— Quando há um ato claro de agressão, acho que o que devemos fazer não é nos curvar ou tentar chegar a um acordo. Tentamos essa estratégia por meses. Não está funcionando. [Essa estratégia] leva estrategicamente a Europa a aumentar sua dependência — disse Macron ao Le Monde, ao Financial Times e a outros veículos.
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O presidente francês afirmou que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, tem sido “abertamente anti-europeu” e estaria buscando o “desmembramento” da UE. Segundo ele, é provável que surjam novos atritos nos próximos meses, inclusive na área de regulação digital, um dos pontos sensíveis da relação com Washington. Macron citou que Espanha e França podem estar entre os países visados por suas propostas de proibir o uso de redes sociais por crianças.
A União Europeia e vários outros governos europeus, entre eles Reino Unido, Portugal, Dinamarca, Grécia, Noruega, Polônia, Áustria, Irlanda e Países Baixos, também avaliam medidas desse tipo. Elas afetariam empresas como Instagram e Facebook, da Meta Platforms Inc., X, de Elon Musk, e TikTok e YouTube, do Google. Uma proibição na Europa deixaria milhões de usuários jovens sem acesso a serviços que os reguladores consideram prejudiciais e viciantes, além de reduzir receitas publicitárias relevantes associadas a essas plataformas.
A Espanha tornou-se o país mais recente a avançar com esse tipo de iniciativa. O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou na semana passada que “as redes sociais se tornaram um Estado falido”. Com isso em mente, Macron disse ser “certo” que os Estados Unidos irão, nos próximos meses, “atacar [a Europa] por causa da regulação digital”, citando a possibilidade da União Europeia utilizar sua Lei de Serviços Digitais para regular empresas de tecnologia.
— Quando saímos do pico da crise [com os EUA], quando foi negociado um acordo para as tarifas, houve uma espécie de alívio covarde. Mas não acreditem nem por um segundo que isso terminou — advertiu. — Vejam o que vai acontecer com as tarifas sobre os produtos farmacêuticos e tudo o que está por vir. A cada dia, a cada semana, haverá ameaças.
‘Preferência europeia’
Na sequência, Macron instou os líderes europeus a aproveitarem uma cúpula marcada para esta semana em um castelo na Bélgica para dar novo impulso às reformas econômicas do bloco. Segundo ele, o objetivo é reforçar a competitividade da União Europeia e ampliar sua capacidade de enfrentar tanto o que definiu como um “tsunami chinês na frente comercial” e a “instabilidade” dos Estados Unidos no cenário internacional — duas “crises que representam um choque profundo e uma ruptura para os europeus”, disse o presidente.
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O francês defendeu que a Europa se torne mais resiliente diante desse duplo desafio e voltou a propor uma maior emissão conjunta de dívida por parte da União Europeia. Para ele, esse instrumento permitiria ao bloco de 27 países investir em larga escala e desafiar a hegemonia do dólar no sistema financeiro internacional. Macron ressaltou que os mercados globais estão “cada vez mais desconfiados do dólar”.
— Estão buscando alternativas. Vamos oferecer a eles dívida europeia — afirmou, acrescentando que as instituições democráticas europeias são um ativo relevante para investidores em um momento em que os Estados Unidos estariam “se afastando do Estado de Direito”.
A União Europeia recorreu à emissão conjunta de dívida em 2020 para reativar a economia após a pandemia de Covid-19. No entanto, as tentativas da França de tornar esse mecanismo permanente enfrentaram resistência da Alemanha e de outros países do norte do bloco, considerados mais rigorosos em questões fiscais.
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Na cúpula de quinta-feira, também devem ser discutidos planos liderados pela França para a estratégia de “Feito na Europa”, que estabeleceria requisitos mínimos de conteúdo europeu em bens fabricados no bloco. A proposta dividiu os Estados-membros e provocou preocupação entre montadoras. Na entrevista, Macron defendeu a proteção da indústria europeia sem cair no protecionismo, por meio de uma “preferência europeia” em setores estratégicos, como tecnologias limpas, automóveis e defesa. E citou o acordo com o Mercosul.
— Para mim, a estratégia econômica para fazer da nossa Europa uma potência está no que chamo de proteção, que não é protecionismo, mas sim preferência europeia — disse Macron, citando o acordo com o Mercosul como um “mau acordo”. — Defendo acordos justos e, portanto, acordos que incluam salvaguardas e em que se respeite o clima ao mesmo tempo em que se obtenha o que queremos para a economia.
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Sobre a Rússia, Macron disse que deseja que a retomada do diálogo com Vladimir Putin ocorra de maneira coordenada entre os europeus e com um número limitado de interlocutores. As trocas diretas com Putin estavam praticamente suspensas em razão da guerra na Ucrânia, iniciada em 2022. Para preparar uma retomada do diálogo, Macron enviou no início de fevereiro seu assessor diplomático a Moscou. O presidente francês indicou que os primeiros contatos técnicos confirmaram que “a Rússia não quer a paz agora”, embora tenham permitido reconstruir “canais de diálogo”. (Com AFP e Bloomberg)









