No último fim de semana, o jornal israelense Haaretz revelou que ao menos quatro navios russos, carregados com trigo de áreas ocupadas da Ucrânia, atracaram no porto de Haifa (norte de Israel) desde o início do ano, com conhecimento das autoridades locais. Foi o estopim para uma crise diplomática entre dois países que mantêm uma complexa relação em tempos de guerra, envolvendo acusações de roubo, convocações de embaixadores e críticas à “diplomacia de Twitter”.
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Segundo o Haaretz, as embarcações fariam parte da chamada “frota fantasma” russa, usada para evadir sanções internacionais a commodities como o petróleo e grãos, especialmente aqueles obtidos em áreas sob ocupação russa na Ucrânia.
As tripulações transitam por rotas alternativas no Mar Negro, empregam táticas para atrapalhar sistemas de localização e realizam transferências de carga em alto-mar — de acordo com a publicação, a área próxima ao Estreito de Kerch, que separa a Rússia continental da Crimeia ocupada, é usada com frequência para a manobra.
Toneladas de grãos são vistas no porto de Izmail, na região de Odessa, na Ucrânia
STRINGER/AFP
Além das quatro embarcações confirmadas em portos israelenses em 2026 (um navio suspeito aguarda para atracar em Haifa), há registros de que o esquema é usado desde 2023, com mais de 30 embarques anotados em documentos das autoridades russas, consultados pela publicação.
Com o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, tropas de Moscou assumiram o controle de parte das vastas áreas de produção agrícola da Ucrânia, assim como de seus estoques de trigo e outras commodities. Segundo Kiev, cerca de 15 milhões de toneladas de grãos foram tomadas nos últimos quatro anos, e sua venda ajuda a fortalecer o esforço de guerra do Kremlin.
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Cerca de duas semanas antes da reportagem do Haaretz, o chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, conversou com ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, sobre um navio cargueiro russo que recebeu permissão para atracar no porto de Haifa: na ocasião ainda de forma amena, disse que “a exportação ilegal de produtos agrícolas ucranianos roubados faz parte do esforço de guerra mais amplo da Rússia” e que “esse comércio ilegal de mercadorias roubadas não deve ser permitido”.
Com os novos detalhes, o ambiente pesou.
“Relações amigáveis entre Ucrânia e Israel têm o potencial de beneficiar ambos os países, e o comércio ilegal da Rússia com grãos ucranianos roubados não deve comprometer essas relações”, disse o chanceler ucraniano, na segunda-feira, no X. “É difícil entender a falta de resposta apropriada de Israel ao pedido legítimo da Ucrânia em relação ao navio anterior que entregou bens roubados em Haifa.”
No dia seguinte, o embaixador israelense na capital ucraniana foi convocado, e o presidente Volodymyr Zelensky se juntou ao coro.
“Em qualquer país normal, a compra de bens roubados é um ato que acarreta responsabilidade legal. Isso se aplica, em particular, ao grão roubado pela Rússia. Outro navio carregando tal grão chegou a um porto em Israel e está se preparando para descarregar. Isso não é — e não pode ser — um negócio legítimo”, escreveu no X. “As autoridades israelenses não podem ignorar quais navios estão chegando aos portos do país e que carga eles estão transportando.”
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Em resposta, Sa’ar afirmou que a Ucrânia não apresentou evidências de que navios com cargas vindas de áreas ocupadas tenham chegado a seus portos e partiu para o ataque.
— O governo ucraniano não apresentou um pedido de assistência jurídica. Apresentou apenas tuítes. Isso é necessário quando as alegações dizem respeito a atos criminosos cometidos no exterior. O governo ucraniano também não apresentou provas para suas alegações — disse em Jerusalém, na terça-feira. — Rejeitamos a diplomacia de Twitter e não nos deixaremos influenciar por ela. Dizemos novamente aos nossos amigos ucranianos: se vocês tiverem alguma prova de roubo, a apresentem pelos canais apropriados.
Um representante da Comissão Europeia declarou ao portal Euronews que as autoridades do bloco estão cientes das alegações sobre os navios russos em Israel, que “permanecem prontas para combater tais ações, incluindo medidas contra indivíduos e entidades em países terceiros, se necessário”, e que entraram “em contato com o Ministério das Relações Exteriores de Israel”.
A jornalistas, o porta-voz da Presidência russa, Dmitry Peskov, disse que “prefere não comentar sobre isso de forma alguma nem me envolver nesse assunto”. A Rússia nega as acusações de roubo de grãos.
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Nos últimos quatro anos, Israel e Ucrânia mantiveram uma relação complexa. Em 2022, os israelenses não condenaram publicamente a invasão russa, tampouco se juntaram aos europeus e americanos na adoção de sanções e se recusaram a fornecer armas a Kiev, limitando-se a oferecer ajuda humanitária e não letal. Para analistas, uma tentativa de manter abertos os canais com ucranianos e russos, apesar da crescente retórica anti-Israel de Moscou nas últimas semanas.
Já em 2023, após o ataque do Hamas e o início da guerra em Gaza, Zelensky se pôs ao lado do governo de Israel de forma incondicional. Também demonstrou apoio à ofensiva de EUA e Israel contra o Irã (aliado da Rússia), mas não esconde o desconforto com o pouco interesse dos EUA em um acordo de paz para sua própria guerra. Desencontros entre Zelensky e o premier Benjamin Netanyahu e críticas do embaixador ucraniano em Israel a um sistema de alerta de ataques aéreos fornecido pelos israelenses ajudaram a azedar o clima.
No final de março, o líder ucraniano não incluiu Israel em uma viagem ao Oriente Médio, na qual ofereceu a expertise de seu país no uso de drones defensivos. Uma decisão esnobada pelos israelenses, já impacientes com o estilo de Zelensky e com suas demandas financeiras e militares.
— Zelensky está fazendo de tudo para que eles os levem a sério e está exagerando a ajuda ucraniana aos estados do Golfo para dizer que a Ucrânia é uma potência — disse um integrante do governo israelense ao portal Ynet, em condição de anonimato. — O motivo da raiva dos ucranianos é que eles nunca estão satisfeitos. Não importa o que você lhes dê, eles dirão que não é suficiente.