Guerra no Oriente Médio: Impasse sobre Ormuz torna públicas as divisões internas no Irã e põe em xeque futuro das negociações de paz
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— É altamente improvável que eu estenda — disse Trump à Bloomberg, em entrevista por telefone.
— Não vou ser pressionado a fechar um acordo ruim. Temos todo o tempo do mundo — afirmou.
Questionado sobre a possibilidade de retomada imediata dos combates, o republicano respondeu que “se não houver acordo, certamente espero que isso aconteça”.
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Nos últimos dias, Trump tem oscilado sobre a extensão da trégua. Em uma sessão com jornalistas na semana passada, ele foi questionado cinco vezes sobre o tema e deu respostas diferentes.
A declaração do líder americano ocorre em meio à escalada de tensões no Golfo Pérsico. O Irã prometeu nesta segunda-feira “responder em breve” à apreensão, pela Marinha dos EUA, de um cargueiro iraniano que tentava driblar o bloqueio imposto por Washington aos portos do país. Ao mesmo tempo, Teerã afirmou que ainda não decidiu se participará da próxima rodada de negociações com os americanos no Paquistão.
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“As Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão em breve e tomarão medidas de represália contra este ato de pirataria armada e contra os militares americanos”, escreveu no Telegram o porta-voz do Estado-Maior iraniano, ao acusar os EUA de terem “violado o cessar-fogo”.
Segundo a agência iraniana Tasnim, Teerã chegou a lançar drones na direção de navios militares americanos envolvidos no episódio.
A apreensão do cargueiro foi anunciada no domingo por Trump. Segundo ele, a embarcação, identificada como Touska, tentava escapar do bloqueio naval imposto por Washington a portos iranianos no Estreito de Ormuz.
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Em publicação na rede Truth Social, o presidente afirmou que um contratorpedeiro dos EUA interceptou o navio e assumiu o controle após a tripulação se recusar a obedecer ordens. Segundo ele, a embarcação está sob sanções do Departamento do Tesouro americano.
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA divulgou imagens do momento em que militares dos EUA embarcam no cargueiro iraniano M/V Touska, interceptado no Golfo de Omã.
Trump anuncia apreensão de navio de bandeira iraniana enquanto Teerã deixa incerta nova rodada de negociações
Reprodução: Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos
O episódio ocorre em meio ao bloqueio imposto pelos EUA ao tráfego ligado ao Irã no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, aumentando o risco de escalada militar na região.
O cenário se dá em meio à incerteza diplomática. O Ministério das Relações Exteriores iraniano indicou que o país pode não comparecer às novas negociações com Washington. Segundo o porta-voz da chancelaria, Esmaeil Baqaei, ainda não há decisão sobre a participação do Irã no próximo encontro.
“Neste momento, enquanto falo, não temos nenhum plano para a próxima rodada de negociações e nenhuma decisão foi tomada a respeito”, afirmou Baqaei durante entrevista coletiva.
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Ele também criticou a postura americana, dizendo que, apesar do discurso favorável ao diálogo, os EUA não estariam agindo com seriedade.
“Embora se declarem a favor da diplomacia e se mostrem dispostos a negociar, os Estados Unidos estão adotando atitudes que não denotam, em absoluto, seriedade no momento de levar adiante um processo diplomático”, disse.
A imprensa iraniana também aponta que a suspensão do bloqueio naval americano é vista como condição prévia para a retomada das negociações.
Impasse e versões divergentes
Declarações divergentes de autoridades americanas e iranianas ampliam a incerteza sobre a realização de uma nova rodada de negociações nos próximos dias.
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No domingo, Trump afirmou que uma delegação americana estava a caminho de Islamabad, com previsão de chegada na noite desta segunda-feira. O grupo é liderado pelo vice-presidente JD Vance e inclui o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente. O republicano também voltou a ameaçar atacar a infraestrutura civil iraniana caso um acordo não seja alcançado.
Já a mídia estatal do Irã disse que Teerã ainda não concordou com um novo encontro após o fracasso da primeira rodada, em 11 de abril — a reunião presencial de mais alto nível entre os dois países em décadas.
Em artigo, a agência estatal Irna afirmou que as informações divulgadas por Washington fazem parte de uma “estratégia midiática” para pressionar o Irã, citando “exigências excessivas”, “expectativas irreais” e o bloqueio naval como entraves ao diálogo.
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Apesar do discurso público mais duro, há sinais de que as negociações podem avançar. Segundo a CNN, citando fontes em Teerã, uma delegação iraniana deve chegar a Islamabad na terça-feira. A expectativa é que uma declaração simbólica de extensão do cessar-fogo seja feita na quarta-feira, data prevista para o fim da trégua.
Paralelamente, autoridades paquistanesas seguem com os preparativos para o encontro, segundo a BBC. Em Islamabad, o Serena Hotel, que sediou a primeira rodada, foi novamente isolado, enquanto o esquema de segurança foi ampliado, com dezenas de postos de controle e o fechamento de vias com arames farpados na área diplomática. Policiais, militares e forças paramilitares reforçam o patrulhamento, com milhares de agentes mobilizados da província de Punjab, em uma operação que indica foco no “quando”, e não no “se”, das negociações.
Escritórios do governo foram fechados e algumas universidades passaram a operar com aulas online. Apesar da preparação, autoridades paquistanesas têm evitado declarações públicas, e ainda há dúvidas sobre a realização efetiva das negociações.
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No primeiro encontro, há pouco mais de uma semana, a presença da delegação iraniana também só foi confirmada nos momentos finais, o que levanta questionamentos sobre se o cenário atual se repete ou se as conversas podem nem chegar a ocorrer.
Um eventual avanço nas tratativas poderia abrir caminho para um acordo mais amplo, com a possibilidade de um encontro presencial entre os líderes dos dois países — algo inédito desde a Revolução Islâmica de 1979.
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No domingo, o principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que houve progresso nas negociações, mas ressaltou que “ainda estamos longe de um acordo final”. Ele também alertou que Teerã está pronto para retomar os combates caso o cessar-fogo seja rompido.
Entre os principais pontos de impasse estão as exigências americanas sobre o programa nuclear iraniano, incluindo a suspensão ou limitação de longo prazo das atividades de enriquecimento de urânio. Autoridades iranianas rejeitam as condições e negam ter concordado com as demandas mencionadas por Trump.
(Com AFP e New York Times)








