‘Abominável’: Nova leva de documentos do caso Epstein expõe nomes e imagens de vítimas de abusos
Caso Epstein: Veja os principais pontos sobre as 3 milhões de páginas de arquivos que citam Trump, Musk, ex-príncipe e brasileiro
A conversa que fala da possibilidade de compra da agência é apenas uma entre Epstein e um homem identificado como Ramsey Elkholy — nome que aparece em centenas das trocas de mensagens com o empresário, enviando fotos ou marcando horários de encontros com mulheres de várias nacionalidades. Num e-mail datado de 2 de outubro de 2016, Elkholy apresenta a Epstein informações sobre possíveis parceiros no Brasil para um concurso de modelos ou para sociedade em uma agência. São citadas as agências de modelos Elite, Ford Models e L’Équipe, três das maiores do mercado. Também é citada a revista Harper’s Bazaar.
A troca e-mails de Epstein sobre agências de modelos brasileiras:
Parte da rroca de e-mails entre Jeffrey Epstein sobre agências de modelo brasileiras
Arte/ Reprodução Departamento de Justiça dos EUA
Em várias partes da mensagem, Elkholy comenta as intenções de Epstein. “Presumo que você está mais interessado no acesso a (ele usa um emoji de uma garota)”, diz, sobre a Ford Models. O associado do empresário também pondera sobre escolher entre as agências Ford e Elite: “(Com a Ford), há muitas oportunidades para conhecer modelos, mas acredito que não o mesmo acesso direto do concurso (da Elite), onde as garotas são majoritariamente caipiras sem experiência”.
Na mesma mensagem, Elkholy explica o que seria o concurso da Elite, uma espécie de peneira para meninas entrarem no mundo da moda. A prática foi bastante comum entre várias agências do mundo entre os anos 1980 e 2000, inclusive com a participação de jovens que se tornariam supermodelos, entre elas Cindy Crawford e Gisele Bündchen.
Elkholy diz por que acha boa para Epstein a ideia de um concurso nos moldes do organizado pela Elite: “Isso implicaria ter acesso a todas as garotas, e você poderia decidir o que fazer com elas. É raro a vencedora desses concursos alcançar o estrelato; geralmente é outra garota que passou despercebida, e é por isso que eu gosto disso — para você, quero dizer. Basicamente, você poderia levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA (existe uma agência brasileira que cuida dos vistos americanos), ou para Paris ou para o Caribe.”
Na mensagem, o associado do empresário conta que custaria a Epstein cerca de US$ 250 mil para fazer no Brasil um concurso como o Elite Model Look e que enviou um PDF com mais informações. Diz, também, que encontrou com os dois organizadores principais, “que são olheiros de concursos bem conhecidos no Brasil”, mas não cita nomes.
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Sobre a Ford Models, Elkholy esclarece que a agência é dirigida por “um cara que nunca teve investidores” e que teria dito estar “aberto a receber algum apoio para que pudesse concretizar plenamente os objetivos da agência”. Segundo a mensagem do associado de Epstein, a Ford Models seria “um bom investimento se você quiser expandir uma marca já estabelecida”.
Epstein responde ao e-mail dizendo a Elkholy para assinar o acordo de confidencialidade, obter os números da Ford Models e encontrá-lo numa quarta-feira em Nova York. O associado diz então que a Ford Models está preparando o documento.
Em entrevista por telefone ao GLOBO, o CEO da Ford Models, Decio Restelli Ribeiro, afirma que a agência nunca teve qualquer relação com Jeffrey Epstein.
— Eu posso ter feito uma reunião, como faço muitas. Mas eu lembraria se alguém quisesse comprar a minha empresa. A Ford nunca esteve à venda e não tem nenhuma relação com Jeffrey Epstein. Fico chateado e enojado de ver a marca, que faz 80 anos, citada por quem tem interesses escusos. Eu nunca venderia a Ford.
Elkholy também menciona uma terceira agência, a L’Equipe, que, segundo ele, seria “menor e administrada por apenas uma mulher”. Ele diz que viu os números da empresa e que ela valeria cerca de US$ 1,5 milhão. “Ela não investiu muito em olheiros nos últimos anos, então é aí que vejo o maior potencial de crescimento”, diz a mensagem.
Por fim, Elkholy conta que a revista Harper’s Bazaar o “interessa muito” e que espera os resultados de uma auditoria para saber qual seria um preço justo pela participação no negócio.
O remetente do e-mail a Epstein, Ramsey Elkholy é músico e produtor, um dos fundadores do coletivo Monotronic, já identificado em outros documentos do caso divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA como olheiro e recrutador de modelos para Epstein. Uma reportagem do jornal americano The Wall Street Journal afirmou que os dois foram apresentados por uma namorada do investidor.
Nas novas mensagens divulgadas — um lote de arquivos sobre o caso Jeffrey Epstein com cerca de três milhões de páginas, 2 mil vídeos e 180 mil imagens —, o nome completo de Ramsey Elkholy aparece 2.267 vezes. Em várias, são citados encontros com mulheres. Em algumas, fotos de modelos de biquíni são enviadas a Epstein.
Há mensagens entre os dois em que mulheres brasileiras são citadas. Em 13 de junho de 2010, por exemplo, o associado enviou seis imagens ao empresário: “Esta é Juliana, uma garota brasileira de 21 anos que eu vou levar para NY amanhã, muito sexy, pele incrível… Você estará na cidade segunda, terça ou quarta?”. Em outra mensagem, esta de 8 de junho de 2014, Elkholy falou a Epstein: “Lesley me escreveu e sugeriu terça, às 18h, e vai tentar trazer uma garota brasileira”. O bilionário teve uma assistente executiva chamada Lesley Groff, mas na troca de e-mails não fica claro quem seria a Lesley mencionada.
Entenda o Caso Epstein
Jeffrey Epstein foi um gestor de fortunas americano que construiu, ao longo de décadas, uma rede de influência entre círculos políticos e figuras de destaque do mundo empresarial, acadêmico e cultural. A partir dos anos 2000, porém, seu nome passou a ser associado a acusações graves de abuso e exploração sexual de menores. Entre 2008 e 2009, Epstein chegou a ficar 13 meses preso, mas firmou um acordo judicial alvo de muitas críticas, que lhe permitiu cumprir pena reduzida e lhe garantiu imunidade a novas acusações federais por anos.
O caso voltou ao centro do debate público em 2019, quando Epstein foi novamente preso, desta vez sob acusações federais de tráfico sexual. Mas não houve tempo para o julgamento. Em 10 de agosto, pouco mais de um mês após ser detido, ele foi encontrado morto na prisão, em circunstâncias oficialmente tratadas como suicídio, mas que até hoje alimentam os mais diversos fóruns de teorias da conspiração.
Na última sexta-feira, 30 de janeiro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou público um imenso conjunto de arquivos sobre o caso: são cerca de três milhões de páginas com trocas de e-mails e documentos, além de milhares de vídeos e imagens. A divulgação vem trazendo novos detalhes sobre os vínculos de Epstein com figuras públicas como Donald Trump, Bill Clinton, Bill Gates, o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor e Noam Chomsky.
Por sua dimensão e gravidade, o caso tem sido considerado um dos escândalos mais sensíveis da história recente americana.








