A ação militar realizada pelos EUA na Venezuela neste sábado, que terminou com a captura do presidente Nicolás Maduro, provocou um misto de sensações entre venezuelanos pelo mundo. Enquanto cidadãos que vivem no país sul-americano são tomados pelo medo e a incerteza sobre o futuro da Venezuela, venezuelanos refugiados em outros países comemoraram a captura do presidente Nicolás Maduro e atribuem a ação americana a um avanço da “liberdade” no país. Segundo o presidente americano, Donald Trump, tanto Maduro quanto sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e levados para os EUA.
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Um silêncio quase sepulcral e um forte cheiro de pólvora tomaram conta de Caracas no sábado, após os bombardeios americanos na madrugada, um “ataque em larga escala”, segundo anunciado pelo presidente americano, Donald Trump. As persianas cinzentas e fechadas das lojas pintam um quadro da paisagem deserta que se estende pela capital. Alguns carros trafegam pelas ruas vazias, e filas de compradores nervosos dão uma aparência de atividade à cidade de seis milhões de habitantes.
Agentes vestidos inteiramente de preto, portando fuzis e usando óculos escuros, patrulham o centro de Caracas, onde estão localizadas sedes ministeriais como o Ministério do Interior e o Ministério Público, bem como os escritórios do Corpo de Investigações Científicas, Criminais e Forenses (CICPC). Eles também patrulham o Palácio de Miraflores, onde, poucos dias antes, o presidente Maduro havia realizado seus comícios musicais repletos de insultos contra o imperialismo.
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Quando as primeiras explosões foram ouvidas na capital venezuelana, por volta das 2h da manhã, os moradores se debruçaram em seus terraços e varandas para ver de onde vinham os sons dos aviões rasgando o céu. As janelas tremiam com as ondas de choque sentidas em várias partes da capital.
— Foi horrível, sentimos os aviões sobrevoando nossa casa — disse um morador do bairro de Coche, perto de Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da cidade atingido, falando sob condição de anonimato.
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Jairo Chacin, 39 anos, que é mecânico e proprietário de oficina no centro de petróleo de Maracaibo, no noroeste do país, foi entrevistado pela Reuters enquanto esperava em uma longa fila para estocar mantimentos. Ele contou que saiu de casa para checar as condições de seu negócio porque tinha medo de saques e decidiu encher o tanque de gasolina e comprar comida por “não saber o que está por vir”.
— Honestamente, eu tenho uma mistura de medo e alegria — relatou Chacin, que tem uma irmã morando nos EUA, por quem foi acordado esta manhã com a notícia dos ataques e com quem “chorou junto de felicidade”.
Assim como ele, outros moradores relataram apreensão com o futuro do país. Noris Prada, que também mora na capital, disse à AP que muitos venezuelanos “acordaram assustados” e que “muitas famílias não conseguiram dormir”. Um dos apoiadores de Maduro, o eletricista Alfonso Valdez, rechaçou a ação americana, a quem classificou como “polícia do mundo”.
— [Os Estados Unidos] são os que impõem a lei. A polícia do mundo. Polícia assassina, porque são assassinos — afirmou.
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Cerca de 500 apoiadores estão reunidos nas ruas centrais de Caracas, onde um palco foi montado com alto-falantes tocando músicas típicas de comícios chavistas.
— Viva Nicolás Maduro! — gritam do palco. — Viva! — responde a multidão.
Katia Briceño, uma professora universitária de 54 anos, contou que está no local para “defender” seu país contra o que considera um “ultraje”. Para Franklin Jiménez, também morador de Caracas, a captura de maduro não deveria ter acontecido e “vai criar um conflito pior do que o que está acontecendo agora”.
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Outra militante, Pastora Vivas, de 65 anos, relatou que o ataque americano “não foi uma surpresa”, visto que a expectativa de que uma ação militar dos EUA fosse acontecer já havia sido criada por conta da mobilização militar de Washington no Caribe desde agosto.
— Como um governo estrangeiro pode vir e interferir no país e depor o presidente? É um absurdo — reclama.
Na zona leste abastada de Caracas, longas filas se formaram em frente a lojas de alimentos, que vendiam seus produtos a portas fechadas. Pessoas de todas as idades entravam e saíam nervosamente. A ardência da pólvora ainda irritava seus olhos. O gás lacrimogêneo criou uma névoa antes do amanhecer, e poucos carros e motocicletas trafegavam pela principal rodovia de Caracas, que liga a cidade de leste a oeste.
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Reprodução | Truth Social
Venezuelanos em diáspora
Enquanto a incerteza toma conta do país sul-americano, venezuelanos que vivem no exterior expressam alegria e euforia pelas ruas diante dos acontecimentos desta madrugada. Refugiados e migrantes no exterior somam cerca de 28% da população do país.
— Finalmente, teremos um país livre e vamos poder voltar para casa — disse Yurimar Rojas, uma vendedora ambulante, à AFP. Ela é uma das milhares de venezuelanas que foram às ruas de Santiago neste sábado para comemorar a captura de Maduro pelos Estados Unidos.
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Os venezuelanos chegaram vestindo camisetas de seu país, agitando bandeiras e tocando trombetas. Daymar Cuicas, que mora no Chile há oito anos, admite que, ao ouvir a notícia, foi tomada por “uma emoção tão grande” que ficou sem palavras.
— Isso é maravilhoso para nós — celebrou Yasmery Gallardo, de 61 anos, que está prestes a completar oito anos no Chile. — Já estou planejando minha viagem. Já avisei meus filhos que vou embora em março. Mal posso esperar para voltar ao meu país.
Milhares de venezuelanos também se reuniram na Estação Central, área onde milhares de migrantes se estabeleceram no Chile, que se tornou um importante destino para migrantes, principalmente da Venezuela. A população migrante dobrou em sete anos, atingindo 8,8% do total em 2024 neste país de 20 milhões de habitantes, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). A Venezuela é o principal país de origem dos imigrantes no Chile (41,6%), seguida pelo Peru (14,5%) e pela Colômbia (12,3%).
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O Chile é o quinto país que mais recebeu imigrantes da Venezuela desde que o chavismo assumiu o poder. Atualmente, cerca de 669,4 mil venezuelanos vivem no país. A maioria dos migrantes que deixaram o país fugindo da fome, da escassez de recursos e da repressão do regime, cerca de 2,8 milhões de pessoas, vive na Colômbia, seguidos por 1,6 milhão no Peru, 1,1 milhão nos EUA e 732,2 mil no Brasil.
Assim como em Santiago, venezuelanos se reuniram na Flórida entoando “este governo já caiu”, com bandeiras e símbolos nacionais em clima de Copa do Mundo, com destaque para agradecimentos a Trump e menção a uma parceria com María Corina Machado, líder oposicionista de Maduro, para “alcançar a liberdade” no país.
Uma delas, Kirvin Suarez, contou à Reuters que vive há 10 anos nos Estados Unidos e deixou a Venezuela porque tinha um irmão “que foi morto pela tirania do governo venezuelano” aos 22 anos.
— Arrancaram de nós um irmão, um filho, um tio. E assim como o sangue dele e a quantidade de sangue derramado por muitos compatriotas, hoje está sendo feita justiça pela quantidade de venezuelanos que deixamos o país para demonstrar quem somos — relatou Suarez, que agradeceu aos EUA por “ter lhe aberto as portas”. — Somos lutadores, empreendedores, pessoas boas, mas queremos voltar ao nosso país para reconstruí-lo, para seguir em frente e continuar sendo essa potência que a Venezuela sempre foi.
Na Espanha, onde vivem mais de 400 mil venezuelanos, Carmela Osorio relatou emocionada que sua família “está muito feliz” e que o sentimento é de que “finalmente escaparam da ditadura”.
(Com AFP)