Principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim afirmou não ver possibilidade de o Brasil aderir à proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criação de um Conselho de Paz para Gaza nos termos em que foi redigida. Em entrevista ao GLOBO, disse que o estatuto enviado junto ao convite representa, na prática, uma tentativa de reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) conduzida por um único país — algo que considera inaceitável.
Amorim chama atenção ainda para o fato de que a palavra “Gaza” sequer aparece no documento, o que, segundo ele, amplia o alcance da iniciativa para qualquer conflito e reforça as ambiguidades da proposta.
Chanceler de Lula nos dois primeiros mandatos, Amorim alerta para a necessidade de o Brasil estar preparado para possíveis tentativas de interferência da extrema direita americana no processo eleitoral deste ano. Sobre a Venezuela, avalia que qualquer ofensiva contra um país sul-americano deve ser vista como uma ameaça direta ao Brasil, dada a proximidade regional e os riscos de contágio político e institucional.
— Não é que estejamos temerosos, mas o precedente é muito ruim. Não podemos aceitar esse tipo de exemplo — diz o ex-chanceler.
O Brasil foi convidado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para participar do Conselho da Paz. O país irá aceitar?
As coisas não estão claras. Uma coisa é um convite para um conselho de paz que seja resultado de uma resolução da ONU. Não sei se o Brasil participaria ou não, mas é algo a considerar. O Oriente Médio é muito importante para nós. Seria preciso saber a opinião dos próprios palestinos e de outros países árabes. A própria carta (do conselho proposto por Trump) é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no documento anexo. Representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança. Essa parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país.
Os objetivos do novo conselho podem ir além da Faixa de Gaza, tema ao qual Trump se referiu ao falar sobre o novo órgão?
A palavra “Gaza” não aparece nesse estatuto. Ele se refere a qualquer conflito. Isso está dito claramente. Não creio que ele esteja estendendo para outros temas, como questões econômicas ou comerciais, mas sim para qualquer conflito. Seria como um Conselho de Segurança, só que com um presidente praticamente permanente. Até agora, os países europeus não aceitaram.
Há espaço para negociação desse modelo?
Ele (Trump) disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão. Isso torna essa parte difícil. Se fosse possível separar as duas coisas, aí vamos ver. Mesmo assim, não é automático. É preciso conversar, ver se isso interessa aos próprios palestinos e a outros países.
O convite de Trump seria uma armadilha para o Brasil?
Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim. Obviamente, Trump tem uma visão de relações internacionais em que ele é sempre a figura central. Mas não me cabe fazer um julgamento sobre isso.
Há algum indício de que Trump possa interferir nas eleições brasileiras deste ano?
Não vejo, pessoalmente, uma interferência direta dele. Agora, a extrema direita nos Estados Unidos é muito complexa. Há setores que criticam Trump, outros que são mais neutros, mas que certamente podem tentar interferir, como tentaram outras vezes. Melhor dizendo, possivelmente. Temos que estar preparados para isso e saber nos defender.
Sobre a Venezuela, o Brasil não reconheceu a eleição de Nicolás Maduro, mas reconhece a vice dele, Delcy Rodríguez, como presidente. Como isso se dá?
O Brasil não reconhece governos, reconhece Estados. O fato real é que Delcy Rodríguez está à frente do governo. Se for necessário, lidamos com ela. O presidente falou com ela logo no primeiro dia e houve também uma remessa de remédios. Isso é tudo, por enquanto.
Em meio à doutrina expansionista de Trump, o presidente Lula tem insistido na defesa da soberania. Como isso se traduz na prática?
Ele levanta a bandeira da soberania. Cada um cuida da sua. Na Europa, vários líderes disseram, inclusive Emmanuel Macron, que a Groenlândia é território da União Europeia. Nós aqui temos que nos preocupar também com a soberania brasileira. E qualquer ataque a um país sul-americano é uma ameaça ao Brasil, direta ou indireta. Um conflito em um país que faça fronteira com o Brasil pode ter repercussões para nós.
Isso representa uma preocupação concreta em relação aos Estados Unidos?
Não estou dizendo que isso vai acontecer. O próprio Trump disse recentemente que gosta do Lula. Não é que estejamos temerosos, mas o precedente é muito ruim. Não podemos aceitar esse tipo de exemplo.
Os governos de direita têm aumentado na região. Como o Brasil lida com esse cenário?
Desde que não sejam ofensivos e tenham um comportamento civilizado, vamos nos relacionar com todos. Lula manteve relações normais com governos de direita no passado, como o de Álvaro Uribe, na Colômbia, e recebeu recentemente o presidente do Equador, Daniel Noboa. São nossos vizinhos. Precisamos ter uma relação normal, desde que haja civilidade.
O Parlamento Europeu levou à Justiça o acordo entre Mercosul e União Europeia. Isso pode impedir a implementação do tratado?
Continuamos no nosso trabalho. O Mercosul fez um acordo com a União Europeia, o que é muito importante, mesmo que nem todos os aspectos comerciais sejam vantajosos. Ele gera mais equilíbrio nas relações internacionais, inclusive no comércio. Sobre a decisão do Parlamento Europeu, é um procedimento normal. Não há preocupação nenhuma.
Amorim chama atenção ainda para o fato de que a palavra “Gaza” sequer aparece no documento, o que, segundo ele, amplia o alcance da iniciativa para qualquer conflito e reforça as ambiguidades da proposta.
Chanceler de Lula nos dois primeiros mandatos, Amorim alerta para a necessidade de o Brasil estar preparado para possíveis tentativas de interferência da extrema direita americana no processo eleitoral deste ano. Sobre a Venezuela, avalia que qualquer ofensiva contra um país sul-americano deve ser vista como uma ameaça direta ao Brasil, dada a proximidade regional e os riscos de contágio político e institucional.
— Não é que estejamos temerosos, mas o precedente é muito ruim. Não podemos aceitar esse tipo de exemplo — diz o ex-chanceler.
O Brasil foi convidado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para participar do Conselho da Paz. O país irá aceitar?
As coisas não estão claras. Uma coisa é um convite para um conselho de paz que seja resultado de uma resolução da ONU. Não sei se o Brasil participaria ou não, mas é algo a considerar. O Oriente Médio é muito importante para nós. Seria preciso saber a opinião dos próprios palestinos e de outros países árabes. A própria carta (do conselho proposto por Trump) é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no documento anexo. Representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança. Essa parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país.
Os objetivos do novo conselho podem ir além da Faixa de Gaza, tema ao qual Trump se referiu ao falar sobre o novo órgão?
A palavra “Gaza” não aparece nesse estatuto. Ele se refere a qualquer conflito. Isso está dito claramente. Não creio que ele esteja estendendo para outros temas, como questões econômicas ou comerciais, mas sim para qualquer conflito. Seria como um Conselho de Segurança, só que com um presidente praticamente permanente. Até agora, os países europeus não aceitaram.
Há espaço para negociação desse modelo?
Ele (Trump) disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão. Isso torna essa parte difícil. Se fosse possível separar as duas coisas, aí vamos ver. Mesmo assim, não é automático. É preciso conversar, ver se isso interessa aos próprios palestinos e a outros países.
O convite de Trump seria uma armadilha para o Brasil?
Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim. Obviamente, Trump tem uma visão de relações internacionais em que ele é sempre a figura central. Mas não me cabe fazer um julgamento sobre isso.
Há algum indício de que Trump possa interferir nas eleições brasileiras deste ano?
Não vejo, pessoalmente, uma interferência direta dele. Agora, a extrema direita nos Estados Unidos é muito complexa. Há setores que criticam Trump, outros que são mais neutros, mas que certamente podem tentar interferir, como tentaram outras vezes. Melhor dizendo, possivelmente. Temos que estar preparados para isso e saber nos defender.
Sobre a Venezuela, o Brasil não reconheceu a eleição de Nicolás Maduro, mas reconhece a vice dele, Delcy Rodríguez, como presidente. Como isso se dá?
O Brasil não reconhece governos, reconhece Estados. O fato real é que Delcy Rodríguez está à frente do governo. Se for necessário, lidamos com ela. O presidente falou com ela logo no primeiro dia e houve também uma remessa de remédios. Isso é tudo, por enquanto.
Em meio à doutrina expansionista de Trump, o presidente Lula tem insistido na defesa da soberania. Como isso se traduz na prática?
Ele levanta a bandeira da soberania. Cada um cuida da sua. Na Europa, vários líderes disseram, inclusive Emmanuel Macron, que a Groenlândia é território da União Europeia. Nós aqui temos que nos preocupar também com a soberania brasileira. E qualquer ataque a um país sul-americano é uma ameaça ao Brasil, direta ou indireta. Um conflito em um país que faça fronteira com o Brasil pode ter repercussões para nós.
Isso representa uma preocupação concreta em relação aos Estados Unidos?
Não estou dizendo que isso vai acontecer. O próprio Trump disse recentemente que gosta do Lula. Não é que estejamos temerosos, mas o precedente é muito ruim. Não podemos aceitar esse tipo de exemplo.
Os governos de direita têm aumentado na região. Como o Brasil lida com esse cenário?
Desde que não sejam ofensivos e tenham um comportamento civilizado, vamos nos relacionar com todos. Lula manteve relações normais com governos de direita no passado, como o de Álvaro Uribe, na Colômbia, e recebeu recentemente o presidente do Equador, Daniel Noboa. São nossos vizinhos. Precisamos ter uma relação normal, desde que haja civilidade.
O Parlamento Europeu levou à Justiça o acordo entre Mercosul e União Europeia. Isso pode impedir a implementação do tratado?
Continuamos no nosso trabalho. O Mercosul fez um acordo com a União Europeia, o que é muito importante, mesmo que nem todos os aspectos comerciais sejam vantajosos. Ele gera mais equilíbrio nas relações internacionais, inclusive no comércio. Sobre a decisão do Parlamento Europeu, é um procedimento normal. Não há preocupação nenhuma.









