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Dois dias depois, na mesma área, um barco chamuscado com cerca de 10 metros de comprimento apareceu na praia. Depois, dois corpos mutilados, coletes salva-vidas e dezenas de pacotes que foram observados pelo New York Times e similares aos encontrados após operações contra o narcotráfico na região. Na maior parte, estavam vazios, mas havia traços de uma substância que parecia e cheirava como maconha em alguns.
Esses itens parecem ser as primeiras evidências físicas da ofensiva americana, que destruiu mais de 30 barcos e matou mais de 100 pessoas no Caribe e no Oceano Pacífico. Os demais barcos provavelmente afundaram com sua tripulação e carga, e os militares dos EUA não apresentaram provas de que estivessem transportando substâncias ilícitas ou que pertenciam a organizações criminosas.
Pacotes encontrados perto de barco que teria sido atingido por mísseis americanos na costa da Colômbia
Federico Rios/The New York Times
A análise dos destroços feita pelo NYT se encaixou nas imagens dos destroços de um barco que aparece em vídeo publicado pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, na noite do dia 6 de novembro, horas depois de Palácio gravar seu vídeo. Hegseth disse que o ataque atingiu uma embarcação no Caribe operada por uma “organização criminosa”, sem dizer qual. Na ocasião, afirmou que três pessoas morreram, e que a ação ocorreu em águas internacionais.
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A análise do vídeo indica que o barco foi atingido no Golfo da Venezuela, uma área há tempos disputada por colombianos e venezuelanos, mas não foi possível determinar o ponto exato do bombardeio.
O formato dos destroços, similar ao de barcos rápidos, é o mesmo da embarcação que aparece no vídeo do Departamento de Defesa, e os danos no casco e estrutura interior são compatíveis com os causados pelo impacto de um ataque aéreo. O vídeo mostra o barco explodindo, seguido por uma coluna de fumaça.
Essa prova tão rara e tangível surgindo quase dois meses após o ataque é uma prova do quão remota é a Península de Guajira, onde os destroços foram encontrados, e da ausência do Estado colombiano na área. A região é governada de maneira semiautônoma por uma comunidade indígena, os Wayuu, cujos quase meio milhão de membros se espalham pela fronteira entre a Colômbia e a Venezuela.
Destroços de barco que provavelmente foi atingido por mísseis americanos na costa da Colômbia
Federico Rios/The New York Times
A ofensiva militar do governo Trump contra navios que afirma transportarem drogas mudou seu foco para o Pacífico desde novembro, O ataque na Península de Guajira ocorreu em uma fase anterior, quando a prioridade parecia ser atingir barcos venezuelanos, e não colombianos.
Especialistas afirmam que os ataques americanos são ilegais, uma vez que os militares dos EUA são proibidos de atacar deliberadamente civis, mesmo se acreditarem que cometeram algum crime, e apenas podem fazê-lo caso sejam uma ameaça imediata. A Venezuela tem um papel minoritário no tráfico global de drogas, e reservadamente integrantes do governo Trump dizem que o objetivo é derrubar o líder venezuelano, Nicolás Maduro.
A árida Península de Guajira é o pedaço mais ao norte da América do Sul, e há tempos é conhecida como um ponto de partida para toda sorte de contrabando, desde café, passando por eletrônicos, até drogas. Chegar até lá por terra exige atravessar um labirinto de estradas de terra, algo impossível sem um guia local. Abutres povoam os céus, e cascavéis se escondem no mato.
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Os escombros do barco e os corpos foram encontrados no dia 8 de novembro por pescadores que ligaram para Aristótele Palmar García, um Wayuu que trabalha como inspetor da polícia e é responsável pela área. Palmar afirmou que não tem muito treinamento ou ferramentas, e que quando chegou ao local, só tinha luvas porque sua irmã trabalha em uma clínica médica.
Arostótele ristótele Palmar García, inspetor de polícia em La Guajira que inspecionou os destroços de barco que teria sido atingido pelos americanos
Federico Rios/The New York Times
Palmar disse que ele e pescadores usaram pedaços de pau para levar os corpos às covas que cavaram na praia. De acordo com a tradição Wayuu, jogaram churrinchi, um aguardente local destilado de cana, sobre os túmulos. Depois, plantaram cactos para evitar que cães cavassem ali.
A diretora regional do Medicina Legal, a rede estatal de laboratórios forenses da Colômbia, Erika Patrícia Vargas Sánchez, disse que os restos mortais das duas pessoas foram exumados e depois transferidos para Barranquilla nos dias 16 e 17 de dezembro, cinco semanas depois de aparecerem na costa. Ela disse que os corpos ainda não foram examinados.
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Especialistas nas atividades do tráfico na região disseram que o contrabando conjunto de maconha e cocaína era comum na Península de Guajira e outras áreas costeiras colombianas. Transportar as duas drogas no mesmo carregamento, afirmam, indicava que a operação era de pequeno porte, distante dos grandes carregamentos dos cartéis.
— O mercado de maconha e cocaína em La Guajira é operado por pequenos traficantes locais, assim como grupos armados — disse Estefania Ciro, que comanda um instituto de pesquisa que estuda o tráfifco de drogas na Colômbia. — Essa narrativa dos cartéis, de Pablo Escobar, não nos permite ver que em muitos lugares esse é o cotidiano. Um dia levam maconha, no outro cocaína, no outro peixe.
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Muitas pessoas em La Guajira, no entanto, não têm ligação com o tráfico, e trabalham com a pesca e a criação de animais. Mexi Misael Rincón, um pescador, usa um barco quase idêntico ao atingido no dia 6 de novembro, e que estava ancorado a poucos metros de onde os destroços apareceram na praia. Desde o ataque, navega apenas em águas rasas, onde captura lagostas.
A mãe de Rincón, Carmelena González, disse que desde o ataque, quatro de seus filhos, que também pescam, deixaram a cidade rumo a outros centros urbanos para ganhar dinheiro.
— Em tempos normais, nós avançamos 10, 15 quilômetros em alto mar para pescar atum de maior qualidade, que tem um preço maior — disse Vicente Fernández, outro pescador da área. — Nossas redes estão lá há semanas, uma vez que temos medo de ir buscá-las.




