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A data da volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Brasília segue indefinida, apesar do ataque dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada deste sábado.
Lula está no Rio no Rio de Janeiro desde o dia 26 e permanece hospedado na Restinga de Marambaia, base da Marinha localizada na Costa Verde do estado, de onde acompanhou as informações sobre a ofensiva contra Nicolas Maduro.
De acordo com um auxiliar do presidente, até a manhã deste sábado, a decisão sobre o retorno não havia sido tomada.
Nas redes sociais, Lula disse que o ataque “ultrapassa uma linha inaceitável”. Afirmou ainda que representa “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
Lula e a primeira-dama Janja passaram a virada do ano no Forte de Copacabana, de onde assistiram ao espetáculo de queima de fogos da praia acompanhados do cantor Gilberto Gil. O momento foi compartilhado nas redes sociais pelo artista e pela sobrinha do presidente.
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O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, serão acusados de narcotráfico e terrorismo nos Estados Unidos e logo responderão perante a justiça, anunciou neste sábado a procuradora-geral americana, Pam Bondi. A confirmação ocorre logo após o anúncio do presidente Donald Trump de que o casal foi capturado e extraído da Venezuela em uma operação militar de grande escala coordenada pelas forças dos Estados Unidos.
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Em uma mensagem publicada na rede social X, Bondi afirmou que ambos enfrentarão em breve todo o rigor da lei em solo americano e perante tribunais dos Estados Unidos, sinalizando que a custódia do casal já é uma realidade jurídica para Washington.
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A procuradora-geral detalhou que o processo contra Maduro, que tramitará no Distrito Sul de Nova York, sustenta-se em quatro acusações criminais:
Conspiração para narcoterrorismo: Acusação de liderar uma organização que utiliza o tráfico de drogas como arma política e financeira para desestabilizar a região e financiar atividades ilícitas;
Conspiração para importação de cocaína: O envolvimento direto na logística de envio de toneladas de entorpecentes para território norte-americano através do chamado “Cartel dos Sóis”;
Uso e posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos: Referente ao armamento pesado utilizado por grupos paramilitares sob o comando de Maduro para proteger as rotas do tráfico e manter o controle coercitivo;
Conspiração para posse de armamento pesado: A articulação para adquirir e manter arsenais de guerra com o intuito de sustentar as operações de narcotráfico internacional.
A ofensiva que levou à queda de Maduro começou na madrugada deste sábado com uma série de explosões em pontos estratégicos de Caracas e em estados vizinhos como Miranda e Aragua. Segundo relatos de testemunhas e jornalistas locais, a operação envolveu bombardeios com mísseis contra alvos militares, enquanto forças de elite realizavam a incursão para a detenção do mandatário e da primeira-dama.
A vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, chegou a exigir provas de vida do casal e denunciou que os ataques atingiram áreas urbanas, vitimando oficiais, soldados e civis, classificando a ação como o maior ultraje já sofrido pela nação.
Apesar da resistência prometida pelo Ministério da Defesa da Venezuela, o cenário na capital tornou-se de um silêncio tenso após o cessar dos sobrevoos de aeronaves americanas. Enquanto isso, em solo americano, a formalização das acusações por narcotráfico e terrorismo eleva o status da intervenção militar para um caso criminal de segurança nacional.
Os Estados Unidos afirmaram ter capturado neste sábado (3) o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante um ataque ao país caribenho. O episódio reacende o histórico de intervenções militares e de apoio a ditaduras promovidas por Washington na América Latina.
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O falecido presidente venezuelano Hugo Chávez e seu sucessor, Maduro, acusaram em várias ocasiões Washington de apoiar tentativas de golpe de Estado, entre elas a que afastou Chávez do poder por dois dias, em 2002.
Estas são as principais intervenções americanas na América Latina desde a Guerra Fria:
Guatemala
Em 27 de junho de 1954, o coronel Jacobo Arbenz Guzmán, presidente da Guatemala, foi derrubado por mercenários treinados e financiados por Washington, após uma reforma agrária que ameaçava os interesses da poderosa empresa americana United Fruit Corporation (futura Chiquita Brands). Em 2003, os Estados Unidos incluíram em sua história oficial o papel da CIA nesse golpe de Estado, em nome da luta contra o comunismo.
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Guatemala
Após o fim da ditadura de Jorge Ubico, que gostava de ser chamado de “Napoleão da América Central”, em 1944, a Guatemala foi comandada por dois presidentes que defendiam a realização de reformas sociais, contrárias à agenda de Washington, incluindo uma reforma agrária que desapropriou terras improdutivas da United Fruit Company. A empresa americana intensificou seu lobby junto ao governo americano para derrubar o governo, e a CIA deu início à operação PBSuccess, seguindo a cartilha de ações de desinformação, apoio à oposição e incitação junto aos militares. O então presidente, Jacobo Árbenz, se viu sem saída a não ser a renúncia em 1954, no que foi o início de quatro décadas de instabilidade no país.
Cuba
Nenhum país da América Latina foi alvo tão recorrente de operações da CIA como a ilha comandada por um regime socialista desde 1959. Meses depois da fracassada Invasão da Baía dos Porcos, em 1961, a CIA orquestrou a chamada Operação Mongoose, que autorizava atentados e assassinatos com o objetivo de fragilizar o regime, mas que teve pouco sucesso. A Operação Northwoods, em 1962, pretendia organizar atos de violência dentro dos Estados Unidos para culpar os cubanos e justificar uma guerra contra a ilha, mas ela não saiu do papel. Em outra frente, a CIA não economizou esforços para tentar matar o líder da revolução, Fidel Castro: segundo documentos oficiais e depoimentos de ex-funcionários da agência, foram mais de 600 tentativas, desde atentados até um charuto envenenado. Castro morreu em 2016, aos 90 anos de idade.
Equador
Nas eleições de 1960, a chegada ao poder de José María Velasco Ibarra, que apesar de não ser um novo Fidel Castro ou um comunista convicto, acendeu sinais amarelos em Washington, e teve início uma das mais intensas operações da CIA na região. A agência conseguiu se infiltrar em praticamente todas as agremiações políticas do país — na esquerda, o objetivo era afastá-las da influência cubana; na direita, angariar apoio às ideias americanas e ao anticomunismo. Ibarra foi forçado a renunciar em 1961, por pressão dos militares, mas seu sucessor, Carlos Julio Arosemana, também não era bem visto pelos americanos. Além da infiltração no meio político, a operação contou com a divulgação de notícias falsas em órgãos de imprensa aliados e a atentados atribuídos à esquerda. Arosemana foi derrubado em 1963, e substituído por uma junta militar afável a Washington.
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Cuba
De 15 a 19 de abril de 1961, 1.400 anticastristas treinados e financiados pela CIA tentaram desembarcar na Baía dos Porcos, a 250 quilômetros de Havana, sem conseguir derrubar o regime comunista de Fidel Castro. Os combates deixaram cerca de uma centena de mortos de cada lado.
Chile
Segundo documentos do governo americano, o principal alvo de Washington era Salvador Allende, político do Partido Socialista e candidato à Presidência em 1964. Antes da votação, Washington autorizou uma campanha para difamar Allende, que contribuiu para sua derrota nas urnas. Quatro anos depois, o socialista voltou a concorrer, dessa vez com apoio de Cuba e da União Soviética — do outro lado, o dinheiro americano continuou a chegar, mas não impediu sua vitória. Segundo um relatório do Senado americano, de 1975, foram gastos cerca de US$ 8 milhões entre 1970 e 1973 para fomentar a oposição e angariar apoio entre os militares para o golpe liderado por Augusto Pinochet.
O então presidente americano, Richard Nixon, e seu conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, apoiaram a junta militar desde o início, e incrementaram a ajuda militar a Santiago — Kissinger, de acordo com registros oficiais, disse a Nixon que os EUA não atuaram diretamente no golpe, mas ajudaram a “criar as melhores condições possíveis”. Nos anos seguintes, o Chile foi um dos líderes da chamada Operação Condor, voltada a reprimir a oposição em ditaduras de direita apoiadas pelos Estados Unidos nos anos 1970.
Brasil
Em março, quando o governo americano divulgou mais de sete mil documentos sigilosos do governo de John Kennedy, ficou comprovada a participação da CIA nos movimentos que antecederam o golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart e deu início a 21 anos de ditadura militar no Brasil. A agência, em telegrama de 1963, afirmava que Goulart “vivia em um mundo de fantasia”, e endossava a tese dos conspiradores de que ele pretendia dar um autogolpe e instaurar uma ditadura comunista. Na ocasião, conselheiros de Kennedy indicavam que um golpe seria preferível a deixar o Brasil entrar para a área de influência da União Soviética.
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Documentos revelados recentemente confirmaram ainda que os EUA tinham um plano de contingência militar — a Operação Irmão Sam — para apoiar os golpistas caso fosse necessário. A proposta previa o uso de navios americanos e o fornecimento de armas e combustível para os insurgentes, mas foi cancelada horas depois da derrubada de João Goulart.
República Dominicana
Em 1965, em nome do “perigo comunista”, os Estados Unidos enviaram fuzileiros navais e paraquedistas a Santo Domingo para sufocar um levante em favor de Juan Bosch, presidente de esquerda derrubado pelos generais em 1963.
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Haiti
No início dos anos 1990, a CIA foi acusada de fornecer apoio para militares que derrubaram o recém-eleito presidente Jean-Bertrand Aristide, e alguns dos comandantes do levante eram pagos por Washington e receberam treinamento nos Estados Unidos. Aristide retornou ao poder em 1994, em uma operação comandada pelos americanos, mas isso não significou que estivesse nas graças da Casa Branca. No golpe de 2004, a CIA foi acusada de fornecer apoio material e militar à Frente Nacional Revolucionária para a Libertação e Reconstrução do Haiti, grupo armado que derrubou Aristide. Como esperado, o governo americano jamais confirmou o apoio ou a participação no movimento.
Apoio às ditaduras do Cone Sul
Washington apoiou várias ditaduras militares, consideradas um baluarte contra os movimentos armados de esquerda. Os Estados Unidos ajudaram o ditador chileno Augusto Pinochet durante o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 contra o presidente de esquerda Salvador Allende.
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O secretário de Estado americano Henry Kissinger também apoiou a junta argentina em 1976, incentivando-a a encerrar rapidamente sua “guerra suja”, segundo documentos americanos desclassificados em 2003. Pelo menos 10 mil opositores argentinos desapareceram. Nos anos 1970 e 1980, seis ditaduras (Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil) se aliaram para eliminar opositores de esquerda no âmbito do “Plano Condor”, com o apoio tácito dos Estados Unidos.
Guerras civis na América Central
Em 1979, a rebelião sandinista derrubou o ditador Anastasio Somoza na Nicarágua. O presidente americano Ronald Reagan, preocupado com o alinhamento de Manágua com Cuba e a URSS, autorizou secretamente a CIA a fornecer uma ajuda de 20 milhões de dólares aos Contras, os contrarrevolucionários nicaraguenses. A ajuda foi financiada em parte pela venda ilegal de armas ao Irã.
A guerra civil nicaraguense, que terminou em abril de 1990, deixou 50 mil mortos. Reagan também enviou assessores militares a El Salvador para sufocar a rebelião da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN, extrema esquerda), no contexto de uma guerra civil (1980-1992) que deixou 72 mil mortos.
Granada
Em 25 de outubro de 1983, fuzileiros navais e rangers intervieram na ilha de Granada após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop por uma junta de extrema esquerda e enquanto os cubanos ampliavam o aeroporto, supostamente para receber aviões militares. Reagan lançou, a pedido da Organização dos Estados do Caribe Oriental (OECO), a operação “Urgent Fury” para proteger cerca de mil cidadãos americanos. A operação, classificada como “bem-sucedida” por Reagan e amplamente condenada pela Assembleia Geral da ONU, terminou em 3 de novembro com mais de uma centena de mortos.
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Panamá
Em 1989, após eleições controversas, o presidente George Bush decidiu intervir militarmente no Panamá, o que levou à rendição do general Manuel Noriega, antigo colaborador dos serviços secretos americanos e procurado pela Justiça de Washington. Cerca de 27 mil soldados participaram da operação “Causa Justa”, que oficialmente deixou 500 mortos, mas vários milhares segundo ONGs.
Noriega foi preso por mais de duas décadas nos Estados Unidos por tráfico de drogas, antes de cumprir outras penas na França e depois no Panamá. No Panamá foi fundada, em 1946, a Escola das Américas, um centro de formação militar especializado na luta contra o comunismo, controlado até 1984 pelos Estados Unidos, onde foram formados numerosos ditadores.
Numa noite de primavera no Salão Oval, o presidente Donald Trump perguntou ao secretário de Estado, Marco Rubio, como poderia endurecer a postura em relação à Venezuela.
Era pouco antes do Memorial Day, e parlamentares cubano-americanos antiesquerdistas, cujos votos Trump precisava para aprovar seu principal projeto de política doméstica, pressionavam para que ele apertasse o cerco à Venezuela interrompendo as operações petrolíferas da Chevron no país. Mas Trump não queria perder o único ponto de apoio dos Estados Unidos na indústria de petróleo venezuelana, onde a China é o maior ator estrangeiro.
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O presidente considerava permitir que a Chevron continuasse. Mas disse a Rubio, um crítico histórico da Venezuela e de Cuba, que era preciso mostrar aos parlamentares e a outros céticos que o governo poderia “baixar o martelo” sobre Nicolás Maduro, o líder autocrático de esquerda da Venezuela, a quem Trump tentou derrubar em seu primeiro mandato.
Outro assessor presente na sala, Stephen Miller, disse que tinha ideias. Como conselheiro de segurança interna de Trump, ele vinha conversando com outros funcionários sobre a promessa de campanha do republicano de bombardear laboratórios de fentanil. Por vários motivos, essa ideia perdeu força e, nas últimas semanas, Miller passou a explorar ataques a barcos suspeitos de transportar drogas pela América Central.
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As deliberações de Miller não estavam focadas na Venezuela, que não produz fentanil. Mas três objetivos distintos de política pública começaram a se fundir naquela noite: enfraquecer Maduro, usar força militar contra cartéis de drogas e garantir acesso às vastas reservas de petróleo da Venezuela para empresas dos Estados Unidos.
Dois meses depois, Trump assinou uma diretriz secreta ordenando ao Pentágono que realizasse operações militares contra cartéis de drogas na América Latina, mencionando especificamente ataques marítimos. Embora a justificativa fosse o combate às drogas de forma geral, a operação concentraria um enorme poder naval ao largo da costa venezuelana.
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O resultado tem sido uma campanha de pressão cada vez mais militarizada com o objetivo de remover Maduro do poder.
Ela tem sido marcada por ataques dos Estados Unidos que mataram ao menos 105 pessoas em barcos no Caribe e no Pacífico oriental, um quase bloqueio de petroleiros que entram e saem de portos venezuelanos e, agora, o ataque ao país com a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
“Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea. Essa operação foi realizada em conjunto com forças de aplicação da lei dos Estados Unidos”, escreveu Trump em declaração na sua plataforma Truth Social neste sábado.
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Isso reflete impulsos convergentes de Rubio e Miller, que têm atuado em conjunto nas políticas contra Maduro. Cada um chega a isso com foco em objetivos antigos: para Rubio, filho de imigrantes cubanos e que também atua como conselheiro de segurança nacional de Trump, a chance de derrubar ou enfraquecer os governos da Venezuela e de sua aliada, Cuba; e para Miller, arquiteto das políticas anti-imigração de Trump, a oportunidade de avançar em seu objetivo de deportações em massa e de atingir grupos criminosos na América Latina.
Este relato de como a Venezuela passou ao centro da agenda de política externa do governo neste ano — a ponto de um possível conflito — baseia-se em entrevistas com autoridades americanas atuais e antigas, quase todas falando sob condição de anonimato devido a sensibilidades de segurança nacional. Entre as conclusões:
Miller disse a autoridades da Casa Branca na primavera para explorarem formas de atacar cartéis de drogas em seus países de origem na América Latina. Ele queria ataques que chamassem ampla atenção para criar um efeito dissuasório.
O foco na Venezuela se intensificou após o fim de maio, quando Trump se irritou com negociações difíceis envolvendo a Chevron. O petróleo venezuelano teve papel mais central nas deliberações de Trump do que se sabia até então.
Em reuniões no início do verão, Rubio e Miller falaram com Trump sobre atacar a Venezuela. O presidente pareceu convencido pelo argumento de Rubio de que Maduro deveria ser visto como um narcotraficante de alto escalão.
Miller disse a autoridades que, se os Estados Unidos e a Venezuela estivessem em guerra, o governo poderia voltar a invocar a Lei dos Inimigos Estrangeiros, uma lei do século XVIII, para acelerar a deportação de centenas de milhares de venezuelanos a quem o governo retirou o status de proteção temporária. Ele e Rubio haviam usado essa lei no início do ano para deportar sumariamente centenas de venezuelanos para uma prisão notória em El Salvador, até serem barrados por decisões judiciais.
A ordem secreta para ação militar contra cartéis, assinada por Trump em 25 de julho e prevendo ataques marítimos, é a primeira diretriz escrita conhecida do presidente sobre esse tipo de ataque. Autoridades do governo chamaram os ataques a barcos de “Fase Um”, com a liderança da SEAL Team Six. Eles discutiram uma vaga “Fase Dois”, possivelmente com unidades da Força Delta do Exército realizando operações terrestres.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, manteve muitos militares de carreira e advogados afastados da elaboração da “ordem de execução” que orienta os ataques a barcos. Como resultado, a ordem apresentou lacunas problemáticas, incluindo a ausência de linguagem sobre como lidar com sobreviventes.
Rubio, Miller e outros principais assessores supervisionaram um processo frequentemente improvisado e envolto em sigilo. A capacidade de manter o planejamento restrito a um círculo fechado foi facilitada pelo esvaziamento, ao longo do ano, de partes da burocracia federal, incluindo o Conselho de Segurança Nacional, que coordena discussões interagências.
Em setembro, o governo avançou para o que até agora é a fase mais sangrenta de sua campanha contra Maduro. Isso já soma 29 ataques letais a barcos nos últimos quatro meses, operações que muitos especialistas jurídicos classificam como assassinatos ou crimes de guerra. O governo diz ter inteligência que liga os barcos ao tráfico de drogas, mas não apresentou publicamente provas dessa afirmação.
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Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, afirmou em nota que o governo estava trabalhando “para cumprir a agenda do presidente de manter esse veneno fora de nossas comunidades”.
Rubio disse a repórteres em 19 de dezembro que o objetivo dos ataques a barcos era garantir que “ninguém mais queira entrar em barcos de drogas”, incutindo neles um “medo da morte”.
Ele também reiterou que o Departamento de Justiça obteve, em 2020, uma acusação de um grande júri contra Maduro por trabalhar com produtores colombianos de cocaína, que às vezes enviam seus produtos pela Venezuela. O governo de Maduro, disse ele, é “um regime ilegítimo que coopera abertamente com elementos terroristas”.
‘Invasão’ na primavera
As sementes da militarização da abordagem em relação a Maduro e aos venezuelanos foram plantadas em fevereiro, quando Rubio fechou um acordo com Nayib Bukele, o líder autoritário de El Salvador, em sua vila à beira de um lago: os Estados Unidos pagariam quase US$ 5 milhões para enviar cerca de 300 venezuelanos acusados de serem membros de gangues para o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), em El Salvador.
Pouco depois de sua visita a Bukele, Rubio designou oito grupos criminosos latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras. A gangue venezuelana Tren de Aragua liderou a lista.
Miller já havia identificado uma ferramenta legal para contornar o devido processo legal: a Lei dos Inimigos Estrangeiros, do século XVIII, que permite a detenção e deportação imediatas de cidadãos de um país que tenha invadido os Estados Unidos ou esteja em guerra com eles.
Trump assinou uma ordem executiva em março invocando a lei, com um título que alertava para “a invasão dos Estados Unidos pelo Tren de Aragua”. Em retrospecto, a ordem foi uma importante abertura de hostilidades contra Maduro: foi o primeiro enquadramento formal do governo de que Maduro e os Estados Unidos estariam em algum tipo de guerra. Em contraste com uma avaliação secreta da inteligência americana, o texto dizia que o Tren de Aragua era um instrumento de Maduro.
Muitos dos mais de 250 venezuelanos enviados a El Salvador não tinham vínculos com o Tren de Aragua nem antecedentes criminais relevantes, e alguns relataram tortura e abusos generalizados na prisão do CECOT.
Tribunais logo decidiram que imigração ilegal não se enquadra no tipo de invasão que justificaria o uso da lei de deportação em tempos de guerra. Mas Miller depois falou em reviver o uso da Lei dos Inimigos Estrangeiros se os Estados Unidos estivessem em uma guerra real com a Venezuela, disse um ex-funcionário americano.
Ao mesmo tempo, Miller explorava políticas não relacionadas à Venezuela que, assim como as deportações, tinham raízes na chamada guerra dos EUA ao terror. Ele analisou a ideia de bombardear laboratórios de fentanil no México. Mas ficou claro que líderes mexicanos não consentiriam, e o governo temia perder cooperação em temas de drogas e migração. O Washington Post havia noticiado anteriormente as discussões de Miller sobre ataques a cartéis no México.
No início de maio, a equipe de Miller começou a pedir mais opções para o uso da força contra cartéis de drogas.
Autoridades da Casa Branca e outros cogitaram ideias mais limitadas, incluindo o uso da CIA para realizar ataques encobertos a barcos atracados sem pessoas a bordo. Mas a equipe de Miller queria divulgar os ataques. Também se discutiu explodir barcos de drogas falsos para incutir medo nos traficantes. Mas os assessores de Miller queriam o “produto real”, disseram autoridades.
Em junho, um pedido para explorar uma possível operação marítima começou a circular no Pentágono. Ainda não estava focado na Venezuela, mas isso mudaria em breve — impulsionado pelo interesse antigo de Trump no recurso mais valioso do país.
Confronto pelo petróleo
Por anos, a Chevron manteve um prêmio singular no mundo corporativo americano: autorização dos governos dos Estados Unidos e da Venezuela para produzir e exportar petróleo em joint ventures.
Por causa disso, a empresa se tornou uma moeda de troca este ano em conjuntos secretos de negociações entre Trump, Maduro e parlamentares americanos — e se entrelaçou com um movimento decisivo de Trump em direção à ação militar.
Tudo começou quando parlamentares cubano-americanos pressionaram Trump no início do ano para encerrar a licença confidencial concedida à Chevron na era Biden. Depois que Trump e Rubio anunciaram, no fim de fevereiro, que fariam isso, Maduro parou de aceitar voos de deportação de venezuelanos. Maduro havia concordado com esses voos em 31 de janeiro com Richard Grenell, enviado especial de Trump.
O CEO da Chevron, Mike Wirth, pressionou o governo por uma extensão da licença, falando com Trump várias vezes nos meses seguintes.
Os parlamentares cubano-americanos souberam que a licença poderia ser estendida e ameaçaram reter seus votos para a principal legislação de Trump, a “One Big Beautiful Bill”.
Na reunião no Salão Oval no fim de maio, Trump disse a Rubio e Miller que precisava aprovar o projeto. Mas afirmou ter ouvido sobre as desvantagens de encerrar a licença, incluindo o risco de empresas chinesas assumirem as participações da Chevron, disse uma autoridade.
O presidente exigiu opções. Foi quando Miller se ofereceu para ajudar. Ele vinha amadurecendo suas ideias sobre deportações em massa e ataques a barcos.
Trump não renovou a licença da Chevron quando ela expirou em 27 de maio. Seu projeto de política doméstica foi aprovado no Congresso cinco semanas depois.
O presidente realizou uma série de reuniões na Casa Branca sobre a possibilidade de atacar a Venezuela. Em uma delas, no início do verão, que incluiu Rubio, Miller e Grenell, Rubio argumentou que Maduro era um narcotraficante, uma caracterização que pareceu ficar na mente de Trump, disse uma autoridade.
No fim de julho, Trump mudou de posição sobre a licença da Chevron. Ele ordenou ao Departamento do Tesouro que emitisse uma nova licença com termos revisados. Isso ocorreu por volta do momento em que Maduro libertou 10 prisioneiros americanos em troca dos mais de 250 venezuelanos enviados pelo governo Trump ao CECOT, a prisão salvadorenha. Trump também foi influenciado pelo argumento de Wirth de que a Chevron era um contrapeso à China.
Mas, nos bastidores, Trump traçou um rumo de confronto. Em 25 de julho, assinou uma ordem secreta instruindo o Pentágono a agir contra grupos de tráfico de drogas, colocando em marcha a mira sobre venezuelanos.
Verão de sigilo
Essa diretriz secreta de Trump foi mantida em segredo até o The New York Times noticiar sua existência no início de agosto.
A ordem de duas páginas continha uma proposta escrita, até então não divulgada, para ataques a barcos. Ela instruía Hegseth a atingir embarcações em águas internacionais transportando drogas para qualquer um de 24 grupos “narcoterroristas” latino-americanos. A lista anexada incluía grupos da Venezuela.
Em governos anteriores, muitos advogados militares e especialistas operacionais do Pentágono teriam sido convidados para discutir a diretriz. O Conselho de Segurança Nacional teria coordenado discussões entre agências. Nada disso aconteceu.
Embora a ordem militar tenha permanecido secreta inicialmente, as ações públicas do governo apontavam Maduro como o alvo final da campanha.
A lista secreta de 24 grupos incluía grandes cartéis e grupos formalmente designados como terroristas pelo governo Trump, além de numerosas gangues mexicanas relativamente obscuras. No mesmo dia em que Trump assinou a diretriz, o Departamento do Tesouro anunciou sanções contra o “Cartel de los Soles”, um termo coloquial para a corrupção ligada ao tráfico dentro das Forças Armadas venezuelanas, declarando-o uma organização terrorista liderada por Maduro. O nome estava no fim da lista secreta de Trump.
Em 27 de julho, Rubio declarou que Maduro havia roubado uma eleição um ano antes e que era o chefe de um cartel, e não um presidente legítimo. Pouco mais de uma semana depois, ele e a procuradora-geral Pam Bondi anunciaram a duplicação da recompensa por informações que levassem à prisão ou condenação de Maduro, para US$ 50 milhões.
Por volta do mesmo período, um indicado de Trump, com pouca experiência em direito de segurança nacional, redigia um memorando do Departamento de Justiça afirmando que ataques a barcos seriam legais com base nos poderes de guerra de Trump. O aval jurídico foi desenvolvido até o fim de julho, quando o Senado confirmou os dois principais advogados responsáveis por revisar tal operação — T. Elliot Gaiser, chefe do Escritório de Assessoria Jurídica, e Earl G. Matthews, conselheiro-geral do Pentágono. Eles foram, na prática, apresentados a um fato consumado.
Autoridades do Escritório de Assessoria Jurídica aconselharam oralmente o governo de que a operação seria legal e finalizaram o memorando escrito em 5 de setembro. Quando advogados de outras agências levantaram preocupações, foram informados de que não havia o que debater porque o Departamento de Justiça já havia dado sinal verde.
No Pentágono, um pequeno círculo de autoridades mergulhou no planejamento operacional secreto dos ataques a barcos.
Hegseth assinou uma ordem de execução que criou a estrutura operacional dos ataques. Datada de 5 de agosto e redigida sem a contribuição de muitos funcionários de carreira do Pentágono, ela reutilizou linguagem de ordens anteriores desenvolvidas para ataques de drones contra alvos da Al-Qaeda em lugares como o interior do Iêmen.
Faltavam elementos cruciais para operações marítimas — incluindo qualquer menção ao que fazer com sobreviventes de um ataque, disseram autoridades.
Durante o planejamento, um assessor de Miller, Anthony Salisbury, pressionou o Pentágono por formas de ampliar o escopo das operações, incluindo flexibilizar padrões — como o nível de confiança necessário para que autoridades militares considerem que um alvo atende aos critérios. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, aconselhou que os militares estabelecessem critérios de seleção com base em lições aprendidas nas guerras pós-11 de Setembro. Kelly, a porta-voz da Casa Branca, disse que o relato sobre o papel de Salisbury é “inventado”.
Hegseth manteve em grande medida fora do processo o almirante Alvin Holsey, chefe do Comando Sul, responsável pelas forças na região. Holsey havia começado a levantar questionamentos sobre os planos. Por vários meses, Hegseth sustentou que o almirante não estava perseguindo a missão antidrogas com agressividade suficiente. Holsey anunciou abruptamente em outubro que deixaria o cargo mais cedo, no fim do ano. Seus motivos permanecem pouco claros.
O Pentágono também contornou um processo chamado Maritime Operational Threat Response, usado para obter contribuições de várias agências ao propor uma ação marítima com implicações internacionais, disse William D. Baumgartner, contra-almirante da Guarda Costeira aposentado e advogado que supervisionou operações no Caribe.
Em 2 de setembro, quando forças americanas detectaram uma lancha com 11 pessoas a bordo, Hegseth deu a ordem para atacar. Trump publicou um vídeo editado mostrando um único ataque destruindo a embarcação.
Entre os destroços
Na verdade, após o primeiro míssil atingir o alvo, dois homens emergiram da água e subiram no casco virado, acenando, disseram pessoas que viram o vídeo completo do ataque.
Frank M. Bradley, comandante de três estrelas do Comando Conjunto de Operações Especiais, a força que realizou o ataque, havia ensaiado em agosto cenários em que poderia haver sobreviventes. Ele ordenou ataques adicionais, afundando os destroços e matando os sobreviventes iniciais.
Outros ataques logo se seguiram. Enquanto Rubio se tornou o principal defensor público das ações, Miller passou a atuar como supervisor da Casa Branca — convocando reuniões regulares que incluíam o Pentágono e outras agências. O Guardian noticiou anteriormente seu papel.
Em 16 de outubro, após um ataque no Mar do Caribe, autoridades militares avistaram dois sobreviventes.
Desta vez, um helicóptero recolheu os homens e os levou a bordo do USS Iwo Jima. O governo dos Estados Unidos logo os enviou de volta a seus países de origem, Colômbia e Equador. Eles não foram acusados em seus países.
O episódio desencadeou uma corrida secreta — e tardia — no Pentágono sobre a questão dos sobreviventes. Em chamadas separadas com o Departamento de Estado, autoridades do Pentágono chegaram a propor enviá-los ao CECOT, a prisão salvadorenha, ou repatriá-los ou enviá-los a um terceiro país.
Advogados militares revisaram várias vezes a ordem de execução, inicialmente enxuta, para incluir linguagem sobre sobreviventes, disseram autoridades. Alguns outros disseram que as mudanças refletiam planejamento anterior. As revisões afirmavam que os militares deveriam tratar detidos de acordo com o direito internacional.
Mas autoridades de alto escalão deixaram claro em conversas internas que a melhor opção, se sobreviventes fossem avistados na água, seria pedir a um governo próximo que os recolhesse, em vez de fazê-lo com forças americanas, disse uma autoridade.
O Pentágono se recusou a comentar, seguindo sua prática padrão sobre ordens de execução.
À medida que os ataques continuam, Trump, Rubio e Miller avançaram para a próxima etapa da campanha contra Maduro: apreender petroleiros para privar a Venezuela de receitas. Eles dizem que Maduro deve devolver petróleo e outros ativos “roubados” dos Estados Unidos antes que levantem o que Trump se referiu como um bloqueio.
Nas primeiras semanas, a tática abalou a economia venezuelana ao paralisar sua indústria petrolífera. Críticos chamam isso de diplomacia das canhoneiras ou, como Maduro diz, “um pretexto belicista e colonialista”.
A fronteira entre Brasil e Venezuela amanheceu fechada neste sábado, no trecho de Pacaraima, em Roraima. Segundo interlocutores da área militar do governo brasileiro, a interrupção da passagem ocorreu do lado venezuelano, após o ataque de grande escala anunciado pelos Estados Unidos contra o país vizinho.
Da parte do Brasil, “as fronteiras estão operando dentro da normalidade”, disse um militar de alta patente ao GLOBO. No entanto, imagens registradas no início da manhã e divulgadas pela Polícia Militar de Roraima mostram que cones foram colocados para impedir a circulação de veículos e pedestres no ponto de travessia.
O fechamento da fronteira ocorreu poucas horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que forças americanas realizaram uma ofensiva militar em larga escala na Venezuela e retiraram do país, por via aérea, o presidente Nicolás Maduro. Washington não informou o destino de Maduro nem apresentou detalhes sobre a base legal da operação.
Durante a madrugada, uma série de explosões foi registrada em Caracas. Moradores relataram tremores, ruídos de aeronaves voando em baixa altitude e correria nas ruas. Houve também registros de interrupção no fornecimento de energia elétrica em áreas da capital, especialmente nas proximidades da base aérea de La Carlota, no sul da cidade.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram aeronaves militares sobrevoando Caracas e colunas de fumaça em diferentes pontos da capital venezuelana, incluindo áreas próximas a instalações militares. As informações ainda não foram confirmadas de forma independente.
Após o início dos ataques, o governo venezuelano divulgou um comunicado afirmando que o país estaria sob agressão externa e decretou estado de Comoção Exterior em todo o território nacional. Segundo a nota, Nicolás Maduro teria ordenado a ativação de planos de mobilização e convocado forças sociais e políticas para reagir à ofensiva.
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, declarou não ter informações sobre o paradeiro de Maduro e cobrou do governo dos Estados Unidos uma prova de vida do presidente venezuelano.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou neste sábado os ataques à Venezuela anunciados pelos Estados Unidos. Em comunicado, o brasileiro afirmou que os atos “representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
“Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”, diz a nota. Lula não cita a capturar do líder chavista, Nicolás Maduro, e a da esposa dele, Cilia Flores.
Segundo Lula, “a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”.
“A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”,
Nos últimos meses, Lula vinha tentando atuar como um mediador na escalada da crise entre EUA e Venezuela. Em conversa com jornalistas em 18 de dezembro, o presidente brasileiro defendeu “diálogo” para que se evitasse uma “guerra fratricida” na região e disse que tentaria falar com Donald Trump sobre o assunto antes do Natal. Entretanto, não há informações de que a conversa de fato ocorreu.
O ataque à Venezuela foi anunciado por Trump por meio de uma rede social, em mensagem na qual disse que forças americanas realizaram um “ataque de grande escala” contra o país sul-americano e que mais detalhes serão apresentados em uma coletiva de imprensa marcada para as 13h (horário de Brasília), em Mar-a-Lago, na Flórida. Ele não informou, no entanto, para onde Maduro foi levado nem sob qual base legal ocorreu a captura.
O governo brasileiro convocou uma reunião de emergência na manhã deste sábado para discutir o ataque de grande escala anunciado pelos Estados Unidos contra a Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro. Segundo interlocutores do Itamaraty, a prioridade neste momento é reunir informações detalhadas sobre a operação antes de qualquer posicionamento público.
A avaliação interna é de que ainda há lacunas relevantes sobre as circunstâncias do ataque e, sobretudo, sobre a base legal da captura anunciada pelo presidente americano Donald Trump. Por essa razão, a orientação no governo é de cautela, evitando manifestações precipitadas enquanto os fatos seguem sendo apurados por canais diplomáticos. A reunião foi convocada pela embaixadora Maria Laura da Rocha, a número dois do Itamaraty.
Vídeos divulgados em redes sociais mostram helicópteros das Forças de Operações Especiais dos EUA sobrevoando Caracas durante a madrugada deste sábado, enquanto múltiplas explosões iluminam o céu da capital venezuelana. Segundo relatos não confirmados, as aeronaves seriam helicópteros CH-47G Chinook, projetados para operações secretas, e teriam atuado durante ataques que, segundo o governo venezuelano, atingiram os estados Miranda, Aragua e La Guaira, além de Caracas.
Ao menos sete explosões e ruídos semelhantes ao sobrevoo de aviões foram relatados por volta das 2h, em Caracas. De acordo com fontes locais ouvidas pelo GLOBO, um dos alvos teria sido a base militar de La Carlota, da Força Aérea venezuelana, e o Forte Tiuna.
As explosões ocorrem depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, enviou uma frota de navios de guerra para o Caribe, mencionou a possibilidade de ataques em território venezuelano e afirmou que os dias do presidente Nicolás Maduro no poder estavam contados.
A crise diplomática entre os americanos e os venezuelanos vinha escalando nos últimos meses. O governo Trump já havia anunciado um bloqueio naval “total e completo” a petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela, intensificando a pressão sobre Caracas ao atingir diretamente o petróleo, principal setor de receita do país, e ampliando as medidas que Washington apresenta como parte de uma campanha contra tráfico de drogas.
Países condenam ataques
Diferentes autoridades mundiais reagiram ao ataque americano à Venezuela na madrugada deste sábado, que capturou o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e de Cuba, Miguel Díaz-Canel, condenaram a ação dos Estados Unidos, enquanto o mandatário argentino, Javier Milei, celebrou a operação.
“O Governo da República da Colômbia observa com profunda preocupação os relatos sobre ataques e atividades aéreas incomuns registradas nas últimas horas na República Bolivariana da Venezuela, assim como o consequente aumento de tensão na região”, afirmou Petro em publicação na rede social X.
Já o chefe de Estado cubano disse, também em postagem na plataforma, que “Cuba denuncia e demanda URGENTE reação da comunidade internacional contra o criminoso ataque dos EUA contra a Venezuela. Nossa zona de paz está sendo brutalmente assaltada. Terrorismo de Estado contra o bravo povo venezuelano e contra Nossa América”.
Por outro lado, Milei, aliado de Trump e crítico ao líder venezuelano, comemorou os ataques ao reproduzir uma notícia da captura de Maduro com a frase “A liberdade avança”, que é também o nome do seu partido.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou há pouco por telefone com o chanceler da Venezuela, Yvan Gil. O contato ocorreu em meio ao agravamento da crise regional após os ataques dos Estados Unidos ao país vizinho.
Segundo interlocutores do governo brasileiro, a conversa teve como foco a troca de informações sobre a situação no território venezuelano e seus desdobramentos. O Itamaraty acompanha os acontecimentos com cautela e mantém canais diplomáticos abertos com Caracas.
A iniciativa ocorre enquanto o governo brasileiro avalia os impactos do conflito, especialmente na fronteira comum entre Brasil e Venezuela, e busca reunir dados mais precisos antes de qualquer posicionamento público mais amplo.
Uma das principais preocupações do governo brasileiro diante dos ataques dos Estados Unidos à Venezuela é a extensa fronteira terrestre compartilhada pelos dois países, com mais de 2 mil quilômetros de extensão. Avaliações feitas no Palácio do Planalto e em áreas da segurança indicam que a instabilidade no território venezuelano pode gerar impactos diretos sobre a região norte do Brasil.
A apreensão não se limita a um eventual aumento do fluxo de imigrantes venezuelanos em direção ao Brasil, movimento que já ocorre há anos em função da crise econômica e social no país vizinho. Autoridades brasileiras também veem risco de que a intensificação do conflito facilite a entrada, pela fronteira, de pessoas ligadas a organizações criminosas, especialmente ao narcotráfico.
Diante do agravamento do cenário, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o Sistema Único de Saúde (SUS) está preparado para absorver os impactos que o conflito na Venezuela pode provocar. Em mensagem publicada em uma rede social, Padilha disse que o Brasil cuidará “de quem precisar ser cuidado, em solo brasileiro”.
Padilha foi o primeiro integrante do primeiro escalão do governo brasileiro a se manifestar publicamente sobre os ataques do governo de Donald Trump à Venezuela. A declaração ocorreu em meio à mobilização do governo federal para avaliar os desdobramentos da ofensiva.
Na manhã deste sábado, uma reunião de emergência foi convocada para discutir os ataques e a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Segundo interlocutores do Itamaraty, a prioridade neste momento é reunir informações detalhadas sobre a operação antes de qualquer posicionamento público oficial do governo brasileiro.
Políticos de esquerda e de direita travam neste sábado um embate nas redes sociais após o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que forças americanas realizaram um ataque de grande escala contra a Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro. Enquanto parlamentares da esquerda classificaram a ofensiva como agressão militar e violação do direito internacional, lideranças da direita comemoraram o que chamaram de fim da ditadura chavista.
Entre aliados do governo Lula, as críticas se concentraram na denúncia de intervenção estrangeira e nos riscos humanitários do ataque. O deputado Reimont (PT-RJ) afirmou que “bombas não trazem democracia” e que a soberania nacional deve ser respeitada. Na mesma linha, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) disse que os Estados Unidos, sob Trump, retomam uma “sanha imperialista” e comparou a ofensiva a intervenções americanas no Vietnã, no Panamá e em Granada, cobrando reação da comunidade internacional.
As manifestações ocorreram após relatos de explosões em Caracas durante a madrugada e a declaração de Trump de que Maduro e a esposa teriam sido capturados e retirados do país por via aérea. Até o momento, Washington não informou o destino do líder venezuelano nem a base legal da operação, o que ampliou o debate jurídico e político em torno da ofensiva.
No campo oposto, parlamentares e lideranças da direita celebraram a retirada de Maduro do poder e usaram o episódio para atacar a esquerda brasileira. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) afirmou que “acabou o tempo de passar pano para ditaduras” e disse que a América do Sul começa a “acordar de um pesadelo”.
Também comemorando o anúncio, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pré-candidato à Presidência, declarou que o dia 3 de janeiro deveria entrar para a história como o da “libertação do povo venezuelano”. Já o deputado Filipe Barros (PL-PR) classificou a ação americana como “necessária” e afirmou que a direita deve permanecer vigilante para impedir que o governo brasileiro acolha Maduro em território nacional. A deputada Bia Kicis (PL-DF) também comemorou a captura do presidente venezuelano, chamando-o de “ditador sanguinário”.
O embate nas redes ocorre enquanto o governo brasileiro adota cautela. O Planalto e o Itamaraty convocaram uma reunião de emergência para reunir informações sobre a operação antes de qualquer posicionamento oficial. Interlocutores afirmam que a prioridade é compreender os desdobramentos diplomáticos e jurídicos do ataque, diante do impacto potencial para a estabilidade política da América do Sul.

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