O Governo da Groenlândia publicou nesta quarta-feira (21) um guia de preparação para situações de crise destinado às famílias da ilha ártica, num contexto de renovadas tensões diplomáticas após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o interesse em assumir o controlo do território autônomo dinamarquês. O documento foi apresentado pelo Ministério da Natureza e Ambiente e prevê medidas para enfrentar emergências com duração de até cinco dias.
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Segundo o Executivo groenlandês, o guia responde a eventos que tornam a população “particularmente vulnerável”, como apagões e falhas prolongadas de abastecimento. Peter Borg, responsável pela área de autossuficiência no governo local, afirmou que a preparação faz parte da cultura do território, marcado por clima instável e pelos efeitos das alterações climáticas. O material, acrescentou, complementa os mecanismos já existentes e busca reforçar a resiliência individual e comunitária.
Preparação para o frio extremo e falhas de energia
Elaborado após um ano de trabalho motivado por sucessivos cortes de energia, o guia recomenda que cada pessoa disponha de três litros de água por dia, alimentos não perecíveis e de fácil preparo, medicamentos e um kit de primeiros socorros, além de artigos básicos de higiene. Diante de temperaturas que podem chegar a -20 °C, o governo orienta a manutenção de cobertores, roupas térmicas e fontes alternativas de aquecimento, como fogões, aquecedores a querosene, velas e até geradores com combustível.
O documento também sugere a inclusão de sinalizadores, baterias e carregadores portáteis, diferentes meios de pagamento — em dinheiro ou cartão — e um rádio que funcione a pilhas, energia solar ou manivela, para garantir o acesso à informação. As autoridades recomendam ainda manter contatos de familiares, vizinhos e serviços públicos facilmente acessíveis e avaliar o uso de equipamentos de comunicação por satélite.
Intitulado “Preparado para a Crise”, o guia foi divulgado no mesmo dia em que Trump, após semanas de debate internacional, voltou a defender no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, a abertura imediata de negociações para a aquisição da Gronelândia, alegando razões de segurança nacional. Embora tenha afirmado que não pretende recorrer à força militar, a posição voltou a gerar apreensão entre líderes locais.
A presidente da Câmara de Nuuk, Avaaraq S. Olsen, afirmou à agência Ritzau que as declarações do presidente norte-americano aliviam parcialmente o receio de uma ameaça militar, mas não eliminam a preocupação. Segundo ela, o município de Sermersooq — que inclui a capital e reúne quase metade dos cerca de 57 mil habitantes da ilha — continuará atento à defesa da autonomia. Olsen criticou ainda a caracterização da Groenlândia como “apenas um pedaço de gelo”, dizendo que a afirmação revela desconhecimento sobre o país e falta de respeito pela opinião dos groenlandeses.