O comandante do Exército do Irã, Amir Hatami, advertiu neste sábado os governos dos Estados Unidos e Israel de que as Forças Armadas do país estão em alerta máximo, frente à mobilização militar americana no Golfo, com uma dúzia de navios de guerra, liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln. O militar enfatizou que a tecnologia nuclear da República Islâmica “não pode ser eliminada”, em resposta às pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
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— Se o inimigo cometer um erro, não tenham dúvida de que colocará em risco sua própria segurança, a da região e a do regime sionista (Israel) — declarou Hatami, segundo a agência oficial de notícias IRNA, acrescentando que as Forças Armadas do Irã estão “plenamente preparadas”.
A declaração foi feita em um dos momentos mais delicados na região desde a guerra de 12 dias entre Irãl e Israel, no ano passado, que terminou após inéditos ataques americanos a instalações nucleares do país. Diante da repressão a protestos nas maiores cidades iranianas, que deixaram milhares de mortos nas últimas semanas , de acordo com relatos não oficiais, Trump sinalizou que poderia “ajudar” os manifestantes, algo lido como uma possível ação militar.
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Também neste sábado, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse que líderes dos EUA, de Israel e da Europa exploraram os problemas econômicos do país, incitaram agitação e forneceram às pessoas os meios para “despedaçar a nação” nas manifestações.
Nas últimas semanas, Washington enviou ao Oriente Médio uma força naval de ataque, desenhando uma campanha de pressão semelhante à mobilização no Caribe do final do ano passado, que resultou na captura e deposição do líder chavista Nicolás Maduro nos primeiros dias de 2026.
Porta-aviões USS Abraham Lincoln, deslocado para o Oriente Médio
Zachary PEARSON / Marinha dos EUA / AFP
Segundo fontes diplomáticas, Trump chegou a tomar a decisão de bombardear o Irã, mas foi persuadido a mudar de ideia por três monarquias do Golfo — Catar, Omã e Arábia Saudita —, que citaram os riscos à estabilidade regional. Contudo, os planos jamais saíram da mesa do republicano: na semana passada, após reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Trump disse que “estava observando o Irã”, e que havia “uma grande força indo na direção” do país.
A mobilização militar no Golfo provocou o receio global de um confronto direto dos EUA com o Irã, que tem alertado reiteradamente que, neste caso, responderá com disparos de mísseis contra bases americanas no Oriente Médio e ataques contra os aliados de Washington, em particular Israel.
Na sexta-feira, Trump, encorajado pelo êxito da operação americana em Caracas, afirmou que Teerã quer “chegar a um acordo” para evitar uma intervenção militar.
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O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que seu país está disposto a negociar sobre seu programa atômico “em pé de igualdade”, não sob ameaça. Os Estados Unidos, Israel e países europeus afirmam que o programa nuclear iraniano tem o objetivo de desenvolver a bomba atômica, o que Teerã nega.
Explosões
De acordo com o jornal israelense Haaretz, pelo menos cinco pessoas morreram em explosões que ocorreram, a princípio, em dois locais no Irã neste sábado. O jornal estatal Tehran Times noticiou uma explosão em um prédio residencial na cidade de Ahvaz, no sudoeste do Irã, perto da fronteira com o Iraque, que matou quatro pessoas. Posteriormente, o Corpo de Bombeiros local afirmou que a explosão foi causada por um vazamento de gás.
— A causa inicial do acidente (…) foi um acúmulo de gás que escapou, provocando uma explosão — disse o chefe do Corpo de Bombeiros local, Mohammad Amin Lyaghat, à TV estatal.
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Segundo o Haaretz, uma mãe e uma criança também ficaram presas sob os escombros em Ahvaz, e vídeos mostram bombeiros resgatando uma criança dos destroços da explosão. Testemunhas também relataram uma outra explosão perto da capital, Teerã.
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E mais uma explosão ocorreu no porto de Bandar Abbas, no sul do Irã. A agência de notícias semioficial Tasnim afirmou que as notícias veiculadas nas redes sociais, alegando que um comandante da Marinha da Guarda Revolucionária foi alvo da explosão, no entanto, eram “completamente falsas”.
Segundo a AFP, houve vários incidentes em outras partes do país, mas veículos de imprensa descartaram qualquer ligação com um possível ataque ou sabotagem.
Duas autoridades israelenses disseram à agência Reuters que Israel não está envolvido na série de explosões que ocorreram no Irã. A agência de notícias Fars informou que a Marinha iraniana negou, por sua vez, qualquer ataque com drones contra seu quartel-general em Hormozgan, acrescentando que nenhum prédio foi danificado.
O porto de Bandar Abbas fica no Estreito de Ormuz, uma via navegável vital entre o Irã e Omã, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado por via marítima no mundo.
Exercícios iranianos no Estreito de Ormuz
Na sexta-feira, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou que a Guarda Revolucionária iraniana, o exército ideológico do regime, organizará “um exercício naval de dois dias com fogo real” no Estreito de Ormuz, um ponto muito sensível por onde passam gás liquefeito e petróleo procedentes do Golfo.
Em um comunicado, o Centcom, o braço militar dos EUA no Oriente Médio e outras partes da Ásia, aconselhou a Guarda a não adotar “qualquer comportamento inseguro e pouco profissional nas proximidades de forças americanas”.
O governo dos Estados Unidos classificou a Guarda Revolucionária como organização terrorista em 2019, durante o primeiro mandato de Trump. Uma iniciativa que a União Europeia (UE) também adotou na última quinta-feira. O Irã prometeu adotar uma resposta.
Na semana passada, as Forças Armadas dos EUA anunciaram exercícios de prontidão aérea no Oriente Médio. As autoridades iranianas acusam os americanos de promoverem a instabilidade na região, e fizeram um alerta: qualquer país que ajudar em um ataque será tratado como “hostil”.
Em comunicado, o Centcom disse que “realizará um exercício de prontidão de vários dias para demonstrar a capacidade de desdobrar, dispersar e sustentar poder aéreo de combate”. O texto não detalha se haverá participação de outras nações, mas destaca que as manobras servirão para “fortalecer parcerias regionais e preparar a execução de respostas flexíveis”, e para validar estratégias “de comando e controle integrados e multinacionais sobre uma ampla área de operações”.
(Com AFP)