Desde seus primeiros anos de vida, Kanzi, que morreu no ano passado, exibia habilidades linguísticas fora do comum para sua espécie. Amália demonstrou em um estudo publicado nesta quinta-feira (5) que ele também era capaz de lidar com objetos imaginários em sua mente, uma capacidade tida como exclusiva dos humanos.
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Para ganhar acesso um animal que já tinha status de superstar na comunidade de cientistas cognitivos, a jovem pesquisadora traçou um longo caminho, que começou antes mesmo da faculdade.
— Eu nasci no Rio, morei até os 18 anos lá, e desde muito cedo tive interesse em animais — conta ela, descrevendo sua infância como um pouco ‘estranha’. — Quando eu falava para minha mãe que eu queria ter algum tipo de bicho, ela dizia: ‘desde que você consiga o animal de graça, você pode ter’. Então, dentro de casa eu tive chinchila, hamster, cachorro, papagaio, calopsita…
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O fascínio de Amália pelas suas criaturas, porém, era mais pelo comportamento do que pela imagem delas.
— Eu sempre me interessei pelo que está passando na cabeça desses animais. Eu observava eles o dia inteiro, ficava imaginando o que eles estariam pensando, e isso acabou depois me levando para caminho de estudar comportamento animal — diz.
Ao concluir o ensino médio, ela já queria fazer graduação para seguir essa área de pesquisa bastante específica, mas não havia opções no Rio. A estudante cogitou procurar a Universidade de São Paulo (USP), que faz estudos sobre inteligência animal no Instituto de Psicologia, mas uma oportunidade diferente surgiu.
Amália se qualificou logo na graduação para uma bolsa do CNPq que lhe permitiu fazer o curso de biologia na Universidade de Oxford, centro de referência mundial na área de pesquisas cognitivas.
— Então fui para a Inglaterra com 18 anos, e dali fui pulando de um lugar para outro — disse. — Fiz a graduação em Oxford, depois um doutorado na Nova Zelândia, na qual trabalhei com papagaios quia, que são endêmicos da ilha Sul do país.
Nessa etapa de sua carreira, Bastos publicou com colegas um estudo mostrando como essas aves de inteligência excepcional uma noção rudimentar de probabilidade e a usam para tomar suas decisões.
Teoria da mente
Tendo publicado também estudos com corvos e muitos artigos sobre comportamento de cães, a pesquisadora fez um pós-doutorado na Califórnia e entrou para o mundo dos primatas quando conheceu o cientista Christopher Krupenye, que já possuía grande reputação em estudos com macacos.
Tendo demonstrado a capacidade extraordinária de chimpanzés de conseguirem intuir o que outras pessoas e animais estão pensando (a habilidade conhecida como “teoria da mente”), o pesquisador americano se interessou pelos trabalhos da colega brasileira.
— Numa conferência, a gente começou a falar sobre primatologia e cognição em primatas, e depois ele me convidou para vir para o laboratório dele na Universidade Johns Hopkins (em Baltimore, EUA) e fazer outro pós-doutorado — conta. — Foi aí que eu comecei a trabalhar com bonobos, uma espécie com a qual eu nunca tinha lidado.
Em termos evolutivos, os bonobos são tão próximos dos humanos quanto os chimpanzés. Em outras palavras, são os nosso parentes mais próximos no reino animal. Apesar do enorme interesse da ciência em conhecê-los para estudos comparativos com a inteligência humana, são poucos os centros de pesquisa no mundo com recursos para estudá-los, seja na natureza ou em cativeiro.
Com sua experiência diversificada na área, Bastos conseguiu como cientista acesso a uma espécie de alto valor para compreender a evolução humana. Mais que isso, desenhou-se a oportunidade de entrar em contato com o indivíduo não humano com a maior capacidade de comunicação conhecida no planeta.
Cócegas fingidas
Kanzi já havia demonstrado em pesquisas anteriores saber diferenciar mais de 300 símbolos desenhados. Sue Savage-Rumbaugh, a cientista que descobriu essa capacidade excepcional do bonobo, estimava que ele sabia reconhecer mais de 3.000 palavras faladas em inglês.
— A gente visitou o Kanzi pela primeira vez em 2023, no centro de pesquisas Ape Initiative, em Iowa, só para entender como ele e os outros bonobos viviam ali — conta. — Quando você vai trabalhar com uma espécie nova, o mais importante é a observação. Só depois é que você começa a criar suas hipóteses, para saber o que vai testar de forma científica.
A ideia de estudar a capacidade de imaginação abstrata veio literalmente de uma brincadeira protagonizada pelo macaco, em um de seus primeiros contatos com ele.
— Eu e um aluno de doutorado estávamos de frente para o Kanzi, atrás de um vidro, e a primeira coisa que ele fez foi apontar para nós, depois apontar para o símbolo que significava ‘cócegas’ num quadro de símbolo que ele tinha — relata. — Então eu e o outro aluno fingimos que estávamos fazendo cosquinha um no outro, e o Kanzi achou isso engraçadíssimo.
Esse episódio semeou a ideia de fazer um experimento para investigar se, de fato, o bonobo entendia quando humanos estavam fingindo um comportamento. Esse trabalho foi coroado nesta semana com destaque na revista Science, a mais disputada do mundo, por Bastos e Krupenye terem demonstrado que a hipótese era verdadeira.
Vida e obra
O estudo publicado agora foi baseado em experimentos que terminaram menos de um ano antes de Kanzi morrer, em março de 2025. Com 44 anos, uma idade bastante avançada para sua espécie, ele estava passando por um tratamento para doença cardíaca que não deu conta de salvá-lo. Sua vida foi celebrada por ter sido um indivíduo que deixou enorme contribuição para a ciência cognitiva.
— Foi muito interessante conviver com ele. Ele sempre queria trabalhar, sempre estava feliz em estar ali — relata a pesquisadora. — Você chamava ele para fazer o estudo, ele vinha correndo, sentava e ficava prestando atenção.
Bastos diz que se sentiu bastante abalada quando soube da morte de Kanzi.
— Todo animal com quem você trabalha vira um colega seu. Você conhece os hábitos peculiares dele e o comportamento dele. Então, para mim, foi como perder um colega de trabalho — conta. — No caso dele foi uma perda muito especial porque não existe, e eu nem acho vai existir, um outro bonobo como o Kanzi.










