O entendimento do chavismo na Venezuela passa forçosamente pela compreensão de como os militares nele se encaixam. É importante ressaltar que a ampliação do papel dos militares no país não começa com o chavismo, mas com ele recebe forte impulso. Nos anos 1970, o Plano Andrés Bello introduziu à formação militar o nível universitário, enfatizando a importância das Forças Armadas na política, sociedade e desenvolvimento econômico, o que levou muitos deles —incluindo Hugo Chávez — a defender os militares à frente da modernização e mudança social do país.
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A Constituição de 1999 eliminou o papel não-deliberativo das Forças Armadas e ampliou seu escopo. Com o agora ex-presidente Nicolás Maduro, os militares passaram a ocupar cada vez mais ministérios. Em 2014, 25% de seu Gabinete era composto por militares, segundo o pesquisador Pablo Uchoa, da University College London. Em 2023, último ano em que a ONG Control Ciudadano compilou tais números, aproximadamente 40% de seus ministros (13 de 33) eram militares.
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Com Chávez, os militares eram responsáveis pela distribuição de alimentos no âmbito de programas sociais. Com Maduro, a Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb) passou a administrar setores como indústrias, portos, alfândegas, transporte, habitação, infraestrutura, atividades extrativistas, energia e a distribuição de itens essenciais.
Com a crise econômica de 2014, que levou à escassez em 2016, Maduro criou o programa de distribuição de alimentos por meio dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap), no qual ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, supervisionava a distribuição e comercialização de alimentos, medicamentos e produtos de higiene — itens que à época valiam ouro no mercado paralelo.
Presidente Nicolás Maduro (dir.) assiste a exercícios militares em campo de treinamento em Caracas
Zurimar Campos/ Presidência da Venezuela/ AFP
Na gestão Maduro, militares passaram também a compor o conselho de administração de mais de 100 empresas de capital aberto ou parcialmente aberto, de um total de 925, e foram criadas mais de 20 empresas das Forças Armadas em áreas como bancos, logística, agricultura, mineração, petróleo e gás, segundo relatório de 2021 da Transparency International.
Um exemplo é a Companhia Anônima Militar de Indústrias Mineiras, Petrolíferas e de Gás, criada em 2016 para atividades de mineração, petróleo e gás. A empresa, nas mãos da Fanb, parece crucial para os objetivos declarados de Trump, de controlar o setor petrolífero venezuelano.
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Além do entranhamento no Estado e na economia venezuelana, o chavismo continua sendo uma força política importante. Para quem o vê de fora, não passa de um projeto político populista autoritário, que enterrou a democracia venezuelana. Mas o chavismo é também o principal movimento de massas da Venezuela, responsável pela maior transformação de sua história recente.
Quando Chávez chegou ao poder, em 1999, a taxa de pobreza beirava os 50%, segundo a ONU, e sete em cada dez venezuelanos não tinham carteira de identidade. Passaram a tê-la com a chamada Misión Identidad, um dos mais de 30 programas sociais que o chavismo criou.
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Pode parecer estranho os venezuelanos terem eleito Chávez, um militar, outsider da política que havia tentado derrubar o então presidente Carlos Andrés Pérez em 1992, por meio de um golpe. Mas a Venezuela pré-Chávez era uma democracia muito defeituosa, marcada por uma competição política restrita, na qual Ação Democrática e Copei se revezaram na Presidência ao longo de quatro décadas.
O chavismo rompeu com isso. Apoiado em divisas petroleiras e programas sociais, Chávez reduziu a pobreza para 25,4% em 2012, cenário revertido desde 2014, mas que deixou um legado. Para quem viu a vida melhorar, o chavismo é um divisor de águas. É por isso que Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis, afirma que o chavismo tem apoio fixo de 25% do eleitorado, não importa o que aconteça.
Por ora, imaginar uma Venezuela pós-Maduro ainda é exercício de futurologia. Mas fica claro que, depois de 27 anos, acabar com o chavismo não será simples. Movimentos de massas, como o fascismo, não terminaram com a queda de um líder. Por que o chavismo seria diferente
*Pesquisadora sênior do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri-USP) e professora de Relações Internacionais da Faap
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Quando Chávez chegou ao poder, em 1999, a taxa de pobreza beirava os 50%, segundo a ONU, e sete em cada dez venezuelanos não tinham carteira de identidade. Passaram a tê-la com a chamada Misión Identidad, um dos mais de 30 programas sociais que o chavismo criou.
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O chavismo rompeu com isso. Apoiado em divisas petroleiras e programas sociais, Chávez reduziu a pobreza para 25,4% em 2012, cenário revertido desde 2014, mas que deixou um legado. Para quem viu a vida melhorar, o chavismo é um divisor de águas. É por isso que Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis, afirma que o chavismo tem apoio fixo de 25% do eleitorado, não importa o que aconteça.
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*Pesquisadora sênior do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri-USP) e professora de Relações Internacionais da Faap










