Convidamos nossos leitores a enviar perguntas sobre o tema. As questões selecionadas pela redação foram respondidas pela editora de Mundo do GLOBO, Leda Balbino.
É o caso da pergunta da leitora Izilda Bacil, sobre a possibilidade de uma guerra civil na Venezuela. Seguem abaixo as repostas da editora Leda Balbino em vídeo e texto.
Pergunte ao GLOBO: Há risco de guerra civil na Venezuela?
Pelo que o Maduro está sendo acusado? Quais as provas sobre esse caso? (Por Jailton)
As últimas notícias sobre a acusação formal dos EUA contra Maduro dão conta de que o Cartel de Los Soles passou a ser usado como um ‘termo guarda-chuva’. O que sobra agora? (Por Tatiana Azevedo)
Leda Balbino: Nesta semana, um aspecto que chamou atenção na denúncia apresentada pelo governo Trump à Justiça americana é o fato de não apresentar o chamado Cartel de los Soles como uma organização real, mas, sim, como um “sistema clientelista” e uma “cultura de corrupção” alimentada pelo dinheiro do tráfico de drogas. No ano passado, além de os EUA apresentarem o Los Soles como uma organização narcotraficante e a classificarem como terrorista, também acusaram Maduro de liderá-lo. Mas, apesar dessa mudança, o documento ainda acusa Maduro e sua esposa Cilia — capturados em 3 de janeiro —, seu filho Nicolás Ernesto Maduro Guerra e autoridades como o atual ministro do Interior, Diosdado Cabello, de conspiração para o narcoterrorismo e de uso de armas para proteger operações de tráfico. O documento diz que, desde o início do chavismo, eles se associaram a grupos criminosos da Colômbia, da Venezuela e do México para apoiar o tráfico de cocaína. A denúncia contém informações genéricas e não cita nomes de informantes e testemunhas, sendo a parte mais detalhada a que se refere a dados concedidos, sob delação premiada, por um ex-aliado de Maduro. Ainda não está claro se há provas materiais e, em caso afirmativo, quais seriam.
Segundo especialistas, a Venezuela tem produção insignificante de cocaína, mas serve como um centro de distribuição de 10% a 13% do fornecimento global, principalmente para a Europa. O presidente americano, Donald Trump, alega que a cocaína contribui para as mortes por overdose no país e que é misturada com o fentanil, a droga líder no número de mortes desse tipo. Mas, segundo a DEA (Administração de Repressão às Drogas dos EUA) e estudos acadêmicos, a mistura acontece no México ou dentro dos Estados Unidos, não na América do Sul.
Queria saber sobre a esposa do Maduro. Ela será julgada com o mesmo rigor que o esposo? (Por Daniel Furtado)
É interessante notar que, além do Maduro, os EUA também capturaram Cilia Flores. Outras pessoas citadas na denúncia, como o ministro do Interior, Diosdado Cabello, e o filho de Maduro, Nicolás Ernesto Maduro Guerra, não foram capturadas. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, foi perguntado sobre o porquê dessa decisão. Em resumo, ele respondeu que a missão teve que ter um alvo prioritário para evitar os riscos que surgiriam para as equipes americanas se tentassem fazer outras prisões. Os EUA acusam tanto Maduro quanto Cilia de conspiração narcoterrorista e de uso de armas para proteger operações de tráfico de cocaína. Ex-advogada na década de 90 de Hugo Chávez, morto em 2013, Cilia tem uma longa carreira política. Ela foi presidente da Assembleia Nacional (2006 a 2011), procuradora-geral da República (2012 e 2013) e, desde 2017, era deputada. Primeira-dama, também tinha poder dentro do governo. Nesse sentido, ela não é só meramente a mulher de Maduro. Mas ainda não sabemos se ela será julgada com o mesmo rigor, no sentido de ter a mesma pena. Isso só o andamento do caso vai dizer.
Chavistas estão sendo mantidos no poder e a oposição não parece receber de Trump o apoio que esperava. A ação dos EUA foi apenas para abrir a Venezuela para os EUA ou podemos esperar outras reviravoltas? (Por Tatiana Azevedo)
Terá a Venezuela uma saída em paz ou a mesma crise política ficará por mais tempo? (Por José Luis)
Exatamente. A ação dos EUA retirou o Maduro, mas manteve o chavismo, escanteando a oposição — e isso não foi acidental. Tudo leva a entender que os EUA perceberam que não seria possível desmantelar o chavismo, que está institucionalizado há quase 30 anos, sem envolver diretamente autoridades e forças americanas em terra. Considerando as consequências vistas em intervenções de mudança de regime no Iraque e Afeganistão, que implicaram tropas e tiveram alto custo financeiro e humano, o cálculo foi restringir a ação à prisão da autoridade máxima do governo e de sua mulher. Essas prisões funcionam como um símbolo e dão um recado coercitivo: se os líderes remanescentes do chavismo não colaborarem, podem ter a mesma sorte. Também indicam que os EUA querem que o chavismo, historicamente nacionalista e antiamericano, passe agora a trabalhar pelos interesses americanos na região, e não mais em conjunto com China, Rússia, Irã etc. Vai levar tempo para compreendermos melhor como essa dinâmica vai operar e quais serão suas consequências para a Venezuela, para os EUA, para a região e para o mundo.
Você acha que existe perigo de uma guerra civil na Venezuela, agora sem o Maduro, mas também sem mudança de regime? (Por Izilda Bacil)
Com os elementos presentes agora, ainda é muito cedo para dizer se há risco de guerra civil. Por enquanto, o que é possível afirmar é que uma operação como a dos EUA, que levou à captura de Maduro e de Cilia Flores, aumentou a instabilidade, tensão e desconfiança no país. Já há, por exemplo, informações de maior presença nas ruas dos chamados coletivos, que são grupos armados aliados ao chavismo. Sob ordens do governo, eles vêm percorrendo as ruas para reprimir celebrações pela operação de captura de Maduro e quaisquer atos que interpretem como traição. Também há informações da detenção temporária de ao menos 16 jornalistas, 14 deles enquanto tentavam cobrir a posse da presidente interina, Delcy Rodríguez, na última segunda-feira. Como, segundo os próprios EUA, a operação contou com a ajuda de ao menos um informante, que sabia detalhes da rotina do Maduro, é possível imaginar que haja um clima de desconfiança e de disputas internas no governo. Com todo esse cenário, há um risco de aumento da repressão e perseguição política. Então, realmente, muita coisa ainda pode acontecer.
Presidente interina: Delcy é ‘business’ e pode até dar nova chance ao chavismo








