Governo busca equilíbrio: Concessões de presidente do México ao governo Trump alimentam tensão com sua base política
Combate ao narcotráfico: Captura de chefe de organização criminosa no México desencadeia bloqueios e atos de vandalismo na fronteira com os EUA
Rocha Moya, membro do partido governista Morena, comanda este violento estado desde 2021. Durante sua gestão, Sinaloa tem sido sacudido por disputas entre duas facções do cartel de mesmo nome. Segundo um comunicado, a Promotoria disse que Rocha Moya e outros “antigos ou altos funcionários do governo e das forças de ordem” se associaram ao Cartel de Sinaloa “para distribuir quantidades massivas de narcóticos nos Estados Unidos”.
Entre os indiciados estão um senador do Morena, Enrique Inzunza, o prefeito de Culiacán (capital do estado), Juan de Dios Gámez, o vice-procurador-geral do estado, Dámaso Castro, e o secretário de Administração e Finanças do estado, Enrique Díaz Vega. A promotoria afirmou que a facção dos filhos de Joaquín “El Chapo” Guzmán dentro do Cartel de Sinaloa, conhecida como “Los Chapitos”, ajudou Rocha Moya a se eleger governador.
“Em troca, tanto antes quanto depois de se tornar governador, Rocha Moya se encontrou com os ‘Chapitos’, prometendo-lhes proteção enquanto distribuíam grandes quantidades de drogas para os Estados Unidos”, afirma o documento.
Antes de se tornar governador, Rubén Rocha Moya, de 76 anos, foi deputado estadual e senador por Sinaloa. Seu governo foi marcado pela violência entre duas facções do Cartel de Sinaloa: os “Chapitos” e os herdeiros de Ismael “Mayo” Zambada, que foi preso em julho de 2024. O conflito entre os dois grupos deixou centenas de mortos e desaparecidos. Seus supostos vínculos com o crime organizado vieram à tona com uma carta de “Mayo” Zambada, na qual ele alegava ter sido sequestrado e levado para os Estados Unidos enquanto se dirigia a um encontro com Rocha Moya.
O Cartel de Sinaloa é um dos seis grupos mexicanos de narcotráfico designados como organizações terroristas pelo presidente dos EUA. O ciclo de contenção das investidas de Trump é alimentado por exigências cada vez maiores, seguidas por conversas telefônicas em que Sheinbaum acalma os interesses do presidente americano, toma medidas para agradar, recebe elogios públicos e é confrontada com mais reivindicações.
Em várias ocasiões, Trump ofereceu apoio militar a Sheinbaum para combater os cartéis de droga, proposta rejeitada pela presidente. Diante de ameaças diretas e indiretas, a presidente mexicana chegou a ordenar ações que pudessem aliviar os interesses do republicano de realizar ações militares unilaterais em solo mexicano. Ultimamente, no entanto, Trump, que parece realmente respeitar a mandatária, tem pressionado Sheinbaum a fazer movimentos com potencial de abalar as relações da presidente com sua base política de esquerda.
Initial plugin text
Em reportagem publicada no domingo, o Los Angeles Times já havia revelado que, além da ofensiva americana contra o narcotráfico, o governo Trump havia lançado também uma campanha contra políticos mexicanos com ligações ao crime organizado.
As investigações americanas envolveriam não apenas o cancelamento dos vistos americanos de suspeitos, afetando pelo menos cinquenta políticos e funcionários mexicanos, mas também a preparação de “denúncias criminais em tribunais americanos”, dizia a publicação. Desde então, o governo mexicano vinha tentando minimizar o impacto, alegando não ter registro de quem foi afetado e acusando Washington de não compartilhar essas informações com seu governo.
Na última sexta-feira, o embaixador dos EUA, Robert Johnson, exigiu “certeza, segurança e um ambiente livre de corrupção” para os investimentos americanos. Ele concluiu seu discurso dizendo: “Provavelmente veremos ações significativas sobre este assunto em breve. Fiquem atentos”.
“É isso que estamos fazendo”, respondeu a presidente mexicana. Nesta segunda-feira, a mandatária reforçou o tom pelo combate à corrupção e em defesa da soberania mexicana.
— Se houver uma investigação por parte de qualquer procuradoria contra qualquer servidor público no México, deve haver provas e evidências claras. Não vamos acobertar ninguém que tenha provas de corrupção — afirmou durante sua coletiva de imprensa matinal, concluindo com uma mensagem que soou como um contra-ataque: — E também, nos Estados Unidos, eles têm que revisar os casos nos Estados Unidos. (…) Não queremos ter um relacionamento ruim com o governo dos EUA, mas eles têm que nos respeitar.
Vídeo: Turistas brasileiros vivem momentos de terror como reféns em ataque a tiros que deixou um morto no México
Agentes americanos
Após a revelação de que dois agentes americanos mortos em um acidente em território mexicano estavam no país sem autorização, Sheinbaum enviou uma nota diplomática à embaixada americana exigindo explicações sobre o caso. Na terça-feira, ela revelou que os Estados Unidos, em resposta, se comprometeram “a respeitar as leis do México”.
Os dois agentes americanos que, segundo a imprensa dos EUA, pertenciam à Agência Central de Inteligência (CIA) e não tinham autorização do governo federal mexicano para atuar, morreram em 19 de abril em um acidente de carro no estado fronteiriço de Chihuahua, no norte do país, quando voltavam de uma operação antidrogas. Sem engajar num debate público com Washington, Sheinbaum atribuiu a responsabilidade do caso publicamente à governadora de Chihuahua — a oposicionista María Eugenia Campos Galván —, cujos oficiais estavam trabalhando com os agentes americanos.
Mesmo apesar da postura da líder, o caso aumentou a tensão com Washington e levou, na segunda-feira, à renúncia do procurador estadual de Chihuahua, César Jáuregui, que reconheceu “omissões” em relação à presença dos dois americanos. Após a nota enviada pelo México às autoridades americanas, “eles nos disseram claramente que querem respeitar a lei e a Constituição do México”, afirmou Sheinbaum em sua entrevista coletiva matinal.
Segundo autoridades de Chihuahua, os agentes estrangeiros estavam desarmados, à paisana e com o rosto coberto, e não participaram diretamente da operação para desmontar um laboratório clandestino de drogas em uma área montanhosa. O acidente ocorreu na volta da região e também matou dois comandantes mexicanos.
Artigo: Morte de ‘El Mencho’ testa relação de Trump e Sheinbaum à custa de frágil situação de segurança do México
A presidente reiterou, no entanto, que os americanos estiveram “em uma operação que cabe somente às autoridades mexicanas”. No sábado, o México disse que um dos funcionários da CIA tinha um passaporte diplomático e o outro havia entrado no país como visitante. Nenhum dos dois foi credenciado para participar de operações no México, disseram os altos funcionários de segurança mexicanos em um comunicado por escrito, e o governo federal não foi informado sobre suas atividades. De acordo com a lei mexicana, agentes estrangeiros estão proibidos de participar de operações em território mexicano.
Na segunda-feira, a Procuradoria de Chihuahua confirmou que havia quatro pessoas sem vínculo com a instituição no local, incluídos os dois agentes mortos, mas sem detalhar se todas eram estrangeiras. Após o incidente e a nota diplomática enviada pelo México, a Casa Branca criticou a postura de Sheinbaum, dizendo esperar “um pouco de solidariedade” diante da morte dos agentes.
(Com AFP)






