Para a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, não restam dúvidas, um ataque dos Estados Unidos a um país da Otan(a Organização do Tratado do Atlântico Norte) seria o fim da aliança militar. O posicionamento da dinamarquesa surge na esteira de uma nova leva de ameaças por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexação da Groenlândia, alegando ser um território vital para a segurança americana. Conhecida como “tesouro do Ártico” por suas riquezas naturais e posição geoestratégica, a maior ilha do mundo tem um governo autônomo, mas faz parte do Reino da Dinamarca, que, assim como os EUA, é sócio-fundador da aliança militar ocidental baseada nos princípios de defesa coletiva e assistência mútua.
‘Tesouro do Ártico’: Na mira de Trump, Groenlândia reflete velhas ambições expansionistas dos EUA e também é alvo de interesse de Rússia e China
‘Já chega!’: primeiro-ministro da Groenlândia reage após a nova ameaça de anexação de Trump
O flerte expansionista de Trump, com isso, seja ele real ou bravata, esbarra mais uma vez em algo maior e mais complexo: a Otan. Fundada em 1949, a organização conta hoje com 32 membros, que desde a Segunda Guerra Mundial nunca se enfrentaram militarmente — em 2020, Grécia e Turquia tiveram uma tensa disputa de fronteira, mas a questão foi resolvida no âmbito diplomático. A postura de Trump traz um cenário inédito para o grupo transatlântico.
O Artigo 5 da Otan determina que um ataque contra um de seus integrantes deve ser considerado uma ofensiva contra toda a aliança, o que pressupõe uma reação conjunta. O dispositivo não faz referência direta a situações nas quais a agressão parte de um próprio membro, nem estabelece distinção clara entre ameaças internas e externas. Na prática, o tratado não inclui uma previsão específica para conflitos entre aliados, deixando esse cenário aberto a leituras e interpretações.
“Como o próprio Tratado não tem disposições explícitas sobre como gerir uma guerra entre aliados da Otan, as consequências de tais ações não são perfeitamente claras”, diz Soner Korucu, professor do departamento de Direito da Universidade de Groningen, na Holanda, em artigo. “Entretanto, o Tratado dá diretrizes que poderiam fornecer uma resposta potencial, porém discutível.”
A aliança militar transatlântica
Editoria de Arte
De acordo com Korucu, um ataque de um país da Otan contra outro, em tese, poderia levar à ativação do Artigo 5. No entanto, os desdobramentos dependeriam de qual Estado fosse reconhecido como o “agressor”, isto é, o responsável por iniciar o confronto. Ele ressalta que, na prática, identificar quem deu início às hostilidades nem sempre é simples para os próprios envolvidos no embate.
França e Alemanha, também membros-fundadores da Otan, alertaram Trump contra o que classificaram como ameaças “às fronteiras soberanas” da Groenlândia, após as declarações do líder americano provocarem “incompreensão” dentro da União Europeia. A Rússia, por sua vez, afirmou estar “acompanhando de perto” as reivindicações relativas ao território dinamarquês no Ártico.
França e Alemanha, que também são sócios-fundadores da Otan, advertiram Trump contra as ameaças “às fronteiras soberanas” da Groenlândia depois que as declarações do líder americano há um ano desataram “incompreensão” na União Europeia. A própria Rússia declarou “seguir de perto” as reivindicações sobre o território dinamarquês no Ártico
Especialistas destacaram, à época, a possível intenção de Trump de desequilibrar a Dinamarca e a Groenlândia visando algum tipo de negociação sob pressão. Estima-se que a região do Ártico abrigue até 90 bilhões de barris de petróleo, 47,2 bilhões de metros cúbicos de gás natural e 44 bilhões de barris de gás natural liquefeito (GNL), segundo o Serviço Geológico dos EUA. Também é rica em terras raras, que podem ser aproveitadas na fabricação de chips de última geração, um mercado hoje dominado pela China.
Initial plugin text
Há anos, Trump reclama da falta de investimento em defesa por parte do Canadá e dos países europeus, e durante o seu primeiro mandato ameaçou se retirar da aliança se os demais membros não aumentassem os gastos militares. Também disse durante a campanha presidencial de 2024 que não seguiria a cláusula de defesa coletiva se os sócios da aliança militar ocidental não cumprissem as metas de desembolso, afirmando que incentivaria a Rússia a fazer “o que diabos quiser” com a Ucrânia.
Ao longo da História, os Estados Unidos têm arcado com mais de 60% do orçamento da Otan. Durante muitos anos, poucos integrantes cumpriram a meta de destinar 2% do PIB à defesa — em 2014, apenas três países atingiam esse patamar. Esse quadro mudou em 2024: após dois anos de guerra na Ucrânia, 23 membros passaram a cumprir o objetivo.
Os defensores da aliança reconhecem que a Europa se beneficiou de décadas de gastos militares reduzidos, o que permitiu priorizar políticas de bem-estar social em vários países. Ao mesmo tempo, argumentam que Washington também foi favorecido pelo compartilhamento do esforço de segurança, pela queda nos custos de vigilância em meio ao mais longo período de paz do continente e pelo fortalecimento de sua posição como principal potência na Europa.
Segundo Giuseppe Spatafora, pesquisador associado do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, a política externa de Trump transforma o compromisso dos EUA com seus aliados tradicionais em uma relação essencialmente transacional. Ou seja, o apoio americano passa a depender do que o ex-presidente considera ser o interesse e a prioridade de Washington — como a agenda de reindustrialização dos EUA, que entra em choque com a concorrência chinesa.
— Isso não significa que os EUA irão necessariamente abandonar seus aliados, mas sim que, com Trump, os europeus deixam de ser essenciais e passam a ser secundários — afirmou o especialista em relações transatlânticas em entrevista ao GLOBO há um ano. — Não é uma política externa totalmente isolacionista, mas cria a sensação de que o relacionamento transatlântico tradicional, baseado em valores compartilhados e em um sentimento comum que não pode ser quebrado não existe mais.
Na visão do cientista político alemão Benedikt Franke, os países europeus avançaram muito nos últimos anos, mas ainda há um “longo e difícil” caminho a percorrer para garantirem sua própria segurança, disse ele ao GLOBO.
— Teremos eleições em vários países europeus nos próximos meses, e estamos em um momento de crescimento econômico lento. [Para criar uma força europeia] é preciso fazer escolhas, definir prioridades, que nem toda a população vai entender ou simpatizar com elas, causando mais tensão política — avalia o vice-presidente e CEO da Conferência de Segurança de Munique, realizada desde 1963. — Portanto, em teoria, [a criação de uma força europeia] é possível, mas será difícil de vender para parte da população e [é] um caminho difícil de percorrer.