— As pessoas param e querem saber a história — diz Soto.
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O eremita diz que o observatório “chama a atenção”. A Rota 40, neste trecho, é asfaltada e ladeada por imensas extensões de terra árida, planaltos e colinas cor de cobre. As nuvens têm estranhas formas ovais. Uma velha cabana à beira da estrada, a ruína do posto de descanso Luz Divina, e então: a paisagem basáltica da solidão patagônica.
— Não é normal ver seres humanos neste território, muito menos um observatório — acrescenta Soto.
Mudança radical
Ele tem duas grandes histórias para contar. Nasceu em Puerto Deseado e morou em Trelew, mas em outubro passado sentiu que as vozes em seu interior o impeliam a deixar a cidade e seu ritmo frenético.
— Um dia acordei, juntei dinheiro para pagar as contas e o aluguel e me perguntei: ‘A vida vai ser sempre assim?’ Recusei — conta.
Ele também recebeu a notícia de que o terreno onde seu tio morou nos últimos 25 anos poderia ficar vago. Um primo cuidava da propriedade e o convidou para dar continuidade ao legado da família.
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Em outubro passado, ele chegou ao observatório, que seu tio cuidou até sua morte, e desde então está sozinho. Soto conta que se exilou “em busca de um propósito”. O interior da antiga estação astronômica é sua casa.
Abandonada na década de 1970, a estrutura agora carece de qualquer equipamento técnico, e sua moradia singular range e treme com o vento implacável da estepe.
— Eu queria mergulhar na introspecção e me distanciar da proposta que domina o mundo hoje: trabalhar mais para ganhar menos — afirma.
Dificuldades do isolamento
O rio La Leona corre a 500 metros de distância. Mas é um leito de água glacial.
— Essa água não é potável porque tem uma alta concentração de minerais, mas eu uso para cozinhar e limpar — explica.
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Para beber, ele traz jarras de El Calafate (a 100 quilômetros de distância) ou conta com a gentileza de viajantes e turistas.
— Muitos sabem que estou aqui e me deixam ficar — diz.
Seu propósito é nobre: cuidar do túmulo de seu tio Ramón Epulef, chefe da comunidade Mapuche. Soto disse que cuidar do túmulo do tio, que descreve como “sagrado”, é o seu “propósito”
O local fica no alto de uma colina, antes de chegar ao rio. Epulef chegou em 1998 e faleceu em 2023. Era um domador de cavalos renomado nos Andes e um guia respeitado da estepe patagônica. Ele tinha um método indígena que o tornou famoso: sua família era do povo Epulef, reconhecido por Marcelo T. de Alvear e que tinha seus territórios em Chubut.
— Meu tio foi descendo, se encontrou com este lugar e se estabeleceu aqui, cuidou — afirma Soto.
O observatório é outra grande história. Em 1934, o engenheiro Félix Aguilar assumiu a direção do Observatório de La Plata. Naquela época, o céu do hemisfério sul era em grande parte inexplorado e, para estudar a localização das estrelas perto do Polo Sul, ele propôs a criação de uma “Estação Astronômica Austral”. Para isso, começou a procurar locais adequados.
— Ele achava que esta era a melhor — diz Soto.
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Na fronteira da Argentina, ele escolheu este local remoto conhecido como La Leona, nome derivado do rancho e pousada situados cinco quilômetros mais ao norte. Desde o início, o local era considerado extremo. Río Gallegos ficava a 350 quilômetros de distância por estradas de terra, e a cidade mais próxima era El Calafate, fundada apenas alguns anos antes, em 1927.
A construção foi uma empreitada épica. Os tijolos foram fabricados e queimados no local. Encontrar mão de obra, transportar materiais e alimentos, e enfrentar o clima rigoroso — ventos com força de furacão, além de gelo e neve no inverno — foram tarefas difíceis.
— Hoje em dia é difícil, quero nem pensar naqueles anos — confessa.
A Patagônia foi construída rompendo com a palavra “impossível”.
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O projeto foi aprovado em 1940 e, em 1946, o governo nacional cedeu o terreno à Universidade de La Plata. A construção começou em 1950. Aguilar não viveu para ver seu sonho realizado: ele faleceu em 1943. Em 1951, o prédio que abrigaria o telescópio estava concluído, assim como os estábulos e uma casa para os astrônomos.
O plano original era construir uma usina elétrica e um prédio para uma bomba d’água, mas o projeto ficou sem verba e essas duas estruturas nunca foram construídas. A água utilizada era proveniente de algumas fontes próximas e também da chuva, embora a precipitação fosse sempre muito escassa.
Telescópio que não funcionava
Soto contou que “eles trouxeram um telescópio que não funcionava”. Após o empreendimento hercúleo da construção, as coisas não correram bem. Em 1957, o diretor do Observatório de La Plata, Reynaldo Cesco, decidiu dar um último impulso para inaugurar a estação astronômica de La Leona. Isso foi finalmente alcançado em 1960. O plano era instalar um Círculo Meridiano Repsold.
O círculo era um instrumento astrométrico de alta precisão para a época, projetado em 1853 na Alemanha. Ele podia medir coordenadas celestes com grande exatidão. Em La Plata, havia um de 1908 que nunca havia sido retirado de sua caixa original e estava guardado há décadas, mas foi emprestado a um observatório em Córdoba. Cesco enfrentou um grande problema: ele tinha que inaugurar a estação astronômica de La Leona, mas não tinha a um telescópio.
— Eles encomendaram dos Estados Unidos — afirma Soto.
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De fato, eles providenciaram o empréstimo de um telescópio para o Observatório Lick da Universidade da Califórnia, que chegou por mar diretamente à remota região de Santa Cruz após uma viagem que durou meses. O problema foi resolvido apenas parcialmente, porque o telescópio americano não era usado há três décadas. Ele chegou à Patagônia, foi instalado para a inauguração e, em seguida, teve que ser desmontado para ser levado a La Plata para recalibração.
Foi somente em dezembro de 1965, sob um sol que brilha por até 17 horas por dia naquela latitude, que o Observatório Austral Félix Aguilar conseguiu começar a mapear o céu. A proximidade com o rio La Leona resultava em imagens borradas, e a constante formação de nuvens se mostrou um obstáculo. Constatou-se que havia apenas 80 noites claras por ano, então o trabalho de catalogação das estrelas foi reduzido à localização de 200 por mês. Acima de tudo, o isolamento do local significava que o “Observador”, o astrônomo que ali trabalhava, o fazia com sua família.
Ele não tinha assistência médica, rádio ou transporte, e a correspondência chegava apenas a cada 15 dias. Foi somente no final da década de 1960 que o governo da província de Santa Cruz doou uma caminhonete para o astrônomo. No entanto, o isolamento submeteu os cinco astrônomos que ali trabalharam — revezando-se — até o fechamento do complexo em 1973 a severos testes físicos e mentais. O telescópio retornou a La Plata e o prédio foi abandonado.
Reconstrução
O clima severo — sol e vento intensos no verão, frio e gelo no inverno — e o vandalismo de curiosos fizeram com que a casa do astrônomo caísse em ruínas, assim como os outros edifícios. Em 1998, Lonco Ramón Epulef tornou a casa habitável novamente, preservando a cúpula e seu interior. Ele criava seus animais lá e vivia com sua família.
— Meu tio foi quem reconstruiu tudo. Ele era a única pessoa que cuidava dela — diz Soto.
Em 2009, um projeto de lei para declarar o observatório um “Monumento Histórico Nacional” foi submetido à Comissão de Cultura, Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados. Até o momento, não houve notícias de nenhum progresso sobre o assunto.
Seguindo esse legado, após sua morte em 2023, a família continuou a cuidar da terra e das instalações. Durante sua vida, o governo de Santa Cruz concedeu ao lonco (cacique mapuche) a usucapião (posse da terra) depois que ele a ocupou por vinte anos.
— Estou aqui para defender esse patrimônio, que foi importante para a história da astronomia argentina. E também os direitos do meu tio, que escolheu viver aqui — acrescenta o sobrinho, olhando para a colina onde está localizado o túmulo do tio e acrescentando: — Abro os portões todos os dias para que os turistas possam vir.
Mas a sua presença incomodou alguns, e em outubro passado, a casa onde os astrônomos moraram muitos anos atrás, e que seu tio havia restaurado com tanto esmero, foi destruída por um incêndio. Esse incidente o preocupa, embora ele conte que preencheu “os relatórios necessários”. Uma antena Starlink o conecta ao mundo. Três painéis solares permitem que ele use seu celular por algumas horas por dia. Dois cães lhe fazem companhia.
— Quando estou sozinho, me conecto com o universo — diz Soto pensativamente. — Precisamos resgatar a escuridão e a calma.
Ele não se preocupa com bens materiais. Tem arroz, macarrão e um pedaço de carne à mão.
— O que me trouxe aqui foi uma busca introspectiva e espiritual. Sinto que a civilização está em colapso e precisamos impedir isso — afirma, reconhecendo que nunca perde a capacidade de se maravilhar com a beleza. Com a voz embargada, lembrou: — Outro dia, algo maravilhoso aconteceu. A lua cheia nasceu e, do outro lado do céu, o sol se pôs. Foi lindo.









