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A capital da Venezuela viveu um domingo (4) de forte tensão após os ataques aéreos realizados pelos Estados Unidos contra alvos estratégicos em Caracas durante a madrugada. Horas depois dos bombardeios, a cidade registrou longas filas em supermercados e postos de combustíveis, além de um visível aumento da presença policial e militar em áreas centrais e vias de acesso.
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De acordo com o jornal El Univesal, relatos publicados por moradores nas redes sociais mostravam concentração de pessoas em estabelecimentos comerciais desde as primeiras horas do dia, num movimento típico de momentos de instabilidade política e temor de desabastecimento. O transporte público operou de forma parcial, mas as três linhas do metrô de Caracas foram reativadas ao longo do domingo.
No plano institucional, o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela determinou que a vice-presidente Delcy Rodríguez assumisse interinamente as funções do Poder Executivo. Em pronunciamentos públicos, Rodríguez classificou a ação americana como uma “agressão imperialista” e voltou a conclamar a mobilização popular.
Ao mesmo tempo, o ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, pediu calma à população, enquanto o Ministério da Defesa da Venezuela confirmou o deslocamento imediato de unidades militares para a proteção de instalações consideradas críticas.
Fontes locais informaram que o fornecimento de energia elétrica foi restabelecido na maior parte das áreas do sul da cidade que haviam registrado apagões durante os ataques. Já o tráfego aéreo doméstico começou a ser retomado, e o Departamento de Transportes dos EUA anunciou o fim das restrições de voos no Caribe a partir deste domingo.
Segundo estimativa preliminar das autoridades venezuelanas, os bombardeios de sábado deixaram ao menos 40 mortos, entre civis e militares. Entre os locais atingidos estariam pontos estratégicos como o Forte Tiuna e o Aeroporto de La Carlota.
Os venezuelanos do sul do país têm buscado levar uma vida normal após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Apesar de ruas e comércios estarem cheios neste domingo e de o movimento turístico na região da Gran Sabana ter permanecido estável, moradores relataram desconfiança em relação ao que está por vir. Parte deles diz acreditar que nada mudará no país com a ascensão de Delcy Rodríguez, vice nomeada presidente de forma interina.
A avaliação é que o grupo político de Maduro segue no poder e Donald Trump não teria interesse em promover a democracia na Venezuela, mas sim em explorar recursos naturais e o petróleo do país. 
O GLOBO conversou ao longo deste domingo com moradores, comerciantes e indígenas do sul da Venezuela, durante um percurso de cerca de 200 quilômetros por cidades fronteiriças com o Brasil.
Muitos afirmam ter medo de falar com a imprensa e sofrer represálias do regime. Mas uma parte ressalta que Delcy representa a continuidade do grupo político chavista.
O técnico de comércio exterior Antonio Cárdenas, de 46 anos, morador de Santa Elena de Uairén, afirma não acreditar que Trump vá resolver a vida dos venezuelanos nem instaurar a democracia no país.
— O que os EUA fizeram foi um show. Uma mentira. Maduro foi embora, mas o regime fica. Não foi uma invasão, foi uma negociação. Negociaram a saída do Maduro. O povo segue sofrendo, essa é a verdade. Nosso futuro é incerto. Não há um poder democrático na Venezuela. Os extremos, de direita e de esquerda, são essa mentira. Quem está no meio sofre: o povo trabalhador, que quer uma economia pujante. As pessoas estão decepcionadas e com muito medo, porque afinal não houve liberdade na Venezuela. Não acredito que os EUA vão solucionar nada. Eles não estão interessados na Venezuela, estão interessados nos recursos da Venezuela — afirma.
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A avaliação vai ao encontro do que diz um morador que pediu para não ser identificado nem fotografado.
— Tudo o que estamos vendo é uma grande decepção para quem acreditava em mudança. Nada vai mudar na nossa vida do ponto de vista da repressão e do medo, porque o grupo de Maduro continua no comando. E tudo tende a piorar com outro país querendo ditar regras. Não tem liberdade sem autonomia — diz o venezuelano de Santa Elena de Uairén.
Por causa da distância de Caracas — cerca de 1.200 quilômetros da fronteira com o Brasil —, muitos não acreditam que a região será atingida por um possível segundo ataque dos Estados Unidos. 
Ainda assim, temem que a vida nas cidades do sul do país fique ainda mais difícil nos próximos dias, com falta de combustível e mantimentos, já que o acesso à região e o trânsito no país, de forma geral, têm sido dificultados por patrulhas e pontos de bloqueio do Exército.
— A Delcy nada mais é do que a continuidade do Maduro no poder. Se nada mudar de fato, se um governo legitimamente eleito não tomar posse, vamos continuar com os mesmos problemas. Um país sem infraestrutura, sem emprego, sem renda e ainda mais isolado do mundo. Não sabemos mais a quem recorrer. E não acredito que o Trump queira realmente mudar a vida do povo venezuelano. Ele está olhando apenas para os próprios interesses — diz outro morador, um comerciante de 29 anos que se identificou apenas como Ruan.
“Já chega!”, reagiu nesta segunda-feira o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielsen, após nova ameaça de anexação feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a defender que a ilha ártica deveria fazer parte do território americano.
A reação se juntou à da Colômbia, que também rechaçou as ameaças e acusações de Trump contra o presidente Gustavo Petro. Após os ataques à Venezuela, o presidente americano havia dito que realizar operação militar na Colômbia “soava bem”.
“Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação. Estamos abertos ao diálogo. Estamos abertos às discussões. Mas isso deve ser feito pelos canais adequados e com respeito ao direito internacional”, escreveu no Facebook o chefe do governo groenlandês.
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No domingo, Trump reiterou publicamente a intenção de anexar a Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca e considerado estratégico por suas riquezas naturais. A declaração ocorreu apesar dos reiterados apelos das autoridades locais e do governo de Copenhague para que Washington respeite a integridade territorial da ilha.
‘Em breve’
O embaixador da Dinamarca nos Estados Unidos pediu “respeito total” à integridade territorial da Groenlândia, após a esposa de um assessor de Donald Trump compartilhar uma imagem da ilha ártica dinamarquesa com as cores da bandeira dos EUA.
A postagem foi feita horas depois de o país atacar a Venezuela e capturar o presidente Nicolás Maduro, que foi levado à força para Nova York, onde deve ser julgado.
Katie Miller, esposa do chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, publicou a foto do sábado, em seu perfil na rede social X, acompanhada de uma breve legenda em letras maiúscula: “SOON” (“em breve”, em tradução).
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Desde o seu regresso à Casa Branca em janeiro, Trump afirmou em repetidas ocasiões que os Estados Unidos “necessitam” deste território autônomo da Dinamarca, rico em recursos, por razões de segurança, e negou-se a descartar o uso da força para controlá-lo.
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A publicação de Miller em X também foi produzida depois que o exército dos Estados Unidos capturou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, durante uma incursão militar surpreendente que incluiu bombardeios sobre a capital, Caracas, e outras regiões do país.
“Um pequeno lembrete amigável sobre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca: somos aliados próximos e devemos continuar a trabalhar juntos como tal”, disse Jesper Møller Sørensen, embaixador da Dinamarca nos Estados Unidos, em resposta à mensagem de Katie Miller.
“E sim, esperamos o respeito total da integridade territorial do Reino da Dinamarca”, escreveu.
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Especialistas consideraram que a operação na Venezuela é uma advertência aos aliados dos Estados Unidos preocupados com as ameaças de Trump de apoderar-se de recursos estratégicos, começando por sua declaração voluntária de anexação da Groenlândia. O presidente deixou claro o interesse no petróleo venezuelano e, na coletiva que concedeu em sua residência na Flórida ainda no sábado, garantiu que empresas petrolíferas americanas vão assumir a produção e a exploração do recurso em solo venezuelano. Nos últimos meses, o governo dos EUA roubou barcos carregados com petróleo que deixavam o país latino-americano.
— Nossas grandes petrolíferas, as maiores de qualquer lugar no mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar infraestrutura horrivelmente quebrada, a infraestrutura do petróleo, e começar a fazer dinheiro para o país — disse Trump no pronunciamento inicial à imprensa, durante entrevista coletiva em Mar-a-Lago.
Katie Miller foi durante um tempo assessora e porta-voz da comissão para a eficácia governamental Doge, então dirigida por Elon Musk, antes de ser contratada pelo multimilionário no setor privado.
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O Irã afirmou nesta segunda-feira que suas relações com a Venezuela permanecem inalteradas, apesar da saída do presidente Nicolás Maduro, exfiltrado para os Estados Unidos após uma intervenção militar norte-americana em Caracas para detê-lo. Além disso, o governo iraniano pediu a libertação do venezuelano e classificou a operação como ilegal.
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“Nossas relações com todos os países, incluindo a Venezuela, baseiam-se no respeito mútuo e continuarão sendo assim”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqai, em uma coletiva de imprensa. “Estamos em contato com as autoridades venezuelanas”, acrescentou.
Teerã também se manifestou em defesa de Maduro. O país, que mantém relações estreitas com a Venezuela, pediu a libertação do presidente venezuelano.
“O presidente de um país e sua esposa foram sequestrados. Não há motivo para se orgulhar, é um ato ilegal”, declarou Baqai. “Como o povo venezuelano destacou, seu presidente deve ser libertado”, acrescentou durante a coletiva.
Ameaça à Colômbia
Um dia após a operação que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou realizar uma ação militar contra o governo da Colômbia, enquanto o presidente colombiano, Gustavo Petro, classificava como “sequestro” a captura de Maduro.
Em conversa com jornalistas, o republicano ainda comentou sobre a possibilidade de uma operação em território cubano e reforçou que Washington “precisa” da Groenlândia, território que vem sendo cobiçado pelo presidente desde antes do início de seu segundo mandato à frente da Casa Branca.
— A Colômbia também está muito doente, administrada por um homem doente, que gosta de fazer cocaína e vendê-la para os Estados Unidos, e ele não vai fazer isso por muito tempo — disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One, em uma aparente referência a Petro.
Questionado sobre a possibilidade de os EUA buscarem uma operação militar contra a Colômbia, Trump respondeu: “Parece bom para mim”.
Petro é um dos maiores críticos do presidente americano e tem questionado duramente as ações militares dos EUA na região sob justificativa de combate ao narcotráfico.
“Sem base legal para realizar uma ação contra a soberania da Venezuela, a detenção se transforma em sequestro”, escreveu Petro neste domingo no X.
O presidente colombiano já travou diversos embates públicos com Trump e chegou a ser acusado pelo republicano de ser “conivente” com o narcotráfico. Durante a coletiva de imprensa de sábado, na qual detalhou a operação na Venezuela, o presidente americano intensificou a pressão sobre Petro e declarou que o colombiano “precisa ficar de olho no próprio traseiro”, em resposta à fala do colombiano indicando não teme ser o próximo alvo de Trump.
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Trump afirmou ainda que Cuba, país que está entre os aliados mais próximos de Caracas, está “prestes a cair”, e minimizou a necessidade de qualquer ação militar dos EUA no país.
— Cuba está pronta para cair — declarou o republicano, acrescentando que seria difícil para Havana “resistir” sem receber o petróleo venezuelano, que é fortemente subsidiado. — Não acho que precisemos de nenhuma ação. Parece que o país está prestes a sucumbir.
O presidente americano afirmou ainda que muitos cubanos que faziam parte da equipe de segurança de Maduro morreram durante a operação de sábado. O governo cubano informou no domingo que 32 cubanos morreram em combate durante o ataque americano na Venezuela.
No sábado, Trump havia sugerido que Cuba poderia voltar ao centro das discussões da política externa americana, em meio à escalada de tensões na América Latina. A sinalização foi reforçada por declarações do secretário de Estado, Marco Rubio, que fez duras críticas ao governo cubano:
— Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado — declarou.
A movimentação de carros com tração nas quatro rodas em San Francisco de Yuruaní, comunidade indígena localizada no município de Gran Sabana, no estado de Bolívar, a cerca de 80 quilômetros da fronteira com o Brasil, era intensa às 16h de domingo.
Os turistas, em sua maioria brasileiros, voltavam de picos rochosos e cachoeiras da região e se aglomeravam na vila para comer churrasco na brasa, se hidratar e comprar chaveiros e ímãs de geladeira como lembrança.
Dona de uma loja de suvenires, Cona Sossi, de 50 anos, diz que a movimentação de turistas estava `dentro do normal’, diante do calor na casa dos 30 graus e céu com poucas nuvens.
No sul da Venezuela, população segue rotina apesar de apreensão sobre o futuro do país
No sul da Venezuela, ainda não havia qualquer impacto dos ataques dos Estados Unidos e a captura de Nicolás Maduro.
— Como muitos turistas compram pacotes com antecedência, eles não deixaram de vir. Está tudo normal. Nossa preocupação é que o turismo caia daqui para frente e que as agências deixem de fechar novos pacotes por causa do medo de uma guerra no país — afirma Sossi.
As lembranças de viagem na loja de Cona variam de R$ 25 a R$ 120. Uma água mineral e um cafezinho na loja ao lado saem por R$ 7. Os pagamentos podem ser feitos em reais ou dólares. Uma via de cerca de 1 quilômetro corta a vila, que tinha mais de 30 bares e lojas abertas, em estilo rústico, todas com clientes circulando com sacolas.
Churrasco em Gran Sabana, na Venezuela
Patrik Camporez / O Globo
Com rios cristalinos e vastas áreas de selva, a região atrai turistas de toda a América Latina. As estradas que cortam a área passam próximas a vales e rios de águas cristalinas, onde os visitantes costumam parar para se banhar. Em um posto de combustível à beira da rodovia, havia cerca de 80 carros de turistas aguardando para abastecer. O litro do combustível custa R$ 6 ou US$ 1 para turistas.
Poucos quiseram falar sobre a crise venezuelana e se limitavam a dizer que queriam aproveitar o passeio sem se preocupar com o que estava acontecendo nas redondezas de Caracas.
O clima nas áreas turísticas contrasta com a preocupação dos moradores, que, além do medo de perder a renda do turismo, temem que o país entre em uma espécie de convulsão social, sem condições de governança.
Ao longo deste domingo, o GLOBO percorreu cerca de 200 quilômetros por cidades, vilas e comunidades indígenas na região sul da Venezuela.
Durante os 13 anos em que Nicolás Maduro permaneceu no poder, venezuelanos passaram a se acostumar com os efeitos da crise econômica e a escassez. Qualquer reviravolta do cenário político em Caracas ou agravamento da crise institucional levam às mesmas preocupações: ter comida na mesa e se manter em local seguro. 
Após a captura do líder autoritário e o ataque dos Estados Unidos, cidadãos mantêm a rotina, mas desconfiam do que está por vir. No sul da Venezuela, em uma quitanda na cidade de Santa Elena de Uairén, a 15 quilômetros da fronteira com o Brasil, a auxiliar de enfermagem Carmén Joaquim, de 56 anos, resolveu encher a sacola com mandioca, carne moída e abobrinha.
— Não se sabe como será o dia de amanhã — disse ela, expressando dúvidas sobre os próximos dias.
No sul da Venezuela, população segue rotina apesar de apreensão sobre o futuro do país
Para uma tarde de domingo, o comércio no sul do país estava lotado. A maior parte dos clientes evitava falar de política e da prisão do presidente do país, ocorrida no dia anterior, regra seguida por quem tem receio de virar alvo do regime autoritário.
Os poucos que concordaram em falar com O GLOBO buscavam expor suas preocupações com coisas mais imediatas, como o risco de escassez de comida, gasolina e invasão armada.
— Nossa região é muito sofrida. Faz anos que falta tudo. O salário não dá para comprar comida, não dá para passar o mês. Agora imaginamos que isso vá piorar, porque, com o risco de uma guerra no nosso país, ninguém vai querer transportar mercadorias para nós — acrescenta Carmén.
Venezuelanos em cidade perto da fronteira com o Brasil
Patrik Camporez / O Globo
O GLOBO percorreu, ao longo deste domingo, cerca de 200 quilômetros por cidades, vilas e comunidades indígenas na região sul da Venezuela. 
Apesar do clima de tensão, a população segue a fazer caminhadas no fim da tarde, passeios com cachorros e idas ao cabeleireiro. 
Nos primeiros 80 quilômetros após a fronteira com o Brasil, no sentido de Caracas, há uma barreira do Exército a cada 20 quilômetros. Segundo comerciantes locais, como a fiscalização ficou mais ostensiva, muitos transportadores de mercadorias e alimentos têm receio de passar pelos bloqueios e temem que, aos poucos, isso possa ter efeitos negativos.
Em um supermercado de Santa Elena de Uairén, havia filas nos três caixas para pagamento das compras.
Dono de uma oficina mecânica na cidade, Fernando Milagres, de 25 anos, conta que tem atendido clientes normalmente e diz que o movimento até aumentou nos últimos dois dias.
— Por enquanto, o que está acontecendo em Caracas não nos afetou. Meu maior medo é que comece a faltar combustível, pois não está chegando abastecimento aos postos por causa de bloqueios nas estradas. Nosso povo também teme que haja uma invasão maior e guerra no território — relata.
O sul da Venezuela abriga diversas etnias indígenas que vivem do artesanato, da pesca e da caça, na região da Gran Sabana, no sul do país. 
O GLOBO visitou uma aldeia da etnia Pemón, localizada a 70 quilômetros da fronteira com o Brasil. No local, indígenas disseram que a vida do povo segue normalmente e que procuram não se deixar afetar pelo que está acontecendo na capital.
No fim da tarde de domingo, crianças brincavam tranquilamente no interior da aldeia, enquanto jovens produziam artesanato nas calçadas.
— Levamos nossa cultura e nossa vida. Não podemos esquecer nossa cultura, de onde viemos. Buscamos seguir vivendo normalmente — disse Sarai Franco, de 18 anos.
Artesato feito por indígenas no sul da Venezuela
Patrik Camporez / O Globo
Fronteira
Um dia após os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela, a fronteira com o Brasil amanheceu reaberta, com fluxo intenso de carros e pessoas em direção a Pacaraima, em Roraima, a primeira cidade do lado brasileiro. Venezuelanos que deixavam o país relatavam tensão com os bombardeios registrados na madrugada de sábado e incertezas sobre o que irá acontecer daqui para a frente.
Ao GLOBO, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PP), disse temer que a crise na Venezuela gere uma nova onda de refugiados no estado e sugeriu ao governo federal o fechamento temporário da fronteira com o país. O pedido foi feito aos ministros da Defesa, José Múcio, da Casa Civil, Rui Costa, e de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, com quem o governador conversou neste sábado.
Em entrevista na noite de ontem, após uma reunião no Itamaraty, o ministro da Defesa afirmou que a situação na fronteira era “tranquila”, mas que haverá um “plantão” para o caso de novos acontecimentos.
Como mostrou o GLOBO, uma das principais preocupações do governo brasileiro diante dos ataques dos Estados Unidos à Venezuela é a extensa fronteira terrestre compartilhada pelos dois países, com mais de 2 mil quilômetros de extensão. Avaliações feitas no Palácio do Planalto e em áreas da segurança indicam que a instabilidade no território venezuelano pode gerar impactos diretos sobre a região Norte do Brasil.
A falta de infraestrutura de carregamento no Brasil dificulta a expansão do uso de veículos elétricos puros, e o segmento de ônibus também é afetado, o que atrasa o processo de descarbonização da frota do país. Por isso, a Marcopolo, líder na fabricação de carrocerias no país e desenvolvedora de soluções de mobilidade sustentável, criou um ônibus elétrico movido a etanol. A previsão é que o veículo esteja disponível ao mercado em 2026. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
Pouco antes do meio-dia de um domingo de outubro, os passageiros se acomodaram no convés superior do American Princess, um navio de cruzeiro de 29 metros que partiu de Sheepshead Bay, no bairro do Brooklyn, em Nova York, rumo ao Oceano Atlântico em busca de baleias.
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Eles não precisaram esperar muito para encontrar uma. Depois de contornar Breezy Point, no Queens, o capitão desligou o motor e os turistas correram para o lado de bombordo quando a crista cinza-vítrea da barbatana dorsal de uma baleia jubarte rompeu a superfície das ondas.
A equipe havia encontrado a fêmea de 8,8 metros e 5.760 quilos três dias antes e visto mais de uma dúzia de cicatrizes superficiais ao longo de suas costas.
Duas semanas depois, a mesma baleia encalhou em um banco de areia perto de Long Beach Island, Nova Jersey, e morreu no dia seguinte. Funcionários do Marine Mammal Stranding Center, um serviço de resgate de animais com sede em Nova Jersey, determinaram que a hélice de um navio a havia ferido em agosto. Uma necropsia revelou que ela estava gravemente abaixo do peso e apresentava sinais de doença renal, informou a instituição.
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Após terem sido caçadas quase até a extinção, as populações de baleias têm se recuperado lentamente em todo o Atlântico desde a aprovação de diversas medidas de proteção, incluindo uma moratória internacional sobre a caça comercial de baleias em 1986. Pesquisadores têm observado recentemente um número maior de baleias permanecendo na costa do porto de Nova York para se alimentar de lançons, arenques-do-atlântico e outros peixes pequenos, em vez de continuarem para suas áreas de alimentação tradicionais no Golfo do Maine.
Eles estão longe de ser os únicos na rodovia aquática de Nova York. O tráfego de navios porta-contêineres, petroleiros e barcos de pesca tornou-se mais congestionado desde a pandemia do coronavírus, o que levou a colisões e emaranhamentos que contribuem para o encalhe de baleias em Nova York e Nova Jersey. Os esforços para reduzir a velocidade de embarcações menores estagnaram e as leis federais que protegem os mamíferos marinhos estão sendo enfraquecidas.
— Existem pequenas rodovias invisíveis que atravessam o território das baleias jubarte — disse Joy Reidenberg, que estuda a estrutura e a função dos corpos dos animais na Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai. — É como um cervo atravessando a estrada. Eles não sabem que um barco está vindo, e o que temos é um atropelamento oceânico.
Uma baleia emerge do Oceano Atlântico perto de Atlantic Beach durante um cruzeiro de observação de baleias no inverno com a American Princess Cruises, em 15 de novembro de 2025
Johnny Milano / The New York Times
Os cientistas ainda estão tentando entender por que Nova York se tornou um destino para baleias.
Ao longo dos últimos 15 anos, a Gotham Whale, uma organização sem fins lucrativos que monitora a vida marinha de Nova York, identificou 486 baleias-jubarte diferentes na Baía de Nova York, a área marítima em forma de crescente entre Cape May, Nova Jersey, e Montauk Point, no extremo leste de Long Island. A organização também identificou várias baleias-minke, menos comuns, e baleias-fin, baleias-sei, cachalotes e baleias-francas-do-atlântico-norte, espécies ameaçadas de extinção a nível federal e entre as mais raras do mundo. Os pesquisadores observam entre 70 e 90 baleias-jubarte anualmente desde 2019, mas contabilizaram 168 no ano passado, um recorde para a organização.
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As temperaturas da água no Golfo do Maine aumentaram devido aos efeitos das mudanças climáticas, e muitas baleias estão passando mais meses perto de Nova York para se alimentar. O porto ficou mais limpo graças a anos de investimentos na modernização da infraestrutura de esgoto e estacas, o que impulsionou o retorno da vida marinha. Restrições estaduais que limitam a quantidade de arenque-do-mar que os pescadores comerciais podem capturar e proíbem grandes redes, conhecidas como redes de cerco, permitiram que as populações de peixes prosperassem.
Muitas baleias jubarte avistadas perto da costa têm menos de 6 anos ou são adultos mais velhos que já passaram da idade reprodutiva. Os cientistas acreditam que os juvenis estão evitando a competição com os adultos e encontraram uma oferta abundante de presas, em vez de viajarem mais para o norte.
— Se você é jovem, não está interessado em acasalar ou dar à luz — disse Reidenberg, acrescentando: — Estamos vendo um padrão de baleias jovens e baleias mais velhas permanecendo perto das águas de Nova York porque é um meio-termo.
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O buffet de frutos-do-mar deles fica situado em uma das vias navegáveis ​​mais movimentadas do país. O Porto de Nova York-Nova Jersey é o mais movimentado da Costa Leste e está entre os três portos mais movimentados do país. Em 2024, um ano com leve queda no movimento, 60.928 embarcações comerciais e 760 embarcações de recreio, como iates particulares e barcos de pesca, transitaram pelo Canal Ambrose, a principal rota de navegação do porto, que liga Sandy Hook, Nova Jersey, a Rockaways, segundo a Guarda Costeira dos EUA.
O volume de carga que entra no porto de Nova York aumentou consideravelmente desde a pandemia, quando muitos importadores redirecionaram seus embarques para o Nordeste. Os volumes de carga saltaram 11% entre 2023 e 2024, e 2.678 navios atracaram nos portos da região em 2024, o maior número desde 2015, segundo registros da Autoridade Portuária.
Os relatos de baleias encalhadas também se tornaram mais comuns. Entre 1980 e 2009, a região de Nova York registrou uma média de dois a três encalhes por ano, de acordo com dados da Atlantic Marine Conservation Society. De 2017 a 2025, a média anual saltou para mais de 11, com quase metade das baleias apresentando sinais de interferência humana, como fraturas causadas por colisões com embarcações, ou ferimentos provocados por hélices, ou equipamentos de pesca. Nova Jersey apresentou um aumento semelhante, com 77 encalhes durante o período de nove anos.
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Os mamíferos marinhos são particularmente vulneráveis ​​a colisões com grandes navios-tanque, cuja força pode dobrar seus corpos ao meio. As baleias-jubarte têm uma visão tão deficiente que não conseguem perceber a proa bulbosa do navio se aproximando.
— A baleia pode ouvir o navio, mas não percebe que ele está se aproximando porque o som vem das hélices ou do motor mais próximo da popa — disse Danielle Brown, estudante de pós-doutorado em ecologia da Universidade Rutgers e diretora de pesquisa da Gotham Whales. — Quando estão se alimentando, elas ficam distraídas e se movimentam ativamente, mergulhando repetidamente.
A tripulação pode não perceber que atingiu uma baleia até atracar. Quando um navio de cruzeiro da MSC chegou ao Brooklyn em maio de 2024, seu capitão descobriu uma baleia-sei de 13,4 metros, espécie ameaçada de extinção, estendida na proa. A baleia estava em boas condições de saúde antes de o navio fraturar sua omoplata, concluíram os cientistas da AMSEAS.
Embarcações menores também podem causar ferimentos graves. As baleias se acostumaram tanto com o som dos barcos que chegam a se aproximar deles enquanto se alimentam, dizem os pesquisadores. Pescadores que usam redes de arrasto para capturar atum e robalo podem avançar em direção a cardumes de menhaden, ignorando a provável presença de baleias.
— A baleia é essencialmente um indicador de que pode haver atum por perto — disse Charles Witek, um pescador amador de Long Island. Ele acrescentou: — Conheço pescadores que já fisgaram baleias acidentalmente.
Os equipamentos de pesca representam suas próprias ameaças. Quando uma baleia se depara com longas cordas verticais presas a armadilhas para lagostas, ela instintivamente rola para longe, enrolando involuntariamente a grossa corda em sua barbatana dorsal, cauda e boca.
— Esse arrasto desgasta a baleia e pode cortar sua carne, causando infecções, ou até mesmo decepando parte de sua cauda, ou nadadeira, e impedindo-a de se alimentar — disse Reidenberg.
Os esforços para fortalecer as leis federais a fim de reduzir o risco de colisões e emaranhamentos têm apresentado poucos avanços.
Em 2022, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) tentou reduzir os limites de velocidade para embarcações entre 35 e 65 pés para no máximo 10 nós, de novembro a maio, período em que as baleias-francas migram pelo Atlântico Central. A regra aplicava-se apenas a embarcações com mais de 65 pés, mas a NOAA retirou a proposta em janeiro, após intensa pressão da indústria da pesca esportiva.
Em julho, os republicanos da Câmara elaboraram revisões à Lei de Proteção de Mamíferos Marinhos que poderiam permitir maior assédio a esses animais e adiar restrições a equipamentos de pesca. Quatro meses depois, o governo Trump propôs novas regras para a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção que permitiriam a invasão de seus habitats e ignorariam quaisquer efeitos das mudanças climáticas.
Os pescadores e grupos de defesa marítima de Nova York propuseram suas próprias soluções. Concessionárias de iates estão experimentando câmeras térmicas caras que usam inteligência artificial para identificar objetos e compartilhar dados com navegantes próximos. Alguns pescadores comerciais compraram linhas de pesca com sistema de desengate rápido e armadilhas sem corda com sinais acústicos, que são muito mais caras do que os equipamentos de pesca convencionais.
A opção mais econômica é um curso online gratuito. O tutorial de 30 minutos, lançado em setembro pela Nature Conservancy e diversas outras organizações, oferece dicas para operadores de barcos sobre como reconhecer baleias no oceano e evitar colisões.
— A realidade é que muitas baleias estão sendo atingidas por barcos, e não são apenas navios grandes — disse Carl Lobue, cientista marinho da Nature Conservancy. — Ninguém quer atingir uma baleia.
O presidente russo Vladimir Putin está em guerra há quase quatro anos na fronteira oeste de seu vasto país para preservar o que ele considera uma parte vital do “mundo russo”: os cidadãos da Ucrânia que falam russo e têm laços sanguíneos com a Rússia. A mais de 4.800 quilômetros a leste, no entanto, a Rússia já perdeu um posto avançado estrangeiro secular de sua língua e cultura — um remoto pedaço do norte da China sepultado no gelo e na neve.
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Criada pelo governo chinês, nominalmente para proteger as tradições folclóricas e a identidade da pequena minoria russa da China, a “vila étnica russa” de Enhe tem muitas bétulas, neve espessa, cabanas de madeira ao estilo siberiano, escrita cirílica e vodca.
A única coisa que falta são russos de verdade.
O mais próximo que se chega disso são pessoas como o chefe do município, Li Peng, um descendente distante dos russos que, a partir do século XVII, dominaram as terras fronteiriças entre a Rússia e o que hoje é a região chinesa da Mongólia Interior.
Após gerações de casamentos mistos com chineses, mongóis e outros habitantes locais, os “russos étnicos” de Enhe perderam o contato com a língua, as tradições e a fé cristã ortodoxa de seus antepassados.
— Daqui a alguns anos, seremos como qualquer outro lugar — disse o chefe da aldeia. Membro do Partido Comunista, ele descreveu o desaparecimento gradual de uma identidade russa distinta como o resultado positivo da política do Estado chinês em relação às minorias étnicas. Essa política visa fundir os diversos grupos étnicos do país em uma única China indivisível, unida na obediência ao presidente Xi Jinping.
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Em 2022, Xi Jinping disse a autoridades da Mongólia Interior, em Pequim, que os grupos étnicos da China — incluindo 55 minorias oficialmente designadas — devem “permanecer unidos como sementes de romã”. Essa ordem reduziu drasticamente o espaço para todos os idiomas que não o mandarim e para culturas que não sejam a dos chineses han, que representam mais de 90% da população. Ela levou a duras repressões em locais com grandes minorias étnicas, por vezes rebeldes, como Xinjiang e Tibete. As autoridades também aumentaram a pressão na Mongólia Interior, onde alguns mongóis étnicos protestaram contra as restrições ao ensino de seu idioma.
Prédios com elementos decorativos em estilo russo, criados para atrair turistas, em Ergun, China
Gilles Sabrié/The New York Times
Mesmo em Enhe, onde a campanha de assimilação evidentemente obteve grande sucesso, as autoridades estavam nervosas. Quando um repórter e um fotógrafo do New York Times visitaram a cidade, funcionários do escritório de relações exteriores da região os seguiram a cada passo e interromperam as entrevistas de maneira incomumente intrusiva.
A poucos quilômetros do rio Argun, que marca a fronteira com a Rússia, Enhe tem hoje apenas 2.895 habitantes. Mais de 40% estão oficialmente registrados como russos étnicos, mas poucos falam outra língua além do chinês, segundo as autoridades.
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A cultura russa em Enhe sobrevive em grande parte como uma caricatura folclórica criada para atrair turistas chineses. Ela tem sido mantida viva em um museu local que exibe samovares, bonecas russas, placas de Stalin, uma sauna de madeira e modelos de cera de russos vestindo trajes tradicionais antiquados.
Uma grande mesa de madeira foi abarrotada com uma variedade de pratos da culinária russa — pão, salsichas e carne assada em espetos, todos de plástico.
Um guia exibiu um antigo álbum de vinil com inscrições em cirílico, descrevendo-o como obra de um “famoso músico russo”. Era uma gravação pirata soviética de um álbum de Elton John.
Li, o chefe do município, entende apenas algumas palavras de russo e fala chinês em casa com sua esposa, outra descendente de etnia mista dos primeiros colonizadores russos, e seu filho. Ele disse que celebram a Páscoa Ortodoxa, mas “apenas como um feriado cultural” que “não tem nada a ver com religião”.
Zhou Yong, um pastor que carregava carvão para aquecer sua casa numa tarde recente, disse que estava registrado como russo étnico, mas falava apenas chinês. Questionado se já tinha ouvido falar de “Pujing”, como Putin é chamado em chinês, hesitou antes de dizer que “já tinha ouvido falar de alguém com esse nome na mídia”. (Um funcionário interveio bruscamente, dizendo que perguntas sobre Putin violavam as “regras de reportagem”.)
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A escola primária de Enhe não ensina russo, uma omissão que Putin denunciou como uma violação intolerável dos direitos dos russos étnicos em países como a Ucrânia e os Estados Bálticos. Restrições às atividades da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia também são regularmente denunciadas por Moscou.
Em Enhe, a Igreja Ortodoxa desapareceu. Uma cruz cristã ortodoxa que adornava o topo de uma cúpula dourada em um prédio de madeira fechado no centro da vila foi derrubada. As autoridades locais negam que ela tenha existido, apesar de a cruz ser claramente visível em fotos antigas.
A igreja mais próxima fica a uma hora de carro, na cidade de Ergun, onde a Igreja de Santo Inocêncio de Irkutsk foi recentemente reformada e transformada em ponto turístico. Não há missas regulares. Fechada em um domingo recente, a igreja é ladeada pela “Praça da Unidade”, um parque repleto de cartazes com declarações de Xi Jinping conclamando à unidade étnica. No centro do parque, ergue-se uma grande romã de concreto, decorada com uma inscrição de Xi.
Uma longa faixa vermelha na cerca da igreja exige a “sinização da religião”, uma referência a uma política anunciada por Xi em 2016 para fortalecer o controle do partido sobre a vida religiosa.
Com uma população de apenas cerca de 16.000 pessoas, os russos étnicos vivem dispersos ao longo dos 4.216 quilômetros da fronteira da China com a Rússia. Enhe é o único local designado como área reservada para russos étnicos.
Os russos começaram a chegar em grande número no século XIX, após a descoberta de jazidas de ouro. Os russos administravam as minas de ouro, bem como a construção e operação de uma linha férrea, enquanto trabalhadores chineses, quase todos solteiros, chegavam em grande número para trabalhar em empreendimentos liderados pelos russos. Muitos se casaram com mulheres russas.
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Mais russos chegaram após a Revolução Bolchevique de 1917, com os “russos brancos” anticomunistas se estabelecendo no lado chinês da fronteira, acreditando que o comunismo entraria em colapso em breve na Rússia e que eles poderiam retornar para casa.
Assim como outras minorias étnicas na China, os russos étnicos sofreram durante a Revolução Cultural, um período de turbulência política que se estendeu de 1966 a 1976. Os laços anteriormente estreitos entre Moscou e Pequim se romperam, levando a um conflito armado em 1969 ao longo da fronteira. Os russos étnicos foram denunciados pela Guarda Vermelha de Mao Tsé-Tung, que destruiu suas igrejas. Muitos fugiram para a Rússia ou para outros países.
Esse episódio foi agora apagado da história oficial, com Xi e Putin se abraçando no que chamam de “amizade sem limites”.
— Não conheço muito bem essa parte da história — disse Zou Yu, escritor e especialista em cultura e história local de Ergun. — Talvez algumas coisas tenham acontecido naquela época, mas agora tudo está excelente — acrescentou.
Em dezembro, quando as temperaturas caem abaixo de -22 graus, Enhe se torna uma cidade-fantasma, restando apenas funcionários e alguns pastores de gado e ovelhas. No verão, porém, ainda há alguns russos étnicos que falam russo fluentemente, em sua maioria idosos, que partem durante o inverno, segundo Li.
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Durante essa temporada, Enhe atrai dezenas de milhares de turistas chineses, seduzidos pela perspectiva de experimentar um pouco da Rússia e da Europa sem se preocupar com vistos. Prédios em estilo russo falso pontilham as ruas, juntamente com grandes ovos de Páscoa pintados e elementos incongruentemente não russos, como um moinho de vento holandês.
Os visitantes chineses, disse Li, “gostam do toque estrangeiro”.
Zou, o especialista em cultura, afirmou que a erosão da língua e do estilo de vida russos na região foi resultado de casamentos mistos, que envolveram principalmente mulheres de etnia russa e homens de etnia chinesa Han.
— Se uma mulher se casa com uma galinha, ela segue a galinha; se ela se casa com um cachorro, ela segue o cachorro — disse ele, usando um provérbio chinês que reflete a visão tradicional de que as mulheres devem se curvar aos seus maridos.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, rejeitou nesse domingo as ameaças e acusações de seu par norte-americano, Donald Trump, contra ele, que afirma, sem apresentar provas, que Petro é um líder narcotraficante.
Mais cedo, Trump disse que lhe parecia “boa” uma operação semelhante à da Venezuela na Colômbia, acusou Petro de traficar drogas para os Estados Unidos e afirmou que ele “não vai fazer isso por muito mais tempo”, em uma nova ameaça ao mandatário colombiano.
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Petro critica duramente a ação militar do governo Trump na região e acusa os Estados Unidos do “sequestro” de Nicolás Maduro, capturado em Caracas após os bombardeios de Washington na madrugada de sábado.
“Meu nome (…) não aparece nos arquivos judiciais sobre narcotráfico. Pare de me caluniar, senhor Trump”, disse Petro na rede X.
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Apenas um dia depois de dizer que Petro deveria “cuidar da própria bunda”, Trump se referiu ao presidente colombiano como um “homem doente” que “gosta de cheirar cocaína”.
A chancelaria colombiana classificou as ameaças do mandatário norte-americano como uma “ingerência inaceitável” e pediu “respeito”.
Desde que iniciou seu segundo mandato, em janeiro de 2025, Trump e Petro têm se chocado repetidamente em temas como política tarifária e migração. Colômbia e Estados Unidos, aliados militares e econômicos-chave na região, vivem o pior momento de sua relação bilateral.

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