Pelo menos 3,2 milhões de iranianos se deslocaram dentro do país desde 28 de fevereiro, quando ataques coordenados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã deram início à guerra, anunciou nesta quinta-feira a agência da ONU para refugiados (ACNUR). Em busca de segurança, diz o órgão, a maior parte dessas pessoas estaria fugindo da capital, Teerã, e de outros grandes centros urbanos em direção ao norte do país e a áreas rurais.
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“É provável que esse número continue aumentando à medida que as hostilidades persistirem, o que representa uma escalada preocupante nas necessidades humanitárias”, disse a agência em comunicado. Na sexta-feira, quando esse número ainda era menos da metade do atual, Ayaki Ito, diretora de Emergências e Apoio a Programas do órgão, descreveu a situação como uma “grave emergência humanitária”, reconhecendo a chance de dados subnotificados.
No 13º dia de confrontos, ataques continuavam sendo registrados no território iraniano e em outras partes da região, agravando os riscos para a população deslocada. As Nações Unidas já alertaram que a rápida escalada das hostilidades tem aumentado a pressão sobre a capacidade de resposta humanitária e sobre as comunidades anfitriãs, com crescimento das necessidades de proteção, risco de novos deslocamentos internos e possíveis fluxos para países vizinhos.
O porta-voz do secretário-geral da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou em entrevista coletiva na última quinta-feira que as operações humanitárias estão sendo prejudicadas, dificultando a entrega de ajuda. Isso reduziu a capacidade dos países vizinhos de proteger deslocados e refugiados, que agora enfrentam também o dilema de permanecer em um país em guerra ou tentar fugir para outro onde sua segurança não está garantida.
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No Irã, onde bombardeios provocaram a morte de mais de 1,3 mil pessoas — incluindo a do aiatolá Ali Khamenei —, o maior deslocamento ocorre em Teerã, fortemente danificada pelos ataques. Na capital, cerca de 100 mil pessoas fugiram nos dois dias seguintes ao início dos bombardeios, e entre mil e dois mil veículos por dia deixaram a região. Outras 6,5 mil pessoas cruzaram a fronteira com a Turquia.
— Funcionários do ACNUR naquele país estão recebendo centenas de ligações por dia de iranianos pedindo assistência — disse Ito.
Focos de instabilidade
Segundo a agência da ONU, por enquanto a maior parte dos deslocamentos tem ocorrido dentro das fronteiras nacionais, embora pelo menos 14,3 mil cidadãos libaneses e iranianos tenham cruzado as fronteiras de seus países nos últimos dias — movimento que preocupa a Europa, mantida em alerta antes mesmo de fevereiro, segundo relatório da Agência Europeia para o Asilo apresentado na terça-feira.
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Elaborado antes do início dos ataques, o documento sobre tendências globais já considerava a República Islâmica um dos principais focos de instabilidade para 2026 devido às consequências dos bombardeios dos EUA e de Israel em junho de 2025 contra instalações nucleares iranianas e, internamente, à agitação ligada ao colapso econômico e à repressão política contra os protestos massivos ocorridos no início deste ano.
Com 92 milhões de habitantes, mesmo uma desestabilização parcial poderia gerar fluxos de refugiados de magnitude “sem precedentes”, diz o texto. Se apenas 10% da população iraniana fosse deslocada, a crise resultante poderia rivalizar com a provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 ou com a de 2015 e 2016, quando mais de um milhão de pessoas que fugiram da guerra na Síria e de outros conflitos entraram na Europa.
“Observadores veem cada vez mais a agitação no Irã como um risco significativo e de longo prazo, cujas perspectivas permanecem altamente incertas”, destaca o relatório.
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O Irã abriga 3,8 milhões de refugiados, a maioria provenientes do Afeganistão, o que o torna o país com maior número de refugiados do mundo. A Agência Europeia para o Asilo aponta que, se a República Islâmica entrar em colapso, essa população também seria gravemente afetada, considerando que a região já era extremamente vulnerável antes da atual escalada do conflito.
“Suas comunidades demonstraram uma solidariedade extraordinária durante anos, mas seus recursos estão no limite” disse a porta-voz do ACNUR na Espanha, Paula Barrachina, em nota ao El País, chamando a atenção para um problema que também é global: apenas em 2025, o financiamento mundial para a ajuda humanitária encolheu 30%, queda impulsionada também pelo encerramento de programas financiados pelos EUA que o presidente Donald Trump ordenou cancelar.
Impactos no Líbano
O segundo país do Oriente Médio que registra os maiores movimentos populacionais provocados pela guerra atual é o Líbano, onde o Exército de Israel intensificou sua campanha de bombardeios após o Hezbollah entrar no conflito para vingar a morte de Khamenei. Os dois países haviam assinado um cessar-fogo em novembro de 2024, mas Israel continuou seus ataques quase diários contra o Hezbollah.
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A escalada das hostilidades obrigou mais de 667 mil pessoas a fugir de suas casas no Líbano, incluindo 200 mil menores, informou a ONU na segunda-feira. Os maiores deslocamentos ocorrem no sul do país, no Vale do Bekaa e em Beirute, onde o Estado judeu exigiu a evacuação de bairros onde vivem cerca de 250 mil pessoas. Ao todo, o conflito no país já deixou mais de 400 mortos, entre eles 83 crianças e adolescentes.
O Líbano tem cerca de 5,8 milhões de habitantes, sendo quase 20% refugiados. Agora, pelo menos 78 mil pessoas, incluindo 7,8 mil libaneses, cruzaram para a Síria. Somente em 2 de março, quase 10 mil sírios e cerca de mil libaneses cruzaram postos fronteiriços vindos do sul do Líbano. Esse número representa aproximadamente o triplo da média diária de travessias registrada desde o início do Ramadã, em fevereiro.
A relativa estabilidade formada na Síria após a queda de Bashar al-Assad no final de 2024 e a formação de um governo de transição levou a uma forte queda nos pedidos de asilo de sírios na União Europeia, passando de 151 mil em 2024 para 42 mil em 2025. Cerca de 1,4 milhão de sírios também retornaram do exterior. Ainda assim, a agência europeia de asilo tem advertido, mesmo antes da nova escalada, que a instabilidade pode ser reacendida. (Com AFP)