Duas semanas antes da reunião anual de líderes da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, o chefe da organização, Mark Rutte, usou abusou dos elogios e números positivos para tentar amenizar os ânimos do presidente dos EUA, Donald Trump, que não esconde a insatisfação com o falta de apoio dos demais aliados na guerra contra o Irã.
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Na Casa Branca pela quinta-vez desde o início do novo mandato do republicano, Rutte se referiu a Trump como o “líder do mundo livre”, e tentou moldar a narrativa sobre o papel dos aliados da Otan na guerra no Golfo. Ele garantiu que as objeções entre os europeus “foram pontuais”, e mencionou que até 5 mil aeronaves americanas decolaram de aeroportos na Europa para missões no Oriente Médio desde o dia 28 de fevereiro.
— Houve casos isolados que o deixaram realmente decepcionado, mas, de modo geral, seus aliados europeus estiveram presentes — acrescentou. — Eu diria que teria sido muito difícil lidar com o Irã sem ter a Europa como plataforma de projeção de poder para os Estados Unidos.
Trump não pareceu comovido.
— Fiquei decepcionado com a Itália. Fiquei decepcionado com o Reino Unido. Ele agora se foi. Estamos decepcionados com a Alemanha e a França. Estamos decepcionados com a maioria deles. A Espanha é um show de horrores. A Espanha é terrível mesmo do seu ponto de vista. Quer dizer, eles não querem pagar nada — afirmou.
Ele garantiu que os americanos “não precisavam de ajuda” na guerra, mas que “teria sido bom se os europeus dissessem que queriam ajudar”.
— Apenas sejam leais — bradou Trump. — Só quero a lealdade deles.
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Rutte, que no passado já chamou Trump de “papai”, deu mais uma vez razão à decisão de Trump de bombardear o Irã, afirmando que a República Islâmica estava “muito perto” de obter uma bomba nuclear, algo não corroborado por agências de inteligência. Mas ele não mencionou outros objetivos militares prometidos pelos EUA e não cumpridos, como o desmantelamento das capacidades militares. Rutte tampouco citou como os iranianos “aprenderam” a usar o Estreito de Ormuz como uma arma estratégica durante a guerra.
Em mais um afago ao republicano, Rutte mencionou o aumento dos gastos com Defesa na Otan, creditando a tendência à ação de Trump, e deu a ele alguns argumentos que poderão ser apresentados ao público interno: em cartazes espalhados pelo Salão Oval, o chefe da Otan mostrou a evolução nos valores investidos em Defesa, e como eles criaram, em suas contas, quase 200 mil empregos nos Estados Unidos.
Secretário-geral da Otan, Mark Rutte, mostra cartazes com números da aliança militar em reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca
Aaron Schwartz / AFP
Na cúpula do ano passado, também marcada por ataques à aliança e ameaças de retirada dos EUA, praticamente todos os países concordaram em elevar seus gastos com Defesa para até 5% dos seus PIBs, no que foi encarado como uma vitória de grande porte para a Casa Branca. A grande exceção foi a Espanha, citada por Trump de maneira especial e pouco eloigiosa em suas críticas à Europa.
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A visita de Rutte na condição de bombeiro, duas semanas antes da reunião na Turquia, ocorre em meio não apenas a críticas públicas do governo americano, mas também a dúvidas sobre o futuro da presença militar do país em solo europeu. Na semana passada, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, anunciou uma revisão do número de tropas no continente, e avisou que o resultado dependerá do comportamento dos países.
— Esta será uma revisão de verdade. Ela terá como objetivo garantir que a Otan avance de forma rápida e irreversível rumo a uma Europa que assuma a liderança e a responsabilidade principal pela sua própria defesa — disse Hegseth. — É uma avaliação na qual alguns países fracassarão e outros obterão êxito absoluto.
Além dos elogios e afagos, Rutte tenta evitar surpresas na reunião em Ancara — como disse um analista ao portal Politico, o secretário-geral da Otan quer testar a profundidade da piscina antes que os demais mergulhem.
— Trump não está satisfeito, e talvez não haja muito que a aliança possa fazer a curto prazo. Eles já destinaram 5% [do PIB à Defesa] e não têm muitas cartas novas na manga — antecipou um alto funcionário da Otan ao Politico.