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“Esses são os dois caras que controlam a Venezuela agora”. Essa afirmação é de Brian Naranjo, ex-diplomata dos Estados Unidos que atuou em Caracas, sobre o ministro do Interior Diosdado Cabello e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino. Eles comandam a polícia e as Forças Armadas da Venezuela, as mesmas instituições que mantiveram Nicolás Maduro no poder por mais de uma década. Agora, quando Delcy Rodríguez fez um dos seus primeiros discursos como presidente interina condenando a captura de Maduro pelos EUA, ela estava acompanhada por Cabello e Padrino, os homens que podem determinar o futuro do regime. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
Múltiplos disparos foram ouvidos na capital da Venezuela, Caracas, na noite desta segunda-feira. Vídeos nas redes sociais mostram explosões no centro da capital, supostamente próximas ao Palácio de Miraflores, sede do Executivo.
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Pelo menos 31 migrantes morreram no naufrágio registrado no litoral da Gâmbia em 1º de janeiro, em um barco que iria para a Europa, e “muitos outros desapareceram e provavelmente morreram”, anunciou nesta segunda-feira (5) o governo do país africano.
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O barco zarpou em 31 de dezembro à noite com mais de 200 pessoas a bordo. Um balanço anterior falava de sete mortos.
O presidente da Gâmbia, Adama Barrow, ressaltou na sexta-feira que seu país estava “de luto” por essa tragédia.
“Quinze corpos foram achados na Gâmbia e 16 no Senegal, muitos outros desapareceram e estão provavelmente mortos”, indicou o governo, que detalhou que 102 pessoas foram resgatadas, das quais 23 seguem hospitalizadas.
Segundo o governo, uma investigação foi iniciada para averiguar “quem é o responsável pelos acontecimentos que levaram a essa catástrofe”.
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Alertada por um pedido de auxílio, a Marinha nacional gambiana lançou na quinta-feira, 1º de janeiro, uma operação de busca e resgate, na qual participaram vários navios da Marinha e um barco-pesqueiro que compareceu em apoio, segundo o comunicado.
A embarcação acidentada foi encontrada encalhada em um banco de areia.
Milhares de pessoas originárias da África Ocidental tentam há anos migrar de forma clandestina de seus países tomando a perigosa rota atlântica para a Europa, principalmente através do arquipélago espanhol das Canárias, a bordo de embarcações sobrecarregadas e frequentemente precárias.
Milhares de pessoas morreram nos últimos anos tentando chegar à Europa dessa maneira.
Pelo menos 16 navios petroleiros sancionados deixaram as águas venezuelanas após a captura do do líder chavista Nicolás Maduro por forças americanas no último sábado, em Caracas. Treze desses navios estão carregados com 12 milhões de barris de petróleo bruto e combustível, principalmente com destino à China, segundo o site de rastreamento marítimo TankerTrackers.
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Quatro deles são visíveis em águas próximas à Venezuela, seguindo rumo ao norte, em uma imagem de satélite do programa europeu Copernicus datada de sábado. A TankerTrackers identificou os navios como Aquila II, Bertha, Verónica III e Vesna.
As quatro embarcações estão sujeitas a sanções dos Estados Unidos, o que as expõe ao bloqueio naval imposto pelo presidente americano, Donald Trump, em 16 de dezembro a qualquer petroleiro sancionado que viaje para ou a partir da Venezuela.
A maioria dos petroleiros que saíram da Venezuela nos últimos dias desativou seus transpondedores AIS (sistema de identificação automática) ou transmitiu sinais de GPS falsos por meio de uma técnica chamada “spoofing”.
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A agência de notícias francesa France-Presse pôde confirmar de forma independente, por meio de imagens de satélite, que o Vesna, sancionado pelos EUA por seus supostos vínculos com a Rússia e o Irã, navegava no domingo a cerca de 40 km a leste de Granada, aproximadamente 500 km de sua posição no dia anterior.
Onze dos 12 petroleiros também constam na lista de sanções norte-americanas. Trata-se do Volans, Lydya N, Lyra, Merope, Min Hang, M Sophia, Nayara (também conhecido como Themis), Olina (Minerva M), Rosalin (Nurkez), Thalia III e Veronica (Pegas), segundo uma lista fornecida à AFP pela plataforma de informações comerciais Kpler.
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O último petroleiro afetado, o Sea Maverick, não está sujeito a sanções dos Estados Unidos, mas sim a vários regimes de sanções ocidentais, incluindo os da União Europeia e do Reino Unido, por seus supostos vínculos com a frota russa.
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que vêm mantendo uma importante presença militar no Caribe desde setembro do ano passado, provavelmente afetará quase 600 petroleiros que atualmente estão sob sanções americanas em todo o mundo, segundo uma análise da AFP baseada em dados do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Office of Foreign Assets Control) dos EUA e da Organização Marítima Internacional.
Capturado no sábado em uma megaoperação dos EUA em Caracas, o líder chavista, Nicolás Maduro, declarou-se inocente das acusações de narcoterrorismo e conspiração para importação de cocaína perante um tribunal federal americano em Nova York, nesta segunda-feira. Enquanto o presidente venezuelano era apresentado às autoridades judiciais americanas, a apenas alguns quarteirões dali, na sede das Nações Unidas, o Conselho de Segurança da ONU realizava uma reunião de emergência sobre os acontecimentos do fim de semana, com aliados e adversários de Washington expressando preocupações e condenando a ação militar, que a delegação americana tentou reduzir a uma operação policial que contou com auxílio militar.
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A reunião emergencial do Conselho de Segurança — primeiro encontro do órgão em 2026 — começou por volta das 12h (em Brasília), quando fotos de Maduro escoltado por forças de segurança americana em direção ao tribunal já haviam circulado na imprensa internacional. Quando o líder chavista respondeu, em espanhol, como se declarava frente as acusações, as delegações diplomáticas ainda apresentavam suas posições no fórum multilateral.
— Sou inocente. Não sou culpado. Sou um homem decente, ainda sou presidente do meu país — afirmou Maduro, vestindo uma camisa azul-marinho de manga curta sobre um uniforme laranja de presidiário e fones de ouvido, provavelmente para tradução.
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A apresentação do líder venezuelano à justiça no mesmo dia em que o principal fórum de segurança da ONU se reuniu para se pronunciar sobre o tema não passou despercebido pelos diplomatas. Em uma das primeiras manifestações da tarde, o embaixador da Rússia, Vasily Nebenzya, fez um apelo pela libertação de Maduro.
— Em relação aos relatos confirmados sobre a presença do presidente sequestrado da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa nos EUA… Hoje, como sabemos, eles estão em Nova York… Apelamos à liderança dos EUA para que liberte imediatamente o presidente legitimamente eleito de um Estado independente e sua esposa — afirmou Nebenzya, em uma sessão marcada por críticas ao modus operandi americano.
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Sequestro x prisão
No tribunal, quando Maduro tentou continuar falando, para dizer que havia sido “sequestrado”, foi interrompido pelo juiz Alvin K. Hellerstein — que aos 92 anos foi apontado para o caso, depois de uma carreira que incluiu julgamentos de alto-perfil, como processos movidos por vítimas e familiares das vítimas dos ataques do 11 de Setembro:
— Só quero saber uma coisa. O senhor é Nicolás Maduro Moros? — questionou o magistrado, recebendo uma resposta positiva.
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A categorização da captura e extração do presidente da Venezuela como um “sequestro” foi tratada com maior profundidade pelo embaixador do país na ONU, Samuel Moncada, que repetiu o uso do termo para destacá-lo e classificou toda a ação como um “ataque armado ilegítimo sem qualquer justificativa legal”.
— Permitir que tais atos fiquem sem resposta efetiva equivale a normalizar a substituição do direito pela força e a erodir os fundamentos mínimos da segurança coletiva — afirmou Moncada. — Hoje está em jogo não só a soberania da Venezuela, mas a credibilidade do direito internacional, a autoridade desta organização.
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A delegação venezuelana se pronunciou após a fala do embaixador dos EUA na ONU, Mike Waltz, que defendeu a regularidade da operação na Venezuela e negou que Washington estivesse “ocupando” o país sul-americano ou declarando guerra ao povo ou ao território venezuelano.
— Os EUA realizaram com sucesso uma operação policial cirúrgica, com apoio de militares, contra dois fugitivos procurados pela justiça americana: o narcoterrorista Nicolás Maduro e Cilia Flores — afirmou Waltz, citando razões de segurança nacional como precedente para a ação. — Os EUA prenderam um narcotraficante que agora será julgado nos EUA, seguindo o devido processo legal.
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Temores
No âmbito do Conselho de Segurança, diversos países observadores pediram a palavra, incluindo o Brasil, com muitos deles condenando a operação dos EUA como uma imposição por meio da força e uma violação de princípios básicos da Carta da ONU, como a solução pacífica de conflitos, respeito à soberania e à integridade territorial. Em uma mensagem por escrito, o secretário-geral da ONU expressou preocupação com os acontecimentos e cobrou respeito pela independência política dos Estados.
— O direito internacional contém instrumentos para abordar questões como o tráfico ilícito de narcóticos, as disputas por recursos e as preocupações com os direitos humanos. Este é o caminho que devemos seguir — disse Guterres, na mensagem lida pela subsecretária-geral para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz, Rosemary DiCarlo.
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Entre os membros permanentes do Conselho de Segurança — aqueles que têm poder de veto —, a China se uniu à Rússia em uma condenação expressa. Pequim se mostrou “profundamente chocada” pelos “atos unilaterais, ilegais e ameaçadores dos EUA” e, além de pedir a libertação de Maduro, afirmou que “Nenhum país pode agir como a polícia do mundo ou presumir ser a justiça internacional”.
A França — aliado histórico dos EUA e integrante-chave da Otan — afirmou que a operação contrariou princípios legais e demonstrou preocupação com a “proliferação de violações da Carta da ONU e do direito internacional por um Estado investido da responsabilidade como membro permanente do Conselho de Segurança”. Em um posicionamento menos crítico, o Reino Unido cobrou respeito à ordem internacional, mas fez críticas ao governo Maduro.
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Enquanto as condenações por parte de países da América Latina — como Brasil, Colômbia e México — estejam inseridas em um contexto regional, ligado diretamente à violação territorial na região, no caso dos europeus, o tema ganha relevância após anos de guerra entre Ucrânia e Rússia no Leste Europeu, conflito que Bruxelas denunciou amplamente pelo aspecto de tomada de território.
Em um caso europeu, a crítica correspondeu a um temor ainda mais imediato. A delegação da Dinamarca mencionou a necessidade de respeito aos princípios internacionais, em meio ao incidente diplomático os EUA, após renovadas insinuações do presidente americano, Donald Trump, e de seu círculo íntimo sobre a Groenlândia.
— Independentemente da situação na Venezuela, [a operação] constitui um precedente perigoso. A lei internacional e a Carta da ONU, enquanto pilares da arquitetura de segurança internacional, precisam ser respeitados por todos os Estados — disse a representação do país nórdico.
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Estratégia jurídica
Assim como Maduro, a primeira-dama da Venezuela, Cilia Flores, declarou-se inocente durante a aparição no tribunal. A audiência — uma etapa apenas inicial, para apresentação da denúncia — não discutiu o mérito das acusações, embora a estratégia de defesa do casal já esteja sendo arquitetada em Nova York e em Caracas.
O advogado Barry Pollack, que atua na equipe de defesa de Maduro e Cilia, afirmou que poderá apresentar moções relativas ao papel do líder venezuelano como chefe de um Estado soberano, acrescentando que “existem dúvidas sobre a legalidade do seu sequestro militar”.
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A narrativa parecia coordenada com o discurso diplomático venezuelano no Conselho de Segurança, onde Moncada argumentou que a imunidade presidencial não se tratava de “um privilégio individual”, mas de uma “garantia institucional que protege a soberania do Estado e a estabilidade do sistema internacional”.
A próxima audiência de Maduro está marcada para 17 de março, no mesmo tribunal de Nova York. Até lá, o líder chavista permanecerá preso no Centro Metropolitano de Detenção, no Brooklyn, que já abrigou figuras famosas, como o ex-presidente da CBF, José Maria Marín, e o rapper Sean “Diddy” Combs. (AFP e NYT)
O Exército israelense bombardeou o sul e o leste de Líbano nesta segunda-feira, informou a imprensa libanesa, depois de advertir que atacaria o que denominou como alvos do Hamas e Hezbollah em quatro localidades.
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Esta foi a primeira advertência deste tipo do Exército israelense neste ano. Apesar do cessar-fogo com o movimento islamista Hezbollah, apoiado pelo Irã, Israel não deixou de bombardear o país vizinho.
Um fotógrafo da AFP em Kfar Hatta, um dos povoados atacados no sul do Líbano, viu dezenas de famílias fugindo da localidade após as advertências do Exército israelense. Vários drones sobrevoavam o município, que pôs suas ambulâncias e caminhões de bombeiros de sobreaviso.
A agência nacional de notícias libanesa, NNA, reportou bombardeios em quatro localidades.
Segundo a agência, um bombardeio em Al Manara, no leste do país, causou a “completa destruição de uma casa e graves danos nas residências dos arredores, em carros e estabelecimentos comerciais”. Por sua vez, o Exército israelense indicou, em comunicado, que “começou a bombardear alvos terroristas do Hezbollah e Hamas no Líbano”.
O porta-voz do Exército israelense em língua árabe, Avichay Adraee, detalhou que os povos atacados foram Kfar Hatta e Annan, no sul, e Al Manara e Ain al Tineh no leste. Segundo a NNA, a residência atacada em Al Manara pertencia a Sharhabil Sayed, um líder do movimento islamista palestino Hamas no Líbano que foi morto por Israel em 2024.
Eescavadeira remove os escombros de um prédio destruído após um ataque noturno israelense à vila de Annan, no sul do Líbano
AFP
Apesar do cessar-fogo firmado por Israel e Hezbollah há mais de um ano, Israel segue atacando o Líbano com frequência, geralmente contra instalações do grupo libanês, e algumas vezes, contra alvos do Hamas.
Pressionado pelos Estados Unidos, o governo libanês se comprometeu a desarmar o Hezbollah, um grupo que acabou muito enfraquecido após mais de um ano de enfrentamentos com Israel, incluindo dois meses de guerra aberta, que terminou com um acordo de cessar-fogo em novembro de 2024.
Ao menos 350 pessoas morreram pelos ataques do Exército israelense no Líbano desde aquele acordo, segundo um balanço da AFP baseado em dados do Ministério da Saúde do Líbano.
Um enorme buraco irregular na parede de um edifício permite ver vizinhos exaustos entre os escombros. Por essa abertura, um homem retirou na madrugada de sábado (3) a sua tia, gravemente ferida nos bombardeios americanos que levaram à captura do presidente deposto Nicolás Maduro.
Rosa González, uma advogada de 78 anos, era tia de Wilman González, com quem morava em La Guaira, um estado costeiro vizinho a Caracas e um dos três bombardeados pelos Estados Unidos.
— Ela não morreu aqui, morreu no hospital — conta Wilman à AFP. O braço “doía”, e Rosa havia recebido um impacto no peito que a impedia de respirar.
Ele se lembra de que estava olhando o celular quando ocorreu a explosão e foi arremessado pelos ares.
— Foi tão imensa que a porta principal voou, a de madeira voou, e me jogou contra a parede — narra este aposentado de 62 anos, ainda em estado de choque. Ele tem o olho direito roxo, com suturas.
Moradores buscam pertences em um apartamento danificado por ataque dos Estados Unidos em Catia La Mar, estado de La Guaira, Venezuela. Na foto, Jesus Linares com o filho Leo
Federico Parra / AFP
Sua tia Rosa dormia no outro quarto.
— Nós a levamos até o hospitalzinho e colocaram oxigênio. Mas ela não aguentou a dor (e morreu) — diz o homem entre as ruínas.
‘Muito simples, gentil’
A polícia levou o corpo da mulher para a realização de uma autópsia. Nesta segunda-feira (5), ela é velada em uma pequena capela, o caixão de madeira com meia tampa aberta. Familiares e conhecidos a lamentam em silêncio.
— Era uma mulher muito simples, muito gentil, tinha muitas amizades — conta seu irmão José Luis González, de 82 anos, que ficou sabendo por uma ligação de seu sobrinho Wilman.
Eram cinco irmãos. Agora só José Luis permanece vivo.
— Não deveria ter acontecido na Venezuela uma tragédia como essa, em um bairro tão tranquilo — lamenta.
Wilman González voltou ao seu conjunto habitacional popular, o Bloco 12, de fachada azul desbotada pelo sol e agora perfurada por um míssil.
Moradores buscam pertences em um apartamento danificado por ataque dos Estados Unidos em Catia La Mar, estado de La Guaira, Venezuela
Federico Parra / AFP
Portas e paredes demolidas, vidros quebrados. A imagem danificada de uma virgem sobre um pequeno altar lhe dá as boas-vindas.
Os vizinhos chegam a pegar na sala de Wilman pequenos fragmentos do projétil. As autoridades levaram outros pedaços maiores.
Após a explosão, “pensei que já estava morto”, recorda Wilman, que critica a pouca assistência que recebeu do governo. “Deus, perdoa os meus pecados”, diz que pensou.
Hoje ele caminha entre os restos do que um dia foi sua moradia. Recolhe pedaços de madeira, olha para eles e os lança de volta ao chão. Com uma chave de fenda na mão, avalia se é possível resgatar um guarda-roupa. Tudo é inútil.
Seus vizinhos resgatam panelas, liquidificadores, documentos, molduras de janelas.
— Isso eu via pela televisão. Palestina, lá, Iraque, toda essa gente. Aqui não — diz ele.
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‘Resgatar a mim mesmo’
A explosão causou danos irreparáveis em oito dos 16 apartamentos.
No apartamento de sua mãe, César Díaz junta documentos e os guarda em uma bolsa de tecido suja.
Um vizinho, Jesús Linares, conta como salvou essa mulher chamada Tibisay, de 80 anos, em meio ao desastre. Ele mostra o lençol desbotado que usou para estancar um sangramento na cabeça antes de levá-la ao hospital.
— Esses eram os sapatinhos dela — diz com incredulidade este bombeiro de 48 anos, e aponta para uma sandália de plástico órfã, sem o par.
— Uau! Tão grande que é tudo isso e justamente aqui, na casa da minha mãe — diz César, de 59 anos.
— Isso vai criar um trauma nela — lamenta, suado e ainda em estado de choque. — Para mim é duro chegar aqui e não vê-la sentada ali na sua poltrona — confessa à beira do choro.
Linares conta que, com a pouca compostura que lhe restava, socorreu Tibisay e retirou sua própria mãe, de 85 anos, e sua filha de 16, em pleno caos.
— Tentei me concentrar como se isso tivesse sido um terremoto: manter a calma e focar nas vidas delas e socorrê-las — conta este bombeiro de 48 anos.
A polícia levou o projétil, mas as autoridades não aparecem para lhes oferecer assistência.
Três décadas de serviço prepararam Linares para “resgatar vidas”.
— Desta vez, o que me coube foi me resgatar a mim mesmo, à minha família.
Delcy Rodríguez foi empossada nesta segunda-feira como presidente interina da Venezuela, diante da ausência de Nicolás Maduro, que foi capturado junto com a esposa, Cilia Flores, pelos Estados Unidos em uma operação militar no último sábado. Delcy, que se torna a primeira mulher a governar o país sul-americano, era a vice-presidente de Maduro e a primeira na linha de sucessão. Após a ação militar americana, a Suprema Corte venezuelana lhe ordenou que assumisse o cargo por 90 dias, prazo que pode ser prorrogado, e as Forças Armadas reconheceram sua nomeação no domingo.
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‘Ocupação virtual’: Após derrubar Maduro, EUA buscam gerenciar Venezuela e chavismo por coerção
— Venho com dor pelo sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos — disse Delcy em seu juramento. — Venho também com honra jurar em nome de todos os venezuelanos.
Ao assumir o poder como presidente interina, Delcy não dá seguimento à sucessão presidencial em si, de vice-presidente para chefe de Estado oficialmente. Isso significa que a líder chavista, aliada de Maduro, ocupa o cargo de forma transitória até que o presidente regresse ao poder. Especialistas jurídicos ressaltam que esse movimento faz parte da estratégia legal para que Maduro possa alegar no tribunal americano que é chefe de Estado de um país, portanto, imune às acusações da Justiça dos EUA.
A líder chavista afirmou em seu discurso que assume o cargo em “tempos terríveis de ameaça à estabilidade e à paz da nação”. Ao final da cerimônia, militares prestaram homenagens à presidente interina.
Colaboração interna e cooperação externa
A posse de Delcy também foi tema de debate na Assembleia Nacional eleita em maio de 2025, que iniciou seus trabalhos nesta segunda-feira.
Antes da solenidade, Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente venezuelano que é deputado e também procurado pelos EUA, expressou seu “apoio incondicional” à presidente interina e previu que “em breve” seu pai e Flores “retornarão” à Venezuela.
— Conte comigo — declarou o parlamentar, popularmente conhecido como “Nicolasito”, a Rodríguez. — A pátria está em boas mãos, pai, e em breve nos abraçaremos aqui na Venezuela — exclamou, emocionado.
A Assembleia Nacional reelegeu Jorge Rodríguez como presidente, com maioria absoluta. Na véspera, a presidente interina o incumbiu de buscar a libertação de Maduro e Flores.
— Minha principal função nos próximos dias (…) será usar todos os procedimentos, todas as plataformas e todos os espaços para trazer de volta Nicolás Maduro Moros, meu irmão, meu presidente — afirmou ele em seu discurso.
A sessão começou com gritos de “Vamos, Nico!”, um slogan repetido durante a campanha eleitoral de Maduro em 2024, cuja reeleição não foi reconhecida pela oposição e pelos Estados Unidos, entre outros países. Uma fotografia do casal presidencial foi exibida na tribuna da Assembleia, e o presidente do Legislativo ordenou que uma flor vermelha fosse colocada na cadeira de Flores. Enquanto isso, militantes chavistas marchavam no centro de Caracas.
Delcy Rodríguez defendeu em uma publicação nas redes sociais, na noite de domingo, uma relação equilibrada e respeitosa com o presidente dos EUA, Donald Trump. Simultaneamente, o republicano afirmou a jornalistas, a bordo do Air Force One, que Washington está “no comando” da Venezuela.
“Consideramos prioritário avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da região, baseada na igualdade soberana e na não interferência. Esses princípios norteiam nossa diplomacia com o resto do mundo”, escreveu a presidente interina. “Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional, e para fortalecer a coexistência comunitária duradoura”.
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Aprovação americana
A decisão anunciada na noite de sábado pelo Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela de que diante da ausência “temporária” do presidente Maduro, sua vice assume o poder na condição de “encarregada de todas as atribuições, deveres e funções inerentes ao cargo de presidente” atendeu aos desejos do presidente americano.
Com ou sem sondagem prévia ao ataque, a realidade é que Delcy representa uma alternativa viável para Trump, sobretudo na matéria que mais interessa ao republicano: acesso ao petróleo . Em Caracas, fontes falam em “acordo circunstancial para buscar a estabilidade do país”, entre Trump e a presidente interina; outros em “uma aliança temporária utilitária”. Delcy foi aceita pela Casa Branca por suas conexões no setor petroleiro nacional e internacional. Quanto vai durar este entendimento ou aliança dependerá de um delicado equilíbrio entre os interesses de Trump, as pressões internas e a dinâmica dentro do chavismo.
Internamente, ela dividirá o poder com os dois homens mais importantes dentro do regime: o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior e Justiça, o ex-militar Diosdado Cabello.
A despeito das divergências políticas entre governos de esquerda e de direita na América Latina, a palavra que mais se repetiu na reunião extraordinária da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), realizada no domingo, foi “precedente”. De acordo com participantes, o termo sintetizou a preocupação comum diante da ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, vista por diversos países da região como um marco perigoso, capaz de abrir espaço para novas intervenções unilaterais no continente.
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro afirmam que o fato de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter mencionado que outros países da região poderão ser alvo de novas ações, após a operação na Venezuela, motivou a preocupação. Segundo avaliações internas, Cuba é vista como um país que corre risco de pressão adicional, enquanto eventuais ameaças à Colômbia tendem a ser interpretadas como bravata. Interlocutores destacam que atacar um país com presidente democraticamente eleito, histórico militarista e presença de guerrilhas e contraguerrilhas em áreas montanhosas e amazônicas representaria um custo político e militar muito mais elevado.
A avaliação de diplomatas brasileiros é que as referências a Cuba e à Colômbia funcionam sobretudo como jogo de cena, destinado a distrair a opinião pública e a classe política dos Estados Unidos, onde a ação militar na Venezuela não teria obtido apoio majoritário. Em outras palavras, Washington ainda precisará lidar com as consequências políticas e operacionais da intervenção antes de qualquer novo movimento na região.
Para o governo brasileiro, a prioridade segue sendo evitar qualquer tipo de instabilidade prolongada no país vizinho. O Brasil abriga cerca de 3.500 brasileiros na Venezuela e compartilha com o país a maior fronteira terrestre do território nacional. Um auxiliar presidencial afirma que não interessa ao Brasil “nenhuma convulsão social” na Venezuela.
A Constituição venezuelana prevê que, em caso de vacância presidencial reconhecida pela Assembleia Nacional, a vice-presidência assuma e convoque eleições em até 30 dias. A primeira etapa foi cumprida, mas há dúvidas sobre a viabilidade do calendário eleitoral em um contexto de instabilidade política e tensão internacional.
A avaliação de integrantes do governo brasileiro é que a manutenção de uma relação funcional entre Caracas e Washington pode postergar decisões sobre eleições. Segundo um interlocutor com conhecimento do assunto, caso o novo governo venezuelano adote uma postura considerada “transacional”, especialmente no setor de petróleo, os EUA podem optar por preservar o status quo por mais tempo.
Nesse contexto, o Brasil reafirma sua doutrina de reconhecer Estados, e não governos, e mantém diálogo com as autoridades constituídas, com foco em interesses concretos: estabilidade regional, controle migratório, retomada da cooperação e reconstrução do comércio bilateral. Esse intercâmbio, que já alcançou cerca de US$ 6 bilhões anuais, hoje mal supera US$ 1,5 bilhão.
Para o governo brasileiro, uma Venezuela estável, com economia em recuperação e retorno gradual à normalidade democrática, é condição essencial para reduzir o impacto regional da crise migratória e reabrir oportunidades de negócios.
Paradoxalmente, apesar da gravidade do ato, o cenário interno venezuelano tem sido descrito como relativamente estável. Relatos vindos da embaixada brasileira em Caracas indicam uma “calma tensa”, sem distúrbios de grande escala, ameaças a missões diplomáticas ou necessidade de repatriação de brasileiros. Houve protestos pontuais, mas nenhum quadro de convulsão social ou colapso institucional imediato.
A posse da vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina ocorreu sem incidentes relevantes e contou com a presença da embaixadora do Brasil, Glivânia de Oliveira, que também havia participado da posse anterior de Nicolás Maduro. Esse grau de normalidade institucional chama a atenção de interlocutores do governo brasileiro, mesmo após um evento classificado como “gravíssimo” no plano internacional. As Forças Armadas venezuelanas reafirmaram apoio à nova presidente, e declarações públicas indicaram disposição para manter canais de diálogo com Washington.

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