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Em 1976, no auge da ditadura militar brasileira, um prédio construído com verba pública para ser uma escola da rede municipal de ensino – a Escola Politécnica de Foz do Iguaçu, no Paraná – foi entregue à iniciativa privada dias antes da inauguração. O beneficiário foi o Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para educar os filhos dos funcionários da hidrelétrica. O episódio marcou o nascimento de uma rede nacional de ensino particular sustentada, em grande parte, por recursos federais.

O edifício da escola Politécnica tinha sido construído para ajudar a reduzir o déficit escolar em Foz do Iguaçu, que, na época, segundo relato do governo estadual à imprensa local, tinha 3 mil pessoas em idade escolar fora das salas de aula. 

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O professor aposentado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) José Kuiava era o inspetor de ensino do município na ocasião e recorda o momento em quem recebeu a ordem de entregar as chaves da recém-construída escola para o dono do Colégio Anglo Americano, Ney Suassuna. “A ordem veio de Curitiba, via telefone, do diretor-geral da SEC [Secretaria de Educação] professor Ernesto Penauer, determinando que eu entregasse as chaves do prédio ao senhor Ney Suassuna”, lembra Kuiava. 

Segundo ele, a situação gerou constrangimento: “eu já tinha dado na rádio, nas notícias dos jornais da inauguração do colégio, para que os alunos da região fossem atendidos lá. De repente tive que suspender tudo e dizer ‘olha, o colégio foi entregue nas mãos do Anglo-Americano, à disposição da Itaipu’”.

O contrato foi  assinado entre o Anglo-Americano, Itaipu e a Unicon, o consórcio de empreiteiras responsáveis pela construção da usina, em fevereiro de 1976. No acordo, as empreiteiras – remuneradas com recursos públicos de Itaipu – asseguravam o pagamento mínimo de 1.000 vagas. Mas no primeiro ano de funcionamento, o colégio tinha mais de 10 mil alunos matriculados. No auge das obras, chegou a ter mais de 14 mil estudantes. 

Esta reportagem faz parte do projeto Perdas e Danos, o podcast da Radioagência Nacional que investiga a ditadura militar e que está na segunda temporada.

Mais detalhes sobre a política da ditadura que beneficiou uma escola privada em detrimento da rede pública de ensino estão no episódio 3 da 2ª Temporada: Pedagogia do Privilégio.


FOTO DE ARQUIVO - Colégio Anglo-Americano, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

Colégio Anglo-Americano, na zona sul do Rio de Janeiro – Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

Galinha dos ovos de ouro

O contrato com o Anglo-Americano fixava os valores das mensalidades que variavam de CR$ 300 a CR$ 500 (cruzeiro, a moeda então adotada pelo Brasil) a serem pagas por Itaipu, além do reajuste anual das mensalidades. Como referência, em 1975, a creche Casa da Criança, para crianças de baixa renda no Rio de Janeiro, cobrava uma mensalidade de CR$ 70. Diferente de outras escolas privadas, o Anglo-Americano não corria o risco de inadimplência. 

Denise Sbardelotto, professora da Unioeste, estudou o projeto pedagógico de Itaipu e avaliou o contrato com o Anglo-Americano como desvantajoso para a administração pública.

“Itaipu e a Unicom constroem todos os prédios, toda a infraestrutura, desde carteiras, mobiliários, de coisas mais simples às mais complexas, como o material pedagógico, e entrega para o Anglo-Americano administrar, por muitos e muitos anos. E lucrar. Era uma galinha dos ovos de ouro”, conclui Denise.   

Crescimento de 2.800%

Até então, o Colégio Anglo-Americano era uma escola tradicional do Rio de Janeiro, com duas unidades na zona sul da capital fluminense. Depois de Itaipu, registrou um crescimento de 2.800%, considerado extraordinário pelo próprio dono da instituição, Ney Suassuna: “Eu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colégio no Rio tinha 500 alunos, o de lá tinha 14  mil”.

O Anglo-Americano foi comprado por Ney Suassuna cerca de um ano antes do contrato com Itaipu. Paraibano, o hoje suplente de senador e ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, fincou raízes no Rio de Janeiro ao trabalhar no Ministério do Planejamento, um dos mais poderosos do período ditatorial. Ele era assessor de ministros da pasta, entre eles Roberto Campos, figura central do regime autoritário. 

Ação entre amigos

Segundo Ney Suassuna, o contrato foi firmado a partir de um encontro que ele solicitou com o então diretor-geral de Itaipu, general José Costa Cavalcanti. Os contatos políticos garantiram a reunião.

“Cheguei dizendo que era do Ministério do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro. Eu cheguei com o meu currículo na frente”, conta.

Além da confirmação do próprio Suassuna, não encontramos indícios de que houve um processo público para a contratação da empresa. Denise Sbardelotto também não achou nada que comprovasse um processo licitatório:

“Estive muitas vezes nos arquivos de Itaipu, busquei por todos os lugares, todas as fontes em Foz do Iguaçu, Câmara Municipal, e eu realmente não encontrei nenhum documento que garanta que foi licitação. Nós temos realmente um caso de escolha política arbitrária de um grupo educacional”, disse Sbardelotto.

Ramo lucrativo 

O contrato abriu as portas de outras estatais para Ney Suassuna, como o contrato com a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e com a Petrobras para atender famílias brasileiras no Iraque. O Anglo-Americano também ficou responsável por atender os filhos dos funcionários que trabalharam na construção de Itaipu no lado paraguaio. Os contratos turbinaram a empresa.

“De repente, eu tinha quase 50 mil alunos. Começou a crescer e eu comecei a fazer faculdades. Fiz nada mais, nada menos, do que faculdades desde o Rio Grande do Sul até a Paraíba. De tudo medicina, economia, direito, tudo”, lembra Suassuna.

Só seis anos depois do fim das obras de Itaipu, em 1988, o Anglo-Americano passou a receber alunos de fora da usina. Em 1990, repassou a escola mais simples para o Poder Municipal. E três anos depois começou a pagar o aluguel do prédio ocupado por quase 20 anos.

Chuta-barros

Reproduzindo uma lógica que permeou toda a obra de Itaipu, a estrutura educacional era diferente conforme a classe social. O Anglo-Americano era, na verdade, mais de um. Existiam duas unidades do colégio.

Existiam três vilas habitacionais para abrigar os funcionários de Itaipu e da Unicon, divididas conforme a posição dos trabalhadores na empresa. A vila A e B, onde viviam funcionários com melhores salários, eram atendidos por uma escola mais bem equipada. A unidade ficava em uma área arborizada da cidade e contava com biblioteca, laboratórios de química e física, hortas, fanfarra, área de exposições e auditório.

Já os filhos dos trabalhadores braçais moravam na Vila C e estudavam numa unidade feita de madeira pré-fabricada, 60 salas de aula, um ginásio e duas quadras descobertas.

Valdir Sessi estudou em ambas as escolas, pois a unidade melhor eventualmente recebia alunos da vila operária, e lembra que as desigualdades – e a diferença de tratamento – eram evidentes na sala de aula. 

“A violência simbólica já definia. A roupa, o cabelo, o tênis, já denunciavam a classe social dentro do colégio, então não precisava ser um vidente para dizer quem era rico e quem era pobre. A professora não tinha dificuldade na aula para dirigir a palavra dela, entendeu? Tinha colega que usava a botina que o pai dava para ele quando já não dava mais para usar no canteiro de obra”, disse. 

Em sua pesquisa, Denise Sbardelotto descobriu que havia um nome para os estudantes da escola mais simples, os chuta-barros. “Porque eles vinham com barro nas solas dos calçados”, explica. 

Diferente da Vila A, que foi asfaltada antes, a Vila C, onde moravam os trabalhadores braçais, não tinha asfalto e a lama marcava os estudantes. 

Denise conta que outra diferença mais profunda era o projeto pedagógico. Na ditadura, o ensino médio profissionalizante era obrigatório. No Anglo-Americano da Vila A, os cursos preparavam para o ensino superior. Já na Vila C, nem existia o segundo grau. 

“Aos filhos dos trabalhadores mais subalternos, era destinada uma educação de primeiro grau e na sequência eles eram encaminhados para cursos profissionalizantes, no Senai ou qualquer outro curso ofertado nos centros comunitários. Alguns poucos que queriam fazer o segundo grau tinham que ir para Vila A. Aceitava-se [como alunos], mas eram os famosos chuta-barros”, conta Denise.

Déficit educacional

Para os moradores de Foz de Iguaçu, os problemas educacionais aumentaram. Quando Itaipu começou a ser construída, o município tinha apenas duas unidades de ensino de segundo grau, sendo uma de educação agrícola. 

A partir da construção da hidrelétrica, a situação só se agravou. Para se ter uma ideia, em 10 anos, a população de  Foz de Iguaçu quadruplicou. Eram 34 mil habitantes em 1970, antes da construção da hidrelétrica. Saltou para 136 mil em 1980.

Para a construção da usina foram desapropriados 1,8 mil km², incluindo territórios indígenas, no Brasil e no Paraguai. Cerca de 40 mil pessoas foram retiradas de suas terras só no lado brasileiro. Nesse processo, Denise calcula que 95 escolas na região também foram por água abaixo.

Com o inchaço populacional, Foz do Iguaçu precisou reduzir a carga horária de todos os estudantes da rede pública para implantar um terceiro turno de aula no que seria o intervalo de almoço.

“Foi difícil, porque tinha um turno que era das 11h às 14h. Na hora do almoço”, lembra Kuiava.

Itaipu indenizou parte das escolas inundadas e investiu em projetos específicos para construir novas unidades, mas em número inferior às instituições fechadas. Denise Sbardelotto considera o investimento feito à época inexpressivo diante do montante direcionado ao Anglo-Americano.

“Algumas iniciativas pontuais de reforma de algumas escolas de periferia, rurais, algumas escolas em outros municípios nos arredores, mas eram reformas e ampliações muito ínfimas, muito inexpressivas, comparadas ao montante de recursos canalizados ao Anglo-Americano por muitos anos”.

Outro lado

Procuramos a Itaipu Binacional e perguntamos se o contrato com o Anglo-Americano era um acordo razoável, se seguiu boas práticas do setor público e se existiam registros do motivo que levou Itaipu a optar pela educação privada ao invés de estruturar a rede pública de ensino.

A empresa não respondeu diretamente as dúvidas, mas afirmou que a chegada de milhares de trabalhadores a Foz do Iguaçu exigiu a criação de infraestrutura inexistente, como moradias, hospital e o Anglo-Americano. E afirmou que havia qualidade de ensino.

“No Anglo-Americano, os filhos dos chamados barrageiros tinham acesso a uma educação integral, gratuita e inovadora para o período, que incluía, além das disciplinas tradicionais, atividades artísticas, culturais e de campo, apresentações de dança e teatro e sessões de cinema. Relatos de ex-alunos e professores indicam que esse modelo educacional contribuiu significativamente para a formação dos estudantes”, disse Itaipu em nota.

A nota também cita ações atuais para afirmar que o “apoio à educação permaneceu ao longo dos anos”.

“Como evidenciado pela atuação da Itaipu na mobilização para a instalação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em 2010″.

A íntegra da nota está na página do podcast.

Hoje, o Anglo-Americano de Foz do Iguaçu não pertence mais a Ney Suassuna. Entramos em contato com a instituição, mas não houve retorno. 

Questionado sobre a escolha de Itaipu em direcionar os recursos públicos de educação para sua empresa, Ney Suassuna disse que o poder público não teria condições de estruturar a rede pública de ensino. “A cidade de Itaipu tinha muito pouca gente e não tinha os prédios, não tinha nada, não tinha outra forma a não ser essa. Não tinha a menor chance. Nem no municipal e nem tampouco no estadual. Em nenhum lugar, não tinha nada. Nós éramos os desbravadores”.

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O senador Iván Cepeda, candidato presidencial da esquerda governista na Colômbia, aparece como favorito a um mês das eleições de 31 de maio, segundo uma pesquisa publicada nesta quinta-feira. O aliado do presidente Gustavo Petro mantém a liderança nas projeções desde o início da campanha eleitoral, que transcorre em meio a graves alterações da ordem pública devido ao conflito armado.
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Guerrilhas e grupos de origem paramilitar continuam operando, financiados pelo narcotráfico, mineração ilegal e extorsão.
A direita defende uma estratégia de repressão aos grupos armados semelhante à adotada por Uribe com apoio dos Estados Unidos no início dos anos 2000.
Já Cepeda aposta na continuidade das políticas sociais de Petro, que, durante seu governo, ordenou um aumento recorde do salário mínimo, ampliou os direitos dos trabalhadores, entre outras reformas de esquerda.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou nesta quinta-feira que a operação militar lançada contra o Irã no final de fevereiro poderá continuar mesmo após o fim do prazo para que o governo federal obtenha o aval do Congresso. Na visão de Pete Hegseth, o cessar-fogo em vigor desde o início do mês “pausou” a contagem de 60 dias prevista em lei, mas sua opinião não é unanimidade.
— Estamos em um cessar-fogo neste momento, o que, segundo nosso entendimento, significa que o prazo de 60 dias é suspenso ou interrompido durante um cessar-fogo — afirmou Hegseth, durante audiência na Comissão das Forças Armadas do Senado.
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De acordo com a Resolução de Poderes de Guerra, adotada em 1973 pelo Congresso nos últimos anos da Guerra do Vietnã, o presidente que decidir lançar uma operação militar no exterior precisa comunicar o Congresso em até 48 horas, e estipula que se os legisladores não autorizarem a guerra em até 60 dias, as tropas devem retornar às suas bases. A legislação dá um prazo adicional de 30 dias, mas apenas para permitir uma retirada. Na ocasião, o presidente Richard Nixon vetou o texto, mas o Congresso derrubou o veto.
Pelas contas de Hegseth, ele teria mais algumas semanas de guerra mesmo sem o aval do Legislativo. Mas senadores, especialmente de oposição, afirmam que o prazo acaba nesta sexta-feira, impondo mais um desafio legal a uma guerra questionada dentro dos EUA.
— Não acredito que a lei permita isso — rebateu o senador democrata Tim Kaine, acrescentando que, em sua opinião, a resposta mostrta que a Casa Branca “não pretende honrar os 60 dias”. — Acho que o prazo de 60 dias termina amanhã (sexta-feira), e isso vai representar uma questão jurídica muito importante para o governo.
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Republicanos já usaram argumentos similares para justificar a extensão da guerra. No começo de abril, o deputado Brian Fitzpatrick apresentou um projeto estabelecendo que “Qualquer dia que ocorra durante ou após o início da Operação Fúria Épica, no qual os Estados Unidos estejam envolvidos em negociações de cessar-fogo com o governo do Irã ou tenham entrado em um cessar-fogo negociado, não será contabilizado como um dos 60 dias”.
Não há qualquer indício de que a Casa Branca tentará buscar a aprovação do Congresso, e deve deixar o prazo expirar, como fizeram alguns de seus antecessores — em 1999, Bill Clinton foi processado por estourar os 60 dias durante a ofensiva contra as forças iugoslavas durante a Guerra do Kosovo, mas a provisão dos 30 dias adicionais livrou seu governo de culpa ou condenações.
Ao contrário da operação nos Bálcãs, lançada com justificativas humanitárias e contra um líder mais tarde processado pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, Slobodan Milosevic, a guerra no Irã não conta com o apoio dos americanos e começa a incomodar a base republicana, preocupada com os impactos nas eleições de novembro. Na terça-feira, pesquisa publicada pela agência Reuters e pelo instituto Ipsos mostrou que apenas 34% dos entrevistados são a favor da “Operação Fúria Épica”.
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Em entrevista à rede NBC, o senador governista Thom Tillis disse que seria “difícil” conseguir seu apoio a uma extensão do conflito, já que ele “não tinha clareza sobre quais seriam os objetivos estratégicos”. Susan Collins, também republicana, declarou no começo do mês que, caso o prazo de 60 dias fosse alcançado, “o presidente precisará de autorização do Congresso”.
Na quarta-feira, uma resolução apresentada pelos democratas para impedir que Trump prossiga com a guerra no Irã sem o aval do Congresso foi derrotada pela quinta vez, mas as lideranças do partido prometeram colocar novamente o texto em votação. Além da oposição, um grupo cada vez mais numeroso de governistas — como Tillis e Collins — soa disposto a apoiar a proposta, e o líder da maioria republicana no Senado, Tom Thune, não descarta pautar a autorização para a guerra.
— Vamos ver qual é a vontade do coletivo em relação a isso — disse Thune na quarta-feira, citado pelo portal The Hill. — Estamos ouvindo, obviamente tentando nos manter informados sobre o que está acontecendo e recebendo atualizações regulares da administração sobre o progresso.
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Na audiência no Senado, Hegseth também foi questionado sobre os custos da guerra, com ou sem cessar-fogo. Na véspera, o auditor-chefe do Pentágono, Jules Hurst III, declarou que o conflito custou US$ 25 bilhões — segundo estimativas independentes, o valor supera os US$ 60 bilhões —, mas o foco da oposição democrata é demonstrar o impacto financeiro no bolso dos americanos.
— Podemos tentar dizer ao povo americano que está tudo indo muito bem e que estamos arrasando —, disse a senadora Elissa Slotkin, antes de se referir à alta do preço do petróleo e, por consequência, dos combustíveis no país. — Mas enquanto o Estreito de Ormuz não estiver aberto, não acho que possamos afirmar isso com credibilidade e seriedade.
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Em outro momento, a senadora democrata Jackie Rosen o acusou de usar linguagem antissemita ao comparar os congressistas e a imprensa aos fariseus, o povo que, segundo a Bíblia, rejeitou Jesus Cristo. O secretário de Defesa é conhecido pelo uso de referências bíblicas em seus discursos e ordens.
— É um termo bastante preciso para pessoas que não enxergam o próprio erro e sempre querem encontrar defeitos em uma operação, em vez de reconhecer o sucesso histórico de impedir que o Irã obtivesse uma arma nuclear — respondeu Hegseth. — Portanto, mantenho minha posição.

Organizações da sociedade civil manifestaram repúdio à derrubada de veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei (PL) da Dosimetria, que reduz a pena dos condenados por tentativa de golpe de Estado ligados ao 8 de janeiro de 2023. O veto foi derrubado nesta quinta-feira (30) pelo Congresso Nacional. 

Para as entidades, a medida representa um “grave e histórico retrocesso institucional”, naturaliza a violência e é um risco de impunidade em caso de repetição de ataques golpistas no futuro.

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A nota da coalizão Pacto pela Democracia é assinada por mais de 20 organizações, aponta que a derrubada do veto pode ser vista como uma forma de relativizar ataques frontais ao regime democrático e substituir a soberania popular por projetos autoritários.

Segundo a nota, a derrubada fragiliza “o caminho que vinha sendo construído para a devida responsabilização daqueles que atentaram contra a ordem constitucional democrática no país, no contexto da tentativa de golpe de Estado após as últimas eleições presidenciais.”

O texto, assinado por organizações como o Instituto Vladimir Herzog, Instituto Marielle Franco e a Transparência Eleitoral Brasil, destaca ainda que a medida não promove pacificação e que setores do parlamento que votaram pela derrubada do veto abdicam do papel de guardiões constitucionais, nem atuam no sentido de  “corrigir excessos”.

“Na prática, trata-se de um movimento que, além de não contar com respaldo popular nem sólido fundamento constitucional, reabre espaço para a naturalização da violência política contra a democracia e enfraquece a construção da memória coletiva sobre um dos episódios mais graves da história republicana recente”, diz o documento.

As organizações alertam ainda que reduzir a gravidade desses fatos por meio da revisão de penas significa reescrever a história em favor da impunidade. O documento diz que o debate sobre a flexibilização de penas exige cautela e reflexão responsáveis, principalmente por seus possíveis efeitos em outros âmbitos do sistema penal.

“No 8 de janeiro, o povo brasileiro assistiu, atônito, ao vandalismo e ao ódio dirigidos às sedes dos Três Poderes por aqueles que buscavam desacreditar o resultado das eleições e substituir a soberania popular por um projeto autoritário; a perplexidade coletiva não foi apenas reação à violência, mas o reconhecimento imediato de um ataque frontal ao regime democrático”, diz a nota.

“Ficou evidente que não se tratava de mero vandalismo, mas da expressão organizada de uma trama que visava deslegitimar o processo eleitoral e instaurar, pela força e pelo caos, uma ruptura institucional”, diz o documento.

O texto afirma ainda que a derrubada do veto ao PL abre brechas concretas para a repetição desses ataques no futuro.

“A democracia não se sustenta apenas por eleições periódicas, mas pela capacidade de reconhecer seus traumas, responsabilizar seus agressores e impedir que a violência golpista seja incorporada à normalidade institucional. A derrubada deste veto caminha no sentido da normalização da violência”, diz a nota.

Uma carta de suicídio supostamente escrita por Jeffrey Epstein em uma prisão de Manhattan permaneceu em segredo por quase sete anos, trancada em um tribunal de Nova York.
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Um companheiro de cela disse ter descoberto o bilhete em julho de 2019, depois que Epstein foi encontrado inconsciente com um pedaço de pano em volta do pescoço. Epstein sobreviveu ao incidente, mas semanas depois foi encontrado morto na prisão.
Segundo documentos e entrevistas, o bilhete acabou sendo lacrado por um juiz federal como parte do processo criminal do companheiro de cela. Isso significa que os investigadores que apuravam a morte de Epstein, um caso de grande repercussão, não tinham acesso a uma peça fundamental de evidência.
Na quinta-feira, o The New York Times solicitou ao juiz que tornasse público o bilhete, que dizia ser “hora de dizer adeus”, lembrou o companheiro de cela, Nicholas Tartaglione. Embora Tartaglione tenha mencionado o bilhete em um podcast no ano passado, a mensagem rabiscada permaneceu oculta do público, mesmo em um momento de transparência sem precedentes em torno das investigações do governo sobre Epstein. Desde dezembro, o Departamento de Justiça divulgou milhões de páginas de documentos relacionados ao predador sexual.
O jornal The Times não teve acesso ao bilhete e não conseguiu encontrá-lo nos arquivos de Epstein. Um porta-voz do Departamento de Justiça afirmou que a agência também não o havia visto.
Mas uma cronologia enigmática de duas páginas nos autos descreve como o bilhete se envolveu no conturbado processo judicial de Tartaglione. A cronologia afirma que os advogados de Tartaglione autenticaram o bilhete, embora não expliquem como. Se foi escrito por Epstein, a mensagem poderia fornecer informações sobre seu estado de espírito nas semanas que antecederam sua morte por enforcamento em um beliche.
O porta-voz do Departamento de Justiça afirmou que, em resposta a uma lei federal que exigia a divulgação dos arquivos do governo sobre Epstein, a agência “empreendeu um esforço exaustivo para coletar todos os registros em sua posse”, incluindo os do Departamento Penitenciário e do Gabinete do Inspetor-Geral.
A morte de Epstein, aos 66 anos, foi considerada suicídio pelo médico legista da cidade de Nova York. Mas as revelações de falhas de segurança dentro do agora fechado Centro Correcional de Manhattan geraram inúmeras teorias sobre como ele morreu e se foi assassinado. Quando funcionários da prisão perguntaram a Epstein sobre marcas vermelhas em seu pescoço após o incidente de julho, ele disse que Tartaglione o havia atacado e que não era suicida.
Tartaglione, um ex-policial acusado de quádruplo homicídio, sempre negou ter agredido Epstein. Registros do Departamento Penitenciário mostram que, uma semana após a acusação inicial contra seu companheiro de cela, Epstein disse às autoridades que “nunca tivera nenhum problema” com Tartaglione e que se sentia seguro dividindo a cela com ele.
Condenado em 2023, Tartaglione cumpre atualmente quatro penas de prisão perpétua. Ele está recorrendo da sentença e mantém sua inocência.
Em entrevistas recentes por telefone, realizadas de uma prisão federal na Califórnia, Tartaglione apresentou sua versão de como encontrou o bilhete.
Após o episódio de julho, Epstein foi transferido para outra parte da prisão e colocado brevemente sob vigilância para prevenção de suicídio. Nessa época, Tartaglione disse ter encontrado o bilhete em sua cela, dentro de uma história em quadrinhos.
— Abri o livro para ler e lá estava — disse Tartaglione: um pedaço de papel amarelo arrancado de um bloco de anotações.
O bilhete dizia que os investigadores haviam investigado Epstein por muitos meses e “não encontraram nada”, lembrou Tartaglione. Ele disse que a mensagem continuava mais ou menos assim: “O que você quer que eu faça, comece a chorar? Hora de dizer adeus.”
Tartaglione entregou o bilhete aos seus advogados, disse ele, porque poderia ser útil caso Epstein continuasse a alegar que Tartaglione havia tentado prejudicá-lo.
A nota não foi mencionada nas investigações oficiais sobre a morte de Epstein, incluindo um relatório de 2023 do Gabinete do Inspetor-Geral do Departamento de Justiça. O Gabinete do Inspetor-Geral recusou-se a comentar.
Mas o documento cronológico divulgado como parte dos arquivos de Epstein resume o percurso da nota pelo sistema judiciário. Não está claro por que o documento, intitulado “Cronologia” e que se refere a detentos e advogados por suas iniciais, foi criado ou quem o escreveu.
A cronologia indica que, em 27 de julho de 2019, quatro dias após a aparente tentativa de suicídio de Epstein, Tartaglione se encontrou com “BB” — seu advogado principal, Bruce Barket — e lhe contou sobre a descoberta do bilhete.
Quando um guarda disse que Tartaglione não tinha permissão para ir à sua cela buscar o bilhete, Barket disse ao seu cliente para entregá-lo ao próximo advogado que o visitasse, segundo o documento. Barket então ligou para “JW” — outro advogado, John Wieder — e pediu-lhe que recolhesse o bilhete com o seu cliente.
A cronologia indica que os advogados tentaram duas vezes nos dias seguintes autenticar a nota, sem sucesso. Eles conseguiram autenticar a nota no final de 2019 ou início de 2020, segundo a cronologia. Barket recusou-se a comentar para esta reportagem.
— Meus advogados na época queriam ter certeza de que eu não havia escrito aquilo — disse Tartaglione em uma entrevista de julho de 2025 com a apresentadora de podcast Jessica Reed Kraus. Ele afirmou que contrataram “especialistas em caligrafia” para examinar o bilhete.
O juiz responsável pelo caso de Tartaglione, Kenneth M. Karas, que atua no tribunal distrital dos EUA em White Plains, acabou ordenando que o bilhete fosse entregue ao tribunal, de acordo com Tartaglione e Wieder. Em entrevista ao Times, Wieder disse que levou o bilhete até o tribunal e o entregou a um funcionário. Ele não se lembrava do que estava escrito.
A nota parece ter se envolvido em uma disputa prolongada entre os advogados de Tartaglione, levando Karas a nomear um advogado externo para investigar o conflito, de acordo com documentos públicos. Os documentos relacionados à disputa foram mantidos em sigilo para proteger o sigilo entre advogado e cliente, segundo os documentos. O juiz acabou emitindo uma breve ordem que desqualificou Wieder do caso, citando uma outra ordem, também mantida em sigilo, que aparentemente explicava o motivo. Wieder se recusou a comentar sobre a desqualificação.
Um porta-voz do tribunal recusou-se a comentar a existência de qualquer documento sigiloso. Segundo ele, esses registros são guardados em cofres do tribunal para sua segurança.
O jornalista kuwaitiano-americano Ahmed Shihab-Eldin afirmou na quarta-feira que teve sua cidadania revogada pelo Kuwait, onde ficou detido por várias semanas sob acusações vagas relacionadas à segurança nacional. Ele foi preso após fazer publicações sobre a guerra no Irã. O caso chama atenção para uma repressão crescente à liberdade de expressão e ao uso das redes sociais em países autoritários do Golfo Pérsico desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.
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Shihab-Eldin, que já colaborou com a BBC, al-Jazeera English e também trabalhou para o New York Times, foi libertado na semana passada após ser parcialmente absolvido das acusações, e desde então deixou o Kuwait, segundo sua equipe jurídica internacional.
Na noite de quarta-feira, o jornalista afirmou que o governo kuwaitiano retirou a cidadania dele e de suas irmãs, de acordo com um comunicado divulgado por seus advogados internacionais.
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O governo do Kuwait não se pronunciou publicamente sobre o caso. A embaixada do país em Washington e um representante do Ministério da Informação não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
Dezenas de milhares de kuwaitianos perderam a cidadania nos últimos dois anos, em meio a uma ampla campanha governamental, de caráter excludente, para redefinir quem pode ser considerado cidadão do país.
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“As últimas sete semanas foram uma provação angustiante, que apenas fortaleceu minha determinação diante da injustiça”, afirmou Shihab-Eldin no comunicado. “Por enquanto, estou focado na recuperação. Com o tempo, falarei sobre o que vivi.”
Shihab-Eldin nasceu nos Estados Unidos, filho de pais de origem palestina. Sua mãe, como muitos palestinos deslocados após a criação de Israel, acabou se estabelecendo no Kuwait, segundo ele.
O jornalista produziu documentários sobre temas sensíveis de direitos humanos no Oriente Médio. Ele foi detido no início de março, durante uma visita ao Kuwait, e acusado de disseminar informações falsas, prejudicar a segurança nacional e fazer uso indevido de seu celular, de acordo com sua equipe jurídica.
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Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, ele foi preso após comentar online sobre a guerra no Irã e compartilhar um vídeo que mostrava um caça dos EUA que caiu nas proximidades de uma base aérea no Kuwait. A aeronave era uma das três que, segundo os militares americanos, foram abatidas por engano pelas defesas aéreas kuwaitianas.
A detenção foi condenada por organizações internacionais de direitos humanos.
“Retirar a cidadania de Shihab-Eldin não é apenas uma punição, mas uma escalada perigosa no uso do poder estatal para sufocar a liberdade de imprensa”, afirmou Jodie Ginsberg, diretora-executiva do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, em comunicado. “Usar a nacionalidade como arma para punir o jornalismo estabelece um precedente alarmante para todos os profissionais no Kuwait e na região do Golfo.”
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Desde o início da guerra, autoridades dos Emirados Árabes Unidos e do Catar prenderam centenas de pessoas por “espalhar rumores” ou compartilhar imagens de ataques iranianos em seus territórios, segundo agências oficiais. Nos Emirados e no Bahrein, algumas pessoas também foram acusadas de “glorificar” os ataques do Irã.
Analistas afirmam que, embora as prisões estejam parcialmente ligadas a preocupações com a segurança nacional, autoridades do Golfo também temem que imagens e comentários sobre os ataques prejudiquem a imagem desses países como refúgios seguros em uma região instável.
Em março, autoridades dos Emirados prenderam um cinegrafista de um veículo internacional, acusando-o de filmar em “áreas restritas sem as autorizações oficiais necessárias”.
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Neste mês, o Bahrein iniciou um processo para retirar a cidadania de dezenas de pessoas, acusando-as de trair o país e ameaçar a segurança nacional.
Um veredito preliminar, divulgado na semana passada, absolveu Shihab-Eldin da acusação de disseminar informações falsas e deixou de aplicar pena nas outras duas acusações, segundo sua equipe jurídica.
“Estou livre, mas muitos continuam atrás das grades no Kuwait e em toda a região por dizerem a verdade”, afirmou o jornalista. “Continuarei usando minha voz para exigir justiça e responsabilização para todos.”

O Congresso Nacional derrubou, nesta quinta-feira (30), o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei (PL) da Dosimetria, que reduz a pena dos condenados por tentativa de golpe de Estado ligados ao 8 de janeiro de 2023.

No Senado, foram 49 votos favoráveis à derrubada do veto e 24 contrários Eram necessários 41 senadores para derrubar o veto presidencial.

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Na Câmara dos Deputados, 318 parlamentares votaram para beneficiar os golpistas, enquanto 144 deputados votaram contra e cinco se abstiveram. Eram necessários 257 votos para derrubar o veto.  

Antes da votação, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), fatiou a votação, excluindo os trechos que beneficiariam criminosos comuns ao reduzir o tempo para progressão de pena, mudança prevista no texto aprovado em dezembro de 2025.

O PL 2.162 de 2023 foi incluído como pauta única na sessão de hoje, entrando na frente de mais de 50 vetos, parciais ou totais, que aguardam na fila para análise do Parlamento.

O líder do governo na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), pediu questão de ordem contra a votação do PL por entender que outros vetos teriam preferência, mas o apelo foi rejeitado por Alcolumbre.

“Nós estamos votando o tema da democracia e, portanto, o futuro de novas aventuras golpistas se derrubar este veto, uma vez que está defendendo um grupo determinado, que é o de Jair Bolsonaro, e os generais golpistas que tentaram implantar golpe no país”, disse a liderança governista.

Uczai lembrou ainda do plano de assassinatos contra o presidente eleito e o vice previsto na trama golpista.

“Não é esquerda ou direita. É se nós queremos democracia ou golpe ou ditadura, autoritarismo no Brasil. Liberdade, democracia, sim, ditadura nunca mais.”

A derrubada do veto foi defendida pelo senador Espiridião Amim (PP-SC), relator do PL, que justificou que o julgamento da trama golpista não teria sido justo.

“Eu quero, em primeiro lugar, dizer a todos os congressistas que estão aqui que este é um dia que pode permitir que se galgue ou se supere o primeiro degrau para a justiça e para a harmonia política no Brasil”, disse o parlamentar.

Razão do veto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o chamado PL da Dosimetria por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.

“[O PL] daria o condão de aumentar a incidência de crimes contra a ordem democrática e indicaria retrocesso no processo histórico de redemocratização que originou a Nova República”, justificou o Palácio do Planalto.

Entenda

O PL da Dosimetria determina que os crimes de tentativa de acabar com o Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado, quando praticados no mesmo contexto, implicarão no uso da pena mais grave em vez da soma de ambas as penas.

O foco do projeto é uma mudança no cálculo das penas, “calibrando a pena mínima e a pena máxima de cada tipo penal, bem como a forma geral de cálculo das penas”.

Tais mudanças devem beneficiar condenados pelo 8 de janeiro, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, além dos militares Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil; e Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

*Com informações de Luciano Nascimento

O plenário da Câmara dos Deputados votou, nesta quinta-feira (30), pela derrubada do veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei da Dosimetria, que reduz a pena dos condenados por tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na Câmara, 318 parlamentares votaram a favor do benefício aos condenados, enquanto 144 deputados votaram contra. Para derrubar o veto, é necessária ainda a análise do Senado, que discute, neste momento, o veto presidencial.

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A líder do PCdoB na Câmara, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), lamentou que a resposta do Congresso tenha sido “contra a democracia e contra o nosso povo”.

“Crime contra a democracia não é um crime menor. A democracia é o guarda-chuva da liberdade de expressão, liberdade de organização, direito de ir e vir. Nós não estamos aqui brincando quando se penaliza e se criminaliza o comandante da tentativa de um golpe de Estado, como o senhor Jair Bolsonaro. Ele é o líder maior”, afirmou a parlamentar.

Antes da votação, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), fatiou o projeto, excluindo os trechos que beneficiariam criminosos comuns ao reduzir o tempo para progressão de pena, mudança prevista no texto aprovado em dezembro de 2025.

O deputado do PL do Distrito Federal Alberto Fraga agradeceu Alcolumbre pela condução da votação, alegando que teria sido injusto o julgamento da trama golpista pelo Supremo Tribunal Federal (STF). 

“Continua com essa narrativa de golpe, de tentativa de golpe. Não existiu absolutamente nada disso. Nós, aqui hoje, vamos restaurar a verdade”, disse o parlamentar.

Razão do veto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o chamado PL da Dosimetria por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.

“[O PL] daria o condão de aumentar a incidência de crimes contra a ordem democrática e indicaria retrocesso no processo histórico de redemocratização que originou a Nova República”, justificou o Palácio do Planalto.

Entenda

O PL da Dosimetria determina que os crimes de tentativa de acabar com o Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado, quando praticados no mesmo contexto, implicarão no uso da pena mais grave em vez da soma de ambas as penas.

O foco do projeto é uma mudança no cálculo das penas, “calibrando a pena mínima e a pena máxima de cada tipo penal, bem como a forma geral de cálculo das penas”.

Tais mudanças devem beneficiar condenados pelo 8 de janeiro, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, além dos militares Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil; e Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

O líder do governo no Congresso Nacional, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou nesta quinta-feira (30) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve indicar outro nome para vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), após rejeição de Jorge Messias pelo Senado.

“Tenho certeza de que o presidente da República vai fazer uso de sua atribuição. Não tem por que o presidente da República renunciar à atribuição de encaminhar um indicado ao Supremo Tribunal Federal.”

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Rondolfe disse que o momento para indicar o novo nome deve ser definido posteriormente. “O presidente, obviamente, vai avaliar o melhor momento”, respondeu. Mas, segundo ele, o “próximo passo” do jogo “é do governo”.

Questionado sobre o possível perfil do novo indicado ou nova indicada, o líder governista limitou-se a dizer que essa é uma atribuição do presidente da República.

A oposição tem defendido que a próxima indicação fique para o presidente eleito em outubro deste ano. Na sessão do Congresso Nacional de hoje, o líder da oposição do Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN), pediu que Alcolumbre não aceite uma nova indicação do presidente Lula ao STF. 

“O senhor, que preside o Congresso Nacional, não recepcione a possibilidade de nos debruçarmos, de novo, sobre uma escolha para o Supremo Tribunal Federal. Nós teremos um pleito agora, em outubro, teremos um recesso, em julho”, afirmou Marinho.

Alcolumbre não respondeu ao questionamento do senador oposicionista. Lideranças governistas rejeitam essa possibilidade.

“Por que razão o presidente da República iria abdicar de sua atribuição? Até 1º de janeiro, eleito pelo povo brasileiro, o presidente é Luiz Inácio Lula da Silva”, completou Randolfe.

Consultados pela Agência Brasil, os líderes da oposição do Senado Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Eduardo Girão (Novo-CE) e Rogério Marinho (PL-RN) não confirmaram notícia veiculada na imprensa de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), teria dito que não pautaria mais uma nova indicação do Planalto.

Alcolumbre não falou com a imprensa desde o final da votação que rejeitou a indicação de Jorge Messias para o lugar do ministro aposentado Luís Roberto Barroso, que deixou a Corte em outubro do ano passado.

Cenário político

O líder do governo Randolfe Rodrigues argumentou que a derrota na votação do nome de Messias ao STF era esperada devido às circunstâncias políticas do momento.

“Temos uma circunstância pressionada pelo calendário eleitoral. Então, o risco da derrota na votação de ontem era algo previsto. O que foi apreciado ontem não foi o currículo do ministro Jorge Messias, não foi sua competência e capacidade para ser ministro do STF.”

O parlamentar avalia que a votação de ontem foi “uma antecipação do processo eleitoral. A oposição resolveu fazer isso durante a escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal”.

O presidente do Congresso Nacional, o senador Davi Alcolumbre (União-AP), fatiou a votação do veto ao projeto de lei (PL) da Dosimetria, retirando trecho que reduzia o tempo para progressão de penas de condenados. Segundo Alcolumbre, o trecho prejudicaria mudança feita no PL antifacção, que ampliou o tempo para progressão de penas.

O governo afirma que a decisão de Alcolumbre não tem previsão legal, nem precedente, pois não seria possível fatiar um veto integral. O Parlamento analisa, nesta quinta-feira (30), o PL 2.162 de 2023, que reduz a pena dos condenados por tentativa de golpe de Estado ligados ao 8 de janeiro de 2023.

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O presidente do Senado justificou a retirada dos incisos 4 a 10 do art. 1 do PL, que modifica o art. 112 da Lei de Execução Penal (Lei 7.210 de 1984).  

“O eventual reestabelecimento desses dispositivos seria contrário às vontades expressadas pelo Congresso tanto no PL da Dosimetria, que era no sentido de não dispor sobre o mérito de tais normas, quanto no PL Antifacção, que era no sentido de tornar mais rígidos os critérios de progressão do regime de cumprimento de penas para os casos neles contidos”, disse Alcolumbre.

A derrubada do veto pode beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros envolvidos no julgamento da trama golpista, reduzindo o tempo de prisão dos condenados por tentativa de ruptura democrática.

A sessão de hoje foi marcada com pauta única, passando o veto à Dosimetria na frente de mais de 50 vetos que aguardam na fila.

Como o PL da Dosimetria reduzia o tempo da progressão de penas, a medida beneficiaria os criminosos comuns, como havia alertado especialistas consultados pela Agência Brasil

O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), argumentou que não existe precedente para fatiar votação de veto integral e que a fase de elaborar o projeto já passou.

“Após o veto do presidente da República é impossível fazer o fatiamento de algo porque não é mais a fase de elaboração do processo legislativo. É a fase do Congresso Nacional concordar ou não com o veto do presidente da República”, disse o senador amapaense.

A liderança do governo fez uma questão de ordem contra o fatiamento, mas o apelo foi rejeitado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Debate

O líder do governo na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), argumentou que o PL da Dosimetria viola a Constituição.

“A democracia brasileira foi atacada por uma organização política e militar que buscou romper a normalidade constitucional, e a redução casuística da resposta penal a estes fatos deixa o Estado Democrático de Direito vulnerável diante de novas tentativas de ruptura”, disse.

Por outro lado, a deputada Bia Kicis (PL-DF), liderança do PL, defendeu que a decisão de Alcolumbre é necessária para que o PL da Dosimetria não anule o aumento do tempo para progressão de penas.

“Evitamos que o PL da dosimetria produza efeitos indesejados jamais foram desejados pelo legislador. Esses efeitos indesejados e incoerentes com o ordenamento que acabamos de consolidar”, disse.

Razão do veto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o chamado PL da Dosimetria por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.

“O PL daria o condão de aumentar a incidência de crimes contra a ordem democrática e indicaria retrocesso no processo histórico de redemocratização que originou a Nova República”, justificou o Palácio do Planalto. 

Entenda

O PL da Dosimetria determina que os crimes de tentativa de acabar com o Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado, quando praticados no mesmo contexto, implicarão no uso da pena mais grave em vez da soma de ambas as penas.

O foco do projeto é uma mudança no cálculo das penas, “calibrando a pena mínima e a pena máxima de cada tipo penal, bem como a forma geral de cálculo das penas”.

Tais mudanças podem beneficiar condenados pelo 8 de janeiro, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, além dos militares Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil; e Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). 

O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou nesta quinta-feira, em uma manifestação pública, que o país não abrirá mão de suas tecnologias nucleares e de mísseis e indicou que Teerã pretende manter o controle estratégico do estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de energia. A declaração, divulgada em comunicado escrito, ocorre em meio ao impasse com os Estados Unidos e à continuidade de tensões mesmo após um cessar-fogo firmado no início de abril.
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No texto, Khamenei afirmou que a República Islâmica irá “proteger” suas “tecnologias avançadas” da mesma forma que protege suas próprias fronteiras. Ele também declarou que o país pretende “garantir a segurança da região do Golfo Pérsico e desmantelar a exploração desta via marítima pelo inimigo hostil”, em referência direta ao estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia significativa do petróleo comercializado no mundo.
A fala marca uma das poucas manifestações do novo líder desde que assumiu o posto após a morte de seu pai, Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, no primeiro dia da ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Desde então, Mojtaba não foi visto em público, e diferentes relatos indicam que ele teria sido gravemente ferido no mesmo ataque.
Impasse entre Irã e EUA e pressão militar
O cenário atual é de impasse entre Teerã e Washington, sem sinais concretos de retomada de negociações presenciais. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem insistido que a estratégia de pressão está funcionando, especialmente por meio do bloqueio naval imposto aos portos iranianos.
Em entrevista à Axios, Trump afirmou que o bloqueio é “um pouco mais eficaz do que os bombardeios” e que está “asfixiando” o país ao restringir suas exportações de petróleo. Segundo o governo americano, a medida busca forçar o Irã a aceitar restrições severas ao enriquecimento de urânio e a entregar estoques de material altamente processado.
Navio comercial visto da costa de Dubai em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz
AFP
Ainda de acordo com a Axios, comandantes militares devem apresentar ao presidente opções estratégicas, incluindo possíveis ataques coordenados pelo Centcom, responsável pelas operações no Oriente Médio. O plano, segundo a reportagem, prevê uma onda curta de ataques com o objetivo de romper o impasse nas negociações.
Analistas da Bloomberg Economics, Becca Wasser e Chris Kennedy, afirmaram que “Trump quer encerrar a guerra com o Irã, mas não nos termos propostos por Teerã” e avaliaram que “Isso sugere que a questão já não é mais se ele vai escalar para pressionar por uma oferta melhor, mas quando e como. Acreditamos que a janela mais provável para uma ação é nas próximas duas semanas, e que novos ataques dos EUA são o cenário mais provável.”
Apesar da retórica, Trump afirmou a jornalistas que as negociações continuam “por telefone”, após uma tentativa frustrada de encontro entre representantes dos dois países no Paquistão no último fim de semana.
Estreito de Ormuz, economia sob pressão e narrativa iraniana
O estreito de Ormuz segue no centro da crise. O Irã já indicou que não pretende reabrir totalmente a rota para embarcações comerciais enquanto o bloqueio naval americano permanecer em vigor. Desde o início do conflito, apenas um número reduzido de navios tem sido autorizado a atravessar a via, responsável por cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente em tempos de paz.
A tensão tem provocado forte volatilidade no mercado internacional. Segundo a Bloomberg, o petróleo Brent chegou a atingir cerca de US$ 126 (R$ 630) por barril antes de recuar para US$ 114 (R$ 570), acumulando alta superior a 8% na semana, refletindo o temor de uma nova escalada militar e de um possível fechamento prolongado da rota.
Além disso, há incertezas sobre a capacidade de armazenamento de petróleo do Irã, o que pode forçar o país a reduzir a produção caso as exportações permaneçam limitadas. Sinais de pressão econômica já começaram a aparecer, com a moeda iraniana atingindo novos níveis de desvalorização.
Imagem mostra visualização de dados do tráfego marítimo no Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã, entre 18 e 20 de abril
MARINETRAFFIC.COM/AFP
Paralelamente, o discurso oficial iraniano tem se intensificado. De acordo com a AFP, Khamenei afirmou que os Estados Unidos sofreram uma derrota no conflito. Em mensagem divulgada pela televisão estatal, ele declarou: “Hoje, dois meses após o maior desdobramento militar e a agressão dos opressores do mundo na região, e a vergonhosa derrota dos planos dos Estados Unidos, um novo capítulo está se desenvolvendo no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz”.
A mensagem foi divulgada durante a celebração anual do “Golfo Pérsico” no Irã. Nela, o líder também afirmou que as bases militares dos Estados Unidos na região “carecem da capacidade de garantir sua própria segurança, sem falar na capacidade de oferecer segurança a seus aliados”.
Segundo o The New York Times, que citou autoridades iranianas sob anonimato, Khamenei teria ficado “gravemente ferido” na perna e no rosto durante o ataque que matou seu pai, embora “mantenha a lucidez mental e esteja ativo”.
O líder iraniano também destacou mudanças na gestão do estreito, elogiando “o novo marco jurídico e a gestão” iraniana do estreito de Ormuz. Autoridades do país afirmaram recentemente que já houve arrecadação inicial com a cobrança de taxas sobre o tráfego marítimo na região.
Durante o conflito, o Irã atacou embarcações como forma de retaliação, enquanto os Estados Unidos intensificaram o bloqueio naval para pressionar economicamente o país. Segundo o presidente iraniano, Masud Pezeshkian, a estratégia americana está “condenada ao fracasso”.
Khamenei também fez críticas diretas à presença estrangeira na região, afirmando que os “atores externos” que interferem à distância “não têm lugar aqui, exceto no fundo do mar”.

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