Donald Trump deixou a China nesta sexta depois de uma visita que durou menos de 48 horas e, pelo visto, produziu resultados muito abaixo das expectativas criadas pelo próprio presidente dos Estados Unidos nos meses que a antecederam. No lado positivo, foi mantida a frágil trégua na guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, e a viagem parece ter pavimentado o caminho para estabilizar as relações. Se um dos lados pode ser considerado vitorioso é a China, que tinha esses desfechos como metas.
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Sem ter obtido dos chineses grandes acordos comerciais nem compromissos políticos relevantes, a impressão é de que Trump sai de Pequim menor do que chegou. Depois de ter sido obrigado a recuar em sua ofensiva tarifária no ano passado, ao reconhecer que o domínio da produção de minerais críticos permitia a Pequim desferir um contra-ataque letal, Trump viu seu principal instrumento de pressão murchar. Pior, empacado num impasse na guerra com o Irã, fortaleceu ainda mais a posição da China na negociação.
Prevista inicialmente para o mês de abril, a visita foi adiada sob o argumento de Trump de que não poderia viajar à China por causa da guerra. Mas a guerra não acabou, e ele decidiu vir assim mesmo, algo considerado um erro por muitos analistas. Sua ideia, especulou-se, era que a imagem de estadista numa viagem internacional importante lhe renderia pontos políticos, para reverter o descrédito e os índices de desaprovação recorde nos EUA. Acertou quem achou que sua fragilidade prevaleceria.
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Durante a visita, o contraste entre posturas chamou a atenção. Trump cobriu de elogios o presidente chinês, Xi Jinping, chamando-o várias vezes de “grande líder”. Em partes da visita, Trump parecia mais um turista deslumbrado do que o presidente da maior potência do planeta. Embora cordial, Xi foi direto ao ponto, para marcar posição. Endureceu o tom sobre Taiwan. Logo em seu pronunciamento inicial, repetiu uma frase que tem sido constante nos seus discursos, sobre a “transformação” que o mundo não vivia há um século.
É um referência geralmente associada à transição do centro de gravidade político e econômico mundial que estaria ocorrendo, do Ocidente para o Oriente. Diante de Trump, porém, ele adicionou um detalhe que tornou mais significativa e urgente essa visão, ao dizer que a transformação “está se acelerando”. Em seguida, Xi alertou para os riscos de conflito em transições desse tipo ao longo da história, e Trump mordeu a isca. Em vez de negar o suposto declínio americano, preferiu confirmá-la, só para poder culpar o antecessor, Joe Biden.
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“O negócio de Trump são os negócios”, me disse, poucos dias antes da chegada do presidente americano a Pequim, um respeitado analista chinês, sugerindo que o sucesso da visita seria medido em dólares. A julgar pelo que foi anunciado, o balanço foi magro. Na quinta, Trump disse à rede de TV Fox que a China havia se comprometido a comprar 200 aviões da Boeing, mas não houve confirmação do lado chinês.
Sentado ao lado de Xi nesta sexta, no complexo governamental de Zhongnanhai, Trump considerou a visita um sucesso e contou que foram fechados “acordos comerciais fantásticos”. Além do suposto negócio com a Boeing, a imprensa americana citou fontes de Washington para relatar um acordo agrícola que chegaria a US$ 10 bilhões. Mas, de novo, não houve confirmação do lado chinês — que, é preciso dizer, não costuma se pautar pela transparência.
Entenda: Sob sanção de Pequim, secretário de Estado americano visita a China pela primeira vez graças a artifício linguístico
Como já aconteceu em outros contatos entre os dois presidentes, os relatos oficiais apresentaram diferenças de tom e omissões sintomáticas. Na versão americana, não há menção a Taiwan, o tema mais importante para os chineses. Xi foi duro ao alertar que a questão pode resultar em conflito. Abordado sobre o assunto na quinta, Trump fingiu ignorar a pergunta de um repórter. Já no relato oficial chinês, o Irã não aparece, embora Trump tenha afirmado que os dois países têm visões parecidas sobre o conflito. Os próximos dias talvez revelem se Trump conseguiu convencer Xi a ter um papel mais ativo para pressionar o Irã a não bloquear o Estreito de Ormuz.
Nas entrelinhas, quem acompanha a política chinesa chamou a atenção para o motivo principal pelo qual os chineses consideram histórica essa visita. No comunicado oficial e no pronunciamento de Xi Jinping, o termo usado para resumir a visita tem o timbre típico da diplomacia chinesa: “relação construtiva de estabilidade estratégica entre China e Estados Unidos”. Ou seja, de igual para igual. A fragilidade política de Trump e a urgência em fechar acordos para apresentar resultados criou oportunidades estratégicas para a China, que, ao contrário do presidente americano, não precisa se preocupar com ciclos eleitorais.
Yaqi Li, analista da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, de Cingapura, resumiu bem a discrepância: “Enquanto Trump buscou fechar negócios, Pequim se preparou para redefinir as relações China-EUA.”
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Sem ter obtido dos chineses grandes acordos comerciais nem compromissos políticos relevantes, a impressão é de que Trump sai de Pequim menor do que chegou. Depois de ter sido obrigado a recuar em sua ofensiva tarifária no ano passado, ao reconhecer que o domínio da produção de minerais críticos permitia a Pequim desferir um contra-ataque letal, Trump viu seu principal instrumento de pressão murchar. Pior, empacado num impasse na guerra com o Irã, fortaleceu ainda mais a posição da China na negociação.
Prevista inicialmente para o mês de abril, a visita foi adiada sob o argumento de Trump de que não poderia viajar à China por causa da guerra. Mas a guerra não acabou, e ele decidiu vir assim mesmo, algo considerado um erro por muitos analistas. Sua ideia, especulou-se, era que a imagem de estadista numa viagem internacional importante lhe renderia pontos políticos, para reverter o descrédito e os índices de desaprovação recorde nos EUA. Acertou quem achou que sua fragilidade prevaleceria.
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É um referência geralmente associada à transição do centro de gravidade político e econômico mundial que estaria ocorrendo, do Ocidente para o Oriente. Diante de Trump, porém, ele adicionou um detalhe que tornou mais significativa e urgente essa visão, ao dizer que a transformação “está se acelerando”. Em seguida, Xi alertou para os riscos de conflito em transições desse tipo ao longo da história, e Trump mordeu a isca. Em vez de negar o suposto declínio americano, preferiu confirmá-la, só para poder culpar o antecessor, Joe Biden.
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“O negócio de Trump são os negócios”, me disse, poucos dias antes da chegada do presidente americano a Pequim, um respeitado analista chinês, sugerindo que o sucesso da visita seria medido em dólares. A julgar pelo que foi anunciado, o balanço foi magro. Na quinta, Trump disse à rede de TV Fox que a China havia se comprometido a comprar 200 aviões da Boeing, mas não houve confirmação do lado chinês.
Sentado ao lado de Xi nesta sexta, no complexo governamental de Zhongnanhai, Trump considerou a visita um sucesso e contou que foram fechados “acordos comerciais fantásticos”. Além do suposto negócio com a Boeing, a imprensa americana citou fontes de Washington para relatar um acordo agrícola que chegaria a US$ 10 bilhões. Mas, de novo, não houve confirmação do lado chinês — que, é preciso dizer, não costuma se pautar pela transparência.
Entenda: Sob sanção de Pequim, secretário de Estado americano visita a China pela primeira vez graças a artifício linguístico
Como já aconteceu em outros contatos entre os dois presidentes, os relatos oficiais apresentaram diferenças de tom e omissões sintomáticas. Na versão americana, não há menção a Taiwan, o tema mais importante para os chineses. Xi foi duro ao alertar que a questão pode resultar em conflito. Abordado sobre o assunto na quinta, Trump fingiu ignorar a pergunta de um repórter. Já no relato oficial chinês, o Irã não aparece, embora Trump tenha afirmado que os dois países têm visões parecidas sobre o conflito. Os próximos dias talvez revelem se Trump conseguiu convencer Xi a ter um papel mais ativo para pressionar o Irã a não bloquear o Estreito de Ormuz.
Nas entrelinhas, quem acompanha a política chinesa chamou a atenção para o motivo principal pelo qual os chineses consideram histórica essa visita. No comunicado oficial e no pronunciamento de Xi Jinping, o termo usado para resumir a visita tem o timbre típico da diplomacia chinesa: “relação construtiva de estabilidade estratégica entre China e Estados Unidos”. Ou seja, de igual para igual. A fragilidade política de Trump e a urgência em fechar acordos para apresentar resultados criou oportunidades estratégicas para a China, que, ao contrário do presidente americano, não precisa se preocupar com ciclos eleitorais.
Yaqi Li, analista da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, de Cingapura, resumiu bem a discrepância: “Enquanto Trump buscou fechar negócios, Pequim se preparou para redefinir as relações China-EUA.”










