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EUA e Irã estão reunidos em Omã nesta sexta-feira, numa tentativa de evitar um novo conflito. O escopo das conversas não está de todo claro, mas os programas nuclear e de mísseis balísticos provavelmente estão entre os principais focos. Especialistas que acompanham o desenvolvimento dos dois programas corroboraram a análise do Times, que examinou imagens de cerca de 20 locais atingidos por Israel ou Washington durante o conflito de 12 dias em junho passado. O Times encontrou obras de construção em mais da metade deles.
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Os especialistas alertaram que a extensão total dos reparos permanece incerta, visto que as imagens de satélite oferecem apenas uma vislumbre aéreo das obras. Apesar disso, elas indicam que alguns foram feitos logo após os ataques a diversas instalações de mísseis, sugerindo que o Irã priorizou a produção dos artefatos bélicos no curto prazo.
“Ameaçar Israel e as bases e aliados dos EUA na região com ataques de mísseis é uma das poucas opções do Irã para dissuadir novos ataques às suas instalações nucleares”, escreveu John P. Caves III, consultor do Centro de Estudos de Armas de Destruição em Massa da Universidade de Defesa Nacional em Washington, em um e-mail.
Em contrapartida, especialistas afirmam que as imagens das principais instalações nucleares danificadas do Irã mostram apenas reparos parciais e esforços de fortificação, que ganharam ritmo apenas nos últimos meses. Autoridades ocidentais e israelenses encontraram poucos indícios de que o Irã tenha feito progressos significativos na reconstrução de suas capacidades de enriquecer combustível nuclear e fabricar uma ogiva nuclear.
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Atta Kenare/AFP
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Reabastecendo o arsenal de mísseis
As imagens de satélite mostram que trabalhos de reparo foram realizados nos últimos meses em mais de dez instalações ligadas ao programa de mísseis, incluindo locais de produção. Avaliações de inteligência constataram que o Irã reconstruiu amplamente o programa desde os ataques de junho.
— A ênfase dada à reconstrução do programa de mísseis contrasta com o programa nuclear — disse Sam Lair, pesquisador associado do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação em Monterey, Califórnia.
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Atta Kenare / AFP
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Lair afirmou que a instalação de testes de mísseis de Shahroud parece ter sido reconstruída com particular rapidez e que acredita-se que tenha voltado a operar poucos meses após os ataques. Quando nevou no mês passado, ele observou que as estradas da instalação foram rapidamente limpas e a neve derreteu dos telhados, sugerindo que o local está ativo.
— Shahroud é a maior e mais nova fábrica de produção de mísseis de propelente sólido do Irã — disse o especialista. — Portanto, faz sentido que tenha recebido toda a atenção.
Reconstrução nuclear limitada
A Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca, publicada em novembro, afirma que os ataques “degradaram significativamente o programa nuclear do Irã”. Especialistas dizem que, apesar de alguns trabalhos visíveis, as três principais instalações iranianas — Isfahan, Natanz e Fordo — parecem inoperantes.
Desde dezembro, Teerã ergueu telhados em duas das instalações, o que dificulta determinar se alguma reconstrução está ocorrendo dentro das estruturas. Especialistas dizem que isso pode significar que o país está tentando recuperar capacidades sem ser observado de cima. Grande parte dos outros danos causados em junho permanece visível na superfície.
Imagem de satélite fornecida pela Maxar Technologies mostra danos na instalação de enriquecimento de Fordo, no Irã, após os bombardeios dos EUA, em 22 de junho de 2025
Maxar Technologies via The New York Times
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No complexo nuclear de Natanz, a cerca de 225 quilômetros ao sul de Teerã, considerado o principal centro de enriquecimento de urânio do país, os danos visíveis no início de dezembro foram cobertos por uma estrutura de telhado branca. O prédio danificado foi identificado como a instalação piloto de enriquecimento de combustível pelo Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado em Washington que monitora a proliferação nuclear.
No complexo nuclear de Isfahan, ataques destruíram vários edifícios acima do solo, incluindo instalações de conversão de urânio. Uma imagem de dezembro mostra edifícios destruídos que parecem ter sido cobertos.
A menos de um quilômetro e meio da instalação acima do solo de Isfahan, novas barreiras foram instaladas em uma das entradas de um complexo de túneis em uma montanha próxima, que alguns especialistas acreditam que possa abrigar uma instalação secreta de enriquecimento. E em um novo local subterrâneo a menos de três quilômetros de Natanz, conhecido como Montanha da Picareta, as entradas dos túneis foram reforçadas nos últimos meses.
Usina de Natanz (acima à esquerda), usina de Fordo (acima à direita), reator de água pesada de Arak (abaixo à esquerda) e usina de conversão de Isfahan (abaixo à esquerda), em imagens antes dos ataques americanos e israelenses de 2025
AFP/Reprodução
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Joseph Rodgers, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede em Washington, que monitora o programa nuclear do Irã, disse que, até recentemente, grande parte da atividade observada em torno dos locais nucleares parecia estar voltada principalmente para a avaliação e estabilização de danos, como a remoção de destroços e o preenchimento de crateras.
— Não vimos nenhum esforço intensivo de recuperação para tentar retirar equipamentos dessas instalações — disse ele, acrescentando que uma repressão do governo iraniano contra suspeitos de espionagem após os ataques de junho também interrompeu as atividades do programa nuclear.
O pesquisador alertou, porém, que o Irã ainda possui um estoque de urânio enriquecido — combustível mais próximo de ser transformado em material para bombas. A inteligência americana e israelense sugere que o urânio enriquecido enterrado nos três locais atingidos em junho permanece no local, aparentemente enterrado e intacto.
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O Instituto para Ciência e Segurança Internacional afirmou em um relatório na semana passada que detectou um aumento na atividade no complexo nuclear de Isfahan nos últimos dias, mais recentemente o fechamento das entradas dos túneis com terra fresca.
David Albright, presidente do instituto, disse que o acúmulo de terra provavelmente se deve à “antecipação a um ataque, o que implicaria que há algo valioso ali”, possivelmente urânio enriquecido. Albright disse que não está claro o que o Irã está fazendo.
— Crescem as suspeitas de que eles estejam reconstituindo um programa para poder construir armas nucleares — disse o presidente do instituto. — [Mas] Não acreditamos que seja urgente ou iminente de forma alguma.
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Outro acontecimento significativo é visível no complexo militar de Parchin, a sudeste de Teerã, onde o Irã testou explosivos de alta potência que podem ser usados como detonadores para ogivas nucleares. Imagens dos últimos meses mostram que uma grande câmara cilíndrica com cerca de 45 metros de comprimento parece ter sido construída recentemente na instalação.
O local não foi atacado em junho, mas foi alvo de Israel em 2024. Também foi fortificado com defesas como artilharia antiaérea, de acordo com um relatório recente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional.
“Embora o propósito pretendido da nova instalação não possa ser determinado pelas imagens, a nova construção indica sua importância estratégica”, afirmou o relatório sobre a nova câmara.









