




Longa transição à normalidade
A produção de derivados nas refinarias da região, ou em unidades abastecidas pelo petróleo e gás que saem do Oriente Médio, levará tempo para voltar ao normal, lembrou a superintendente de Pesquisa Econômica do Bradesco, Myriã Bast. Haverá ajuste de estoques mundo afora.
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Por isso, vai demorar para que o principal efeito da assinatura do acordo EUA-Irã, o alívio na inflação global, possa de fato ser percebido. No médio prazo, o mais importante é que o risco de faltar petróleo para as refinarias mundo afora será reduzido, disse Myriã:
— O risco maior era a Europa e os EUA registrarem escassez de petróleo, mas os efeitos sobre os preços já estão aí. A inflação global já mostra isso.
É um quadro melhor do que o prolongamento do conflito, mas o alívio poderá ficar mesmo para 2027. Com a produção e os estoques reequilibrados, será preciso esperar que a normalização dos preços de insumos se espalhe pelas cadeias industriais que usam derivados de petróleo, lembrou a economista do Bradesco.
Mudanças permanentes
E há sinais de mudanças que vieram para ficar. Para Ribeiro, da consultoria BRCG, a economia mundial não será mais a mesma porque a correlação de forças na geopolítica do Oriente Médio mudou, com o fortalecimento relativo do Irã, pela resiliência para “sustentar a guerra” e negociar condições para o fim do conflito.
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AFP
Isso atingirá em cheio o estabelecimento dos hubs aéreos na região, a projeção internacional dos bilionários fundos de investimento árabes e as companhias aéreas desses países.
— O dinamismo das economias do Golfo pode ser prejudicado pela vulnerabilidade que demonstraram — disse Obstfeld ao New York Times.
Brasil pode se beneficiar
Ribeiro chamou a atenção para o fato de que a China acompanhou o conflito no Oriente Médio de maneira mais distante. Procurou não se colocar contra ninguém. Mesmo assim, Pequim e a Ásia em geral deverão acelerar um movimento de fuga da dependência das importações de insumos energéticos do Oriente Médio, diz o economista.
Num movimento de diversificação de fornecedores, o Brasil até pode exportar mais petróleo bruto para a China, mas Pequim também busca depender menos das vias marítimas, com a construção de novos gasodutos a partir da Rússia.
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TINGSHU WANG / POOL / AFP
Para Myriã, do Bradesco, é no setor de energia que um cenário de mudança estrutural está mais claro. A agenda de redução da dependência do Oriente Médio tenderá a favorecer investimentos fora da região, inclusive no Brasil.
— Outros produtores de petróleo no mundo aproveitarão para, aí sim, fazer o “drill, baby, drill” que o (presidente Donald) Trump queria (“perfure, querida, perfure”, em tradução livre, numa alusão à ampliação da produção de petróleo nos EUA, um dos motes de campanha do republicano, em 2024). Aqui no Brasil foi o “pump, baby, pump” (“bombeie, querida, bombeie”, alusão ao aumento da produção nos poços em alto-mar). Os produtores do resto do mundo aceleraram muito a sua produção — disse Myriã.
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Segundo João Scheller, responsável por preços de petróleo da América do Sul da Argus, no médio prazo, há uma perspectiva de “mudança de posicionamento e dependência de determinadas regiões como provedoras de energia”.
— O Brasil se beneficiaria desse cenário, considerando o crescimento da produção nos próximos anos. Além disso, a qualidade do petróleo do pré-sal é similar à de parte da produção do Oriente Médio. Isso contribui para o posicionamento do Brasil como um possível supridor substituto — disse o analista ao GLOBO.
Alívio na inflação
No curto prazo, tanto Ribeiro, da BRCG, quanto Myriã, do Bradesco, concordaram com a avaliação de que uma baixa nas cotações globais do petróleo — cuja elevação vinha beneficiando tanto a balança comercial quanto a arrecadação dos governos, por causa dos royalties — tirará uma vantagem do Brasil.
Segundo Ribeiro, um mundo sem guerra é melhor para todos, mas o Brasil, agora exportador de petróleo, perderá o impulso de curto prazo provocado pela disparada das cotações do barril e poderá sair perdendo com uma economia global mais instável no médio prazo, já que nem a guerra nem seu fim parecem alterar a disposição dos EUA para o conflito, incluindo aí o tarifaço no comércio.
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Bing Guan/Bloomberg
Por outro lado, um barril menos caro — o Bradesco agora vê as cotações entre US$ 70 e US$ 75 — poderá aliviar a inflação por aqui, nem que apenas em 2027, já que “a piora da inflação por aqui já aconteceu”, pois “os combustíveis estão mais caros”, afirmou Myriã. Ela lembra que a inflação, até o fim do ano, seguirá pressionada pelo fantasma do El Niño, que poderá atrapalhar a produção de alimentos:
— Para 2027, o cenário está mais interessante. As cotações do barril num nível mais baixo tiram pressão da cadeia de derivados de petróleo como um todo, de plástico a fertilizantes.
(Com New York Times e agências internacionais)






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