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O El Niño já está em curso e pode se tornar um dos mais intensos já registrados. A confirmação foi feita nesta quinta-feira pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), que alertou para a possibilidade de o fenômeno atingir força histórica nos próximos meses e agravar eventos climáticos extremos em diversas partes do planeta.
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Caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico próximo à linha do Equador, o El Niño altera padrões climáticos em escala global. Segundo a NOAA, há 63% de probabilidade de que o episódio alcance intensidade suficiente entre o fim do outono e o início do inverno do Hemisfério Norte — entre novembro e dezembro no Brasil — para figurar entre os maiores eventos observados desde o início dos registros modernos, em 1950.
Meteorologistas afirmam que o fenômeno deverá elevar ainda mais as temperaturas de um planeta já aquecido pelas emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis. As projeções indicam que este El Niño poderá rivalizar ou até superar o episódio de 1997, que esteve associado a bilhões de dólares em prejuízos causados por ondas de calor, enchentes, secas, tornados e incêndios florestais.
— As águas profundas e quentes associadas ao El Niño trazem muito calor adicional para a superfície, alimentando uma série de eventos extremos em várias regiões do mundo — afirmou Abby Frazier, cientista do clima da Universidade Clark, à Associated Press, acrescentando que os impactos podem se tornar graves em pouco tempo.
Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o fenômeno como um “alerta climático urgente”.
— As condições de El Niño vão jogar mais combustível no fogo de um mundo em aquecimento — disse Guterres em uma mensagem em vídeo.
Efeitos por região
Os efeitos do fenômeno variam de acordo com a região. No Atlântico, o El Niño costuma reduzir, embora não eliminar, a atividade da temporada de furacões. No Pacífico, ocorre o contrário: a atividade tende a aumentar. Com isso, a costa leste dos Estados Unidos e os estados banhados pelo Golfo do México podem enfrentar uma temporada menos intensa, enquanto o Havaí e outras ilhas ficam mais expostos a riscos.
Em algumas regiões, o fenômeno pode trazer benefícios. Cientistas afirmam que áreas do Oriente Médio afetadas por secas prolongadas poderão receber mais chuva. Em outros lugares, porém, os riscos aumentam.
Partes da costa oeste da América do Sul, onde os primeiros episódios de El Niño foram identificados há décadas, costumam registrar chuvas intensas, enchentes e verões excepcionalmente quentes durante o fenômeno. Na Índia, especialistas projetam ondas de calor mais severas, enquanto a Austrália pode enfrentar condições favoráveis a secas, incêndios florestais e temperaturas elevadas.
No nordeste da África, a expectativa é de uma mudança brusca nas condições climáticas, com a transição de períodos de seca intensa para chuvas potencialmente perigosas, segundo Muhammad Azhar Ehsan, cientista do clima da Universidade Columbia e especialista em El Niño. Nos Estados Unidos, o fenômeno costuma provocar tempestades mais intensas e volumes maiores de chuva no Sul do país. Ao mesmo tempo, tende a favorecer parte da produção agrícola, afirmou Jon Gottschalck, chefe de operações do Centro de Previsão Climática da NOAA.
Sinais monitorados
Apesar de alguns impactos positivos localizados, cientistas alertam que as temperaturas mais elevadas associadas ao fenômeno podem afetar a economia. Marshall Burke, economista climático da Universidade Stanford, afirmou que há evidências de que o crescimento econômico dos Estados Unidos desacelera em períodos com temperaturas acima da média. Diversos pesquisadores projetam que 2027 poderá se tornar o ano mais quente já registrado, em razão dos efeitos retardados deste El Niño.
— Temos evidências bastante claras de que a economia americana cresce mais lentamente quando as temperaturas ficam acima do normal — disse Burke.
Somado a isso, a escassez de fertilizantes causada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz está afetando agricultores, e o aumento dos preços da energia por causa das guerras na Ucrânia e no Irã está corroendo os orçamentos dos países.
— Poderíamos ver um aumento da pobreza, da desnutrição, dos conflitos, do endividamento e de todos os efeitos em cascata — disse Laurie Laybourn, que lidera a Strategic Climate Risks Initiative, um centro de estudos com sede no Reino Unido.
A intensidade dos impactos também depende da velocidade com que o fenômeno se desenvolve. Em geral, episódios de El Niño se formam durante o verão, atingem seu pico no fim do outono ou início do inverno e enfraquecem na primavera seguinte. No entanto, a equipe de Ehsan prevê que este episódio poderá alcançar seu pico um ou dois meses antes do habitual, com base nos sinais observados nas últimas semanas. Gabriel Vecchi, cientista do clima da Universidade Princeton, afirmou que episódios muito fortes também tendem a durar mais tempo.
Entre os sinais monitorados pelos especialistas está o avanço de águas mais quentes em direção à superfície do Pacífico. Segundo Vecchi, os indicadores têm sido tão consistentes que diferentes centros de previsão vêm apontando para um El Niño excepcionalmente intenso, algo incomum para esta época do ano, quando as projeções costumam apresentar maior divergência.
Frazier e outros cientistas afirmam que o aquecimento global favorece a ocorrência de episódios mais fortes de El Niño. Ainda assim, ela ressalta que é cedo para afirmar se este evento específico está diretamente relacionado às mudanças climáticas causadas pela atividade humana. Mesmo antes de sua confirmação oficial, o fenômeno já vinha recebendo apelidos como “super El Niño” e “Godzilla”.
— Em vez de sentir medo, podemos pedir às pessoas que se preparem — afirmou Ehsan.
‘Sinlaku’: supertufão no Pacífico pode sinalizar El Niño e trazer mais chuva ao Sul e calor ao Sudeste do Brasil
Reprodução
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Lições da história
Se a História oferece alguma lição, é a de que eventos intensos de El Niño, como o que começou em 1877, impactam fragilidades preexistentes. O daquele ano provocou condições de seca extrema em várias partes do mundo, incluindo Brasil, sul da África e China. Poucos lugares foram tão atingidos quanto o sul da Índia, com relatos da época descrevendo pessoas extremamente magras tentando sobreviver comendo raízes e até vendendo filhos que não conseguiam sustentar.
Porém, apesar de todo o poder da natureza, fatores criados pelo homem provavelmente elevaram o número de mortos, que acabou chegando à casa das dezenas de milhões. Na época, a Índia estava sob domínio colonial britânico, e o historiador Mike Davis, em seu livro de 2001, “Holocaustos do final da Era Vitoriana”, retrata o Império Britânico priorizando seus interesses ao manter enormes exportações de grãos da Índia, mesmo enquanto a população morria de fome.
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Naquele tempo, ninguém fazia ideia de por que as chuvas das monções haviam falhado. Cientistas do século XIX teorizavam uma ligação com a redução da atividade das manchas solares.
Um quadro muito mais claro surgiu na década de 1960, quando Jacob Bjerknes, meteorologista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, reuniu as peças do quebra-cabeça das consequências globais da interação entre oceano e atmosfera no Pacífico. Séculos antes, peruanos haviam percebido que, às vezes, peixes tropicais apareciam inesperadamente em suas costas por volta do Natal, um fenômeno que acabou recebendo o nome de “El Niño”, ou “o menino Jesus” em espanhol. Bjerknes fez a conexão: o aquecimento do Pacífico observado pelos peruanos estava, na verdade, alterando padrões climáticos no mundo inteiro.
Navios perto do porte El Callao, em Lima, em 2023
Ernesto Benavides/AFP
— Aquela foi uma revelação revolucionária — disse Michael McPhaden, cientista sênior da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). — Ele [Bjerknes] abriu um novo universo de estudos.
Na década de 1980, cientistas já estavam em embarcações no meio do Pacífico ancorando boias que permitiam um monitoramento mais preciso da temperatura do oceano. Paralelamente, pesquisadores procuravam pistas sobre o papel do El Niño na história humana, estudando amostras de anéis de árvores, recifes de coral e diários de bordo de marinheiros, criando uma linha do tempo rudimentar de seus episódios mais intensos.
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Quebra-cabeças sem peças
Os registros não eram precisos o suficiente para medir eventos passados com certeza. Ainda assim, eles levaram a especulações sobre o papel do El Niño ao longo da História, incluindo a hipótese de que um evento no fim do século XVIII possa ter contribuído para as falhas nas colheitas que ajudaram a desencadear levantes na Revolução Francesa. No caso de 1877, que atingiu a Índia de forma severa, a documentação é melhor, mas ainda envolve muitas conjecturas.
“Trabalhar com dados da temperatura da superfície do mar do século XIX é como montar um quebra-cabeça com muitas peças faltando”, escreveu Boyin Huang, oceanógrafo da NOAA.
Os eventos são medidos observando-se os níveis de temperatura em uma vasta área retangular do Pacífico central. Em um fenômeno moderado, as temperaturas podem subir cerca de 1°C acima da média de longo prazo. Mas, nos maiores eventos dos últimos 50 anos — os que começaram em 1982, 1997 e 2015 — as temperaturas ultrapassaram em mais de 2°C o padrão normal. Cada um desses episódios teve impacto econômico global.
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Neste ano, muitas previsões indicam que a temperatura pode subir inéditos 3°C. Mesmo o El Niño de 1877, segundo as melhores estimativas, não alcançou essa magnitude.
— Vários modelos agora mostram uma chance real de um evento recorde — disse Zeke Hausfather, pesquisador da Berkeley Earth. — Mas ainda é cedo para ter certeza.
Escolas na Índia usam sino para lembrar crianças de beberem água durante onda de calor
Arun Sankar/AFP
Na Índia, que tende a ficar mais seca, o governo já realizou reuniões preparatórias. Vimal Mishra, professor do Instituto Indiano de Tecnologia de Gandhinagar, afirmou que seu país não enfrenta riscos na mesma escala de mais de um século atrás.
— Se em um ano as monções falharem, não veremos fome — disse Mishra, citando o sistema público de distribuição da Índia, que garante acesso a produtos básicos a preços subsidiados.
Mishra estudou as grandes fomes da Índia e traça uma linha direta entre a fome da década de 1870 e as medidas preventivas que a Índia toma hoje.
— Isso nos dá uma ideia de como estar mais bem preparados — disse ele. — Mostra qual é o pior cenário possível.
(Com New York Times)

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A Rússia lançou 70 mísseis e 611 drones contra a Ucrânia durante a noite, em ataques que mataram pelo menos 11 pessoas e provocaram um incêndio na histórica Catedral da Dormição de Kiev, informou a força aérea ucraniana nesta segunda-feira. A capital foi o principal alvo da ofensiva.
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De acordo com o comunicado divulgado, as unidades de defesa aérea da Ucrânia conseguiram interceptar 50 mísseis e 582 drones.
Em Kiev, os bombardeios russos atingiram vários bairros da cidade e provocaram pelo menos cinco mortes, segundo as autoridades, que também anunciaram um balanço de 34 feridos.
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A ofensiva também atingiu a cidade de Kharkiv, no nordeste do país. Segundo o ministro do Interior, Igor Klymenko, cinco socorristas morreram durante operações de combate a incêndios provocados pelos ataques russos e outras nove pessoas ficaram feridas. Em Kherson, no sul do país, uma pessoa morreu.
Jornalistas da AFP em Kiev relataram que moradores correram para abrigos enquanto projéteis eram interceptados no céu e destroços incandescentes caíam sobre diferentes áreas da cidade.
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O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pediu nesta segunda-feira que os líderes do G7, reunidos em uma cúpula na França, aumentem a pressão sobre Moscou após a mais recente onda de ataques russos que deixou vítimas na Ucrânia.
— É muito importante que haja uma resposta dos países do G7, que agora se reúnem para sua cúpula, e que essa resposta seja decisiva e substancial: mais pressão sobre o agressor e mais apoio à defesa aérea da Ucrânia, especialmente às capacidades de defesa contra mísseis balísticos — afirmou Zelensky.
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Unesco condena danos à catedral histórica
A agência cultural das Nações Unidas condenou os ataques atribuídos por Kiev à Rússia que provocaram um incêndio na Catedral Ortodoxa da Dormição, patrimônio mundial da Unesco, localizada no complexo do Mosteiro das Cavernas de Kiev.
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Genya Savilov/AFP
O complexo foi fundado no século XI e tem grande importância para os cristãos ortodoxos, tanto na Ucrânia como na Rússia.
— O ataque teria causado danos significativos ao exterior e ao interior da Catedral da Dormição — afirmou a organização em uma publicação na rede social X. — A Unesco condena ataques contra bens culturais, instituições educacionais, estudantes, profissionais da educação e profissionais da mídia protegidos pelo direito internacional.
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O chefe da administração militar de Kiev, Tymur Tkachenko, classificou o episódio como um “ataque direto” ao patrimônio histórico da cidade.
Moscou afirmou que efetuou um “bombardeio maciço” durante a noite contra instalações militares em Kiev, Kharkiv e na região de Dnipropetrovsk, mas negou ter apontado contra o complexo monástico da capital.
Em janeiro, ataques russos já haviam danificado edifícios do complexo do Mosteiro das Cavernas de Kiev, segundo o Ministério da Cultura ucraniano.
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A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada em fevereiro de 2022, transformou-se no maior conflito da Europa desde a Segunda Guerra Mundial, deixando milhares de civis e centenas de milhares de militares mortos.
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o momento exato em que um avião de transporte da Força Aérea Indiana perde o controle durante o pouso, sai da pista, capota e explode em uma enorme bola de fogo no estado de Assam, no nordeste da Índia. O acidente matou cinco militares que estavam a bordo da aeronave no último sábado.
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As imagens, registradas por câmeras de segurança da base aérea de Jorhat, mostram o Antonov An-32 tocando o solo aparentemente sem problemas. Poucos segundos depois, no entanto, a aeronave desvia para a esquerda, atravessa a área gramada ao lado da pista, tomba e é tomada por chamas após uma explosão.
O acidente ocorreu durante uma missão de rotina pela manhã. Segundo a Força Aérea Indiana, os cinco ocupantes morreram. As autoridades abriram uma investigação para apurar as causas da tragédia. Veja o vídeo:
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De acordo com informações divulgadas pelas autoridades militares, a aeronave envolvida era um Antonov An-32, modelo de transporte tático amplamente utilizado pela Índia em operações logísticas e missões em regiões de difícil acesso. O avião caiu nas proximidades da Base Aérea de Jorhat, em Assam.
As vítimas foram identificadas como o líder de esquadrão Prashant Singh, o tenente de voo Shubham Kumar, o sargento Jitendra Sharma e os militares Khemaram Kumawat e Danish Alam. O Ministério da Defesa da Índia prestou homenagens aos mortos e manifestou solidariedade às famílias.
Avião explodiu em bola de fogo após colisão na Índia
Reprodução | Redes Sociais
Após o acidente, a Força Aérea Indiana determinou a abertura de uma comissão de inquérito para investigar o que provocou a saída da pista e a posterior explosão da aeronave. Até o momento, as autoridades não divulgaram suspeitas sobre as causas da ocorrência e pediram que a população evite especulações enquanto a apuração estiver em andamento.
Os Estados Unidos e o Irã anunciaram no domingo um entendimento para interromper a guerra iniciada em fevereiro e reabrir o Estreito de Ormuz, mas divergências entre as partes evidenciam que o mecanismo ainda não é definitivo. Enquanto o presidente americano, Donald Trump, afirmou que um acordo foi alcançado, o Conselho de Segurança Nacional iraniano descreveu a medida como um “memorando de entendimento”.
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Detalhes completos sobre o tratado permanecem sob sigilo e, segundo ambos os governos, ele servirá como base para uma nova rodada de negociações sobre temas mais sensíveis. A diferença entre o que cada lado descreve como tendo sido alcançado ajuda a explicar por que o entendimento ainda é visto como uma etapa intermediária.
Mesmo dentro da administração americana há divergências. Nesta segunda-feira, o vice-presidente americano, JD Vance, afirmou que o acordo foi assinado eletronicamente no domingo, sugerindo que seus termos já estão em vigor. Trump, por sua vez, disse que uma assinatura formal ocorrerá na Suíça na sexta, e que pelo menos uma das cláusulas envolvendo a reabertura do estreito não entrará em vigor até lá.
Autoridades iranianas também afirmaram que os compromissos assumidos pelas partes começarão efetivamente na sexta-feira, quando o documento deverá ser formalizado. A partir daí, entrará em vigor um cessar-fogo de pelo menos 60 dias destinado a criar condições para negociações técnicas sobre os temas que continuam sem solução.
Questões pendentes
Entre as questões pendentes estão o programa nuclear iraniano, que esteve no centro das tensões que antecederam a guerra. Deverão ser discutidas posteriormente questões como a duração de eventuais restrições ao enriquecimento de urânio; o destino dos estoques já acumulados pelo Irã — um dos pontos mais delicados —; o futuro das instalações nucleares do país e os mecanismos de inspeção.
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Autoridades americanas vêm insistindo que Teerã precisa reduzir seus estoques de material enriquecido, hoje em níveis próximos aos necessários para a produção de uma arma nuclear. O governo iraniano, por sua vez, sustenta que não pretende desenvolver armamentos atômicos e tem defendido que qualquer solução para o estoque atual ocorra dentro do próprio país. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, confirmou que as “questões nucleares” serão tratadas apenas na próxima rodada de negociações.
Também permanecem indefinidas as discussões sobre sanções econômicas, com o Irã exigindo a liberação de recursos congelados no exterior como parte de qualquer entendimento mais amplo. Veículos de imprensa ligados ao governo iraniano afirmaram que o texto prevê a liberação de até US$ 24 bilhões em ativos atualmente bloqueados, com parte do montante sendo liberada antes do início das negociações.
Nesta segunda, porém,Vance afirmou que nenhum recurso foi liberado e que isso “não vai mudar”. Um alto funcionário americano também declarou que o Irã receberá benefícios econômicos apenas à medida que cumprir uma série de exigências estabelecidas pelos Estados Unidos. A Casa Branca tem insistido que a assinatura do memorando não resultará automaticamente em qualquer transferência de recursos para Teerã.
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As divergências aparecem ainda na questão do Estreito de Ormuz, cujo fechamento durante a guerra interrompeu uma das principais rotas energéticas do mundo. Em tempos de paz, cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito comercializados globalmente passavam pela via marítima. Segundo o entendimento anunciado, o Irã removerá minas instaladas no estreito e permitirá novamente a navegação comercial, enquanto os Estados Unidos iniciarão o desmantelamento do bloqueio naval imposto aos portos iranianos.
Mesmo nesse tema, porém, persistem diferenças de interpretação. Trump afirmou que o estreito será permanentemente livre de pedágios. Já agências estatais iranianas relataram que um adendo ao acordo permitiria a cobrança futura de taxas relacionadas a serviços marítimos. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, reconheceu que a cobrança direta de pedágios seria incompatível com o direito internacional, mas afirmou que o país pretende cobrar por serviços de navegação, segurança e apoio marítimo em cooperação com Omã.
Alcance regional
Outra área cercada de incertezas envolve o alcance regional do entendimento. O governo paquistanês e autoridades iranianas afirmaram que o cessar-fogo abrange todas as frentes do conflito, incluindo o Líbano, mas nem Israel e nem o Hezbollah participaram diretamente das negociações. Nesta segunda, autoridades israelenses já rejeitaram a possibilidade de qualquer limitação às operações militares contra o grupo libanês apoiado pelo Irã, e um ataque contra o sul do país matou ao menos uma pessoa.
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Tampouco está claro se futuras negociações abordarão outras preocupações centrais para Israel e para parte dos aliados dos EUA, como o programa de mísseis balísticos iraniano e o apoio de Teerã a grupos armados da região. Veículos estatais iranianos afirmaram que esses temas foram explicitamente retirados da pauta das negociações, mas não houve confirmação pública por parte de Washington.
(Com Bloomberg, AFP e New York Times)
A mídia estatal libanesa informou que um ataque israelense no sul do país, nesta segunda-feira, matou uma pessoa. Este foi o primeiro ataque relatado desde o anúncio de um memorando de entendimento acordado entre EUA e Irã que suspende a guerra por 60 dias e posterga negociações nucleares. O texto deverá ser assinado pelas partes na Suíça, na sexta-feira.

Reação: ministro de Israel fala em operação ‘sem prazo determinado’ após anúncio de acordo entre EUA e Irã incluindo o Líbano
Para entender: acordo entre EUA e Irã que suspende guerra por 60 dias e posterga negociações nucleares
“Um drone inimigo atingiu um carro na rotatória de Kfar Tibnit, levando à morte do motorista”, disse a Agência Nacional de Notícias (NNA), referindo-se a uma vila próxima à cidade de Nabatieh.
Tanto Donald Trump quanto as autoridades iranianas afirmaram que Líbano e Israel estão no memorando de entendimento acordado entre EUA e Irã e anunciado na noite de domingo.
Enquanto o presidente libanês, Joseph Aoun, disse esperar que o processo diplomático interrompa a agressão militar sofrida pelo país, autoridades israelenses criticaram os termos finais negociados pelos aliados americanos, antecipando que suas Forças Armadas não irão se retirar do Líbano ou de outros territórios sobre os quais avançaram desde o atentado terrorista do Hamas, em 7 de outubro de 2023.
Entenda: Por que entendimento entre EUA e Irã ainda é um memorando e não um acordo de fato?
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, disse nesta segunda-feira que os militares permanecerão “sem prazo determinado” em uma “zona de segurança” no Líbano, bem como na Síria e em Gaza. Em um comunicado na manhã desta segunda-feira, o ministro afirmou ainda que “toda a infraestrutura terrorista” será destruída para “proteger as fronteiras de Israel” e ameaçou novas ofensivas contra os iranianos.
“Se o Irã atacar Israel devido aos eventos no Líbano, nós o atacaremos com toda a força e demonstraremos claramente a disparidade de poder”, acrescentou Katz em seu comunicado.
Também nesta segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que os Estados Unidos devem garantir que Israel se comprometa a encerrar a guerra no Líbano, no âmbito do acordo destinado a pôr fim ao conflito no Oriente Médio.
— Os Estados Unidos devem cumprir seus compromissos. Devem garantir que o regime sionista também respeite os seus no que diz respeito ao Líbano — declarou o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, durante sua coletiva de imprensa semanal, acrescentando que Teerã “não confia nem em Israel nem nos Estados Unidos”.
Hezbollah adverte
O Hezbollah agradeceu nesta segunda-feira ao Irã por insistir que o Líbano seja incluído no entendimento para encerrar o conflito no Oriente Médio.
“O Hezbollah expressa sua profunda gratidão” às lideranças, forças e ao povo do Irã “pelo firme apoio ao Líbano, ao seu povo e à sua resistência, e por sua insistência em que o Líbano seja incluído em qualquer entendimento que leve ao cessar da guerra”, disse o grupo em comunicado.
O movimento xiita advertiu que não aceitará “qualquer agressão que viole a soberania de seu país ou derrame o sangue de seu povo”, e prometeu que “continuará comprometido com o direito legítimo e inalienável do Líbano de defender sua terra, seu povo e sua soberania até que seja alcançada uma retirada total [israelense] e os prisioneiros sejam devolvidos”.

Imagens inéditas de câmeras de segurança divulgadas nesta semana revelam o casal francês acusado de abandonar duas crianças pequenas em uma estrada no sul de Portugal poucas horas antes de ser preso. Os registros mostram Marine R., de 41 anos, e seu companheiro, Marc B., de 55, chegando e se acomodando no terraço do bar I Love Beer, no centro de Fátima, em 20 de maio, um dia antes da detenção dos dois pelas autoridades portuguesas.
Entenda: Mãe vendou meninos de 3 e 5 anos e disse que participariam de ‘jogo’ antes de abandoná-los em estrada isolada de Portugal
O caso ganhou repercussão em Portugal e na França depois que os filhos de Marine, de quatro e cinco anos, foram encontrados sentados e chorando à beira da estrada que liga Alcácer do Sal ao balneário de Comporta, cerca de 100 quilômetros ao sul de Lisboa. As crianças foram localizadas por um motorista e, segundo relatos da imprensa portuguesa, tinham apenas mochilas com água e alimentos, sem documentos de identificação.
As autoridades francesas procuravam a mãe e os dois meninos desde 11 de maio, quando o pai das crianças registrou o desaparecimento. Posteriormente, foi emitido um mandado de prisão europeu. Marine e Marc foram localizados em um café no centro de Fátima e levados para interrogatório no Tribunal de Setúbal.
As imagens do casal em clima aparentemente tranquilo contrastaram com a gravidade do caso. Em entrevista à emissora portuguesa SIC, o porta-voz da Guarda Nacional Republicana (GNR), Carlos Canatario, afirmou que a postura dos suspeitos chamou a atenção dos investigadores.
— Depois de algo assim, de abandonar duas crianças pequenas, encontrar esse casal relaxando em um café ao ar livre por horas foi bastante chocante. O comportamento deles sugeria um certo distanciamento da situação — declarou.
Mãe vendou meninos de 3 e 5 anos e disse que participariam de ‘jogo’ antes de abandoná-los em estrada isolada de Portugal
Reprodução/TV
Prisão preventiva e investigação
Após dois dias de audiências, a Justiça portuguesa decretou a prisão preventiva dos dois suspeitos. Eles respondem por abandono e negligência infantil, enquanto Marc B. também foi acusado de agressão agravada contra uma das crianças.
Segundo o relato de Eugenia Quintas, mãe do motorista que encontrou os irmãos, um dos meninos contou que os dois foram vendados sob o pretexto de participar de uma brincadeira para procurar um brinquedo escondido. Quando retiraram as vendas, a mãe e o carro já haviam desaparecido.
A francesa Marine R. (acima à direita) e o francês Marc B. (abaixo à direita) são escoltados para fora do tribunal de Setúbal, onde uma francesa e seu companheiro, suspeitos de abandonar duas crianças
FILIPE AMORIM / AFP
— Cada um deles tinha uma laranja, uma pera e uma garrafa de água. Não vimos nenhum sinal de maus-tratos — afirmou.
As crianças foram acolhidas temporariamente por uma família francesa em Lisboa e aguardam os procedimentos para retornar à França. As autoridades portuguesas informaram ainda que não há indícios de que o casal tivesse qualquer ligação prévia conhecida com Portugal. Enquanto as investigações avançam, os vídeos divulgados reforçam um dos pontos que mais causaram indignação pública no caso: a aparente tranquilidade dos suspeitos após o abandono dos dois meninos.
O presidente Donald Trump e seu homólogo russo, Vladimir Putin, resistem à ideia de que potências supostamente mais fracas os tenham levado a um impasse, e ambos recorrem a negociações para tentar obter a capitulação que não conseguiram no campo de batalha. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
A expectativa global de que se caminha, de fato, para o fim do conflito entre Estados Unidos e Irã já aparece refletida na cotação do petróleo na manhã desta segunda-feira, com queda de 5% no valor do barril, que está sendo negociado um pouco abaixo de US$ 83. Esse é um resultado positivo da perspectiva de assinatura de um acordo na próxima sexta-feira. Mas ainda é cedo para comemorar. Primeiro porque não se pode chamá-lo de um acordo de paz, mas de um compromisso de manter as negociações por mais 60 dias com esse objetivo ao fim das conversas. Ainda não há solução para a questão do urânio do Irã. Há também outro fator de insegurança: Israel não parece ter interesse no acordo e continua atacando o Líbano. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece estar com dificuldade para conter seu aliado, que, diga-se de passagem, o levou à guerra. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
O chamado “UFC Freedom 250”, evento promovido como parte das comemorações pelos 250 anos da independência americana — que o presidente Donald Trump chegou a chamar de “maior show da Terra” —, terminou no domingo com uma teoria conspiratória e falsa sobre Michelle Obama. Após vencer uma luta dos pesos-pesados, o americano Josh Hokit afirmou que a ex-primeira-dama “é um homem”, repetindo uma alegação difamatória que circula há anos em grupos conservadores e nas redes sociais.
Contexto: Custo de US$ 60 milhões, estrutura mais alta que a Casa Branca e brasileiro na programação: o UFC de Trump
Cenário para exibição: Trump personaliza memória oficial dos EUA às vésperas dos 250 anos da independência do país
Hokit havia derrotado o também americano Derrick Lewis no segundo round de uma luta realizada no Gramado Sul da Casa Branca, onde foi promovido o primeiro evento esportivo profissional da história da residência presidencial. Após deixar a jaula, o atleta foi até a área próxima ao octógono onde estava Trump e lhe entregou um colar. Em seguida, concedeu uma entrevista confusa, em que alternou elogios ao presidente e referências religiosas antes de encerrar a fala com o comentário misógino sobre Michelle Obama.
— Michelle Obama é um homem. Estou certo, América? — disse Hokit, provocando um meio sorriso de Trump.
A declaração foi recebida com aplausos por parte do público, mas também foi vaiada por outros setores. Na lista de convidados estava uma combinação de política, tecnologia e esportes, com o presidente da Meta, Mark Zuckerberg, assistindo às lutas em assentos próximos aos irmãos Winklevoss, investidores americanos, enquanto integrantes do Gabinete, dignitários estrangeiros e aliados políticos circulavam pela área.
Em abril: ‘Foi incrível para c*’, diz Dana White, chefe do UFC, sobre estar na tentativa de atentado contra Trump na Casa Branca
Em fevereiro, Trump publicou um vídeo conspiratório sobre as eleições que mostrava Michelle e o ex-presidente Barack Obama como macacos. Com um minuto, o vídeo promovia teorias da conspiração sobre a eleição de 2020 e incluía imagens em que os rostos dos Obama eram sobrepostos a corpos de macacos. Democratas e republicanos condenaram o post como racista, e, diante da polêmica, a Casa Branca — que inicialmente rejeitou as críticas —, removeu o conteúdo.
A administração culpou um funcionário pela postagem, mas não emitiu um pedido de desculpas.
Noite de extravagâncias
O inédito evento na Casa Branca ocorreu também no dia em que Trump celebrava seu aniversário de 80 anos. Em uma cena sem precedentes, o presidente americano saiu do Salão Oval ao lado do presidente-executivo do UFC, Dana White, e seguiu para o gigantesco octógono instalado nos jardins da residência presidencial. Trump e sua esposa, Melania Trump, acompanharam todas as lutas da primeira fila.
Antes das lutas, o republicano apareceu na histórica varanda Truman enquanto o hino nacional tocava e uma formação de 12 aviões militares sobrevoava a Casa Branca. Em seguida, o mandatário ocupou seu lugar diante do imponente octógono que recebeu o nome de “A Garra”, instalado sob uma estrutura de 28 metros de altura. Ao todo, mais de 4 mil convidados compareceram ao evento.
De renegado a liga bilionária: ‘Queridinho’ de Trump, saiba como Dana White transformou o UFC em fenômeno global
Vários lutadores do UFC prestaram homenagem ao presidente após suas vitórias. Durante a luta entre o americano Sean O’Malley e o canadense Aiemann Zahabi, parte da plateia gritou frases como “O Canadá é o 51º estado”, em referência a declarações anteriores de Trump sobre o país vizinho. O’Malley venceu o combate por nocaute técnico.
Todas as sete lutas do card terminaram por nocaute ou nocaute técnico, algo inédito nos 33 anos do UFC. A principal luta da noite terminou com a vitória do americano Justin Gaethje sobre Ilia Topuria, resultado considerado uma das maiores zebras da história recente da categoria dos pesos-leves. Em outro combate, o brasileiro Diego Lopes nocauteou o americano Steve García em menos de três minutos.
Com um custo estimado em US$ 60 milhões (cerca de R$ 303 milhões), a Casa Branca garantiu que o UFC arcou com todas as despesas.
(Com AFP)
EUA e Irã chegaram a um acordo preliminar sobre um memorando de entendimento para cessar -fogo por 60 dias e reabrir o Estreito de Ormuz, anunciaram autoridades dos dois países e de mediadores no Paquistão no domingo. O desdobramento abre caminhos para um período de negociações críticas que incluem o programa nuclear iraniano e o levantamento de sanções econômicas contra Teerã — que poderão, em última instância, encerrar a guerra de maneira definitiva.
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O texto completo do acordo ainda não foi publicado, mas os detalhes que começam a surgir sugerem que algumas das questões mais difíceis foram adiadas para futuras rodadas de negociações. Entre os pontos postergados está o destino do urânio enriquecido pelo Irã em nível próximo ao necessário para a fabricação de uma arma atômica — motivo de constante divergência entre autoridades dos dois países em declarações públicas.
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A mídia estatal iraniana publicou o que alega serem os pontos principais do memorando atual, com 14 pontos, incluindo o fim permanente e imediato de todas as frentes de guerra, incluindo a do Líbano, e a suspensão completa do bloqueio naval americano em até 30 dias, com retirada das tropas dos arredores do Irã.
Autoridades que receberam informações sobre o documento afirmam que os EUA se comprometeram a iniciar o desmantelamento do bloqueio naval a portos iranianos, enquanto o Irã, em contrapartidas, removeria minas do Estreito de Ormuz e reabriria a importante rota marítima para navegação comercial.
Como foi o anúncio
Os Estados Unidos e o Irã, juntamente com o Paquistão, afirmaram no domingo que um acordo havia sido alcançado, embora tenham utilizado termos diferentes para descrevê-lo. O presidente americano, Donald Trump, afirmou em uma publicação nas redes sociais que um “grande acordo” traria “paz e segurança para toda a região”, enquanto o Conselho de Segurança Nacional do Irã descreveu o acordo como um “memorando de entendimento”. O premier do Paquistão, Shehbaz Sharif, declarou que os dois lados se comprometeram com uma “cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano”, o que também enfatizado pela parte iraniana.
Nem Israel nem o Hezbollah, as duas partes em conflito no Líbano, fazem parte do acordo entre EUA e Irã. Ainda não está claro como esse entendimento afetará os combates no país, embora autoridades israelenses tenham rejeitado, na segunda-feira, a ideia de qualquer retirada militar do território libanês.
O presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca
KENT NISHIMURA / AFP
Cronograma do acordo
Washington e Teerã parecem ter concordado com uma estrutura de múltiplas etapas que envolverá negociações mais longas. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, declarou à televisão estatal que os compromissos assumidos pelo país no acordo — que ele não detalhou completamente — começarão na sexta-feira, quando o tratado deverá ser formalmente assinado em Genebra.
Depois disso, Estados Unidos e Irã interromperão as hostilidades por pelo menos 60 dias para permitir negociações destinadas a resolver as questões pendentes. O premier do Paquistão afirmou que os mediadores irão “estabelecer as bases para as negociações técnicas” em uma série de reuniões previstas para esta semana.
Gharibabadi acrescentou que o programa nuclear iraniano — uma questão crítica ainda sem solução — estará entre os temas discutidos na próxima rodada de negociações.
Estreito de Ormuz
Antes da guerra, cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo passava pelo Estreito de Ormuz. Durante o conflito, a passagem foi efetivamente fechada pelo Irã, provocando uma alta nos preços globais da energia.
Trump afirmou nas redes sociais, no domingo, que o estreito será reaberto ao tráfego comercial na sexta-feira, indicando que o Irã removerá as minas da via marítima estratégica. Ele também disse ter ordenado o fim imediato do bloqueio naval dos portos iranianos, iniciado em meados de abril com o objetivo de interromper o fluxo de petróleo iraniano.
Videográfico: como minas marítimas do Irã podem bloquear o Estreito de Ormuz
Em entrevista ao The New York Times, o presidente afirmou que, de acordo com o formato definido, o estreito permanecerá “permanentemente livre de pedágios”. Em contrapartida, a agência de notícias estatal iraniana IRNA afirmou que um adendo sobre a cobrança de taxas teria sido incluída no acordo de última hora.
Na sexta-feira, Araghchi reconheceu que a cobrança de pedágios no estreito não seria aceitável sob o direito internacional. No entanto, indicou que taxas por serviços marítimos seriam cobradas, sempre em cooperação com Omã, o país do outro lado do estreito que dá acesso ao Golfo.
— O Irã tomou a firme decisão de que a administração do Estreito de Ormuz não será mais a mesma de antes — disse o ministro.
Programa nuclear
As questões relativas ao programa nuclear iraniano ficarão reservadas a uma futura rodada de negociações. Segundo declarações anteriores de autoridades e diplomatas americanos, há quatro grandes pontos em negociação: por quanto tempo o Irã poderá suspender o enriquecimento de urânio, o futuro do atual estoque iraniano de urânio enriquecido, o destino das instalações nucleares do país e as futuras inspeções do programa nuclear iraniano.
Trump tem afirmado há muito tempo que o Irã deve reduzir seu estoque de urânio altamente enriquecido, que, segundo EUA e Israel, poderia ser utilizado para fabricação de uma arma nuclear. A liderança iraniana, por sua vez, sustenta que não pretende desenvolver armamentos atômicos.
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Ao New York Times, Trump que estava em negociação uma moratória de 20 anos para o programa de enriquecimento do Irã, e insistiu que os níveis de enriquecimento de urânio jamais poderiam exceder a um “certo limite”. Segundo ele, no acordo que está sendo buscado, o Irã ficaria limitado ao enriquecimento de urânio para “fins não militares”.
Gharibabadi afirmou que as “questões nucleares” serão discutidas na próxima rodada de negociações. Antes dos anúncios de domingo, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, havia afirmado na sexta-feira que a única maneira de lidar com o urânio enriquecido pelo país seria “diluí-lo dentro do Irã”.
Ativos Congelados
Ao longo das negociações, o Irã exigiu como contrapartida pelo fim do bloqueio em Ormuz a liberação de fundos congelados no exterior, baixo sanção americana. Em uma publicação nesta segunda-feira, a agência de notícias iraniana Mehr — ligada à ala mais radical do regime iraniano — noticiou que o texto prevâ a liberação de US$ 24 bilhões em ativos iranianos congelados em até 60 dias. Metade do valor seria liberado antes do início das negociações posteriores.
“As negociações finais não começarão até que metade dos fundos congelados seja liberada, as sanções petrolíferas contra o Irã sejam suspensas e o bloqueio naval seja levantado”, afirmou a agência.
‘Eixo da resistência’
Não está claro se as negociações abordarão o programa de mísseis do Irã ou o apoio de Teerã a grupos armados na região, como o Hamas ou o Hezbollah — duas preocupações centrais para Israel. Em uma reportagem, a agência estatal Mehr indicou que “o programa de mísseis do Irã e o apoio a grupos de resistência foram definitivamente removidos da agenda”. (Com NYT e AFP)
O presidente do Parlamento iraniano, Mohamad Baqer Qalibaf, emergiu como o principal negociador e um dos rostos mais visíveis da República Islâmica, que se prepara para assinar um acordo com os Estados Unidos na próxima sexta-feira.
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Pilar do establishment há três décadas e uma de suas figuras não religiosas mais destacadas, Qalibaf, de 64 anos, assumiu um papel de protagonismo durante a guerra e nas negociações com Washington. Foi ele quem liderou a delegação iraniana nas conversações realizadas em Islamabad no último dia 11 de abril, quando reuniu-se com o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, no contato de mais alto nível entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979.
Uma imagem divulgada nas redes sociais pelas embaixadas iranianas mostrava o presidente do Parlamento no centro da equipe negociadora iraniana, enquanto o chefe da diplomacia, Abbas Araghchi, permanecia em segundo plano entre xícaras de chá.
No Irã, não está claro quem exerce o poder após mais de três décadas e meia de domínio do líder supreno Ali Khamenei. Seu filho, Mojtaba Khamenei, foi designado como sucessor, mas não apareceu em público desde então, e acredita-se que tenha ficado ferido no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro, no mesmo ataque que vitimou seu pai.
— Desde o assassinato de Larijani, Qalibaf surgiu como o novo rosto público do esforço militar e diplomático da república islâmica — resumiu Farzan Sabet, do Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento. — Mas não se deve superestimar sua influência real; ele continua respondendo a instâncias superiores — acrescentou, citando a Guarda Revolucionária e o próprio Khamenei.
‘Negociador profissional’
Embora a viagem a Islamabad tenha sido a primeira aparição pública de Qalibaf desde antes da guerra, suas publicações nas redes sociais têm sido quase diárias. Com declarações escritas num inglês americano impecável — o que levanta dúvidas sobre a autoria das mensagens, já que Qalibaf não é conhecido por falar inglês fluentemente —, Qalibaf não se furtou a ameaçar os americanos.
Em resposta às ameaças de uma invasão terrestre dos EUA ao Irã, uma mensagem publicada em 1º de abril na X afirmava:
“Se vocês vierem à nossa casa (…) encontrarão toda a família. Armada, preparada e disposta a tudo. Venham, estamos esperando.”
Na última quinta-feira, ele advertiu que os Estados Unidos correriam o risco de cair em um “atoleiro sem fim” após o presidente americano Donald Trump ameaçar atingir o Irã “com muita força”.
Segundo o jornal The Washington Post, Qaliaaf causou forte impressão na delegação americana após anos sem contato direto com um alto funcionário iraniano de primeira linha.
“Ele impressionou a equipe americana como um negociador refinado e profissional, e como um potencial líder de um novo Irã”, segundo o jornal.
‘Ambicioso e oportunista’
Sua experiência civil e militar o levou a comandar a Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, braço de elite das forças armadas iranianas responsável pelo vasto arsenal de mísseis balísticos, drones e programa de satélites militares, a polícia, a prefeitura de Teerã e, posteriormente, o Parlamento.
Em um sistema de poder ainda opaco, continua difícil saber se ele conta com a confiança da nova cúpula da Guarda Revolucionária, especialmente de seu comandante-chefe, Ahmad Vahidi, e do sucessor de Ali Larijani à frente do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohamad Baqer Zolqadr.
Conhecido por sua ambição, Qalibaf concorreu várias vezes à presidência, como em 2005, quando disputou a eleição contra o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad. Organizações de direitos humanos atribuíram a ele um papel importante na repressão a protestos, desde as manifestações estudantis de 1999 até o movimento nacional de janeiro passado.
— Ele se mostrou ambicioso e oportunista, mas também prudente, uma característica que lhe permitiu ascender ao topo da estrutura de poder sem ser expurgado, como aconteceu com tantos outros — concluiu Farzan Sabet.

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