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O pedido faz parte de uma antiga disputa, na qual o governo Trump buscava obter dados privados de eleitores de diversos estados do país. Vários estados, incluindo Minnesota, não atenderam ao pedido, e o Departamento de Justiça entrou com ações judiciais contra eles. Ao todo, 24 estados foram processados pelo Departamento de Justiça para obrigá-los a entregar seus dados eleitorais.
O governo afirmou que deseja os registros eleitorais completos para “ajudar” os estados a “limpar” seus cadastros de eleitores inelegíveis. Bondi delineou o que ela descreveu como três “passos simples” para “restabelecer a lei e a ordem”. Ouvidos pela rede americana CNN, ex-procuradores do Departamento de Justiça e um juiz federal duvidam que esse seja o único objetivo do governo com a coleta de dados.
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— Literalmente horas depois do segundo assassinato de um cidadão americano na cidade de Minneapolis por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), eis que surge este documento — disse Simon, referenciando-se a morte de Alex Pretti, que, assim como Renee Good, tinha 37 anos e foi morto por agentes federais durante uma manifestação em Minneapolis, no último sábado.
Memorial improvisado no local da morte de Alex Pretti
Octavio JONES / AFP/25/01/2026
O democrata Adrian Fontes, secretário de Estado do Arizona, comparou a carta de Bondi ao “crime organizado”. “Eles se mudam para o seu bairro, começam a bater em todo mundo e depois extorquem o que querem. Não é assim que os EUA deveriam funcionar”, escreveu Fontes nas redes sociais.
Procurado pela CNN, o Departamento de Justiça apontou para declarações feitas por Bondi no próprio sábado, nas quais ela culpou autoridades de Minnesota por convidarem “os piores dos piores” para Minneapolis por meio de políticas de “cidade santuário” — aquelas que limitam cooperação com autoridades federais para proteger imigrantes da deportação.
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Já a porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, argumentou que o Departamento de Justiça tem “plena autoridade” para garantir que os estados cumpram as leis eleitorais federais. “O presidente Trump está empenhado em garantir que os americanos tenham plena confiança na administração das eleições, e isso inclui cadastros eleitorais totalmente precisos e atualizados, livres de erros e de eleitores não cidadãos registrados ilegalmente”, disse ela, em comunicado.
Cadastros eleitorais
Quase todos os estados possuem uma versão pública do cadastro eleitoral que inclui informações básicas como nome e sobrenome. Alguns desses cadastros têm até endereços. Mas a lista completa de eleitores, que fica mantida em sigilo, inclui informações pessoais de identificação, como números de carteira de motorista.
Tradicionalmente, ninguém consegue obtê-la por meio de pedidos de registros públicos — nem mesmo o Departamento de Justiça.
O departamento já tomou medidas enérgicas no passado para tentar erradicar supostas fraudes eleitorais, inclusive durante o governo do ex-presidente George W. Bush. Mas a ideia do governo federal de obter informações privadas sobre os eleitores dos estados era vista como um abuso de poder, porque a Constituição determina que as eleições são conduzidas principalmente pelos estados individualmente, e não pela Casa Branca.
Estados cumprem a exigência?
Segundo o Brennan Center for Justice, um grupo de defesa dos direitos de voto e da democracia, pelo menos 11 estados, todos eles administrados por republicanos, forneceram seus dados eleitorais. Mas cerca de metade dos estados do país, a maioria governada por democratas, rejeitou os pedidos.
Alguns estados, incluindo Minnesota, possuem leis que impedem a transferência de informações privadas. Outros expressaram preocupação sobre como o Departamento de Justiça vai manter em segurança os enormes acervos de informações privadas.
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Para muitos funcionários eleitorais, a principal preocupação é que o esforço do Departamento de Justiça seja liderado por aliados de Trump que, durante muito tempo, negaram falsamente que o ex-presidente Joe Biden tivesse vencido a eleição de 2020. “Esses dados podem ser manipulados para sustentar alegações falsas sobre votos de pessoas inelegíveis e justificar esforços para impedir eleições livres e justas”, escreveu Wendy Weiser, diretora do Programa de Democracia do Centro Brennan, nas redes sociais.
E os estados têm o direito de reter os dados?
O assunto ainda está sendo debatido judicialmente, mas alguns especialistas jurídicos apontaram para a redação da Constituição, que afirma que os “horários, locais e modo” das eleições são regidos pelos estados, e que somente o Congresso — e não o presidente — pode criar ou alterar as leis eleitorais.
Este mês, um juiz federal da Califórnia rejeitou o processo do Departamento de Justiça contra a Califórnia, que buscava obter o cadastro eleitoral completo do estado.
“A perda da democracia não ocorre de uma só vez; ela é corroída aos poucos até não restar nada”, escreveu o juiz David Carter. “A erosão da privacidade e a restrição do direito ao voto são decisões que devem ser debatidas publicamente no âmbito do Poder Legislativo, e não do Executivo”.
(Com New York Times)







