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Em comunicado, o Comando Central dos EUA — o braço militar dos EUA no Oriente Médio e outras partes da Ásia — disse que “realizará um exercício de prontidão de vários dias para demonstrar a capacidade de desdobrar, dispersar e sustentar poder aéreo de combate”. O texto não detalha se haverá participação de outras nações, mas destaca que as manobras servirão para “fortalecer parcerias regionais e preparar a execução de respostas flexíveis”, e para validar estratégias “de comando e controle integrados e multinacionais sobre uma ampla área de operações”.
“Nossos aviadores estão provando que podem se dispersar, operar e gerar missões de combate em condições exigentes — com segurança, precisão e ao lado de nossos parceiros”, disse Derek France, responsável pelas operações aéreas do Comando Central americano, em declarações fornecidas pelo Pentágono. “Trata-se de manter nosso compromisso de manter aviadores prontos para o combate e a execução disciplinada necessária para manter o poder aéreo disponível quando e onde for necessário.”
As manobras ocorrem em um dos momentos mais delicados na região desde a guerra de 12 dias entre Irã e Israel, que culminou com inéditos ataques americanos a instalações nucleares do país. Diante da repressão a protestos nas maiores cidades iranianas, que deixaram milhares de mortos, de acordo com relatos não oficiais, Trump sinalizou que poderia “ajudar” os manifestantes, algo lido como uma possível ação militar.
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Segundo fontes diplomáticas, o americano chegou a tomar a decisão de bombardear o Irã, mas foi persuadido a mudar de ideia por três monarquias do Golfo — Catar, Omã e Arábia Saudita —, que citaram os riscos à estabilidade regional. Contudo, os planos jamais saíram da mesa do republicano: na semana passada, após reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Trump disse que “estava observando o Irã”, e que havia “uma grande força indo na direção” do país. Era uma referência ao grupo de ataque liderado pelo porta-aviões Abraham Lincoln, e que foi deslocado do Mar do Sul da China para o Oriente Médio.
A mobilização e a manobra podem sugerir um ataque em breve, como já preveem representantes de governos árabes e de Israel, mas também servem como elemento de pressão sobre Teerã para que aceitem os termos de Trump e negociem um acordo centrado no programa nuclear. Antes da guerra de 12 dias com Israel, representantes iranianos mantinham um canal direto com Washington.
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Em seu primeiro mandato, Trump rasgou um plano internacional que limitava as atividades de enriquecimento de urânio em troca do fim de sanções, e que foi eficaz enquanto esteve em vigor. Agora, o republicano parece inclinado a exigir a suspensão completa das atividades atômicas — o que o regime se recusa a fazer — e pode fazer exigências sobre o setor de energia, como ocorreu com a Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro.
— Eles (Irã) querem fechar um acordo. Eu sei disso. Ligaram em diversas ocasiões. Eles querem conversar — disse em entrevista ao portal Axios, publicada na segunda-feira.
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Além da ameaça de um ataque de grande porte, que poderia eliminar a liderança atual e abrir as portas para uma transição, o líder americano parece apostar nos efeitos das semanas de protestos e repressão. Segundo o jornal New York Times, relatórios internos mostram que as manifestações impactaram o controle do Estado sobre vários setores do país, e a deterioração das condições econômicas serviu como combustível adicional à crise.
Para a inteligência americana, o regime está em seu momento mais frágil desde a revolução de 1979, que derrubou a monarquia de Reza Pahlevi e instituiu a República Islâmica. Caso Trump decida atacar e derrubar o governo, não está claro quem comandaria a nação de mais de 90 milhões de pessoas, tampouco o cenário que herdaria.
“O regime pode cair e uma democracia pró-Ocidente pode emergir, mas um cenário igualmente plausível é o surgimento de um governo ainda mais linha-dura, ainda mais ávido por desenvolver armas nucleares e utilizar seu arsenal de mísseis”, escreveu, em análise no para o centro de estudos Atlantic Council, Nate Swanson, pesquisador da instituição. “Essa preocupação é, em parte, o motivo pelo qual várias nações do Golfo se manifestaram contra um ataque ao Irã.”
Em Teerã, a prioridade é alertar para os efeitos de um eventual ataque, e deixar claro que haverá retaliação. Em declarações à agência Fars, o vice-chefe político da Guarda Revolucionária, Mohammad Akbarzadeh, disse que “países vizinhos que são nossos amigos, mas que permitam que seu solo, céu e águas sejam usados contra o Irã, passarão a ser considerados hostis”. Em junho do ano passado, os iranianos atacaram a base de al-Udeid, usada pelos EUA e localizada no Catar, em resposta ao bombardeio de suas instalações nucleares dias antes.
Em paralelo às ameaças, o presidente Masoud Pezeshkian, em conversa com o príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, disse que “as ameaças e operações psicológicas dos americanos querem perturbar a segurança regional e não terão outro resultado senão a instabilidade para eles”. Pezeshkian confirmou que o ataque de junho passado ocorreu em meio às negociações de um acordo com os americanos, e defendeu a união dos países da região contra ameaças externas.
Bin Salman, que tem uma relação próxima com o presidente americano e que mantém laços estáveis com Teerã após anos de tensão, disse que seu país está disposto a “cooperar com o Irã e outros países para estabelecer a paz e a segurança”, e destacou que não considera aceitável “qualquer agressão, ameaça ou criação de tensão” contra Teerã.







