O presidente russo Vladimir Putin está em guerra há quase quatro anos na fronteira oeste de seu vasto país para preservar o que ele considera uma parte vital do “mundo russo”: os cidadãos da Ucrânia que falam russo e têm laços sanguíneos com a Rússia. A mais de 4.800 quilômetros a leste, no entanto, a Rússia já perdeu um posto avançado estrangeiro secular de sua língua e cultura — um remoto pedaço do norte da China sepultado no gelo e na neve.
Ataques e sequestro de presidente: Ações dos EUA contra Venezuela são recado para a América Latina contra a China, avalia diplomata venezuelano
Entenda: Na China, a IA está encontrando tumores mortais que médicos podem não perceber
Criada pelo governo chinês, nominalmente para proteger as tradições folclóricas e a identidade da pequena minoria russa da China, a “vila étnica russa” de Enhe tem muitas bétulas, neve espessa, cabanas de madeira ao estilo siberiano, escrita cirílica e vodca.
A única coisa que falta são russos de verdade.
O mais próximo que se chega disso são pessoas como o chefe do município, Li Peng, um descendente distante dos russos que, a partir do século XVII, dominaram as terras fronteiriças entre a Rússia e o que hoje é a região chinesa da Mongólia Interior.
Após gerações de casamentos mistos com chineses, mongóis e outros habitantes locais, os “russos étnicos” de Enhe perderam o contato com a língua, as tradições e a fé cristã ortodoxa de seus antepassados.
— Daqui a alguns anos, seremos como qualquer outro lugar — disse o chefe da aldeia. Membro do Partido Comunista, ele descreveu o desaparecimento gradual de uma identidade russa distinta como o resultado positivo da política do Estado chinês em relação às minorias étnicas. Essa política visa fundir os diversos grupos étnicos do país em uma única China indivisível, unida na obediência ao presidente Xi Jinping.
Yuan digital: China anuncia ‘plano de ação’ para incentivar maior adoção da moeda
Em 2022, Xi Jinping disse a autoridades da Mongólia Interior, em Pequim, que os grupos étnicos da China — incluindo 55 minorias oficialmente designadas — devem “permanecer unidos como sementes de romã”. Essa ordem reduziu drasticamente o espaço para todos os idiomas que não o mandarim e para culturas que não sejam a dos chineses han, que representam mais de 90% da população. Ela levou a duras repressões em locais com grandes minorias étnicas, por vezes rebeldes, como Xinjiang e Tibete. As autoridades também aumentaram a pressão na Mongólia Interior, onde alguns mongóis étnicos protestaram contra as restrições ao ensino de seu idioma.
Prédios com elementos decorativos em estilo russo, criados para atrair turistas, em Ergun, China
Gilles Sabrié/The New York Times
Mesmo em Enhe, onde a campanha de assimilação evidentemente obteve grande sucesso, as autoridades estavam nervosas. Quando um repórter e um fotógrafo do New York Times visitaram a cidade, funcionários do escritório de relações exteriores da região os seguiram a cada passo e interromperam as entrevistas de maneira incomumente intrusiva.
A poucos quilômetros do rio Argun, que marca a fronteira com a Rússia, Enhe tem hoje apenas 2.895 habitantes. Mais de 40% estão oficialmente registrados como russos étnicos, mas poucos falam outra língua além do chinês, segundo as autoridades.
Guerra tecnológica: Meta compra startup chinesa, amplia disputa com rivais e pode acirrar tensão EUA-China
A cultura russa em Enhe sobrevive em grande parte como uma caricatura folclórica criada para atrair turistas chineses. Ela tem sido mantida viva em um museu local que exibe samovares, bonecas russas, placas de Stalin, uma sauna de madeira e modelos de cera de russos vestindo trajes tradicionais antiquados.
Uma grande mesa de madeira foi abarrotada com uma variedade de pratos da culinária russa — pão, salsichas e carne assada em espetos, todos de plástico.
Um guia exibiu um antigo álbum de vinil com inscrições em cirílico, descrevendo-o como obra de um “famoso músico russo”. Era uma gravação pirata soviética de um álbum de Elton John.
Li, o chefe do município, entende apenas algumas palavras de russo e fala chinês em casa com sua esposa, outra descendente de etnia mista dos primeiros colonizadores russos, e seu filho. Ele disse que celebram a Páscoa Ortodoxa, mas “apenas como um feriado cultural” que “não tem nada a ver com religião”.
Zhou Yong, um pastor que carregava carvão para aquecer sua casa numa tarde recente, disse que estava registrado como russo étnico, mas falava apenas chinês. Questionado se já tinha ouvido falar de “Pujing”, como Putin é chamado em chinês, hesitou antes de dizer que “já tinha ouvido falar de alguém com esse nome na mídia”. (Um funcionário interveio bruscamente, dizendo que perguntas sobre Putin violavam as “regras de reportagem”.)
‘Forças da natureza’ ou ‘Revolta das máquinas’? Em vídeo com IA, China transforma animais em armas para ameaçar Taiwan
A escola primária de Enhe não ensina russo, uma omissão que Putin denunciou como uma violação intolerável dos direitos dos russos étnicos em países como a Ucrânia e os Estados Bálticos. Restrições às atividades da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia também são regularmente denunciadas por Moscou.
Em Enhe, a Igreja Ortodoxa desapareceu. Uma cruz cristã ortodoxa que adornava o topo de uma cúpula dourada em um prédio de madeira fechado no centro da vila foi derrubada. As autoridades locais negam que ela tenha existido, apesar de a cruz ser claramente visível em fotos antigas.
A igreja mais próxima fica a uma hora de carro, na cidade de Ergun, onde a Igreja de Santo Inocêncio de Irkutsk foi recentemente reformada e transformada em ponto turístico. Não há missas regulares. Fechada em um domingo recente, a igreja é ladeada pela “Praça da Unidade”, um parque repleto de cartazes com declarações de Xi Jinping conclamando à unidade étnica. No centro do parque, ergue-se uma grande romã de concreto, decorada com uma inscrição de Xi.
Uma longa faixa vermelha na cerca da igreja exige a “sinização da religião”, uma referência a uma política anunciada por Xi em 2016 para fortalecer o controle do partido sobre a vida religiosa.
Com uma população de apenas cerca de 16.000 pessoas, os russos étnicos vivem dispersos ao longo dos 4.216 quilômetros da fronteira da China com a Rússia. Enhe é o único local designado como área reservada para russos étnicos.
Os russos começaram a chegar em grande número no século XIX, após a descoberta de jazidas de ouro. Os russos administravam as minas de ouro, bem como a construção e operação de uma linha férrea, enquanto trabalhadores chineses, quase todos solteiros, chegavam em grande número para trabalhar em empreendimentos liderados pelos russos. Muitos se casaram com mulheres russas.
Operação: Xi Jinping afirma que reunificação de China e Taiwan é ‘imparável’ após fim de exercícios militares ao redor da ilha
Mais russos chegaram após a Revolução Bolchevique de 1917, com os “russos brancos” anticomunistas se estabelecendo no lado chinês da fronteira, acreditando que o comunismo entraria em colapso em breve na Rússia e que eles poderiam retornar para casa.
Assim como outras minorias étnicas na China, os russos étnicos sofreram durante a Revolução Cultural, um período de turbulência política que se estendeu de 1966 a 1976. Os laços anteriormente estreitos entre Moscou e Pequim se romperam, levando a um conflito armado em 1969 ao longo da fronteira. Os russos étnicos foram denunciados pela Guarda Vermelha de Mao Tsé-Tung, que destruiu suas igrejas. Muitos fugiram para a Rússia ou para outros países.
Esse episódio foi agora apagado da história oficial, com Xi e Putin se abraçando no que chamam de “amizade sem limites”.
— Não conheço muito bem essa parte da história — disse Zou Yu, escritor e especialista em cultura e história local de Ergun. — Talvez algumas coisas tenham acontecido naquela época, mas agora tudo está excelente — acrescentou.
Em dezembro, quando as temperaturas caem abaixo de -22 graus, Enhe se torna uma cidade-fantasma, restando apenas funcionários e alguns pastores de gado e ovelhas. No verão, porém, ainda há alguns russos étnicos que falam russo fluentemente, em sua maioria idosos, que partem durante o inverno, segundo Li.
Impasse: Maioria dos ucranianos é contra cessão de Donbass para a Rússia e limites às Forças Armadas, aponta pesquisa
Durante essa temporada, Enhe atrai dezenas de milhares de turistas chineses, seduzidos pela perspectiva de experimentar um pouco da Rússia e da Europa sem se preocupar com vistos. Prédios em estilo russo falso pontilham as ruas, juntamente com grandes ovos de Páscoa pintados e elementos incongruentemente não russos, como um moinho de vento holandês.
Os visitantes chineses, disse Li, “gostam do toque estrangeiro”.
Zou, o especialista em cultura, afirmou que a erosão da língua e do estilo de vida russos na região foi resultado de casamentos mistos, que envolveram principalmente mulheres de etnia russa e homens de etnia chinesa Han.
— Se uma mulher se casa com uma galinha, ela segue a galinha; se ela se casa com um cachorro, ela segue o cachorro — disse ele, usando um provérbio chinês que reflete a visão tradicional de que as mulheres devem se curvar aos seus maridos.