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Na reunião em que apresentaram o novo horário, os representantes do Boletim dos Cientistas Atômicos citaram nominalmente Estados Unidos, Rússia e China, os acusando de agir de maneira cada vez mais agressiva e nacionalista, e de lançarem uma nova competição entre potências. Conflitos existentes, como na Ucrânia, estão distantes de uma solução, e novos cenários de combate, como entre Irã e Israel (que tem armas nucleares) e Índia e Paquistão (também donos de arsenais nucleares), mostraram a fragilidade da paz e dos mecanismos para mantê-la.
Neste contexto, a cooperação internacional e o multilateralismo, fundamentais para o estabelecimento do sistema de normas no pós-Segunda Guerra Mundial, passaram a ser vistos como entraves, e não mecanismos de solução de problemas.
— A mensagem do Relógio do Juízo Final não poderia ser mais clara. Os riscos catastróficos estão aumentando, a cooperação está diminuindo e estamos ficando sem tempo — afirmou Alexandra Bell, presidente do Boletim dos Cientistas Atômicos.
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A guerra e a quebra do sistema multilateral potencializam as ameaças existenciais, e jamais foram tão numerosas. A começar pelos arsenais nucleares. Embora o número de ogivas declaradas siga em níveis similares aos de anos anteriores, os países que fazem parte do “clube atômico” investem cada vez mais na modernização de suas armas e sistemas de lançamento.
No ano passado, os presidentes dos EUA, Donald Trump (citado sete vezes no comunicado do Boletim), e da Rússia, Vladimir Putin, apresentaram novas armas e não descartaram realizar novas detonações — os países têm os maiores arsenais do planeta, e o último acordo bilateral de controle nuclear em vigor, o Novo Start, expira em alguns dias. A China, dona do terceiro maior arsenal, com cerca de 600 ogivas, tem um vigoroso e sigiloso programa de aperfeiçoamento nuclear. E há cada vez mais candidatos a uma vaga no “clube nuclear”.
— Centenas de bilhões estão sendo gastos para modernizar e expandir os arsenais nucleares em todo o mundo, e um número crescente de Estados não nucleares considera se deve adquirir suas próprias armas nucleares ou se deve diversificar seus investimentos nucleares — disse Jon Wolfsthal, diretor de riscos globais da Federação dos Cientistas Americanos. — Em vez de alimentar a competição por armas nucleares, os Estados nucleares estão reduzindo sua própria segurança e colocando todo o planeta em risco.
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Nos primeiros anos após a criação do Relógio do Juízo Final, em meio à Guerra Fria, o grande temor era de uma guerra nuclear entre EUA e União Soviética, que levaria, no pior cenário, a uma aniquilação de escala global — quanto mais perto da meia-noite, mais perto estamos da aniquilação. O risco nuclear ainda existe, mas ele não está sozinho.
— As tendências perigosas em relação aos riscos nucleares, às mudanças climáticas, às tecnologias disruptivas como a IA (inteligência artificial) e à biossegurança são acompanhadas por outro desenvolvimento assustador: a ascensão de autocracias nacionalistas em países ao redor do mundo — afirmou Daniel Holz, professor da Universidade de Chicago e membro do conselho do Boletim dos Cientistas Atômicos.
Sobre o clima, Trump é lembrado pela quebra com a transição rumo a uma economia verde, iniciada por seu antecessor, Joe Biden, e por abandonar compromissos climáticos: como em seu primeiro mandato, ele retirou, mais uma vez, os EUA do Acordo de Paris, e tem privilegiado o uso e a extração de combustíveis fósseis. No comunicado, o Boletim dos Cientistas Atômicos disse que suas políticas climáticas são um dos retrocessos mais “agressivos, abrangentes e consequentes” já vistos.
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O crescente uso da IA, não apenas para montagens infames em redes sociais, é um novo campo minado e talvez um dos mais perigosos. Sua aplicação no campo de batalha, com armas “inteligentes”, levanta debates sobre responsabilidades e respeito às leis da guerra, mas há pouca chance de consenso nos fóruns multilaterais.
O afrouxamento das regras para a tecnologia, aliado ao seu desenvolvimento acelerado, tem, na visão do Boletim, “o potencial de acelerar o caos e a disfunção existentes no ecossistema de informação mundial, potencializando campanhas de desinformação e minando os debates públicos baseados em fatos necessários para lidar com grandes ameaças urgentes, como guerra nuclear, pandemias e mudanças climáticas”.
— A ênfase na competição tecnológica está tornando cada vez mais difícil fomentar a cooperação necessária para identificar e mitigar os riscos, e os ataques contra universidades e os cortes no financiamento federal estão corroendo nossa capacidade de encontrar soluções eficazes — apontou Steve Fetter, professor de Políticas Públicas da Universidade de Maryland.
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Apesar de ser um dos mais duros alertas sobre nossa proximidade de um abismo — ou de nossa própria extinção —, os cientistas apontam alguns caminhos para ao menos reduzir nossa chance de sobrevivência como espécie a longo prazo. A começar pelo fortalecimento do diálogo multilateral e de acordos, como sobre a limitação de arsenais nucleares e o veto a testes.
Novas regras sobre o emprego da IA são urgentes, além de novas ferramentas de enfrentamento de ameaças biológicas, não apenas em pandemias. E em capitais onde o clima é tema proibido — notadamente nos EUA de Donald Trump — os demais poderes, além da sociedade civil, devem agir para garantir o interesse nacional e global, mesmo à revelia do chefe do Executivo de ocasião.
— A mudança é necessária e possível, mas a comunidade global deve exigir uma ação rápida de seus líderes — concluiu Bell.







