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O estopim desta vez foi a queda recorde da moeda local, o rial, que atingiu no domingo a marca de 1,42 milhão por dólar americano — comerciantes, uma classe social que desempenha grande influência no Irã, fecharam suas portas e saíram às ruas nos arredores do Grande Bazar de Teerã, um dos epicentros políticos do país. Há um ano, US$ 1 comprava 820 mil riais.
Os atos se espalharam por outras grandes cidades, como Mashad, Esfahã, Shiraz e a ilha de Qeshm, onde há uma importante zona franca. Vídeos distribuídos em redes sociais mostram policiais lançando bombas de gás para tentar conter os manifestantes, mas não há relatos de prisões em massa.
Nesta terça, o movimento ganhou o apoio dos estudantes universitários, que levaram às ruas slogans contra o governo — incluindo o “morte ao ditador” —, e brados de “liberdade”, direcionados às restrições de costumes impostas pelo regime, como sobre o véu, um dos temas mais discutidos pela sociedade local. Alguns vídeos mostram gritos a favor do herdeiro do último monarca iraniano, Reza Pahlevi, que vive nos EUA e que não é uma unanimidade no país. Na rede social X, ele disse que está ao lado dos manifestantes.
— As pessoas sentem que foram abandonadas, que a liderança não se importa com elas — disse Omid Memarian, analista sênior na Dawn, uma organização sem fins lucrativos com que promove os direitos humanos no Oriente Médio, à NBC News.
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Desde o desmoronamento do acordo sobre o programa nuclear iraniano, em 2018, quando os EUA deixaram o plano e retomaram sanções, a economia local vive uma sucessão sem fim de crises, agravadas pela corrupção no Estado, por efeitos das mudanças climáticas e por escolhas erradas de lideranças locais e nacionais.
A inflação oficial foi de 42,2% ao ano em dezembro, alta de 1,8% em relação ao mês anterior. Mas os preços dos alimentos, ainda segundo os números oficiais, tiveram um salto de 70% em relação a 2024. Para os medicamentos, a alta foi de 50%.
— A inflação e o aumento dos preços estão impactando todas as nossas decisões como consumidores —disse Saeed, um empresário de Teerã ouvido pelo New York Times. — Parei de pensar em comprar uma casa, um carro ou qualquer outra coisa.
Até o momento, chama a atenção o tom das autoridades. Em protestos recentes, como os de 2021, centrados na falta de água, ou de 2022, contra a alta dos preços de itens como pão e arroz, a opção foi a violência, deixando dezenas de mortos e centenas de presos. Em 2023, as manifestações não tiveram a economia como protagonista, mas sim a morte da jovem Mahsa Amini, e foram igualmente reprimidas com sangue: segundo a Human Rights Watch, 551 pessoas morreram.
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Agora, o governo do presidente Masoud Pezeshkian parece ter escolhido o caminho do diálogo, até porque nem o mais hábil dos propagandistas conseguiria esconder uma crise de tal proporção. A imprensa estatal destacou os protestos, apontando que os manifestantes querem uma intervenção imediata do governo sobre o câmbio, além de medidas claras para ajustar a economia.
Na rede social X, Pezeshkian disse ter pedido ao ministro do Interior para que “escute as demandas legítimas dos manifestantes e abra diálogo com seus representantes, de forma que o governo possa fazer tudo em seu poder para resolver os problemas e agir de forma responsável”. Ele ainda aceitou a demissão do presidente do Banco Central, Mohammad Reza Farzin, “escolhido” como um dos culpados pela desvalorização sem freio do rial.
— Muitos líderes iranianos finalmente entenderam que sua falha em ouvir e atender às demandas de grande parte da sociedade iraniana minou sua legitimidade e até mesmo sua autoridade — disse Esfandyar Batmanghelidj, diretor do centro de estudos Bourse and Bazaar Foundation, focado na economia do Irã, ao New York Times. — Eles estão começando a lidar com esse fato de forma desordenada e tardia.
Pessoas fazem compras no Bazar Tajrish, em Teerã
ATTA KENARE / AFP
A questão é se o diálogo será suficiente. Sob sanções e um embargo econômico que impede o uso de canais habituais de comércio exterior e que restringe suas exportações de petróleo, o país tem dificuldade para manter as contas em dia. A corrupção endêmica, exemplificada em fraudes recorrentes no setor bancário, drena bilhões de dólares do erário. E uma economia engessada e dominada pela Guarda Revolucionária impede adequações necessárias em momentos de crise.
— Atualmente, o risco de inflação alta sustentada e de repetição de experiências recentes, como as da Venezuela e da Argentina, está aumentando cada vez mais — disse Amir Hossein Mahdavi, pesquisador na Universidade de Connecticut, ao New York Times.
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Além dos números, o Irã enfrenta a ameaça de uma nova guerra: na segunda-feira, ao lado do premier israelense, Benjamin Netanyahu, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que poderia bombardear o país se encontrar indícios de avanços no programa de mísseis balísticos. Em junho, Israel travou uma guerra aérea de 12 dias contra os iranianos, eliminando parte de sua elite militar e cientistas nucleares, e o conflito chegou ao fim com um ataque inédito dos EUA contra instalações de enriquecimento de urânio. A facilidade com que as defesas foram sobrepujadas minou a credibilidade no regime, que tem como pilar o discurso de que é o único capaz de proteger a nação.
— Após a guerra, havia uma expectativa de grande abertura, mas, na realidade, vemos que a liderança do Irã se tornou ainda mais intransigente e as pessoas não enxergam nenhuma saída para o impasse em que se encontram — disse Memarian à NBC News.
Neste cenário, o governo apresentou no domingo a proposta de orçamento para o ano que vem. O plano prevê um reajuste nos salários de 20% caso a inflação se mantenha acima de 50% ao ano — o gatilho inflacionário, velho conhecido dos brasileiros no século passado —, aumento dos combustíveis (estopim de protestos em outros anos) e a expectativa de aumento de 62% na arrecadação de impostos. Aos deputados, Pezeshkian tentou se defender.
— Me dizem que estou cobrando impostos demais, e também dizem que é preciso aumentar os salários — disse Pezeshkian. — Bem, alguém me diga, de onde vou tirar esse dinheiro?




