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Na Copa do Catar, em 2022, havia quatro empresas chinesas entre os maiores patrocinadores. Neste Mundial 2026, o número caiu para três. O montante total investido é mais ou menos o mesmo da última edição, US$ 1,4 bilhão. A mudança é na atuação chinesa, que não se limita a anúncios e patrocínio. Num movimento natural de sua evolução como potência industrial, o domínio chinês se faz presente na tecnologia do torneio. Um exemplo é a Hisense, líder na fabricação de TVs, que fornece os equipamentos de checagem do VAR.
Outra foi a escolha da Lenovo como parceira principal da Fifa nas operações de inteligência artificial do torneio. Cada um dos 1.248 atletas inscritos no mundial terá um avatar hiperrealista feito pela empresa de computação chinesa, que servirá para auxiliar as decisões do VAR. Durante as partidas, os avatares estarão sincronizados com câmeras e sensores da Lenovo. Quando o VAR produzir um veredicto para o árbitro, o sistema poderá gerar uma reconstrução em 3D da jogada.
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Sede da Copa junto com o México e o Canadá, os Estados Unidos impõem restrições à entrada de várias firmas de tecnologia chinesas em suas fronteiras. Só não tiveram como anular a operação da Hisense e da Lenovo no VAR. Ambas já estiveram sob investigação nos EUA por suspeitas variadas, mas ainda não foram alvo de acusações mais sérias, como as surgidas esta semana. O Departamento de Defesa divulgou uma lista de firmas chinesas que teriam ligações com as Forças Armadas do país. Ela inclui gigantes do setor privado, como a empresa de comércio eletrônico Alibaba e a fabricante de veículos elétricos BYD. O governo chinês negou qualquer vínculo militar com elas.
O anúncio do Pentágono confirmou como é frágil a trégua entre EUA e China estabelecida na recente visita do presidente Donald Trump a Pequim. Pelo menos não há o risco de um mal-estar como o que tem cercado a seleção do Irã, que tem sua estreia marcada para o dia 15 na Califórnia, mas que foi vetada de ficar concentrada nos EUA e vai dormir no México. Sem poder ver seu time nacional na competição, os fãs chineses também tem menos incentivo para ir à Copa, principalmente para partidas nos EUA, devido ao temor de hostilidades.
A diferença no horário tampouco ajuda. A maioria das partidas da Copa será disputadas quando na China o relógio estiver marcando entre duas e dez da manhã. Este foi um dos argumentos da estatal CCTV para vencer a queda de braço com a Fifa na negociação pelo pagamento dos direitos de transmissão dos jogos. No fim das contas, a estatal fechou um pacote que inclui também a Copa de 2030 e as Copas femininas de 2027 e 2031 pela bagatela de US$ 60 milhões (R$ 310 milhões), um desconto de 80% em relação à pedida inicial.
A dificuldade em montar uma seleção competitiva capaz de emplacar um Mundial é motivo de frustração permanente para os torcedores chineses, em meio a problemas dentro e fora de campo. Há três semanas, uma nova onda de punições baixou sobre profissionais ligados ao esporte acusados de corrupção e manipulação de resultados. Um total de 65 pessoas levaram suspensões, sendo que 17 foram banidas do futebol. Está longe de ser novidade. Não faz muito tempo, caíram em escândalos semelhantes o técnico da seleção principal e o presidente da Associação de Futebol.
O sonho de ter uma equipe nacional competitiva já levou o time nacional a ter mais de cinco brasileiros na escalação, que trocaram seu passaporte pelo chinês para poderem representar o país. Hoje, só um brasileiro joga na seleção chinesa, o atacante Serginho Soler, do Beijing Guoan, maior clube da capital. Há alguns dias, ‘Sai Erjiniao’, como ele é conhecido no país, marcou seu primeiro gol com a camisa chinesa num amistoso em que a China derrotou Cingapura por 2 a 1.
Na falta de jogadores com a camisa do país, o principal representante da China nos gramados da Copa 2026 será um juiz. Ma Ning, 46, conhecido como “o rei dos cartões” pelo estilo rigoroso no apito, virou celebridade, com milhares de seguidores nas redes sociais do país. As redes se encheram de comentários de torcedores frustrados, muitos sem perder a ironia ao dizer que Ma estará como o resto dos chineses, apenas assistindo ao Mundial.
Alguns buscaram resignação em metáforas geopolíticas. Afinal, ter uma marca chinesa nos equipamentos do VAR e um árbitro durão no apito se encaixa na imagem de fiador da estabilidade como potência responsável, num mundo em estado de turbulência e desordem. Pode funcionar como discurso político. Mas é um prêmio de consolação chocho para os desiludidos torcedores do país, órfãos de uma representação competitiva na Copa desde 2002.









