Marco da erosão do multilateralismo: Derrubada de Maduro pelos EUA é divisor de águas da política externa americana
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— A Doutrina Monroe é muito importante, mas nós a superamos bastante. Muito mesmo. Agora a chamam de Doutrina “Donroe”, mas não sei. É a Doutrina Monroe — disse Trump a partir de sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida, durante uma coletiva de imprensa que atraiu a atenção de todo o mundo — [A Doutrina Monroe] Era muito importante, mas nos esquecemos disso. Não nos esqueceremos mais.
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Enunciada pelo presidente americano James Monroe, em 1823, a famosa doutrina de política externa consolidou a hegemonia americana no Hemisfério Ocidental. Lançada como uma forma de alerta (e, em mesma medida, de ameaça) às potências europeias, preconizou a não-intervenção dos europeus no continente, colocando-se como fiador pela força — em uma dinâmica que beneficiou o movimento de descolonização naquele período.
Embora Trump argumente que a operação na Venezuela afasta da região países como China, Irã e Rússia, que mantém laços próximos com o regime chavista há décadas, as declarações de alguns dos integrantes da cúpula do governo no sábado, e do próprio presidente, indicam que os objetivos da ação estão muito mais alinhados a uma outra famosa linha de política externa.
Trump deixou claro que principal objetivo americano no país era o petróleo. O retorno das companhias americanas ao setor energético venezuelano mereceram mais espaço na coletiva do que mensagens à diáspora venezuelana nos EUA. Também não ficou claro o futuro do chavismo — que, inicialmente, não deixa o poder, para frustração da diáspora venezuelana.
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A permanência de autoridades chavistas no comando do governo, segundo o próprio Trump, estaria condicionada à cumprir com os interesses americanos — uma garantia existencial aparentemente ligada a uma lógica negocial, relacionada ao petróleo. O próprio sinal verde para Delcy Rodríguez, vice de Maduro, assumir a Presidência teria sido decidido a partir da expectativa de que ela fosse pragmática em relação ao setor.
Mais do que a Doutrina Monroe, descrita com destaque em documentos e pronunciamentos, o caso venezuelano indica que Trump está resgatando em seu “corolário” outra política que marcou a região: o “big stick” (ou “grande porrete”, em tradução livre), lançado por Theodore Roosevelt, no começo do século XX.
Resumida no lema “falar macio, mas carregar um grande porrete”, a linha de política externa americano preceituava usar a via diplomática para alcançar objetivos, mas recorrer ao uso da força — no caso dos EUA, sempre muito superior aos seus vizinhos de Hemisfério — caso contrariado. Foi por meio dessa política que Washington interviu em uma série de países, incluindo a Venezuela, na primeira década do século passado.
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Apesar de se referir às atrocidades cometidas pelo regime de Maduro, Trump deu sinal expresso de que, em última instância, o caso se tratou, por fim, de negociações sem o desfecho pretendido — não se sabe se elas envolviam cortar laços com China e Rússia, por exemplo. O presidente, porém, falou abertamente em reparar os danos pelo processo de nacionalização realizado ainda no governo de Hugo Chávez.
— Nós construímos toda aquela indústria lá, e eles só tiraram de nós como se fôssemos nada, e tivemos um presidente que decidiu não fazer nada. Fizemos algo sobre isso. Tarde, mas fizemos — disse o presidente.
Outro sinal de que o ataque está inserido em uma lógica negocial, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional Marco Rubio afirmou, ao lado de Trump, que Maduro poderia “estar vivendo em outro lugar”, mas que enfrentou o desfecho visto neste sábado por não ter atendido às demandas americanas.
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— Eu quero ser claro sobre uma coisa. Nicolás Maduro teve muitas oportunidades de evitar isso. Ele teve muitas múltiplas ofertas generosas e escolheu, em vez disso, agir como um lunático — disse Rubio, acrescentando posteriormente. — Ele poderia estar vivendo em outro lugar neste momento, muito feliz, mas em vez disso ele quis bancar o ‘garotão’.
Seja pela Doutrina ou pelo Porrete, o retorno dos EUA à política da força é preocupante do ponto de vista da ordem internacional. Ao contrário de Monroe e Roosevelt, Trump assumiu os EUA inseridos em um mundo mediado por princípios como direito internacional, direitos humanos e organismos multilaterais — construído desde o fim da Segunda Guerra sob toneladas de influência americana.
Ao virar as costas para esse arcabouço legal, normativo e principiológico, Trump se aproxima de líderes como russo Vladimir Putin, que ignora o processo civilizatório das últimas gerações e não vê problema em perseguir seus objetivos por meio da força.









