O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e a premier da Dinamarca, Mette Frederiksen, concordaram nesta sexta-feira que a Aliança Atlântica deve fortalecer a segurança no Ártico, após a mudança de posição do presidente dos EUA, Donald Trump, que retirou sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força. A sinalização dos líderes europeus atende aos interesses de Trump, que aponta que China e Rússia expandem seus interesses na região — o que Pequim e Moscou negam, embora já tenham ampliando suas investidas estratégicas nos campos comercial e militar.
Sem Dinamarca e Groenlândia à mesa: EUA e Otan discutem futuro da ilha com foco na defesa do Ártico e em direitos de mineração
Rotas comerciais, minérios e posição estratégica: Impacto de mudança climática na Groenlândia aumenta interesse dos EUA por território
“Concordamos que a Otan deve aumentar seu compromisso no Ártico. Defesa e segurança no Ártico são uma questão de preocupação para toda a aliança”, escreveu Frederiksen após uma reunião com Rutte em Bruxelas, em um comunicado divulgado à imprensa.
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A Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca, virou o centro de uma crise entre os EUA e a parte europeia da Otan desde que Trump iniciou uma campanha para anexá-la, sob justificativa de que seria essencial para a segurança nacional e internacional, apontando para os interesses da China e da Rússia. Em certa altura, o presidente chegou a dizer que não descartaria uma tomada militar da região, mas recuou na quarta-feira, quando abriu espaço para negociações colaborativas.
China e Rússia negam categoricamente querer se apoderar do território groenlandês, mas desde a década de 2010, favorecida pelas mudanças climáticas, exploram a chamada Rota Oceânica Norte. Moscou também reforça suas capacidades militares no Ártico, onde posiciona bases a uma curta distância de territórios ocidentais — incluindo os EUA.
— A Rússia nunca ameaçou ninguém no Ártico. Mas acompanhamos de perto a evolução da situação […] reforçando a capacidade de combate das Forças Armadas e modernizando as infraestruturas militares — declarou o líder russo, Vladimir Putin, em março de 2025.
Disputa comercial e militar no Ártico
Arte/ O GLOBO
Após uma cúpula de emergência sobre o estado das relações transatlânticas — sem participação da Groenlândia ou da Dinamarca —, líderes europeus anunciaram que apresentarão em breve uma proposta de pacote de investimentos para a Groenlândia e destinarão parte do aumento dos gastos com segurança para o Ártico. Em uma coletiva de imprensa na manhã desta sexta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, revelou as medidas, parte de um plano para suavizar as relações com os EUA.
— A Comissão apresentará em breve um pacote substancial de investimentos — disse Von der Leyen, sem dar muitos detalhes. — Além dos investimentos, também pretendemos aprofundar a cooperação com os Estados Unidos e todos os parceiros sobre o importante tema da segurança no Ártico.
‘Integridade territorial’: Dinamarca se diz aberta a ‘diálogo construtivo com aliados’ sobre a Groenlândia, mas exige respeito
Ainda de acordo com a líder do Executivo da UE, o bloco está em uma posição “melhor do que nas últimas 24 horas” após a reunião. Ela também revelou que a crise com a Groenlândia ensinou lições para lidar com os EUA sob Trump, e que a resposta inclui “firmeza, diálogo, preparação e união”.
Em uma declaração em separado, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou nesta sexta-feira que a Dinamarca e a Groenlândia também discutiriam a situação com os EUA — já que os países não fazem parte da UE. O chanceler afirmou que as conversas tomariam lugar “muito em breve”, mas que as datas não seriam anunciadas, pois era hora de “acalmar os ânimos”, após semanas de tensão elevada.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, após reunião entre líderes do bloco para discutir situação das relações transatlânticas
Nicolas Tucat/AFP
Fontes americanas: EUA e Dinamarca vão renegociar acordo de defesa de 1951 sobre a Groenlândia
Rota Oceânica Norte
A Rússia considera que o Ártico é fundamental para suas trocas comerciais com a Ásia, sobretudo para neutralizar os efeitos das sanções ocidentais sobre seus hidrocarbonetos, impostas após a invasão da Ucrânia em 2022. Moscou pretende desenvolver ao máximo a navegação pela “Rota Oceânica Norte”, que agora tornou-se mais viável devido ao degelo provocado pelas mudanças climáticas.
Esta rota, que beira as costas árticas da Rússia e fica longe da Groenlândia, permite aumentar o transporte de hidrocarbonetos russos em direção ao sudeste asiático, conectando os oceanos Atlântico, Pacífico e Ártico.
Rotas árticas em expansão: Derretimento de gelo na Groenlândia e no Oceano Ártico abrem caminhos navegáveis
Arte/ O GLOBO
Com essa finalidade, a Rússia é o único fabricante e operador de quebra-gelos de propulsão nuclear: navios gigantescos capazes de varrer os obstáculos de gelo encontrados nas águas e abrir caminho para os cargueiros.
Meses após o início da invasão da Ucrânia, as autoridades russas reafirmaram a vontade de desenvolver essa rota ao aprovar um plano de investimentos de cerca de US$ 23 bilhões (R$ 121,7 bilhões) até 2035. No momento, porém, o comércio por essa via continua caro e complexo. E seu volume está longe das centenas de milhões de toneladas de mercadorias que transitam todos os anos pelo Canal de Suez, por exemplo.
Marcelo Ninio: Apesar de foco regional, EUA não cedem espaço na Ásia
Em 2025, foram transportadas 37 milhões de toneladas de mercadorias pela Rota Oceânica Norte, o que representa uma queda de 2,3% em um ano, segundo dados da agência Ria Novosti baseados em estatísticas oficiais.
A China, por sua vez, lançou em 2018 seu projeto de “Rota da Seda Polar”, uma variante ártica de sua iniciativa transnacional de infraestrutura, e aspira tornar-se uma “grande potência polar” até 2030. O gigante asiático chegou a estabelecer estações de pesquisa científica na Islândia e na Noruega. Além disso, empresas chinesas investiram em projetos como o de gás natural liquefeito russo e em uma linha ferroviária sueca.
Reforço das capacidades militares
Em 2021, Moscou anunciou ter construído uma pista de 3,5 km capaz de receber todos os tipos de aviões, incluindo bombardeiros com armas nucleares, no arquipélago de Terra de Francisco José, no extremo norte da Rússia. Em 2019, o exército russo também afirmou ter implantado baterias antiaéreas de última geração S-400 no Ártico e inaugurado uma nova base de radar no arquipélago de Nova Zembla. Em setembro de 2025, a Frota do Norte da Rússia, encarregada do Ártico, realizou novos exercícios militares que incluíram desembarques de tropas, além de disparos de navios e submarinos nucleares.
No Ártico, a presença militar chinesa, embora modesta, aumentou em colaboração com a Rússia desde 2022. Por exemplo, em 2024, bombardeiros russos e chineses realizaram uma patrulha conjunta na junção entre os continentes asiático e americano, próximo ao Alasca. A China também opera alguns quebra-gelos equipados com minissubmarinos de profundidade, capazes de mapear o leito marinho, o que pode ser útil para fins militares. O país também opera satélites de observação do Ártico. Pequim assegura que seus objetivos são científicos. (Com NYT e AFP)
Sem Dinamarca e Groenlândia à mesa: EUA e Otan discutem futuro da ilha com foco na defesa do Ártico e em direitos de mineração
Rotas comerciais, minérios e posição estratégica: Impacto de mudança climática na Groenlândia aumenta interesse dos EUA por território
“Concordamos que a Otan deve aumentar seu compromisso no Ártico. Defesa e segurança no Ártico são uma questão de preocupação para toda a aliança”, escreveu Frederiksen após uma reunião com Rutte em Bruxelas, em um comunicado divulgado à imprensa.
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A Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca, virou o centro de uma crise entre os EUA e a parte europeia da Otan desde que Trump iniciou uma campanha para anexá-la, sob justificativa de que seria essencial para a segurança nacional e internacional, apontando para os interesses da China e da Rússia. Em certa altura, o presidente chegou a dizer que não descartaria uma tomada militar da região, mas recuou na quarta-feira, quando abriu espaço para negociações colaborativas.
China e Rússia negam categoricamente querer se apoderar do território groenlandês, mas desde a década de 2010, favorecida pelas mudanças climáticas, exploram a chamada Rota Oceânica Norte. Moscou também reforça suas capacidades militares no Ártico, onde posiciona bases a uma curta distância de territórios ocidentais — incluindo os EUA.
— A Rússia nunca ameaçou ninguém no Ártico. Mas acompanhamos de perto a evolução da situação […] reforçando a capacidade de combate das Forças Armadas e modernizando as infraestruturas militares — declarou o líder russo, Vladimir Putin, em março de 2025.
Disputa comercial e militar no Ártico
Arte/ O GLOBO
Após uma cúpula de emergência sobre o estado das relações transatlânticas — sem participação da Groenlândia ou da Dinamarca —, líderes europeus anunciaram que apresentarão em breve uma proposta de pacote de investimentos para a Groenlândia e destinarão parte do aumento dos gastos com segurança para o Ártico. Em uma coletiva de imprensa na manhã desta sexta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, revelou as medidas, parte de um plano para suavizar as relações com os EUA.
— A Comissão apresentará em breve um pacote substancial de investimentos — disse Von der Leyen, sem dar muitos detalhes. — Além dos investimentos, também pretendemos aprofundar a cooperação com os Estados Unidos e todos os parceiros sobre o importante tema da segurança no Ártico.
‘Integridade territorial’: Dinamarca se diz aberta a ‘diálogo construtivo com aliados’ sobre a Groenlândia, mas exige respeito
Ainda de acordo com a líder do Executivo da UE, o bloco está em uma posição “melhor do que nas últimas 24 horas” após a reunião. Ela também revelou que a crise com a Groenlândia ensinou lições para lidar com os EUA sob Trump, e que a resposta inclui “firmeza, diálogo, preparação e união”.
Em uma declaração em separado, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou nesta sexta-feira que a Dinamarca e a Groenlândia também discutiriam a situação com os EUA — já que os países não fazem parte da UE. O chanceler afirmou que as conversas tomariam lugar “muito em breve”, mas que as datas não seriam anunciadas, pois era hora de “acalmar os ânimos”, após semanas de tensão elevada.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, após reunião entre líderes do bloco para discutir situação das relações transatlânticas
Nicolas Tucat/AFP
Fontes americanas: EUA e Dinamarca vão renegociar acordo de defesa de 1951 sobre a Groenlândia
Rota Oceânica Norte
A Rússia considera que o Ártico é fundamental para suas trocas comerciais com a Ásia, sobretudo para neutralizar os efeitos das sanções ocidentais sobre seus hidrocarbonetos, impostas após a invasão da Ucrânia em 2022. Moscou pretende desenvolver ao máximo a navegação pela “Rota Oceânica Norte”, que agora tornou-se mais viável devido ao degelo provocado pelas mudanças climáticas.
Esta rota, que beira as costas árticas da Rússia e fica longe da Groenlândia, permite aumentar o transporte de hidrocarbonetos russos em direção ao sudeste asiático, conectando os oceanos Atlântico, Pacífico e Ártico.
Rotas árticas em expansão: Derretimento de gelo na Groenlândia e no Oceano Ártico abrem caminhos navegáveis
Arte/ O GLOBO
Com essa finalidade, a Rússia é o único fabricante e operador de quebra-gelos de propulsão nuclear: navios gigantescos capazes de varrer os obstáculos de gelo encontrados nas águas e abrir caminho para os cargueiros.
Meses após o início da invasão da Ucrânia, as autoridades russas reafirmaram a vontade de desenvolver essa rota ao aprovar um plano de investimentos de cerca de US$ 23 bilhões (R$ 121,7 bilhões) até 2035. No momento, porém, o comércio por essa via continua caro e complexo. E seu volume está longe das centenas de milhões de toneladas de mercadorias que transitam todos os anos pelo Canal de Suez, por exemplo.
Marcelo Ninio: Apesar de foco regional, EUA não cedem espaço na Ásia
Em 2025, foram transportadas 37 milhões de toneladas de mercadorias pela Rota Oceânica Norte, o que representa uma queda de 2,3% em um ano, segundo dados da agência Ria Novosti baseados em estatísticas oficiais.
A China, por sua vez, lançou em 2018 seu projeto de “Rota da Seda Polar”, uma variante ártica de sua iniciativa transnacional de infraestrutura, e aspira tornar-se uma “grande potência polar” até 2030. O gigante asiático chegou a estabelecer estações de pesquisa científica na Islândia e na Noruega. Além disso, empresas chinesas investiram em projetos como o de gás natural liquefeito russo e em uma linha ferroviária sueca.
Reforço das capacidades militares
Em 2021, Moscou anunciou ter construído uma pista de 3,5 km capaz de receber todos os tipos de aviões, incluindo bombardeiros com armas nucleares, no arquipélago de Terra de Francisco José, no extremo norte da Rússia. Em 2019, o exército russo também afirmou ter implantado baterias antiaéreas de última geração S-400 no Ártico e inaugurado uma nova base de radar no arquipélago de Nova Zembla. Em setembro de 2025, a Frota do Norte da Rússia, encarregada do Ártico, realizou novos exercícios militares que incluíram desembarques de tropas, além de disparos de navios e submarinos nucleares.
No Ártico, a presença militar chinesa, embora modesta, aumentou em colaboração com a Rússia desde 2022. Por exemplo, em 2024, bombardeiros russos e chineses realizaram uma patrulha conjunta na junção entre os continentes asiático e americano, próximo ao Alasca. A China também opera alguns quebra-gelos equipados com minissubmarinos de profundidade, capazes de mapear o leito marinho, o que pode ser útil para fins militares. O país também opera satélites de observação do Ártico. Pequim assegura que seus objetivos são científicos. (Com NYT e AFP)










