Isso mesmo após os primeiros petroleiros terem voltado a passar pelo Estreito de Ormuz.
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Em primeiro lugar, levará tempo para os problemas econômicos causados pelo conflito se dissolverem; em segundo, tudo indica que a guerra provocará, ou consolidará, mudanças estruturais na economia mundial, como um reforço na busca por reduzir a dependência do petróleo e do Oriente Médio como fontes de energia. Os impactos ainda são difíceis de estimar, segundo especialistas.
Canal será termômetro da tensão
Ormuz, a passagem que dá acesso ao Golfo Pérsico, será o termômetro da volta à normalidade, porque é — ou, pelo menos, era — via essencial da indústria de petróleo e gás. Antes da guerra, passavam por lá cerca de 20% da produção global de petróleo e gás.
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AFP
E a previsão de um novo quadro a partir do conflito se mantém mesmo que a cotação do petróleo retorne ao patamar anterior a 28 de fevereiro, na faixa de US$ 60 a US$ 70. Ontem, o barril do tipo Brent fechou cotado a US$ 79,85, com alta de 0,38%. Analistas ainda tentam avaliar a quantidade de petróleo disponível no mercado.
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O economista Lívio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG, destacou que a retomada plena do fluxo de navios pelo estreito levará tempo. Apenas a retirada das minas marítimas da via poderá levar de três a quatro semanas, disse o economista, citando analistas militares. Além disso, quando e se isso ocorrer, a possibilidade de o Irã voltar a bloquear a passagem estará sempre no radar.
— As pessoas não sabiam que era possível fechar Ormuz até que o Irã fechou Ormuz — disse Ribeiro.
Frete mais caro
Para analistas do banco de investimentos americano Goldman Sachs, o tráfego não voltará ao que era antes em Ormuz. Um relatório do banco divulgado na quarta-feira estima que a retomada do fluxo de navios por lá poderá ser concluída no fim de julho, o que permitiria que a produção de petróleo e gás na região do Golfo Pérsico voltasse ao normal por volta de outubro — mas o tráfego ficaria em 70% das quantidades de carga de antes da guerra.
Frame de vídeo disponibilizado em 18 de junho de 2026 na conta da rede X de Dan Scavino, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, mostra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (ao centro), ao lado do presidente da França, Emmanuel Macron (à direita), de sua esposa, Brigitte Macron (à esquerda), do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, durante a assinatura de um acordo com o Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio, no interior do Palácio de Versailles, em Versalhes, nos arredores de Paris, na noite anterior
@Scavino47 / AFP
O relatório do Goldman foi intitulado “70% dos fluxos pré-guerra de Ormuz podem se tornar os novos 100%”, em tradução livre.
De qualquer forma, o fantasma do fechamento do estreito pelo Irã tenderá a elevar, estruturalmente, os preços de seguro das cargas que passam por ali, lembrou Ribeiro. O resultado serão fretes permanentemente mais caros.
Livre navegação sob ameaça constante
O relatório do Goldman Sachs ressalta que alguns operadores de transporte marítimo podem preferir evitar a rota do estreito. Segundo a consultoria especializada em energia e commodities Argus, enquanto os fretes do Golfo de Omã e do Mar Vermelho — alternativas a Ormuz — para o nordeste da Ásia custavam US$ 4,94 e US$ 5,58 por barril, respectivamente, na quarta-feira, o trecho entre o Golfo Pérsico e o nordeste da Ásia estava em US$ 15,19 por barril.
Embarcações ancoradas no Estreito de Ormuz, próximo a Bandar Abbas, no sul do Irã, no auge do conflito
Amirhossein Khorgooei/ISNA/AFP
— Penso que o estreito nunca mais voltará ao grau de certeza de livre navegação ao qual estávamos acostumados — afirmou ao jornal The New York Times Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Longa transição à normalidade
A produção de derivados nas refinarias da região, ou em unidades abastecidas pelo petróleo e gás que saem do Oriente Médio, levará tempo para voltar ao normal, lembrou a superintendente de Pesquisa Econômica do Bradesco, Myriã Bast. Haverá ajuste de estoques mundo afora.
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Por isso, vai demorar para que o principal efeito da assinatura do acordo EUA-Irã, o alívio na inflação global, possa de fato ser percebido. No médio prazo, o mais importante é que o risco de faltar petróleo para as refinarias mundo afora será reduzido, disse Myriã:
— O risco maior era a Europa e os EUA registrarem escassez de petróleo, mas os efeitos sobre os preços já estão aí. A inflação global já mostra isso.
É um quadro melhor do que o prolongamento do conflito, mas o alívio poderá ficar mesmo para 2027. Com a produção e os estoques reequilibrados, será preciso esperar que a normalização dos preços de insumos se espalhe pelas cadeias industriais que usam derivados de petróleo, lembrou a economista do Bradesco.
Mudanças permanentes
E há sinais de mudanças que vieram para ficar. Para Ribeiro, da consultoria BRCG, a economia mundial não será mais a mesma porque a correlação de forças na geopolítica do Oriente Médio mudou, com o fortalecimento relativo do Irã, pela resiliência para “sustentar a guerra” e negociar condições para o fim do conflito.
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AFP
Isso atingirá em cheio o estabelecimento dos hubs aéreos na região, a projeção internacional dos bilionários fundos de investimento árabes e as companhias aéreas desses países.
— O dinamismo das economias do Golfo pode ser prejudicado pela vulnerabilidade que demonstraram — disse Obstfeld ao New York Times.
Brasil pode se beneficiar
Ribeiro chamou a atenção para o fato de que a China acompanhou o conflito no Oriente Médio de maneira mais distante. Procurou não se colocar contra ninguém. Mesmo assim, Pequim e a Ásia em geral deverão acelerar um movimento de fuga da dependência das importações de insumos energéticos do Oriente Médio, diz o economista.
Num movimento de diversificação de fornecedores, o Brasil até pode exportar mais petróleo bruto para a China, mas Pequim também busca depender menos das vias marítimas, com a construção de novos gasodutos a partir da Rússia.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva aperta a mão do presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim: conflito pode aumentar exportação de petróleo brasileiro para a China
TINGSHU WANG / POOL / AFP
Para Myriã, do Bradesco, é no setor de energia que um cenário de mudança estrutural está mais claro. A agenda de redução da dependência do Oriente Médio tenderá a favorecer investimentos fora da região, inclusive no Brasil.
— Outros produtores de petróleo no mundo aproveitarão para, aí sim, fazer o “drill, baby, drill” que o (presidente Donald) Trump queria (“perfure, querida, perfure”, em tradução livre, numa alusão à ampliação da produção de petróleo nos EUA, um dos motes de campanha do republicano, em 2024). Aqui no Brasil foi o “pump, baby, pump” (“bombeie, querida, bombeie”, alusão ao aumento da produção nos poços em alto-mar). Os produtores do resto do mundo aceleraram muito a sua produção — disse Myriã.
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Segundo João Scheller, responsável por preços de petróleo da América do Sul da Argus, no médio prazo, há uma perspectiva de “mudança de posicionamento e dependência de determinadas regiões como provedoras de energia”.
— O Brasil se beneficiaria desse cenário, considerando o crescimento da produção nos próximos anos. Além disso, a qualidade do petróleo do pré-sal é similar à de parte da produção do Oriente Médio. Isso contribui para o posicionamento do Brasil como um possível supridor substituto — disse o analista ao GLOBO.
Alívio na inflação
No curto prazo, tanto Ribeiro, da BRCG, quanto Myriã, do Bradesco, concordaram com a avaliação de que uma baixa nas cotações globais do petróleo — cuja elevação vinha beneficiando tanto a balança comercial quanto a arrecadação dos governos, por causa dos royalties — tirará uma vantagem do Brasil.
Segundo Ribeiro, um mundo sem guerra é melhor para todos, mas o Brasil, agora exportador de petróleo, perderá o impulso de curto prazo provocado pela disparada das cotações do barril e poderá sair perdendo com uma economia global mais instável no médio prazo, já que nem a guerra nem seu fim parecem alterar a disposição dos EUA para o conflito, incluindo aí o tarifaço no comércio.
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Bing Guan/Bloomberg
Por outro lado, um barril menos caro — o Bradesco agora vê as cotações entre US$ 70 e US$ 75 — poderá aliviar a inflação por aqui, nem que apenas em 2027, já que “a piora da inflação por aqui já aconteceu”, pois “os combustíveis estão mais caros”, afirmou Myriã. Ela lembra que a inflação, até o fim do ano, seguirá pressionada pelo fantasma do El Niño, que poderá atrapalhar a produção de alimentos:
— Para 2027, o cenário está mais interessante. As cotações do barril num nível mais baixo tiram pressão da cadeia de derivados de petróleo como um todo, de plástico a fertilizantes.
(Com New York Times e agências internacionais)









