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Em um mundo sem florestas ou animais terrestres complexos, musgos e pequenos insetos cobriam o solo enquanto os prototaxitos se destacavam como verdadeiras torres vivas. Seu tamanho e abundância fizeram deles as maiores estruturas do período Devoniano, funcionando como uma espécie de antecessor das florestas modernas — embora sua natureza biológica permanecesse incerta.
O enigma começou no século XIX, quando o geólogo John William Dawson descreveu os primeiros fósseis encontrados no Canadá, na década de 1850, como restos de árvores primitivas, chegando a chamá-los de “primeira conífera”. A interpretação parecia plausível, mas esbarrava em um problema central: naquela época, árvores ainda não existiam. Desde então, os prototaxitos já foram classificados como plantas, algas, líquens e, mais recentemente, fungos gigantes.
Um fóssil que não se encaixa
Agora, um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Edimburgo reacende o debate ao analisar fósseis excepcionalmente preservados de Prototaxites taiti, encontrados no sílex de Rhynie, na Escócia. A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira (21) na revista Science Advances e se baseia em um depósito formado próximo ao equador há cerca de 400 milhões de anos, famoso por conservar organismos com detalhes microscópicos.
A análise revelou uma estrutura interna inesperada: redes complexas de tubos de diferentes tamanhos e formatos, alguns ramificados, outros curvos, com paredes que exibiam padrões de crescimento. Segundo Alexander “Sandy” Hetherington, um dos autores, essas características não correspondem às de fungos ou plantas primitivas conhecidas. “Em todos os livros de anatomia sobre fungos vivos, nunca encontramos estruturas como essas”, afirmou.
A equipe também realizou análises químicas em busca de quitina, componente típico das paredes celulares dos fungos, mas não encontrou vestígios nos prototaxitos. O contraste foi claro: outros fungos preservados no mesmo depósito apresentaram sinais químicos dessa substância. Técnicas de aprendizado de máquina reforçaram o resultado, identificando os fósseis como pertencentes a um grupo distinto de plantas, fungos e outros eucariotos conhecidos.
A conclusão, destacada no próprio artigo, é direta: nenhum grupo existente reúne todas as características observadas nos prototaxitos. Para os autores, a hipótese mais consistente é a de que esses organismos representem uma linhagem completamente nova e hoje extinta da árvore da vida.
Especialistas independentes acolheram as evidências com cautela e curiosidade. A paleobióloga Vivi Vajda, do Museu Sueco de História Natural, concordou que os dados não sustentam a hipótese fúngica e sugeriu que a busca por fósseis com assinaturas químicas semelhantes pode ajudar a rastrear essa linhagem perdida. Já Matthew Nelsen, do Museu Field, destacou que o caso reforça a ideia de que a diversidade da vida terrestre primitiva era muito maior do que se supunha.
Durante milhões de anos, os prototaxitos alteraram a dinâmica da luz, da umidade e dos nutrientes em paisagens sem árvores. Seu desaparecimento completo, sem descendentes identificáveis, lembra que a evolução não seguiu um caminho linear até as formas atuais, mas foi marcada por experimentos que prosperaram e se extinguiram. Hoje, esses colossos silenciosos deixam de ser apenas uma curiosidade fóssil e passam a questionar os limites das categorias com que a ciência tenta organizar a história da vida na Terra.








