Após Jeffrey Epstein concordar em pagar mais de US$ 14 mil (cerca de R$ 73,6 mil) em mensalidades escolares para os filhos de um pesquisador alemão de inteligência artificial, ele deu seguimento ao favor com um pedido direto:
— Você ainda não me disse suas percepções sobre como as pessoas me veem.
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Era o verão de 2017. Epstein havia sido processado recentemente por mais uma mulher que o acusava de tráfico sexual, e ele estava ansioso pela opinião do pesquisador, cujo trabalho ele financiava. A troca de mensagens, incluída nos milhões de arquivos relacionados ao caso Epstein pelo Departamento de Justiça, mostra como ele utilizava pagamentos de mensalidades em escolas primárias e secundárias de elite — e a percepção de que poderia influenciar seus processos de admissão — para construir relacionamentos e ganhar influência, mesmo após ter sido condenado por crimes sexuais na Flórida.
Uma revisão dos arquivos revelou dezenas de menções à Trinity School, em Manhattan, à Riverdale Country School, no Bronx, à Masters School, em Westchester e a outras academias de prestígio em conversas informais, e-mails rápidos e outros registros. Em alguns casos, pais esperançosos contatavam o financista em busca de ajuda com mensalidades ou para garantir a admissão de seus filhos. Em outros, o próprio Epstein parecia entrar em contato com os pais por iniciativa própria.
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Entre os pais estavam o pesquisador Joscha Bach; o magnata da mídia e do setor imobiliário Mortimer Zuckerman; Eva Andersson-Dubin, ex-membro do conselho da Trinity que namorou Epstein antes de se casar com o gestor de fundos Glenn Dubin; e o banqueiro particular de Jeffrey.
Todas as interações ocorreram após a condenação de Epstein por crimes sexuais na Flórida em 2008, e antes de promotores federais em Manhattan o acusarem de abusar sexualmente de dezenas de meninas e o indiciarem por acusações de tráfico sexual no ano seguinte. Não há sugestão nos arquivos de que os pais tenham auxiliado o criminoso em qualquer irregularidade. No entanto, as mensagens reforçam o quão profundamente entrincheirado ele permanecia nos círculos de poder, mesmo após ser registrado como agressor sexual.
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Jeffrey Epstein mantinha uma longa associação com escolas particulares de prestígio. Ele atuou brevemente como professor de matemática e ciências na Dalton School, no Upper East Side, em Manhattan, antes de ser demitido por baixo desempenho e passar a trabalhar no setor financeiro. Nos anos seguintes, frequentou os mesmos círculos que alguns dos líderes e ex-alunos proeminentes da escola.
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Divulgação/Departamento de Justiça dos Estados Unidos
Ao fazer isso, e ocasionalmente oferecer favores, o empresário seguia um caminho bem trilhado por americanos ricos e privilegiados, afirmou Adam Howard, professor de educação no Colby College, que estuda escolas particulares de elite.
— Esta questão não é simplesmente sobre Epstein ou sobre um único homem. É sobre como essas instituições frequentemente operam em uma cultura de patrocínio silencioso, alavancagem e redes sociais. A maioria de nós, nos EUA, não tem como acessar esse tipo de rede que tem uma única função: criar e recriar elites — disse Howard.
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Para Joscha Bach, os pagamentos de mensalidades faziam parte de um acordo no qual Epstein financiaria sua pesquisa no M.I.T. e em Harvard — e o custo de vida de sua família nos Estados Unidos — entre os anos de 2013 a 2019.
Bach, que estuda teorias da consciência e inteligência artificial, afirmou ter sido conectado a Epstein por outros cientistas proeminentes. Ao todo, o pesquisador aceitou mais de US$ 180 mil (quase R$ 1 milhão) do financista e chegou a ficar hospedado em um de seus apartamentos em Manhattan por um período em 2015.
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Segundo os e-mails revelados, os pagamentos incluíram mais de US$ 31 mil (mais de R$ 160 mil) em mensalidades para que os filhos de Bach frequentassem a escola particular German International School Boston, em 2016 e 2017. Autoridades da escola não responderam imediatamente a um pedido de comentário por parte do New York Times.
Em um e-mail ao jornal, Bach afirmou que recebeu conselhos de cientistas que respeitava dizendo que deveria aceitar o financiamento de Jeffrey Epstein.
“No entanto, se eu soubesse ou suspeitasse das coisas horríveis de que ele foi acusado após ser preso novamente, ou que ele pudesse estar envolvido em qualquer nova conduta criminosa, eu não teria aceitado seu financiamento ou me associado a ele de forma alguma”, disse. “Quando Epstein ofereceu financiar minha pesquisa, eu lhe disse que isso seria difícil, pois tenho dois filhos e teria que mudar minha família para os EUA, o que eu não poderia pagar”.
Ele acrescentou que o financista se comprometeu a cuidar das despesas de subsistência durante o projeto, afirmando sobre as mensalidades: “Isso fazia parte do financiamento de pesquisa que ele me deu”.
Os arquivos não incluem uma resposta de Bach compartilhando suas visões sobre a reputação de Epstein. Em uma publicação no site Substack no final do ano passado, ele descreveu o falecido como um “sociopata de alto funcionamento”, que era “tenso, intensamente curioso e totalmente desprovido de medo, culpa ou vergonha”.
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No caso de Mortimer Zuckerman, ele e Epstein se conheciam há bastante, socializando e, em dado momento, até investindo juntos. No entanto, no início de 2014, a relação tornou-se tensa: Epstein estava pressionando agressivamente para o bilionário o contratasse para planejamento patrimonial, e o magnata decidiu não fazê-lo, mostram os arquivos.
“Jeffrey, eu simplesmente não me sinto confortável com sua estrutura; tentei e não se encaixa”, escreveu Zuckerman em fevereiro daquele ano. “Sinto muito, mas é por isso que não pude prosseguir.”
Oito dias depois, Epstein enviou um e-mail a Mortimer sugerindo que soubera por meio de Eva Andersson-Dubin que o empresário estava tentando matricular sua filha na Trinity School em Manhattan. “Deveríamos conversar”, escreveu Epstein.
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Há falta certeza se o financista tomou medidas para ajudar a filha de Zuckerman, mas no final daquela semana, ele enviou um novo e-mail ao magnata dizendo que “estava feliz que tudo deu certo” para ela. Zuckerman, hoje com 88 anos, não respondeu aos pedidos de comentário.
Eva Andersson-Dubin, por sua vez, recorreu a Epstein para um favor relacionado à Trinity quando era membro do conselho da escola em 2012. Em setembro daquele ano, ela enviou um e-mail perguntando se Epstein poderia conseguir que o ganhador do Nobel e biólogo molecular Richard Axel falasse em uma assembleia. Ela também observou que “se Woody Allen considerasse isso, eles morreriam (de alegria)!”.
Não está claro se algum dos homens compareceu a um evento na escola, e nem Andersson-Dubin nem os representantes da Trinity responderam aos pedidos de comentário.
Epstein também efetuou pagamentos de mensalidades totalizando mais de US$ 89 mil (quase meio milhão de reais) para a filha de seu contador de longa data, Richard Kahn, para que ela frequentasse a Nightingale-Bamford School no Upper East Side. O advogado de Kahn recusou-se a comentar, assim como um representante da escola.
Em fevereiro de 2018, o banqueiro pessoal de Jeffrey Epstein, Paul Barrett, forneceu a ele uma lista de diretores e membros do conselho da Riverdale Country School, da Ethical Culture Fieldston School e da Masters School em Westchester, pedindo ajuda para tirar seu filho das listas de espera das instituições. Epstein respondeu: “Atrasado, mas vou tentar”.
Não se tem precisão de quais passos — se houve algum — foram tomados em nome de Barrett, que escreveu novamente um mês depois, dizendo: “Você teve mais algum pensamento sobre isso? A escola pública parece provável neste momento”. Paul Barrett recusou-se a comentar.
Além dessas transações, Epstein também doou mais de US$ 400 mil (cerca de R$ 2,1 milhões) ao longo de um período de 13 anos, começando na década de 1990, para o Interlochen Center for the Arts, uma prestigiosa escola interna em Michigan com programas de ensino fundamental e médio. Ele e sua companheira de longa data, Ghislaine Maxwell, utilizaram um alojamento que ele financiou para recrutar algumas de suas primeiras vítimas, informou a rádio pública americana NPR em fevereiro.
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Uma porta-voz de Interlochen afirmou que, em 2009, quando os administradores souberam das condenações criminais de Epstein, a escola realizou uma revisão interna. Não foram encontrados registros de queixas ou preocupações sobre o doador, que morreu em uma cela de prisão em Manhattan enquanto aguardava julgamento por acusações federais de tráfico sexual em 2019. Sua morte foi declarada suicídio.
Após a prisão de 2019, uma segunda revisão foi conduzida em Interlochen, que também não encontrou queixas contra Jeffrey Epstein, informou a porta-voz, Maureen Oleson.
— Continuamos horrorizados com o que aprendemos sobre a extensão da conduta de Epstein e seus co-conspiradores, e esperamos que uma compreensão mais abrangente de todo o escopo continue a evoluir — disse Oleson.