No momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, determinou a seus assessores e comandantes que se preparem para um bloqueio prolongado ao Irã, o regime contabiliza seus efeitos econômicos. A inflação superou os 70% em março, milhões de pessoas podem perder os empregos e as autoridades buscam alternativas para evitar um colapso social. Um cenário que pode render concessões aos americanos nas negociações, mas que não traz a garantia de uma rendição incondicional, como sonham Trump e seus aliados.
— O bloqueio é um pouco mais eficaz do que os bombardeios. Eles estão sufocando como um porco recheado. E vai piorar para eles — disse Trump, na semana passada, em entrevista ao portal Axios, pouco depois de rejeitar uma proposta enviada por Teerã. — Eu não quero [suspender o bloqueio], porque não quero que eles tenham uma arma nuclear.
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Em vigor há quase um mês, o bloqueio naval fez com que praticamente todas as embarcações de bandeira do Irã, ou que tentem sair ou chegar aos portos iranianos, sejam barradas. Até sexta-feira passada, os militares americanos declararam que 45 navios foram interceptados, e o presidente americano se comparou a um pirata diante de jornalistas.
A empresa de análise de riscos Vortexa afirmou à agência Reuters que apenas 4 milhões de barris de petróleo deixaram o Golfo de Omã (onde estão os navios americanos) entre os dias 13 e 25 de abril. No mesmo período de março, quando o Irã ainda controlava o tráfego pelo Estreito de Ormuz, transitaram 23,5 milhões de barris por dia.
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Além da queda nas exportações de petróleo e gás, responsáveis por até 45% do caixa do governo iraniano, as unidades de armazenamento estão no limite, forçando cortes de produção que podem chegar a 1,5 milhão de barris por dia até maio, segundo projeções da Kpler, consultoria que atua no setor de inteligência comercial. Mas o impacto no setor de energia pode demorar até ser sentido, devido a práticas do mercado e ao volume de petroleiros carregados em alto mar, longe do Golfo Pérsico e à disposição de seus clientes, especialmente a China.
“Como resultado, o bloqueio afetaria as receitas petrolíferas do Irã apenas daqui a 3 a 4 meses, limitando sua eficácia”, escreveu Homayoun Falakshahi, analista da Kpler, em artigo recente, estimando perdas futuras de até US$ 250 milhões por dia e alertando que, por causa das sanções, também turbinadas por Trump, nem todo dinheiro das exportações chega aos cofres iranianos.
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Em seu artigo, Falakshahi lembra que nem só de petróleo e gás se fazem os portos. De acordo com o serviço alfandegário, o total de importações e exportações, excluindo o setor de óleo e gás, somou US$ 109 bilhões no último ano fiscal, encerrado no final de março, queda de 16% em relação ao ano anterior. Entre fevereiro e março, o volume foi de US$ 6,49 bilhões, redução mensal de 30% e de 50% em comparação com o mesmo período de 2025.
“O bloqueio exerce uma pressão significativa sobre o Irã, que vai além do aspecto simbólico”, acrescenta o analista. “O Irã é um grande importador de grãos, milho e arroz. A diminuição das importações desses produtos agrícolas impulsionará a inflação interna.”
O Irã enfrenta um persistente cenário de estagflação (estagnação econômica e alta inflação), resultado de décadas de sanções, problemas estruturais e questões ligadas à gestão da máquina pública e à concentração econômica. Nos últimos anos, a população foi às ruas pedir melhores condições de vida (como em janeiro, quando dezenas de milhares de pessoas foram mortas pela repressão), e pouco foi feito. Em um país em crise profunda, com 36% da população abaixo da linha da pobreza, a guerra de EUA e Israel foi um empurrão em direção ao abismo econômico.
A inflação anual chegou a 73,5% em março, de acordo com o Centro de Estatísticas do Irã, com números ainda maiores em categorias como alimentos e bebidas (115%), carnes vermelhas e brancas (140%) e óleos e gorduras (230%). Na semana passada, o rial atingiu a marca histórica de 1,81 milhão por US$ 1 — há um ano, a cotação era de 800 mil por cada US$ 1. Segundo Hadi Kahalzadeh, ex-economista da Organização de Seguridade Social do Irã, metade dos empregos no Irã está ameaçada, resultado da estagnação, da inflação e da destruição de indústrias, instalações civis e cadeias de produção e suprimentos.
“Se esta guerra tinha um alvo oculto, não era a projeção do poderio militar do Irã; era o mercado de trabalho que sustenta o modo de vida dos cidadãos comuns”, escreveu Kahalzadeh, em publicação para a Fundação Bourse & Bazaar, dedicada ao estudo da economia do Irã.
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No fim do ano passado, o Orçamento apresentado pelo presidente Masoud Pezeshkian destinava parte dos rendimentos com petróleo para a importação de bens essenciais (alimentos e medicamentos), a uma cotação bem abaixo da oficial. As autoridades prometeram dobrar o valor dos cupons de auxílio alimentar, hoje equivalentes a US$ 10 por mês, e usarão US$ 1 bilhão do fundo soberano para comprar açúcar, arroz, cevada, milho, farelo de soja, carne vermelha e carne de frango. O Paquistão, mediador das conversas com os EUA, designou seis corredores para o escoamento de produtos iranianos e à importação de arroz e carne, e rotas terrestres por outros países vizinhos ajudam a incrementar a oferta de itens como medicamentos e manufaturados.
Publicamente, o regime não cedeu à pressão econômica e às ameaças de Trump, mas nas entrelinhas, reconhece os impactos do bloqueio. Nos últimos contatos mediados pelo Paquistão, os negociadores estabeleceram a reabertura dos portos como prioridade, e sugeriram congelar suas atividades nucleares por até 15 anos, de acordo com documentos obtidos pela rede al-Jazeera.
“O fato de Teerã ter exigido o fim do bloqueio como condição para retomar as negociações evidencia que o país está sofrendo onde mais dói”, explica Falakshahi.
Fissuras internas começam a dar lugar a um discurso público de apoio às negociações. Embora a ala mais radical ainda tenha voz — alguns defendem que o retorno aos combates sairia mais barato do que o fechamento dos portos e as capturas de navios—, ela está cada vez mais isolada.
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Mas é importante notar que, mesmo com concessões, o regime não está perto de fazer todas as vontades de Trump, como gostariam o americano e seu principal aliado, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu. Teerã se planejou por décadas para essa guerra, e a resiliência à pressão externa se tornou uma das bandeiras do país, desde os tempos do conflito com o Iraque, nos anos 1980. E há outro aspecto em pauta: um bloqueio de longo prazo também impõe custos aos Estados Unidos, a poucos meses de uma eleição complicada para Trump, marcada pela impopularidade da guerra.
“O bloqueio prejudica o futuro econômico do Irã, mas pode levar a uma guerra mais longa e custosa para os Estados Unidos, danos graves e duradouros aos mercados americanos e globais e mais prejuízos políticos internos para Trump”, escreveu Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar no centro de estudos Defense Priorities, em artigo no New York Times. “Em uma disputa de intenções, Teerã tem a vantagem e uma maior tolerância à dor.”