
Uma das primeiras pessoas a chegar foi o presidente da Câmara dos Deputados, Mike Johnson. Ele foi questionado se tinha alguma teoria sobre o motivo pelo qual a Amazon pagou milhões para produzir e comercializar “Melania”.
— Bem, esta é a primeira-dama dos Estados Unidos — disse ele. — É um projeto importante para a história e em todos os outros sentidos, e, sabe, acho que vale o investimento e acho que dará retorno.
Dá retorno como, exatamente?
— Acho que o componente de educação pública é um aspecto inestimável deste filme, e suspeito que eles também recuperarão o investimento — respondeu Johnson.
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Os acordos comerciais de Melania e grande parte do lançamento do filme foram orquestrados por seu agente e assessor de longa data, Marc Beckman, que estava presente na estreia. No início da semana, ele concedeu uma entrevista ao The Times de Londres, na qual revelou algo sobre o que descreveu como “a visão de Melania”.
Beckman disse que, primeiro com seu livro e agora com os materiais de marketing que ela criou para o filme, Melania estava aprimorando um ideal estético — “muito simétrico, ângulos retos, preto e branco” — que, em última análise, “visava apoiar essa marca de luxo que ela está construindo”.
Certamente foi um momento interessante para o governo Trump estender o tapete preto para si mesmo.
Dois dias atrás, o presidente foi a Iowa para tentar acalmar as preocupações econômicas no país. Seu chefe de Gabinete acaba de anunciar que ele começará a viajar para fazer algo semelhante uma vez por semana. Seus assessores sabem que têm problemas: uma nova pesquisa divulgada na semana passada pelo New York Times e pela Universidade de Siena revelou que apenas 24% dos eleitores acreditam que Trump tornou a vida mais acessível. Menos de um terço dos eleitores acha que o país está em melhor situação do que quando ele retornou à Casa Branca, há um ano.
— Talvez eu tenha uma equipe de relações públicas ruim — disse Trump na semana passada. — Mas não estamos conseguindo transmitir a mensagem.
Quase todos os altos funcionários da Casa Branca compareceram acompanhados de seus cônjuges. Funcionários mais jovens da Ala Oeste, na esperança de conseguir ingressos, enviaram e-mails para seus colegas da Ala Leste perguntando se poderiam dar um jeito.
A lista de convidados foi gerenciada pelo gabinete da primeira-dama e pela Amazon, embora, em uma cidade que gira em torno da proximidade com o presidente, o fato de alguém ser convidado para a estreia do filme de sua esposa se tornou, por si só, uma espécie de referendo de status. Republicanos influentes de diversas agências fofocaram durante toda a semana sobre quem havia conseguido ingressos. Os verdadeiros VIPs foram convidados para a festa extraoficial que aconteceria no clube exclusivo para membros de Donald Trump Jr., na cidade vizinha de Georgetown.
Dentro do teatro, a primeira-dama subiu ao palco para falar com a plateia.
— Alguns chamaram isso de documentário — disse ela. — Não é.
Não é?
— É uma experiência criativa que oferece perspectivas, insights e momentos — disse Melania.
Em seguida, ela agradeceu ao marido. A plateia o aplaudiu de pé.






