Um dia depois de os Estados Unidos acusarem o ex-presidente cubano Raúl Castro de assassinato pela derrubada, em 1996, de dois aviões, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que Cuba representa uma “ameaça à segurança nacional” — e que as chances de um acordo pacífico ser alcançado são “baixas”. Embora tenha afirmado que Washington prefere uma “solução diplomática”, ele advertiu que o presidente Donald Trump tem o direito e a obrigação de proteger seu país contra qualquer ameaça.
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Em resposta, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, acusou Rubio de “mentiras” e afirmou que a ilha jamais representou uma ameaça aos Estados Unidos. Ele ainda criticou o secretário por tentar “instigar uma agressão militar” e acusou o governo americano de atacar seu país “de forma implacável e sistemática”. Nos últimos meses, os cubanos têm enfrentado longos apagões e escassez de alimentos, retrato de uma crise de combustível que tem sido agravada por um efetivo bloqueio americano ao petróleo.
Ainda que Trump tenha dito acreditar que nenhuma “escalada” seria necessária, a Casa Branca também afirmou que não toleraria um “Estado pária” a 144 km do território dos EUA. As recentes declarações, feitas em meio a campanha de pressão contra Havana, alimentam as incertezas sobre o futuro da ilha. Veja, abaixo, possíveis cenários elencados por especialistas ouvidos pela rede britânica BBC:
EUA podem capturar Raúl Castro
A acusação contra Castro, de 94 anos, relacionada à derrubada de duas aeronaves civis por caças cubanos em 1996, provocou especulações de que forças americanas poderiam lançar uma operação para capturá-lo e levá-lo a um tribunal nos EUA. A ação seria semelhante ao que foi feito em janeiro, quando americanos invadiram a Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Também relembraria a operação Just Cause de 1989, quando milhares de soldados invadiram o Panamá para derrubar e deter o então líder Manuel Noriega.
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Até agora, Trump evitou responder às perguntas sobre a possibilidade de uma operação semelhante em Cuba. Mas vários parlamentares americanos defenderam abertamente uma missão desse tipo, com o senador Rick Scott afirmando a jornalistas que “a mesma coisa que aconteceu com Maduro deveria acontecer com Raúl Castro”. Especialistas, por sua vez, afirmam que a captura de Castro seria viável do ponto de vista militar, mas envolveria riscos e complicações, incluindo sua idade avançada e uma possível resistência.
— Em alguns aspectos, talvez seja mais fácil retirá-lo de lá. O valor simbólico dele faz com que seja fortemente protegido, mas certamente é possível — disse Adam Isacson, especialista regional da ONG Washington Office on Latin America, à BBC, acrescentando, porém, que sua captura talvez não tenha grande impacto sobre o governo cubano como um todo. — A dinastia da família Castro é influente, mas não é mais central para aquilo que eles construíram.
Mudança de liderança em Havana
Outra possibilidade levantada por autoridades americanas, segundo a BBC, é a chegada de uma nova liderança ao poder em Havana. Especialistas observam que esse caminho poderia ser semelhante à substituição de Maduro por Delcy Rodríguez na Venezuela, mantendo o governo em grande parte intacto, embora com mudanças significativas na relação com a administração Trump. O republicano já afirmou que conversa com figuras dentro da ilha que esperam ajuda americana diante do agravamento da crise econômica.
“Cuba está pedindo ajuda, e nós vamos conversar”, escreveu o americano na rede Truth Social em 12 de maio. Dias depois, o diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se com autoridades cubanas, incluindo o neto de Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, e o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas. Também na quinta-feira, Rubio disse que os EUA vão “dialogar com os cubanos”, que, afirmou, “precisam tomar uma decisão”:
— O sistema deles simplesmente não funciona — disse.
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As mudanças desejadas pelos EUA poderiam incluir um compromisso de abertura econômica, maior investimento estrangeiro e participação de grupos de exilados cubanos, além da promessa de encerrar a presença de agências de inteligência russas ou chinesas na ilha, publicou a BBC, destacando que essas mudanças poderiam manter o governo cubano em grande parte intacto. Segundo analistas, porém, o desafio, no caso de Cuba, é que não há uma figura óbvia e pronta para assumir o poder.
— Assim como queriam evitar instabilidade na Venezuela, eles querem evitar instabilidade em Cuba. Forçar uma mudança de regime seria arriscado demais para isso — disse Michael Shifter, professor de estudos latino-americanos da Universidade Georgetown e ex-presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue, sediado em Washington. — [Mas] não acho que exista uma Delcy Rodríguez evidente em Cuba, e o poder funciona de maneira diferente em Cuba e na Venezuela. É difícil encontrar o que eles procuram.
Manifestantes participam de um ato em apoio ao ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, indiciado por um tribunal dos Estados Unidos, em frente à Embaixada americana em Havana, em 22 de maio de 2026
Adalberto Roque / AFP
Em meio ao impasse, uma manifestação de apoio a Castro foi organizada nesta sexta-feira em frente à embaixada dos EUA em Havana para denunciar o indiciamento do ex-presidente cubano. Milhares de pessoas, entre elas vários militares, policiais, funcionários públicos e empregados de estatais e familiares de Castro participaram da concentração, organizada em uma esplanada batizada de “tribuna anti-imperialista”, situada em frente à embaixada. Na primeira fila estavam o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, e outros membros do governo, todos com uniforme militar. Raúl Castro não estava presente.
Cuba pode entrar em colapso
Uma terceira possibilidade é que Cuba ceda à pressão econômica que enfrenta. O próprio presidente americano afirmou, em declarações à imprensa nesta semana, que acredita que “não haverá escalada” porque a ilha está “desmoronando”. Especialistas, porém, descrevem um quadro mais complexo, no qual os mecanismos de controle do governo cubano sobre a população permanecem amplamente intactos, apesar da crise.
— É preciso distinguir entre a economia cubana e o Estado e governo cubanos — afirmou Shifter à BBC. — A economia cubana pode entrar em colapso, e está entrando em colapso, mas o Estado ainda funciona, especialmente na área de segurança.
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Um eventual colapso do Estado também poderia representar um desafio para o governo Trump caso grandes contingentes de cubanos deixassem o país, especialmente rumo aos Estados Unidos. Cubanos que chegaram mais recentemente aos EUA não escaparam da dificuldade de acesso ao asilo político e de outras restrições migratórias do governo Trump. Para Isacson, em caso de colapso, grande parte da população cubana fará “tudo o que puder para sair” da ilha, “da mesma forma que aconteceu com o Haiti”.
— A Flórida é o lugar mais próximo, mas eu também esperaria ver algumas pessoas indo para o México — disse ele, acrescentando que ficou “surpreso” por esse êxodo ainda não ter começado.— As pessoas provavelmente estão sobrevivendo com 1.000 ou 1.500 calorias por dia e sem acesso a cuidados básicos de saúde. Você imaginaria que elas já estariam construindo seus barcos.
Na quinta-feira, Rubio afirmou que o país aceitou uma oferta americana de US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões) em ajuda humanitária. Segundo o chefe da diplomacia americana, no entanto, os EUA não irão permitir que os recursos sejam controlados por estruturas ligadas ao governo cubano. Washington exigiu reformas políticas e econômicas, embora os detalhes permaneçam pouco claros. Falando a jornalistas no Salão Oval, Trump afirmou que Cuba é “um país fracassado” e que seu governo tenta ajudá-la “em uma base humanitária”.
— Outros presidentes analisaram isso por 50, 60 anos, pensando em fazer alguma coisa, e parece que eu serei aquele que fará isso. Então, eu ficaria feliz em fazer isso — afirmou.