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Tal como o líder americano, a delegação russa inclui alguns pesos pesados da economia: presidentes de gigantes do setor de energia (Rosneft e Gazprom), de grandes bancos locais (VTB e Sberbank), além dos chefes das agências de desenvolvimento, de energia nuclear e exploração espacial. A presidente do Banco Central Russo, Elvira Nabiullina — a principal arquiteta do modelo econômico que blindou o país das sanções —, oito ministros e cinco vice-primeiros-ministros integram o grupo.
Dias antes, a delegação de Trump que esteve na China incluiu empresários e formuladores de políticas públicas, mas o Kremlin diz que não passa de coincidência.
— Não estamos competindo com ninguém em nossas delegações e estamos desenvolvendo nossa própria relação independente e multifacetada com a República Popular da China, que nós, e nossos amigos chineses, chamamos de parceria estratégica privilegiada e especial — disse o secretário de Imprensa da Presidência russa, Dmitry Peskov, na segunda-feira.
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Um ponto crucial é destravar o projeto de um novo gasoduto russo, o Força da Sibéria 2, com capacidade planejada de até 50 bilhões de m³ de gás natural por ano, o que dobraria a oferta aos chineses. O plano foi tema das últimas quatro viagens de Putin ao país, mas apenas em setembro do ano passado as engrenagens começaram a se mover, quando a iniciativa foi incluída em um memorando oficial. Em março, os chineses confirmaram o início de “trabalhos preparatórios para a rota central do gasoduto russo-chinês”, como parte de seu plano quinquenal (até 2030), sem mencionar o projeto pelo nome.
Nos mais de 10 anos que se passaram desde que o Força da Sibéria 2 foi apresentado, houve mais questões do que certezas em Pequim. O risco de incrementar a dependência energética dos russos, a diferença entre o que a Rússia queria cobrar e o que a China queria pagar (a demanda mais recente era de US$ 50 por mil m³, quase dez vezes menos do que o cobrado dos europeus) e os investimentos atrasaram a batida do martelo.
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Alexander KAZAKOV / POOL / AFP
O que poucos contavam era como o governo de Donald Trump ajudaria a quebrar o impasse. Os bombardeios americanos contra centrais nucleares iranianas, em junho passado, e a “Operação Fúria Épica”, lançada em fevereiro, causaram o maior choque energético em décadas, e serviram de plataforma para os russos se credenciarem como fornecedores estáveis de petróleo e gás.
— Tradicionalmente, a China encara sua segurança energética sob a ótica da limitação do fornecimento por gasoduto a no máximo 25% do mercado e tem se mostrado relutante em depender excessivamente de Moscou — disse Laurent Ruseckas, diretor executivo de gás global da S&P Global, ao The Moscow Times. — Mas, no contexto da crise atual, ter um fornecimento maior por gasoduto pode parecer mais positivo do que negativo.
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Em entrevista à agência Interfax, Yuri Ushakov, assessor de Putin, declarou que os líderes vão discutir o tema em Pequim, sem antecipar se darão um “passo mais sério”, como o anúncio público do gasoduto (como anseia o Kremlin). Para analistas, são pequenas as chances de que o Força da Sibéria 2 comece a operar antes de 2030.
— Tendo como pano de fundo a crise no Oriente Médio, a Rússia mantém o papel de fornecedora confiável de recursos energéticos, e a China, o de consumidora responsável — acrescentou.
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Desde a declaração conjunta emitida às margens dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, em fevereiro de 2022, na qual Rússia e China declararam que “amizade entre os dois Estados não tem limites”, e que “não existem áreas de cooperação ‘proibidas’”, os laços bilaterais ganharam corpo econômico e político.
Com a invasão à Ucrânia, naquele mesmo fevereiro, a Rússia se viu sob sanções poucas vezes vistas na História moderna, e a China surgiu como um parceiro crucial para manter o esforço de guerra e apoiar os pilares econômicos. As trocas comerciais praticamente dobraram em volume, em comparação com o período pré-2022, e moedas nacionais — o rublo e, especialmente, o iuan — foram usadas em 99% dos pagamentos, confirmou o ministro das Finanças, Anton Siluanov, em 2025
Mas os números escondem um desequilíbrio: ao mesmo tempo em que Moscou se apresenta, como definiu Ushakov, como um fornecedor confiável de commodities energéticas, o país se tornou dependente da tecnologia chinesa, incluindo dos chamados bens de “uso duplo”, que podem ser empregados na indústria civil e na construção de armamentos, mísseis e, mais recentemente, drones.
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Para especialistas, um cenário que pode ganhar corpo na forma de valores, sem compromissos mais abrangentes, como uma participação mais direta da China na Ucrânia. Hoje, as tropas de Putin não conseguem mais avançar por terra como antes, e suas instalações militares e de energia estão à mercê dos drones ucranianos.
— Putin precisa disso mais do que Xi. A Rússia agora é o parceiro júnior e dependente, após a desastrosa guerra de Putin na Ucrânia — disse Timothy Ash, pesquisador da Chatham House, à rede al-Jazeera. — Assim como Trump foi pedir favores a Pequim, Putin também fará o mesmo. A China tem todas as cartas na manga.
Segundo o jornal britânico Financial Times, Xi disse a Trump que Putin pode, “no fim das contas” , se arrepender da decisão de ter invadido a Ucrânia. As fontes acrescentaram que o tom usado pelo líder chinês foi mais duro do que o usado no passado para se referir ao conflito. Os dois ainda discutiram o conflito no Irã, para o qual a China defende um plano de cinco pontos até agora ignorado por Washington. Como a Rússia, os iranianos são grandes fornecedores de petróleo para os chineses.
Embora os envolvidos prefiram evitar o tema, as visitas de Trump e Putin à China estão intimamente conectadas pelas guerras sem solução, e, em algo caro a Pequim, demonstram como hoje os chineses estão dando as cartas, e como estão dispostos a transitar entre os diferentes campos geopolíticos, sem deixar de impor suas visões de mundo.
— A visita de Trump teve como objetivo estabilizar a relação bilateral mais importante do mundo; a visita de Putin visa tranquilizar um parceiro estratégico de longa data — disse Wang Zichen, vice-secretário-geral do think tank Centro para a China e a Globalização, à Associated Press. — Para a China, essas duas vertentes não são mutuamente exclusivas.









