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O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou neste sábado (14) que, se suas instalações de energia forem atacadas na guerra entre Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica, o país atacará as instalações de empresas americanas na região. A declaração, divulgada pela televisão estatal, foi feita após ataques dos EUA à infraestrutura militar na ilha de Kharg, importante centro de exportação de petróleo bruto do Irã.
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— Se instalações iranianas forem alvejadas, nossas forças alvejarão instalações de empresas americanas na região, ou empresas nas quais os EUA detêm ações”, alertou ele, prometendo que Teerã “agirá com cautela para garantir que áreas densamente povoadas não sejam alvejadas — afirmou Araghchi.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na noite de sexta-feira que Washington realizou ataques contra “todos os alvos militares” na ilha de Kharg. Em um post nas redes sociais, o republicano disse que a infraestrutura petrolífera teria sido preservada, mas ameaçou que algo que poderia mudar “caso os iranianos optem pelo bloqueio do Estreito de Ormuz”, principal rota marítima para o transporte de navios petroleiros.
Mais cedo, Teerã já havia alertados que portos, docas e instalações militares ligadas aos Estados Unidos nos Emirados Árabes Unidos tornaram-se “alvos legítimos”. A declaração foi foi acompanhada por novos episódios de agressões pontuais a diversos países do Golfo, além de relatos sobre um incêndio no importante porto de Fujairah, localizado a 120km de Dubai, uma das maiores instalações de armazenamento de petróleo do Oriente Médio.
Alvo histórico
Construída na década de 1960 pela petroleira americana Amoco, Kharg tornou-se o principal terminal de escoamento da produção do país graças ao desenho geográfico da costa iraniana: grande parte do litoral é rasa demais para receber superpetroleiros, o que transformou a ilha em um dos poucos pontos capazes de acomodar navios de grande porte. Essa centralização, porém, também transforma Kharg em um ponto de extrema vulnerabilidade em caso de conflito.
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Isso ficou evidente durante a Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, quando a ilha foi repetidamente bombardeada por forças de Saddam Hussein em uma tentativa de sufocar as exportações de petróleo persa. Apesar dos danos, Teerã conseguiu manter parte das operações ao longo do conflito, improvisando sistemas de carregamento no mar e reparando rapidamente a infraestrutura.
Há muito tempo, Washington trata Kharg como um alvo sensível, que também foi cuidadosamente evitado durante uma guerra que durou 12 dias entre Israel e Irã no ano passado. Embora um ataque ao terminal possa atingir diretamente as receitas do regime iraniano, o cálculo estratégico de uma ofensiva envolve riscos amplos, para além da possibilidade de disparada do preço do petróleo e de uma escalada militar sem precedentes. Destruir ou incapacitar a principal rota de exportação do país poderia também enfraquecer qualquer futuro governo.
Autoridades americanas indicam que o petróleo iraniano continua no centro do cálculo estratégico dos EUA. Funcionários do governo Trump disseram ao Financial Times que a estratégia de longo prazo poderia envolver garantir que as vastas reservas do país estejam sob controle de um governo mais alinhado ao Ocidente — um cenário que também ajuda a explicar a cautela em relação a ataques que possam destruir permanentemente a infraestrutura de exportação.
Há também um outro ponto: manter as operações do terminal à salvo da guerra passa ainda por uma leitura diplomática de evitar rusgas diretas com a China, principal compradora do petróleo iraniano. Interromper abruptamente esse fluxo poderia pressionar ainda mais os preços globais do produto e, ao mesmo tempo, tensionar as relações de Washington e seus aliados com Pequim
Até agora, a campanha militar contra o Irã tem sido dividida geograficamente entre os aliados. Os ataques israelenses têm se concentrado no oeste e no centro do país, mirando instalações militares e energéticas, enquanto forças dos EUA ficaram responsáveis pelo flanco sul da república islâmica e pelas águas territoriais do Golfo Pérsico, que inclui a Ilha de Kharg.
No último domingo, Israel atingiu os principais depósitos de combustível em Teerã, provocando grandes incêndios em tanques de gasolina e cobrindo a capital com uma densa cortina de fumaça. Kharg, no entanto, não foi alvo dos bombardeios, apesar de políticos israelenses defenderem ataques diretos à infraestrutura energética do Irã.

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Sob as arquibancadas de um estádio na Cisjordânia, uma dezena de homens da Faixa de Gaza vive de modo improvisado em um carcomido vestiário, impedidos de voltar para casa. É mais uma sequela da guerra que eclodiu em outubro de 2023 entre Israel e o Hamas.
Entre os exilados está Sameer Abu Salah, de 54 anos. Poucos dias antes dos ataques do Hamas, em outubro de 2023, que desencadearam o conflito, com a morte de mais de 1.200 pessoas, em sua maioria israelenses, ele atravessou a fronteira para Israel com o objetivo de trabalhar como uma espécie de faz-tudo em Tel Aviv. Em Israel, os salários, conta, são muito superiores aos de sua cidade de origem, Khan Yunis, em Gaza. Com o conflito em curso, teve de se deslocar para Nablus, no norte da Cisjordânia ocupada, onde agora se encontra em uma espécie de limbo. Mais de 72 mil palestinos foram mortos na Faixa de Gaza desde então e todos os entrevistados para esta reportagem contaram que perderam suas casas em ataques aéreos israelenses.
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— Entrei em Israel quatro dias antes da guerra — disse o homem, do pequeno espaço que montou debaixo das arquibancadas do estádio municipal de Nablus. — Era um sujeito respeitado e honrado, e aí o conflito começou. Cá estou.
Abu Salah sobrevive agora recolhendo e revendendo recicláveis. Ele conta que envia o pouco dinheiro que ganha à família. E que perdeu dois filhos desde então em ataques aéreos israelenses.
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— Moro numa barraca. Fomos jogados na rua, como cachorros — acrescentou.
Abu Salah, que se diz “obcecado por limpeza”, fez o que pôde com o pouco que tinha: improvisou uma cômoda com caixas de papelão e decorou as paredes com bandeiras palestinas e um retrato do líder nacional Yasser Arafat (1919-2004), que encontrou em suas varreduras pelas ruas de Nablus.
Sameer Abu Salah, de 54 anos, arruma sapatos em sua barraca em um acampamento no Estádio de Futebol de Nablus
ZAIN JAAFAR / AFP
Em março, o Ministério do Trabalho da Autoridade Palestina informou ter prestado assistência financeira a 4.605 palestinos do enclave, retidos na Cisjordânia. Embora sair dos limites da cidade seja tolerado, os homens que vivem sob as arquibancadas em Nablus temem fazê-lo, citando amigos que foram detidos em postos de controle do Exército israelense e enviados sem nada de volta a Gaza.
Sameer Abu Salah coloca sapatos em um varal para secar ao sol depois de lavá-los, em seu acampamento
ZAIN JAAFAR / AFP
‘Na prisão’
— Estamos numa [espécie de] prisão — resumiu Sameh, que chegou a Nablus 10 dias antes do início da guerra para buscar tratamento médico para o filho, indisponível em Gaza.
O filho voltou, mas Sameh, que preferiu não revelar o sobrenome por temer represálias, permaneceu na Cisjordânia para sustentar a família. No vestiário, pendurou lençóis em cordas para dividir seu espaço pessoal, de uma maneira que o faz lembrar ods grandes acampamentos de tendas de Gaza, “para assim viver exatamente como minha família”.
Já o empresário do ramo de alimentação Nahed al-Hilou, de 43 anos, que agora vive em Ramallah, capital administrativa da Cisjordânia e a 60km de Nablus, teme deixar a cidade, para onde foi realocado. Dois dias entes dos ataques de 7 de outubro de 2023 ele atravessou a fronteira norte, em direção a Tel Aviv, após obter uma licença comercial para buscar mercadorias por ele compradas, que iria transportar para o enclave e usar em seu restaurante no bairro nobre de Rimal, na Cidade de Gaza. Nele trabalhavam 30 funcionários.
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Recomeçou a vida em Ramallah, onde abriu um bem-sucedido restaurante de falafel no centro da cidade. O que ganha, conta, dá para sobreviver e alimentar sua família, que segue em Gaza.
— Recorri ao que sei: ao meu trabalho, à minha profissão, a algo que amo.
Atualmente, ele emprega nove pessoas, todas oriundas do enclave, e cozinha ao estilo de Gaza: mais apimentado. Como todos os que deixaram a terra natal, preocupa-se constantemente com a família imediata. E conta que a sorte, apesaar de tudo, o ajudou — todos os seus familiares sobreviveram à guerra.
Sob as arquibancadas de concreto do estádio, uma dúzia de homens vive em um antigo vestiário
ZAIN JAAFAR / AFP
— Mas passamos 20 dias sem saber nada deles — contou.
Questionado sobre a possibilidade de retornar, faz um gesto de tempo que já acabou e não volta mais:
— Claro que [além da famé mais querida por mim do que aqui, mas lá não sobrou lar, não sobrou mais nada
Sem empregos, preços nas alturas
A ONU informa que 81% das estruturas de Gaza foram destruídas durante a guerra, assim como sua economia. O desemprego é estimado em 80% e os preços dos alimentos dispararam, em parte devido às restrições israelenses à entrada de caminhões com auxílio humanitário .
Israel ainda controla cerca de metade de Gaza, e ataques israelenses mataram pelo menos 846 pessoas desde o início do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, em outubro de 2025
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Shahdeh Zaarb, de 45 anos, tem mais sorte do que os outros exilados oriundos de Gaza: possui residência na Cisjordânia, onde trabalha regularmente há 20 anos. Natural de Beit Lahia, no norte do enclave, localidade célebre, antes da guerra, por seus campos de morango, Zaarb agora tem uma fazenda em Qalqilya. Mas, apesar de ter mais conforto em relação à maioria dos que vieram da Faixa de Gaza, não vê os filhos, conta, desde 2021:
— Meus filhos estão lá, num lugar, e eu estou aqui, em outro, e não posso trazê-los para cá porque agora todas as passagens estão fechadas — lamentou Zaarb.
Quando Melody Montemayor era vítima de tráfico humano, seu cafetão a marcou: seu nome e um cifrão tatuados na nuca, seu lema “nunca sob pressão” gravado em seu pulso e “propriedade de” tatuado na lateral de sua barriga. Quase 15 anos depois, após descobrir uma lista de programas gratuitos de remoção de tatuagem, ela encontrou um dermatologista disposto a ajudá-la. Ao longo de 11 consultas, viu suas tatuagens desaparecerem lentamente e, com elas, a vergonha que carregava há tanto tempo. Foi “uma sensação de redenção”, disse Montemayor, como se estivesse voltando a ser ela mesma. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
Em outubro de 2022, oito meses após o início da invasão russa, um tenente ucraniano, capturado e preso no país vizinho, morreu no cárcere após ser “surrado sem piedade” e privado de atendimento médico adequado. A denúncia é de Alexei, à época agente dos serviços penitenciários russos. Seu nome real foi preservado por segurança. Os carcereiros, diz, reclamavam que o tenente falava demais. Deram-lhe o apelido de “tagarela”, pois “discutia sem parar”. Morreu por espancamento.
— Ele tinha lesões extensas, hematomas nas nádegas e na parte posterior das coxas que infeccionaram — descreve Alexei.
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O russo, que trabalhava na unidade médica da prisão, acrescenta ser possível que o corpo do ucraniano, tomado pela gangrena, tenha sido enterrado sem qualquer identificação.
Uma dezena de testemunhos colhidos pela AFP dão conta de que milhares de soldados e civis ucranianos foram ou estão sendo submetidos a violência física e psicológica em centros de detenção na Rússia e na Ucrânia ocupada. Eles se juntam a relatórios de diversas ONGs e da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE).
Yaroslav Rumyantsev, ex-soldado ucraniano, mostra uma foto dele tirada quando estava sob poder dos russos
Genya SAVILOV / AFP
De acordo com autoridades ucranianas citadas em um relatório da OSCE, 89% dos capturados depois libertados afirmam ter sofrido maus-tratos em cativeiro, incluindo violências sexuais em 42% dos casos.
Três ex-funcionários da administração penitenciária russa, que desertaram e fugiram do país, confirmaram essas violências. Aos captores, “tudo era permitido”, afirmam. Por razões de segurança, suas identidades também não são reveladas na reportagem.
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A maioria dos prisioneiros ficou sem qualquer comunicação com o mundo exterior, em um paralelo ao que ocorria nos Gulags, os campos de trabalho forçado da União Soviética, ativos principalmente entre os anos 1930 e 1950. Eles funcionavam para Moscou como repressão política e exploração econômica, com prisioneiros submetidos a condições extremas para realizar obras de infraestrutura no pa.
— Eles conseguem fazer você acreditar que ninguém está esperando por você aqui fora — conta Iaroslav Rumiantsev, de 30 anos, um ex-soldado ucraniano que sobreviveu a três anos e três meses de cativeiro.
Consultada pela AFP, a administração penitenciária russa não respondeu. No ano passado, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que as narrtativas são falsas e que Moscou trata seus prisioneiros “com humanidade”.
Permissão sem restrições
O russo Vladimir Osechkin, de 44 anos, vive na França sob proteção policial. Ele afirma que os detidos ucranianos padecem com os abusos do poderoso Serviço de Segurança Nacional (FSB, na sigla em russo) e, em nível mais local, pela administração penitenciária, com total cumplicidade dos órgãos judiciais.
Os abusos e agressões durante as detenções denunciados incialmente a partir de 2014, com a guerra entre Kiev e os separatistas ucranianos de origem russa apoiados por Moscou, multiplicaram-se com a invasão russa à Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022. Nos últimos quatro anos, a Justiça ucraniana confirmou a morte de pelo menos 143 prisioneiros dentro das celas russas, entre eles seis civis.
Prisioneiro de guerra ucraniano é libertado pelas forças russas após troca de combatentes capturados
Roman PILIPEY / AFP
Em fevereiro deste ano, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que Kiev estimava em 7 mil o número de prisioneiros de guerra em mãos russas. Além deles, há exatos 15.378 civis “detidos ilegalmente” por Moscou, segundo dados oficiais do Departamento Ucraniano de Direitos Humanos enviados em março à AFP.
Sergei era funcionário das Forças Especiais da Administração Penitenciária russa. Já no primeiro dia da invasão russa, seu chefe imediato propôs à sua unidade realizar “missões em prisões nas aldeias e cidades ocupadas onde havia detidos ucranianos”.
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— Antes mesmo da primeira missão, ele reuniu o pessoal e explicou que as normas em vigor não se aplicariam mais aos prisioneiros de guerra. Em outras palavras, deu permissão para se usar força física sem restrições. E frisou que ninguém seria responsabilizado — contou Sergei. — Na prática, nos disse: ‘Trabalhem firme e não temam nada’.
Contrário à invasão da Ucrânia, Sergei conta que se recusou a participar dos atos violentos contra os detidos. Pediu demissão em 2022 e conseguiu deixar a Rússia.
— Não teria conseguido viver com esse peso. E nem olhar nos olhos dos meus filhos — acrescentou.
Muitos de seus colegas, no entanto, conta, ficavam “contentes” de poder usar “toda a violência que quisessem” e iam às missões “com alegria”.
De acorco com a Justiça ucraniana, a presença de prisioneiros oriundos do país foi constatada em pelo menos 201 centros de detenção em 49 regiões diferentes da Rússia, incluindo o Extremo Oriente do país [que inclui a Sibéria], além de 116 locais de encarceramento na Ucrânia ocupada.
Baratas e ratos crus
Rumiantsev, militar de infantaria de Marinha ucraniana, foi feito prisioneiro em Mariupol em maio de 2022, após se render, juntamente com as tropas de Kiev entrincheiradas na usina de Azovstal, em Mariupol. Passou por quatro prisões russas antes de finalmente ser libertado em 2025.
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Em julho de 2022, quando estava detido em Olenivka, na região do Donetsk, uma explosão, conta, causou a morte de pelo menos 50 prisioneiros ucranianos e deixou dezenas de feridos. Em seguida, ele foi transferido para o centro de detenção nº 2 de Taganrog, no sudoeste da Rússia, que, conta, é um dos piores centros de tortura do país.
Militares prestam homenagem a prisioneiro de guerra ucraniano que morreu sob custódia russa
Dimitar DILKOFF / AFP
À sua chegada, conta que atravessou correndo, junto com cerca de 250 prisioneiros, um corredor formado por guardas que os espancavam. Era o “comitê de boas-vindas”, descrito também por outros ucranianos. A prática foi utilizada anteriormente nos “campos de filtragem” na Chechênia durante a última guerra contra a Rna república do Cáucaso.
As agressões continuaram. Rumiantsev descreve detidos reduzidos “a um estado de animais aterrorizados”.
Para resistir, ele e outros prisioneiros se agarravam à sua identidade e ao passado, repetindo a si mesmos: “Sou um ser humano e tenho valor”.
A comida também é usada como instrumento de punição. Rumiantsev afirma que, em certos momentos, tinha apenas “dois minutos” para se alimentar, como um animal, sob ameaça de espancamento.
Em setembro do ano passado, o Escritório de Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR) da OSCE publicou um relatório a partir de testemunhos de cerca de 200 ex-prisioneiros ucranianos. O documento revela métodos de tortura que incluem choques elétricos — inclusive nos genitais —, ataques com cães, estupros, simulacros de execução — incluindo falsos enforcamentos —, exercícios físicos extremos e a obrigação de permanecerem em posições que causam dor física.
Prisioneiros de guerra ucranianos chegam a base após troca com a Rússia
Genya SAVILOV / AFP
Em uma investigação publicada também no fim do ano passado, um ex-prisioneiro declarou à Human Rights Watch ter se alimentado de baratas de sua cela para derrotar a fome. Outros contam terem comido ratos crus.
Também há regras de submissão, que incluem a proibição de olhar os guardas nos olhos. Rumiantsev é assombrado por uma punição específica: permanecer de pé durante 16 horas seguidas sem permissão para ir ao banheiro, ao ponto em que alguns detidos urinavam em si mesmos. Ele também menciona “experimentos”, como quando os guardas os fizeram dar as mãos e aplicaram choques elétricos para observar “quantos presos sentiam dor”.
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O ex-agente penitenciário russo Vitali conta que presos comuns também sofriam violência, utilizadas para obter falsas confissões em investigações judiciais e coletar informações militares ou recrutar colaboradores sob coerção.
Marcado na carne
Em 2023, Alexei era membro de uma unidade médica em uma prisão russa. Na época, relatou sua vida cotidiana ao diretor da ONG Gulagu.net, Osechkin, durante conversas de várias horas às quais a AFP teve acesso.
Alexei explica como, em sua prisão, os prisioneiros ucranianos eram espancados com tubos de aquecimento de polipropileno, que “não se quebram”. Após essas surras, os detidos recebiam cuidados superficiais, mas, a cada visita à enfermaria, eram obrigados a repetir: “Obrigado à Federação Russa por esses cuidados.” Em certas ocasiões, segundo ele, as equipes médicas participavam diretamente das agressões.
Segundo investigação da Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, financiada pelo governo americano, médicos russos gravaram as palavras “Glória à Rússia” no abdômen de um prisioneiro ucraniano, Andrii Pereverziev, durante cirurgia realizada na prisão. Após sua libertação, no ano passado, ele teve de se submeter a outra operação para remover o lema marcado em sua carne.
Para o ex-soldado Rumiantsev, “a lógica” por trás dos abusos é submeter e traumatizar os militares para que não voltem a se opor a Moscou. Assim como outros detentos, ele era obrigado a cantar músicas soviéticas na prisão. Se não cantasse “alto ou afinado o suficiente”, recebia um “castigo”.
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Em 2024, ele foi transferido para uma colônia penitenciária “menos severa”, na região russa de Udmurtia, na parte européia do país. Os guardas continuavam a espancá-lo, mas com menos violência — de qualquer forma, ele já havia se “acostumado” a ter “o corpo destroçado entre gritos”.
Ele também conta ter encontrado carcereiros mais humanos, que demonstravam “pesar” e afirmavam que, um dia, “a Rússia pedirá desculpas [a vocês]”.
Invisíveis
Segundo Osechkin, um grande número de prisioneiros ucranianos se torna “invisíveis”. O ativista documentou casos em que seus nomes foram alterados para impedir a identificação, especialmente enquanto mantidos em isolamento total.
Alexei, o ex-membro de unidade médica penitenciária russa, observou que uma prisão inteira havia sido “esvaziada” e destinada exclusivamente a ucranianos submetidos a agressões e abusos graves, sem possibilidade de testemunhas.
Também foram adotadas práticas para ocultar a identidade dos autores das torturas, que na maioria das vezes atuavam encapuçados. Sergei, o ex-membro das forças especiais penitenciárias russas, explica que durante o “trabalho” com os prisioneiros de guerra ucranianos, os integrantes de sua unidade não usavam câmeras corporais nem números de identificação nos uniformes.
— Não havia relatório sobre o uso de força física. Agiam como queriam, dando vazão às suas inclinações sádicas — afirmou Sergei.
O filho de Natalia Kravtsova, Artem, combatente da brigada nacionalista Azov, foi capturado em Mariupol em maio de 2022. Um ano depois, essa mulher de 52 anos recebeu a confirmação da Cruz Vermelha de que ele estava encarcerado, sem mais informações. Desde então, não soube mais nada. Sequer tem certeza de que Artem, de 33 anos, esteja vivo. A cada anúncio de troca de prisioneiros, Kravtsova sente uma esperança que logo se frustra.
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— Embora por fora eu pareça tranquila, por dentro estou em chamas — desabafa.
Quando se consegue localizar um detido, às vezes é possível utilizar plataformas on-line da administração penitenciária russa para escrever a eles — o que, porém, exige um número de telefone russo. Uma ativista russa, que falou com a AFP sob condição de anonimato, explica que usa seu próprio número para permitir que cerca de dez ucranianos escrevam a seus familiares.
Natalia Kravtsova, mãe de um soldado ucraniano capturado pelos russos, olha as fotos de sue filhop em um celular
Tetiana DZHAFAROVA / AFP
O ex-soldado Rumiantsev recebeu uma única carta pouco antes do fim de seu cativeiro. Diz que foi o único momento em que chorou na prisão.
— Vi aquelas primeiras palavras dirigidas a mim de forma tão calorosa. Só minha família me fala assim. Meus olhos se encheram de lágrima e eu tremi. Então meu amigo pôs a mão no meu ombro e disse: “Isso significa que você ainda é um ser humano” — afirmou.
Aksinia Bobruiko, ucraniana de 39 anos refugiada na Alemanha, luta para obter notícias de sua mãe, Olga Baranevska. Em 15 de maio de 2024, Baranevska, de 62 anos, civil, vivia em Melitopol, na Ucrânia ocupada, quando desapareceu. Dois meses depois, a filha soube por amigos da região que ela estava presa.
Bobruiko explicou à AFP que sua mãe era professora antes da invasão de 2022 e que se recusou a colaborar com as novas autoridades russas “por razões ideológicas”. Em novembro de 2024, Olga, que sofre graves problemas de saúde, foi condenada a seis anos de prisão por suposta posse de “explosivos”. Graças a um contato na zona ocupada, Bobruiko conseguiu receber provas de vida da mãe, embora sem informações detalhadas.
Para conter esse terrível “sistema de tortura e submissão”, o ativista Osechkin demanda processos judiciais internacionais legítimos contra os responsáveis. E a revelação de suas identidades.
— Vamos encontrá-los. E todos serão responsabilizados — crê Sergei.
O prédio neoclássico da estação de trem conserva símbolos do passado soviético: a tocha, as duas bandeiras e a estrela, um enorme contraste com os trens europeus. Quando suas portas abrem, o vento gelado do Báltico entra, junto com o anúncio, em língua russa: “Estação Narva”. Estamos na cidade onde a Otan, a União Europeia (UE) e a Estônia são separadas da Rússia apenas por um rio, com cerca de 100 metros entre as margens. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
As autoridades iranianas libertaram sob fiança, neste domingo, a laureada com o Prêmio Nobel da Paz de 2023, Narges Mohammadi, que foi transferida para a capital Teerã para receber tratamento médico, anunciou no domingo sua fundação.
Após dez dias de hospitalização em Zanyán, no Norte do Irã, onde cumpria sua condenação, Narges “se beneficiou de uma suspensão de sua pena em troca de uma fiança considerável”, indica a instituição em um comunicado.
A ativista foi transferida de ambulância para um hospital de Teerã “para ser atendida por sua própria equipe médica”, acrescenta a nota. Ainda assim, a fundação defende que “uma suspensão não é suficiente” e que a ganhadora do Nobel “requer cuidados permanentes e especializados”.
“Devemos garantir que ela nunca retorne à prisão para cumprir os 18 anos restantes de sua sentença. Agora é o momento de exigir sua liberdade incondicional e o arquivamento de todas as acusações. Nenhum ativista de direitos humanos e das mulheres deveria jamais ser preso por seu trabalho pacífico”, afirma.
A nota não dá detalhes sobre o estado de saúde de Narges, mas diz que a ativista está hospitalizada “após uma falha de saúde catastrófica” e que ela não deveria “ser devolvida às condições que destruíram sua saúde”.
Em publicação no X, seu advogado, Mostafa Nili, disse que a ordem que suspendeu a pena de Narges “foi emitida de acordo com a avaliação da Organização de Medicina Legal de que ela necessita de cuidados especializados fora da prisão, sob a supervisão de sua própria equipe médica, devido a múltiplas doenças”.
Narges Mohammadi é uma das principais vozes na defesa dos direitos humanos no Irã. Engenheira formada em física, ela iniciou sua trajetória como ativista ainda na universidade, nos anos 1990, quando já se posicionava contra restrições às liberdades civis no país. Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como uma das figuras mais influentes do movimento de direitos humanos iraniano, com atuação destacada em denúncias de abusos do sistema judicial e penitenciário.
Narges ganhou projeção internacional principalmente por seu trabalho contra a pena de morte e pela defesa dos direitos das mulheres no Irã. Ela integrou o Centro de Defensores dos Direitos Humanos, organização fundada pela também Nobel da Paz Shirin Ebadi, e participou de campanhas que denunciaram execuções e prisões arbitrárias.
Nos últimos anos, sua atuação passou a dialogar diretamente com movimentos como o “Mulher, Vida, Liberdade”, que ganhou força após a morte de Mahsa Amini, em 2022. Mesmo presa, Narges continuou a divulgar cartas e relatos sobre abusos cometidos dentro das prisões, incluindo denúncias de violência física e psicológica contra detentas.
A ativista foi presa pela primeira vez no início dos anos 2000 e, desde então, passou por sucessivos períodos de detenção. As acusações mais recorrentes envolvem “propaganda contra o Estado” e “ameaça à segurança nacional”, termos amplamente utilizados pelo regime iraniano para enquadrar opositores.
Em fevereiro deste ano, ela foi condenada a mais de sete anos de prisão, somando-se a outras sentenças anteriores que elevam seu tempo total de pena. Em diferentes momentos, Narges também foi submetida a isolamento e transferências entre unidades prisionais, o que, segundo organizações internacionais, agravou seu estado de saúde.
Apesar das detenções, sua atuação continuou a repercutir fora do país, mobilizando entidades de direitos humanos e governos estrangeiros. A concessão do Nobel da Paz, em 2023, ampliou essa pressão e consolidou seu nome como símbolo global da resistência ao regime iraniano.
A condição de saúde de Narges é motivo de preocupação há anos. Ela sofre de problemas cardíacos e pulmonares e já passou por procedimentos como angioplastias. Familiares e advogados afirmam que, durante períodos de prisão, ela teve acesso limitado a cuidados médicos adequados.
Segundo a Fundação Narges Mohammadi, sua transferência recente para um hospital ocorreu após uma “deterioração catastrófica” do quadro clínico, com episódios de perda de consciência e crise cardíaca. Ainda assim, o tratamento estaria restrito a medidas emergenciais para estabilização, sem acesso a acompanhamento especializado.
Mesmo encarcerada, a ativista seguia como uma referência para movimentos de oposição ao regime iraniano. Sua trajetória reúne denúncias documentadas, mobilização internacional e um histórico de enfrentamento direto às autoridades.
A internação em estado crítico reacendeu a pressão de organizações e instituições internacionais para que o Irã permita seu tratamento adequado e reavalie sua prisão. Enquanto isso, seu caso permanece como um dos mais emblemáticos da repressão a ativistas no país.
O presidente dos EUA, Donald Trump, chamou de “inaceitável” a resposta iraniana a uma nova proposta dos EUA para encerrar a guerra lançada pelo republicano no final de fevereiro, e que hoje está em relativa pausa para dar espaço à diplomacia. Segundo relatos na imprensa do Irã, o governo em Teerã enfatizou a necessidade em pavimentar o fim do conflito e fez exigências sobre sanções e a liberação de dinheiro congelado no exterior, sem apresentar compromissos sobre o programa nuclear.
“Acabei de ler a resposta dos chamados ‘representantes’ do Irã. Não gostei — TOTALMENTE INACEITÁVEL!”, escreveu o republicano em sua rede social, o Truth Social.
Horas antes, o Paquistão, que atua como mediador, confirmou o recebimento da contraproposta iraniana, sem revelar seu teor. De acordo com a agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, o plano de Teerã põe ênfase no fim da guerra e em garantias para que ela não seja retomada, exige o fim das sanções e pede que os iranianos tenham algum papel na gestão do Estreito de Ormuz, hoje fechado por dois bloqueios — um do Irã, outro dos EUA. Em outro ponto, afirma a Tasnim, citando representantes do governo, os negociadores cobram a liberação de ativos financeiros congelados no exterior, que somariam cerca de US$ 100 bilhões.
Mas a proposta deixa claro que, neste momento, os iranianos não querem discutir o futuro do programa nuclear. De acordo com o portal Axios, um ponto crucial do plano americano era o congelamento por até 20 anos das atividades de enriquecimento no país, além de algum tipo de compromisso para que jamais fosse desenvolvida uma bomba atômica. Inicialmente, o Irã sugeriu um congelamento em torno de cinco anos, sem o desmantelamento das instalações existentes.
O caso de um lago na Tanzânia, chamado Natron, que transformaria animais em pedra, voltou a repercutir na internet e despertar a curiosidade dos internautas. O fenômeno ganhou notoriedade pela primeira vez ainda em 2013, quando um conjunto de imagens do fotógrafo Nick Brandt viralizou online.
As imagens mostram pássaros e morcegos aparentemente transformados em pedra no lago localizado na região Norte do país africano. Isso não é, no entanto, o que aconteceu no lago Natron.
A agência espacial americana (Nasa) explica que, na realidade, o lago fica numa região de intensa atividade vulcânica, por isso imagens de satélite mostram que suas águas costumam ter até mesmo uma coloração avermelhada. Isso faz com que a temperatura do lago seja extremamente alta, ultrapassando os 60ºC, inóspita para a maior parte das espécies.
Lago Natron.
Nasa
Além disso, o vulcanismo leva a uma composição química incomum no lago. “Vulcões, como Ol Doinyo Lengai (cerca de 20 quilômetros ao sul), produzem misturas desfocadas de carbonato de sódio e sais de carbonato de cálcio. A mistura se move através do solo através de um sistema de falhas e poços em mais de 20 fontes termais que, em última análise, esvaziam no lago”, explica a Nasa em comunicado.
O clima na região também é árido, fazendo com que o lago receba menos de 500 milímetros de chuva por ano. Isso faz com que a água do lago seja extremamente alcalina, o oposto de ácida, mas igualmente perigosa, com um pH que às vezes chega a 12. É por isso que, quando pássaros, morcegos ou qualquer outro animal cai na água, eles morrem.
“Encontrei inesperadamente essas criaturas — todo tipo de pássaros e morcegos — espalhadas pela margem”, escreveu Brandt em seu livro Across the Ravaged Land, no qual as fotos foram publicadas.
Os corpos dos animais acabam preservados pelos sais minerais presentes no lago após a morte. As imagens dos corpos, que foram editadas com um filtro preto e branco, foram suficientes para gerar a fama de Lago Medusa ao local, em referência à figura da mitologia grega que transformava suas vítimas em pedra.
“A guerra não acabou, porque ainda há material nuclear — urânio enriquecido — que precisa ser retirado do Irã. Ainda há instalações de enriquecimento que devem ser desmanteladas”, disse Netanyahu em entrevista que será exibida na noite deste domingo (10) no programa “60 Minutes”, da rede americana CBS.
“Entra-se e retira-se”, afirmou o líder israelense ao ser perguntado sobre como o urânio poderia ser removido.
Netanyahu afirmou que o presidente americano, Donald Trump, mantinha uma postura semelhante. “Não vou tratar de meios militares aqui, mas o que o presidente Trump me disse é: ‘Quero entrar lá’.”
Essa declaração contrasta com a postura pública de Trump. O republicano de 79 anos enfrenta crescente pressão interna para encerrar a guerra com o Irã e insiste em que o programa nuclear de Teerã já foi contido.
Em entrevista exibida neste domingo, Trump declarou que o Irã já está “militarmente derrotado” e insistiu em que o urânio poderia ser retirado “quando quisermos”.
“Vamos conseguir em algum momento, quando quisermos. Vamos mantê-lo sob vigilância”, disse à jornalista americana Sharyl Attkisson, que tem um programa no YouTube. “Está muito bem vigiado. Se alguém se aproximasse do local, saberíamos e os faríamos voar pelos ares.”
Ao ser consultado pela CBS sobre como as reservas de urânio do Irã poderiam ser extraídas, Netanyahu respondeu que preferiria um acordo. “Acho que é fisicamente possível. Esse não é o problema. Se um acordo for alcançado, entra-se e retira-se — por que não? Essa é a melhor maneira.”
Diante da insistência sobre se há opções militares para confiscar o urânio oculto, Netanyahu declarou: “Não vou falar sobre nossas possibilidades militares, nossos planos nem nada do gênero. Não vou estabelecer um cronograma, mas direi que se trata de uma missão de suma importância”, acrescentou.
Além da questão ainda não resolvida das reservas de urânio, o líder israelense apontou que outros objetivos da guerra ainda não foram cumpridos. “Ainda há grupos apoiados pelo Irã, assim como seus mísseis balísticos, que eles continuam querendo fabricar. Certamente reduzimos grande parte dessa capacidade, mas tudo isso ainda existe e há trabalho a fazer”, afirmou ao 60 Minutes.
Um sentimento de “não à guerra” tem ganhado força no Japão nos últimos meses, aparecendo em cartazes de alguns dos maiores protestos do país em pelo menos uma década, incluindo neste sábado. Os manifestantes se opõem à tentativa da primeira-ministra Sanae Takaichi de afastar a nação de sua identidade pacifista de décadas.
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Desde que assumiu o cargo em outubro, Takaichi flexibilizou restrições antigas à exportação de armas, posicionou mísseis de longo alcance no sudoeste do Japão e promoveu uma cooperação de defesa mais estreita com aliados — medidas que o governo afirma serem necessárias diante do aumento de conflitos globais.
Durante décadas, o Japão vem se afastando da postura antimilitarista consagrada em sua Constituição, adotada sob ocupação dos Aliados após a derrota na Segunda Guerra Mundial. No entanto, as ações de Takaichi, somadas ao aumento de seu poder após uma vitória expressiva em uma eleição antecipada em fevereiro, têm levantado preocupações sobre a erosão do pacifismo do pós-guerra no país.
Protesto em Tóquio contra a guerra
Philip FONG / AFP
Seus opositores têm realizado manifestações em todas as províncias do país, onde as multidões têm crescido a cada semana. Ainda assim, seus apoiadores argumentam que o Japão está em uma região difícil — com uma China cada vez mais assertiva, uma Coreia do Norte imprevisível e uma Rússia em guerra — enquanto a confiabilidade dos Estados Unidos, principal aliado do país, é cada vez mais questionada.
Aqui está o que você precisa saber sobre os protestos contra a guerra no Japão:
Quando os protestos começaram?
A atual onda de manifestações começou a ganhar força em fevereiro, quando a vitória eleitoral de Sanae Takaichi lhe deu um amplo mandato para avançar sua agenda conservadora, incluindo o fortalecimento do poder militar do Japão. Naquele mês, milhares de pessoas se reuniram em frente ao Parlamento japonês para defender o pacifismo.
Analistas afirmaram que o Partido Liberal Democrático (LDP), no poder, tinha a plataforma mais forte em décadas para avançar em um objetivo antigo: alterar o Artigo 9 da Constituição, que renuncia à guerra e tem sido interpretado como uma proibição de o Japão manter forças armadas para fins que não sejam de autodefesa. O Japão de fato possui um exército, mas ele funciona dentro das limitações do Artigo 9.
As multidões aumentaram em abril, quando o governo eliminou restrições antigas à exportação de armas letais, argumentando que isso fortaleceria a segurança do Japão e de seus aliados. Mais de 50 mil manifestantes contra a guerra se reuniram em mais de 200 cidades e vilarejos naquele mês, segundo organizadores.
Os protestos cresceram ainda mais para mais de 90 mil participantes no último fim de semana, durante um feriado público que marca o aniversário da Constituição. Em Tóquio, mais de 50 mil pessoas se reuniram em um parque para expressar oposição à política militar da primeira-ministra Sanae Takaichi, segundo os organizadores.
O que os manifestantes querem?
Os manifestantes afirmam que desejam que o Japão mantenha sua identidade pacifista e sua Constituição. Eles também pedem a renúncia da primeira-ministra Sanae Takaichi.
Na visão deles, qualquer revisão da Constituição pode levar à remilitarização do Japão, prejudicando a reputação que o país construiu após a Segunda Guerra Mundial como uma potência econômica não ameaçadora e respeitadora de regras. Eles também expressam preocupação de que Takaichi possa envolver o país em guerras, aumentar tensões com a China e contribuir para uma tendência global de militarização de longo prazo.
A guerra no Oriente Médio também estaria pressionando os preços. Os manifestantes dizem que esse choque se somou ao estresse econômico causado pela forte queda do turismo chinês no Japão, uma reação à posição de Takaichi de que o Japão poderia ajudar a defender Taiwan caso ela fosse invadida pela China.
O que torna esses protestos diferentes?
Grandes manifestações são raras no Japão, devido à aversão cultural do país a interrupções públicas. Por isso, o aumento recente do ativismo — marcado pelo lema “a Constituição da paz é o tesouro do Japão” — chama atenção.
Outro ponto marcante é a diversidade geracional dos participantes. Não são apenas pessoas mais velhas, com memórias da Segunda Guerra Mundial e dos bombardeios atômicos, mas também jovens na casa dos 20 e 30 anos. Muitos deles dizem estar motivados pelas guerras em andamento no mundo e pela sensação de que têm muito a perder com o rumo futuro do país.
Em alguns atos, os organizadores incentivaram o uso de bastões de luz, inspirados em protestos recentes na Coreia do Sul. Essas manifestações também atraíram pessoas que estão protestando pela primeira vez, especialmente jovens que se conectaram ao movimento por meio das redes sociais.
Qual foi o impacto dos protestos?
O impacto político até agora tem sido limitado. Sanae Takaichi continua popular, e as manifestações aparentemente não prejudicaram seus índices de aprovação.
No entanto, os protestos expuseram divisões dentro da sociedade japonesa. Pesquisas recentes mostram tanto um apoio significativo a um exército mais forte quanto uma resistência igualmente relevante a essa ideia.
Além disso, o poder de Takaichi também enfrenta limitações institucionais. Qualquer mudança na Constituição exigiria maioria de dois terços em ambas as casas do Parlamento e, depois, maioria simples em um referendo nacional. O partido dela não possui cadeiras suficientes na câmara alta e dependeria de aliados para levar uma eventual revisão até a etapa do referendo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em entrevista divulgada neste domingo (10) à jornalista Sharyl Attkisson, gravada na semana passada, que levaria apenas duas semanas para atacar “todos os alvos restantes” no Irã. À americana, que tem um canal independente no YouTube, assegurou que a República Islâmica está “militarmente derrotada”.
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Na entrevista, Trump também classifica a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) como um “tigre de papel” e acusa os aliados de não terem “ajudado Washington na campanha militar contra Teerã”, iniciada com Israel em fevereiro.
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“O Irã está militarmente derrotado. Em suas próprias mentes, talvez não o saibam (ainda). Mas acho que sabem sim”, disse Trump na entrevista.
O republicano sugeriu que as forças armadas americanas poderiam “intervir por mais duas semanas” para atacar os alvos restantes:
“(Ainda) há certos alvos que queríamos atingir — e provavelmente já atacamos 70% do total —, mas há esses outros que, hipoteticamente, ainda poderíamos atacar. Mas mesmo que não fizermos isso, seriam apenas os retoques finais”.
A seis meses de eleições que definirão o controle do Congresso nos EUA e a metade final de sua passagem pela Casa Branca, com a gasolina e o custo de vida em alta e a popularidade em baixa, Trump busca encontrar uma narrativa de vitória. A entrevista veio à tona imediatamente após o Irã anunciar, neste domingo, que respondeu à mais recente proposta americana para encerrar o conflito.

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