Entenda: França e Alemanha divergem sobre papel da Europa no Estreito de Ormuz enquanto países articulam missão
Insatisfeito com a postura de aliados: Trump considera punir certos países da Otan por falta de apoio na guerra contra o Irã
Segundo a fonte americana ouvida pela Reuters, o e-mail expressava frustração com a aparente relutância ou recusa de alguns aliados em conceder aos Estados Unidos acesso, bases e direitos de sobrevoo — conhecidos como ABO — para a guerra contra a República Islâmica. A nota dizia que o ABO é “apenas o mínimo absoluto para a Otan”, afirmou a autoridade, acrescentando que as opções estavam circulando no Pentágono. Uma delas prevê suspender “países difíceis” de posições importantes ou prestigiadas na Otan.
Questionada sobre a possibilidade de suspender um aliado, um membro da organização declarou que “o Tratado Fundador da Otan não prevê qualquer dispositivo para suspensão da adesão à aliança”. Também por e-mail, a secretária de imprensa do Pentágono, Kingsley Wilson, disse: “Como o presidente Trump disse, apesar de tudo o que os EUA fizeram por nossos aliados da Otan, eles não estiveram ao nosso lado”.
“O Departamento de Guerra garantirá que o presidente tenha opções críveis para assegurar que nossos aliados deixem de ser um tigre de papel e passem a fazer sua parte. Não temos mais comentários sobre quaisquer deliberações internas nesse sentido”, acrescentou.
Relembre: Casa Branca diz que Otan ‘deu as costas’ aos EUA na guerra com Irã antes de reunião entre Trump e chefe da aliança
O líder americano, Donald Trump, criticou duramente aliados da Otan por não enviarem suas marinhas para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, rota essencial por onde normalmente passa um quinto do petróleo e gás natural do mundo e que tem sido afetada desde o início da guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro. Em declarações anteriores, o republicano sugeriu que estava considerando retirar os Estados Unidos da aliança, afirmando à imprensa 1º de abril:
— Você não faria isso se estivesse no meu lugar?
O e-mail citado pela Reuters, no entanto, não sugere que os EUA façam isso — tampouco propõe o fechamento de bases na Europa. A autoridade ouvida pela agência se recusou a dizer, porém, se as opções incluíam uma redução de parte das forças americanas na Europa, opção amplamente esperada diante da retórica de Trump. Para a fonte, as opções descritas na mensagem teriam como objetivo enviar um sinal forte aos aliados da Otan, com a meta de “reduzir o senso de direito por parte dos europeus”.
Obstáculos políticos e legais: Isolamento em guerra contra o Irã impulsiona ameaça de Trump de deixar a Otan
A autoridade não revelou como os Estados Unidos poderiam tentar suspender a Espanha da aliança, afirmando apenas que, embora a opção possivelmente tivesse efeito limitado nas operações militares americanas, teria um impacto simbólico significativo. A Espanha irritou a administração americana ao se recusar a elevar os gastos com defesa para 5% do PIB, insistindo que pode cumprir suas obrigações com menos. Washington tem duas importantes bases militares no país: a Base Naval de Rota e a Base Aérea de Morón.
— Não trabalhamos com base em e-mails. Trabalhamos com documentos oficiais e posições de governo, neste caso dos Estados Unidos — disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ao ser questionado sobre a reportagem antes de uma reunião de líderes da União Europeia no Chipre para discutir temas como a cláusula de assistência mútua da Otan, acrescentando que a Espanha é um “parceiro leal” da aliança.
Mesmo que juridicamente inexequível, uma ameaça pública de suspender a Espanha do apoio defensivo seria “gravemente prejudicial” à aliança e aprofundaria a perda de confiança entre Europa e EUA, disse à Reuters Sven Biscop, professor de defesa europeia no Instituto Egmont, da Bélgica. Segundo ele, a maior parte dos líderes do bloco não confia mais que os EUA os apoiariam em “todas as crises”, de modo que, na avaliação do especialista, o que Trump tem feito “não faz sentido para os interesses americanos”.
Ilhas Malvinas
O memorando também inclui a opção de considerar a revisão do apoio diplomático dos Estados Unidos a antigas “possessões imperiais” europeias, incluindo as Ilhas Malvinas. Conhecidas no Reino Unido como Falklands, as ilhas ficam a cerca de 13 mil quilômetros do território britânico e a aproximadamente 480 quilômetros da costa argentina. A Argentina reivindica há décadas a soberania sobre o território ultramarino. Os dois países travaram uma guerra pela disputa, após as forças argentinas invadirem as ilhas em 1982.
Factoides de guerra: Sem objetivos claros, Trump enfileira declarações questionáveis sobre ofensiva no Irã; veja algumas
Enquanto o presidente argentino, Javier Milei, é visto como aliado de Trump, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, tem sido repetidamente criticado pelo americano, que já chegou a chamá-lo de covarde por sua recusa em se juntar à guerra contra o Irã. O Reino Unido inicialmente não atendeu a um pedido dos EUA para permitir que suas aeronaves atacassem a República Islâmica a partir de duas bases britânicas, mas depois concordou em autorizar missões defensivas destinadas a proteger residentes da região.
Desde o início, a guerra entre EUA e Israel contra o Irã levantou sérias questões sobre o futuro do bloco de 76 anos e provocou preocupações sem precedentes de que Washington possa não socorrer aliados europeus caso sejam atacados, segundo analistas e diplomatas. Reino Unido, França e outros países afirmam que aderir ao bloqueio naval imposto pelos americanos equivaleria entrar na guerra, mas dizem que estariam dispostos a ajudar a manter o Estreito de Ormuz aberto quando houver um cessar-fogo duradouro ou o fim do conflito. Autoridades do governo Trump, no entanto, têm enfatizado que a Otan não pode ser uma via de mão única, com o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmando:
— Recebemos [dos europeus] questionamentos, obstáculos ou hesitações… Não há muita aliança se há países que não estão dispostos a ficar ao seu lado quando você precisa deles.








