Um dia após o anúncio de um acordo preliminar entre Estados Unidos e o Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio, governos e organizações de diferentes regiões do mundo reagiram com manifestações de apoio, enquanto Israel — que participou do início do conflito ao realizar ataques coordenados com Washington em fevereiro —, buscou manter distância.
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Em notas oficiais, autoridades israelenses criticaram os termos negociados por aliados americanos, antecipando que suas Forças Armadas não irão se retirar do Líbano ou de outros territórios sobre os quais avançaram desde o atentado terrorista do Hamas, em 2023. Menos de 24 horas após o anúncio, o Estado judeu lançou ataques contra o sul libanês, matando ao menos uma pessoa.
— [Netanyahu é] um sujeito muito difícil — disse o presidente americano, Donald Trump, nesta segunda-feira, criticando o premier de Israel por colocar em risco o acordo ainda em consolidação. — Para ser sincero, ele deveria ser muito grato a nós por termos feito isso. Porque, se o Irã tivesse uma arma nuclear, Israel não existiria por mais de duas horas.
No domingo, Trump afirmou que o acordo estava “concluído”, enquanto autoridades iranianas citaram “um memorando de entendimento”, acrescentando que os compromissos assumidos pelas partes começarão na sexta-feira, quando o documento deverá ser formalizado. A partir daí, entrará em vigor um cessar-fogo de pelo menos 60 dias destinado a criar condições para negociações sobre os temas pendentes.
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O premier do Paquistão, Shehbaz Sharif, reforçou que o acordo seria assinado na sexta na Suíça. Ele parabenizou ambos os lados por seu “compromisso em encontrar uma solução diplomática para o conflito”. Ainda no domingo, Sharif declarou que os dois lados se comprometeram com uma “cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes”, o que também foi enfatizado pelo Irã.
Israel
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, no entanto, afirmou que seu país não retirará tropas das áreas que ocupa no Líbano. Ele disse que seu país atacará o Irã com “grande força” caso Teerã responda aos ataques israelenses no território libanês, indicando que “Netanyahu deixou isso claro” a Trump e a outras autoridades americanas. Já o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, condenou o acordo, classificando-o como “ruim para Israel e para todo o mundo livre”.
No início do mês, Trump descreveu Netanyahu como “completamente louco” durante uma ligação telefônica, ordenando que ele não atacasse Beirute enquanto os EUA buscavam um acordo com o Irã. O premier cancelou os ataques naquele dia, mas atingiu os subúrbios ao sul da capital libanesa uma semana depois, provocando o lançamento de foguetes contra Israel a partir do Líbano e uma reprimenda pública de Trump a ambos os lados.
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No domingo, antes de Washington e Teerã anunciarem o acordo provisório, Israel voltou a atacar a capital libanesa — disparos que Trump citou como “pequenos e sem importância”. Menos de um dia depois, novos ataques deixaram uma pessoa morta no Líbano. Autoridades militares em Israel se recusaram a comentar o caso. Ao New York Times, um membro do Hezbollah pediu que moradores deslocados no sul do país adiassem qualquer retorno para suas casas até que estivesse claro que os ataques seriam encerrados.
Para analistas, Netanyahu apostou que a guerra conduzida ao lado de Trump derrubaria os líderes iranianos e fortaleceria sua posição antes das eleições em Israel, consolidando sua imagem como arquiteto de uma aliança com os Estados Unidos capaz de remodelar o Oriente Médio. Em vez disso, porém, o premier está em rota de colisão com o líder americano. Ainda que autoridades israelenses tenham tentado ser cautelosas em público, muitas consideram que o acordo preliminar é “terrível para Israel”, publicou a agência Reuters.
— Não há ninguém na liderança israelense que pense diferente, do primeiro-ministro ao chefe do Estado maior — disse uma fonte.
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Washington afirma que, nos próximos 60 dias, negociará os termos completos de um acordo que atenda às preocupações dos EUA e de Israel, especialmente no que diz respeito ao programa nuclear iraniano. Ainda assim, autoridades israelenses disseram à Reuters que acreditam que o período de negociações previsto provavelmente será estendido para 90 dias, limitando a capacidade de Israel de realizar ações militares enquanto suas preocupações permanecem sem solução.
— Netanyahu será incapaz de vender este acordo ao público israelense — disse Jonathan Rynhold, cientista político da Universidade Bar-Ilan, próxima a Tel Aviv. — O melhor que ele pode esperar é que as partes não cheguem a um acordo definitivo e que a guerra recomece, em condições mais favoráveis para Israel, dentro de 60 dias.
Líbano e Hezbollah
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, comemorou a inclusão do país na trégua e disse esperar a implementação definitiva do acordo, enquanto o Hezbollah parabenizou o Irã pelo que descreveu como a “grande conquista” de garantir um cessar-fogo “abrangente em todas as frentes, incluindo o Líbano”. O grupo expressou “profunda gratidão” pelo “apoio inabalável do Irã ao Líbano”, citando a “insistência” para que o país seja “incluído em qualquer entendimento que leve ao fim da guerra”.
Países do golfo
O Catar expressou sua “apreciação pela determinação” de ambos os lados “por seu compromisso em avançar na resolução das divergências por meio de negociações e meios pacíficos”, com o ministro de Estado do país, Mohammad bin Abdulaziz al-Khulaifi, afirmou esperar que o acordo “sirva como catalisador para esforços mais amplos voltados à promoção da estabilidade e à resolução de questões pendentes”.
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A Arábia Saudita saudou o acordo para “encerrar as operações militares e iniciar negociações detalhadas”, enquanto os Emirados Árabes Unidos enfatizaram a necessidade de “priorizar o diálogo, a diplomacia e o respeito ao direito internacional de maneira a reforçar a segurança e estabilidade na região”. O Ministério das Relações Exteriores do país pediu o “pleno cumprimento dos termos” e elogiou os esforços de Trump.
O Kuwait manifestou “calorosas boas-vindas” ao memorando de entendimento e elogiou o papel desempenhado por Paquistão e Catar na contribuição “para aproximar posições e criar as condições para alcançar esse importante entendimento”.
Europa e ONU
Em declaração conjunta, Reino Unido, França, Alemanha e Itália destacaram que “o Irã jamais deve adquirir uma arma nuclear”, acrescentando que estão “prontos para trabalhar com Estados Unidos, Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para esse fim”. Por sua vez, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a prioridade agora é a “implementação rápida e integral” do acordo e que a “liberdade de navegação deve ser restabelecida”.
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O premier britânico, Keir Starmer, classificou o acordo como um passo “extremamente importante” para encerrar a guerra e afirmou que “a liberdade de navegação sem cobrança de tarifas deve agora ser restabelecida” em Ormuz, oferecendo apoio a operações de remoção de minas, se necessário. Ao mesmo tempo, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a “retomada do tráfego marítimo” como “condição indispensável para a estabilidade regional e para a economia global”.
Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz, ao saudar o acordo, disse que ele poderá abrir caminho para “uma economia global revitalizada e um Oriente Médio mais seguro”, enquanto o premier da Espanha, Pedro Sánchez, pediu que não se esqueça o custo do conflito, classificado por ele como “absurdo”. Ele destacou que mais de 7,4 mil pessoas morreram, a maioria civis, e que casas, escolas e hospitais foram destruídos.
“Um aumento generalizado dos preços e bilhões de euros em perdas, inclusive na Europa. Esse é o custo do conflito no Irã”, escreveu Sánchez, que sempre manifestou forte oposição à guerra, no X. “Vamos celebrar. Mas não vamos esquecer. E aprendamos, de uma vez por todas, que a guerra é um fracasso. O diálogo e a diplomacia são o único caminho.”
Já o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o acordo como um “passo crucial” rumo a uma “solução pacífica para o conflito”.
Turquia, Egito, China
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse considerar o acordo “um desenvolvimento importante para o estabelecimento da paz e da tranquilidade” na região. Ele acrescentou que seu país continuará a “apoiar todos os esforços destinados a estabelecer a paz, a estabilidade e a tranquilidade”, além de “contribuir para soluções duradouras baseadas na diplomacia e no direito internacional”.
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O Egito, por sua vez, avaliou que o acordo pode representar um “ponto de inflexão” para a paz na região. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores egípcio afirmou que o país espera que o entendimento represente o “estabelecimento de novas bases de cooperação”, além da “criação de um ambiente propício para a paz e ao impulso dos esforços diplomáticos destinados a resolver as questões regionais pendentes”.
A China também saudou o acordo, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmando em entrevista coletiva:
— A China acolhe o acordo e expressa apreço pelos esforços de mediação realizados pelo Paquistão. [Também] espera que a passagem segura e livre pelo estreito seja restabelecida o mais rapidamente possível.
(Com AFP e New York Times)