— Todos nós somos, de alguma forma, migrantes. Somos todos peregrinos a caminho da nossa pátria celestial. Ajudemo-nos uns aos outros a tornar esta jornada mais humana para todos, contribuindo com o que estiver ao nosso alcance — disse.
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A passagem pelas Canárias marcou a etapa final de uma viagem que também incluiu Madri e Barcelona. Localizado a mais de mil quilômetros da Espanha continental, o arquipélago se tornou nos últimos anos um dos principais destinos de embarcações que partem da costa africana em direção à Europa. Apenas em 2025, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), quase 1,2 mil pessoas morreram ou desapareceram na rota.
— A consciência humana não pode permanecer indiferente diante das vítimas dos naufrágios e da falta de ajuda, diante desses cemitérios do mar. Cada vida perdida nessas rotas é um fracasso para a família humana. Existe também um naufrágio silencioso após a chegada: ficar sozinho em uma cidade, sem língua, sem vínculos, sem trabalho, sem confiança e exposto àqueles que se aproveitam da vulnerabilidade. Integrar é impedir esse segundo naufrágio.
‘Caminho recíproco’
A primeira parada de Leão XIV em Tenerife foi o centro de acolhimento Las Raíces, em La Laguna. Hoje com cerca de 500 pessoas abrigadas, o local chegou a receber mais de 2 mil durante os momentos mais críticos da crise migratória. Diante de migrantes e voluntários, o Pontífice destacou a dimensão humana da experiência migratória e pediu solidariedade, defendendo que “integrar-se é um caminho recíproco”:
— Quem chega aprende a habitar uma nova terra, e quem recebe aprende a ampliar a própria casa sem diluir sua identidade nem fechar o coração ao encontro. A vocês, irmãos migrantes, cabe abrir-se com confiança à comunidade que os recebe, aprender sua língua, respeitar suas leis, conhecer seus costumes, participar da vida comum e oferecer com gratidão seus dons.
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Leão XIV também agradeceu o trabalho realizado por autoridades, instituições e organizações que atuam no acolhimento dos recém-chegados e recordou o Papa Francisco (1936-2025), que, segundo ele, desejava visitar o arquipélago. Ao mencionar o nome do centro, Las Raíces, Leão XIV lembrou uma imagem frequentemente utilizada por seu antecessor para defender a importância de não esquecer as origens.
— Chamou-me a atenção o nome deste centro de acolhimento, Las Raíces. Meu predecessor, o querido Papa Francisco, que tanto desejou poder estar com vocês, gostava de utilizar a imagem das raízes para indicar a necessidade de não esquecer as origens, de permanecer unidos e de confiar no Senhor — declarou.
Tráfico humano
Mais tarde, em La Laguna, o Papa participou de um encontro com organizações religiosas e leigas que prestam assistência a migrantes. Cerca de 4 mil pessoas acompanharam o evento, segundo o Vaticano. No local, o Pontífice ouviu relatos sobre as travessias até as Canárias e as dificuldades enfrentadas após a chegada à Europa, e afirmou que as “lágrimas e o sangue” daqueles que foram explorados ao tentar chegar ao continente “clamam a Deus”.
A fala de Leão XIV foi feita no mesmo dia em que o Pacto de Migração da União Europeia (UE), que endurece as regras para pedidos de asilo, entrou plenamente em vigor. As Ilhas Canárias registraram um pico migratório em 2024, quando receberam 46,8 mil migrantes em situação irregular, ante menos de mil em 2015, segundo dados oficiais.
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Em uma das passagens mais contundentes da viagem, o Papa dirigiu-se às organizações criminosas que lucram com a migração irregular, acusando as redes de explorar pessoas vulneráveis, reter documentos, enganar famílias e transformar o sofrimento em negócio. Segundo relatório da Europol divulgado no ano passado, traficantes de migrantes têm se tornado mais ágeis na exploração da instabilidade geopolítica e das pressões econômicas, adaptando seus modelos de atuação para incorporar ferramentas online.
— Parem. Convertam-se — pediu o Papa. — Por cada vida perdida, cada família enganada, cada corpo submetido, cada mulher ameaçada, cada trabalhador explorado, terão de comparecer diante da justiça divina.
Neste ano, a polícia desmantelou uma rede criminosa da Nigéria que traficava pessoas na Espanha e outra que explorava mulheres ucranianas vulneráveis que haviam recebido status de proteção no país, informou a Europol. No ano passado, as autoridades espanholas desarticularam uma rede de tráfico humano que atraiu mais de mil mulheres para o país com ofertas de emprego falsas antes de forçá-las à prostituição.
Leão, que iniciou sua viagem em Madri, tornou-se o primeiro Papa a discursar no Parlamento espanhol, onde advertiu que a escalada dos conflitos está empurrando o mundo para uma crise profunda. Ele também visitou Barcelona, onde inaugurou a mais nova das torres geométricas da Basílica da Sagrada Família, hoje a igreja mais alta do mundo.
(Com AFP)









