Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Em 27/2, viajei a trabalho para Doha. O plano era passar o fim de semana na cidade, realizar reuniões na segunda-feira e retornar em seguida. Menos de 24 horas após minha chegada, porém, o contexto regional mudou abruptamente. EUA e Israel bombardearam o Irã, ainda durante negociações diplomáticas mediadas por Omã. A resposta de Teerã atingiu Israel e alvos militares em países do Golfo. O espaço aéreo do Catar foi então fechado, e minha saída só se concretizou em 13/3. Minha experiência, ainda que pontual, oferece um prisma para refletir sobre uma narrativa mais ampla: a ideia de que o Golfo teria se consolidado como um espaço de estabilidade em um Oriente Médio marcado por volatilidade.
Guga Chacra: Após intervalo na guerra, qual será o próximo ato de Irã x EUA?
Sem o Hezbollah: Entenda a rodada de negociação histórica entre Israel e Líbano nos EUA e o passado conflituoso entre os países
Nas últimas décadas, com o declínio do Levante — região profundamente conectada ao Brasil por fluxos migratórios de libaneses, sírios e palestinos —, os países do Golfo passaram a ocupar posição central na geopolítica e na economia regional, além de se afirmarem como novos polos de cultura e arte árabes. Catar e Emirados Árabes Unidos (EAU) investem em diversificação econômica, buscando reduzir a dependência de hidrocarbonetos nas próximas décadas.
Cidades como Dubai, Abu Dhabi e Doha emergiram como hubs globais de aviação, finanças, tecnologia, turismo e hospitalidade. A realização de megaeventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2022 no Catar, consolidou a imagem da região como espaço estável e globalmente conectado. Essa construção não foi casual: trata-se de um projeto de inserção internacional sustentado por estabilidade política interna, capacidade de investimento e articulação com potências externas, como os EUA e, cada vez mais, a Ásia.
Navio militar transita pelo Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico
Sahar AL ATTAR / AFP
Os acontecimentos recentes, contudo, colocam essa narrativa em xeque e causam dano reputacional aos países mais ricos do Golfo. A escalada regional expõe uma vulnerabilidade estrutural: a dependência simultânea de garantias externas de segurança e da manutenção de relações funcionais com atores regionais. A presença militar estadunidense, historicamente vista como fator de dissuasão, passa também a representar risco, ao transformar territórios do Golfo em potenciais alvos.
Ao mesmo tempo, a crise evidencia assimetrias no sistema de alianças. Quando interesses estratégicos divergem em Washington, a prioridade atribuída a Israel tende a prevalecer sobre a influência dos parceiros do Golfo. Essa percepção ajuda a explicar a postura adotada até o cessar-fogo: contenção, ênfase em defesa e recusa em aderir diretamente à escalada militar. Não se trata apenas de cálculo tático de curto prazo. A geografia impõe limites claros: independentemente do desfecho do conflito, o Irã continuará sendo vizinho, exigindo, cedo ou tarde, algum nível de reacomodação diplomática.
Isso não significa, porém, que os países do Golfo não estejam repensando suas estratégias de segurança. Os EAU dispõem de capacidade para integrar eventuais ações militares contra o Irã, assim como a Arábia Saudita, em razão de seus robustos meios de poder aéreo. Ambos já atuaram conjuntamente no Iêmen.
Bloqueio em Ormuz: EUA vão perseguir navios ligados ao Irã além do Oriente Médio, diz general
Paralelamente, Riad estreita laços de defesa com o Paquistão, enquanto os EAU aprofundam o diálogo estratégico com a Índia. Catar e Omã mantêm postura mais diplomática e mediadora, mas têm condenado de forma mais enfática ataques iranianos, especialmente contra infraestruturas e alvos civis. Além disso Arábia Saudita, EAU e Catar já buscam apoio da Ucrânia para se defender de drones iranianos.
Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz
Giuseppe CACACE / AFP
A questão do Estreito de Ormuz e a pressão iraniana sobre a cadeia energética global mostram como as implicações econômicas são igualmente relevantes. O modelo de desenvolvimento recente do Golfo pressupõe previsibilidade e segurança. Setores como aviação, mercado imobiliário, tecnologia financeira e infraestrutura digital são particularmente sensíveis a choques de confiança. A interrupção de rotas aéreas e o aumento da percepção de risco geopolítico tendem a gerar efeitos que extrapolam o campo militar. O interesse dos países do Golfo é, portanto, claro: uma rápida desescalada que permita o retorno da normalidade econômica.
Com o impasse nas negociações EUA–Irã mediadas pelo Paquistão durante o cessar-fogo de duas semanas, os países do Golfo parecem seguir apostando na resiliência de suas defesas aéreas e em uma saída diplomática para conter a escalada regional. Talvez fique claro que a sub-região não é mais tão excepcional em termos de segurança, mas resta acompanhar como conseguirá se manter próspera em meio à instabilidade.
* Mestranda em Relações Internacionais na Johns Hopkins University de Bolonha, Itália e integrante do Observatório do Golfo, grupo de pesquisa acadêmico liderado pelo IDP.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que Israel e o Líbano concordaram com um cessar-fogo temporário de 10 dias, após conversas com o presidente libanês, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Segundo o anúncio, feito por Trump em sua rede Truth Social, a trégua entrará em vigor nesta noite, enquanto o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio trabalharão com as duas partes para tentar alcançar uma “paz duradoura”.
Guerra no Oriente Médio: Irã ameaça bloquear Mar Vermelho em resposta a operação dos EUA para impedir uso de portos do país
Sem o Hezbollah: Entenda a rodada de negociação histórica entre Israel e Líbano nos EUA e o passado conflituoso entre os países
O acordo ocorre em meio à ofensiva militar israelense no Líbano, que, segundo o Ministério da Saúde libanês, deixou mais de dois mil mortos e provocou o deslocamento de cerca de um milhão de pessoas. Apesar do histórico de confrontos, o atual conflito entre Israel e o grupo xiita Hezbollah, aliado ao Irã, teve início como extensão da guerra regional envolvendo Estados Unidos, Israel e a República Islâmica. Forças do Hezbollah lançaram ataques contra o território israelense em resposta aos bombardeios em Teerã que resultaram na morte do líder supremo iraniano, desencadeando a resposta militar de Israel, com bombardeios principalmente nos subúrbios ao sul da capital Beirute e uma incursão terrestre na região sul do Líbano, próxima à fronteira entre os dois países.
Segundo a TV al-Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah — que antecipou a possibilidade do anúncio —, a trégua seria resultado da pressão iraniana. Representantes do governo israelense teriam analisado a proposta ao longo do dia e decidido pela adoção do cessar-fogo após uma reunião do Gabinete de segurança. Autoridades libanesas também já haviam adiantado ao Financial Times que o cessar-fogo provavelmente entraria em vigor “esta semana”, depois que as forças israelenses tomassem a província de Bint Jbeil, um reduto do Hezbollah.
Na quarta-feira, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que o principal objetivo da negociação com o Líbano era garantir o “desmantelamento” do movimento islamista Hezbollah, que atua em paralelo ao Estado libanês.
— Nas negociações com o Líbano há dois objetivos fundamentais: em primeiro lugar, o desmantelamento do Hezbollah; em segundo lugar, uma paz sustentável (…) alcançada por meio da força — declarou o primeiro-ministro depois que os dois países realizaram as primeiras conversas diretas em décadas, sem a participação do grupo xiita.
Netanyahu afirmou que os Estados Unidos mantêm Israel constantemente informado sobre seus contatos com o Irã e que os dois países compartilham os mesmos objetivos, acrescentando que querem que o urânio enriquecido seja retirado do país, que sua capacidade de enriquecimento seja eliminada e que o Estreito de Ormuz seja reaberto. No mesmo dia, Trump declarou que “acolheria com satisfação” o fim do conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano, segundo um alto funcionário do governo americano informou à AFP.
— O presidente acolheria com satisfação o fim das hostilidades no Líbano como parte de um acordo de paz entre Israel e o Líbano — disse o funcionário, falando sob condição de anonimato. — Mas iisso não é algo que tenhamos solicitado, nem faz parte das negociações de paz com o Irã.
Guga Chacra: Após intervalo na guerra, qual será o próximo ato de Irã x EUA?
Com o anúncio do cessar-fogo entre Irã e EUA, confirmado na segunda-feira passada após Trump ameaçar “matar a civilização” iraniana, a inclusão do Líbano foi alvo de discórdia. Teerã e o Paquistão, mediador do diálogo, afirmaram que a pausa nos combates no país árabe foi acertada com os americanos. Israel, amparado pelos EUA, disse que a guerra continuava, e horas depois lançou o mais violento ataque desde o começo de março. Cerca de 350 pessoas morreram, outras centenas ficaram feridas, e as bombas caíram em áreas onde não há presença do Hezbollah. O Irã reagiu fechando o Estreito de Ormuz, e disse que os ataques eram uma violação do cessar-fogo.
Initial plugin text
Os EUA pediram “moderação” a Israel, e pressionaram israelenses e libaneses a se sentarem à mesa na terça-feira para discutir um plano de longo prazo, sem o Hezbollah. O encontro, o primeiro desde 1993, aconteceu na terça-feira, em Washington, e os embaixadores dos dois países nos Estados Unidos concordaram em prosseguir com as conversas, visando um cessar-fogo e, em um ponto mais complexo, o desarmamento do grupo xiita, previsto no acordo que encerrou outra guerra, no final de 2024.
O líder das negociações com os EUA e presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, exaltou a participação do grupo xiita no conflito na quarta-feira e comentou sobre a possibilidade de um cessar-fogo, que classificou como “resultado da resistência e da luta firme do grande Hezbollah e da unidade do Eixo da Resistência”.
Em uma publicação no X, Ghalibaf escreveu que “os Estados Unidos devem cumprir o acordo. Resistência (grupo de aliados do regime autocrático de Teerã) e Irã são uma só alma, tanto na guerra quanto no cessar-fogo”. Ele acrescentou ainda que os EUA deveriam desistir do erro [de manter] “Israel Primeiro”, em referência aos laços estreitos entre Washington e Tel Aviv.
Antes do anúncio, membros do governo libanês ouvidos pela agência Reuters diziam que havia conversas sobre a trégua em curso, e que os americanos pressionavam Israel para que suspendesse os bombardeios e a ofensiva por terra no sul do Líbano. Também citado pela Reuters, Ibrahim al-Moussawi, deputado do Hezbollah, estimou que um cessar-fogo poderia ser anunciado “em breve”, sem estimar prazos.
Violência da guerra: ‘Chegamos a atender cerca de 60 pacientes em poucas horas’, diz ao GLOBO médico libanês após ataques israelenses
Inclusão do Líbano no acordo
As informações sobre o cessar-fogo no Líbano surgem após a maratona de negociações entre EUA e Irã no Paquistão, no fim de semana, e em meio a discussões de bastidores sobre novas reuniões. Na terça-feira, Trump disse que “alguma coisa ocorreria nos próximos dois dias”, e o chefe do Exército paquistanês, Asif Munir, desembarcou em Teerã nesta quarta-feira para reuniões com autoridades locais — segundo a imprensa iraniana, ele levou uma mensagem dos americanos.
Como destacou o representante do Irã à al-Mayadeen e como afirmou al-Moussawi à rede al-Jazeera, Teerã exige que o conflito no país árabe seja incluído em qualquer tipo de plano.
— Os iranianos estão exercendo forte pressão sobre os americanos e impuseram como condição que os americanos incluam o Líbano no cessar-fogo. Caso contrário, continuarão o bloqueio de Ormuz. É a carta na manga econômica — disse o deputado. — Os iranianos se abriram para diversos atores regionais e internacionais para alcançar esse objetivo.
Em reunião com o premier libanês, Nawaf Salam, o chefe da agência da ONU para refugiados (Acnur), Bahram Salih, fez um apelo à comunidade internacional para que ajudem os mais de um milhão de deslocados internos pela guerra.
— As consequências humanitárias desta guerra são imensas, e enfatizo a necessidade de poupar os civis e as infraestruturas civis dos estragos dos ataques. O Líbano não merece ficar preso num ciclo recorrente de violência; merece apoio e estabilidade — declarou à imprensa.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país”, disse Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada nesta quinta-feira. A declaração foi feita às vésperas de uma viagem do petista a Barcelona, onde se reunirá na sexta-feira com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, antes de participar de um fórum internacional de lideranças da esquerda, o Fórum Democracia Sempre.
Veja agregador: Após Datafolha e Quaest, Flávio Bolsonaro supera Lula no 2º turno pela primeira vez no Rali
‘Ajudaria muito’: Lula ironiza possibilidade de intervenção de Trump nas eleições
— No Brasil acreditávamos no desarmamento e promulgamos em 1988 uma Constituição que proíbe fabricar armas nucleares. O que aconteceu? Os EUA não se desarmaram, a Rússia também não, [nem] China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Estamos quase desprotegidos. Mas não quero investir em armas, quero investir em livros, alimentação, emprego — disse. — Já liguei para o presidente Xi Jinping, para o primeiro-ministro indiano, para Putin, para Macron, para todos, pedindo que nos reunamos. Porque Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país. Não foi eleito para isso e sua Constituição não permite.
Ao ser questionado sobre como definiria o líder americano, Lula afirmou que Trump está “jogando um jogo muito equivocado”, partindo da premissa de que “a força econômica, militar e tecnológica americana determina as regras do jogo”. Na avaliação do petista, ao agir assim, o republicano acaba criando problemas para os Estados Unidos, sem considerar que, ao atacar o Irã, por exemplo, “quem pagaria” a conta seria a própria população.
— Quando se é chefe de Estado, deve-se respeitar a soberania dos outros países — disse ele, citando ainda as tarifas americanas: — Me chamou a atenção que os argumentos de Trump para impor tarifas ao Brasil não eram verdadeiros. Decidi ter muita paciência e disse a ele: “Dois países governados por dois senhores de 80 anos deveriam conversar com maturidade”. [Também] disse a Trump que era importante definir que tipo de líder se quer ser. Prefiro ser um líder respeitado, não temido. Ninguém tem o direito de causar medo.
Opinião: ‘Papa está correto na crítica que fez ao presidente Trump’, diz Lula
Intervenção na América Latina
Diante da invasão americana na Venezuela, Lula foi perguntado sobre o possível cenário de mais intervenções na América Latina — e se temia essa possibilidade. O presidente, no entanto, disse que se sente seguro, citando que, pela primeira vez na história, o Brasil tem “um ex-presidente preso e quatro generais de quatro estrelas encarcerados”, indicando que, “aqui a democracia funciona [e é] um exemplo para os Estados Unidos”. Lula disse, ainda, que sua guerra “é a do argumento” e que deseja travá-la numa mesa de negociação.
— Pelo amor de Deus, uma terceira guerra mundial seria uma tragédia dez vezes mais potente que a segunda — declarou, mencionando também a ideia de novas eleições no território venezuelano: — Isso é um problema da Venezuela, e não do Brasil. Mas, se eu fosse venezuelano e vice-presidente, e se tivesse ocorrido o que ocorreu, tomaria posse e convocaria eleições gerais. Teria que haver um processo eleitoral pactuado com a oposição para que o resultado fosse acatado e a Venezuela voltasse a ter paz. O que não pode ser é que os EUA acreditem que podem administrar a Venezuela. Isso não é normal.
Estratégia: Lula avalia deixar Trump de lado na campanha, mas explorará soberania
Citando o regime das Nações Unidas, Lula disse sentir-se incomodado com a ideia de que o Conselho de Segurança, “criado para manter a paz, faça guerra”. Para ele, “é como se o mundo fosse um navio à deriva, sem nenhuma instituição que oriente o comportamento civilizatório das nações”. O presidente ressaltou que a situação é especialmente delicada porque nunca, desde a Segunda Guerra, houve tantos conflitos simultâneos. O dinheiro gasto com as guerras, disse, seria capaz de acabar com a fome de 630 milhões de pessoas.
— Chegou o momento de redefinir as Nações Unidas para dar credibilidade, porque, caso contrário, Trump tem razão. As instituições internacionais não cumprem o papel para o qual foram criadas. E por quê? Porque os cinco países do Conselho de Segurança que deveriam ter um comportamento exemplar não o tem. Os senhores da paz se transformaram em senhores da guerra — afirmou. — Na África há países com mais de 120 milhões de habitantes e nenhum está no Conselho. Tampouco Brasil, Alemanha, Índia. É preciso acabar com o direito de veto. A geopolítica de 1945 não serve para 2026.
‘O bolsonarismo não voltará a governar’
Quando perguntado sobre as pesquisas que apontam para um empate com Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano — com o senador aparecendo pela primeira vez frente do petista no cenário simulado de segundo turno —, Lula manteve o tom firme: disse ter a convicção de que “o bolsonarismo não voltará a governar” no Brasil porque “o povo prefere a democracia”. E acrescentou que, para ele, o fato de a sociedade brasileira estar dividida não é novidade:
— Nunca ganhei uma eleição no primeiro turno. E o mundo se polarizou ainda mais; a extrema direita ganha força com um discurso mentiroso e negacionista, utilizando as redes digitais como nunca antes, e agora com ajuda da inteligência artificial.
Na cidade de Bamenda, a Catedral de São José recebeu nesta quinta-feira o Encontro pela Paz, que reuniu chefes tradicionais, representantes da Igreja protestante, membros islâmicos e a comunidade católica, entre consagrados e leigos. Durante o evento, o Papa Leão XIV fez um duro apelo contra a violência e condenou o uso da religião para justificar conflitos.
Análise: Por que o Papa Leão XIV se tornou um adversário difícil para Trump
Vice de Trump: Papa Leão XIV deve ter ‘cuidado ao falar de teologia’ ao rebater críticas a ataque dos EUA ao Irã
Relatos de moradores, entre eles uma religiosa sequestrada e uma família de deslocados internos, inspiraram o Pontífice a discursar sobre a região, descrita por ele como uma terra “atormentada”, “ensanguentada” e “ultrajada”.
— Ai daqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é sagrado para o que há de mais sujo e tenebroso — afirmou. Veja vídeo do discurso:
Initial plugin text
Em seguida, o Papa criticou os impactos da guerra e a falta de investimentos em reconstrução social. Segundo ele, trata-se de “um mundo ao contrário”, que “é destruído por poucos dominadores e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários”.
— Os senhores da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes não basta uma vida inteira para reconstruir. Fingem não ver que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reerguer.
Papa fala das guerras
O Papa Leão XIV tem proferido, nesta semana, discursos em tom firme contra as guerras. Durante o evento, afirmou que o mundo está “sendo devastado por um punhado de tiranos”. O tom incomumente duro do Pontífice ocorre em meio à escalada de críticas públicas trocadas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A fala do Papa foi proferida após Trump intensificar ataques contra o líder da Igreja Católica, motivados por posicionamentos reiterados do Vaticano sobre a guerra no Irã. Sem citar diretamente o presidente americano, Leão XIV também criticou governantes que recorrem à linguagem religiosa para justificar conflitos armados e defendeu uma “mudança decisiva de rumo” na condução da política internacional.
Troca de críticas públicas
Em resposta, Trump classificou o Pontífice como “uma pessoa muito liberal” e afirmou que ele seria “fraco no combate ao crime” e “péssimo para a política externa”. As declarações foram dadas a jornalistas enquanto o presidente desembarcava do Air Force One na Base Aérea Conjunta Andrews.
O republicano também sugeriu que a eleição de Leão XIV ao papado teria sido influenciada por sua nacionalidade americana.
— Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano — disse. — Não acho que ele esteja fazendo um bom trabalho. Acho que ele gosta de crimes.
O presidente também criticou posições que atribui ao Papa, afirmando não apoiar “um Papa que diz que é aceitável ter uma arma nuclear” ou que considere o crime tolerável.
— Não sou fã do Papa Leão — declarou.
As declarações ampliam um embate raro entre a Casa Branca e o Vaticano, em um momento de tensão internacional.
O chefe do Estado-maior Conjunto dos EUA, general Dan Caine, disse nesta quinta-feira que o bloqueio imposto pela Marinha americana a portos iranianos se aplica “a todos os navios, independentemente de sua nacionalidade”, alertando que atividades de interceptação relacionadas ao descumprimento do bloqueio podem se expandir para muito além do Estreito de Ormuz. A declaração da liderança militar americana foi feita durante uma coletiva de imprensa no Pentágono, em que o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que o bloqueio permaneceria “pelo tempo que for necessário”, um dia após o Irã ameaçar bloquear rotas marítimas no Mar Vermelho, caso Washington continue a interferir na navegação local.
Tensão no Oriente Médio: Irã ameaça bloquear Mar Vermelho em resposta a operação dos EUA para impedir uso de portos do país
Crise regional: Trump anuncia diálogo entre Israel e Líbano; Gabinete israelense confirma, mas governo libanês diz não estar ‘ciente’
— Se não respeitarem esse bloqueio, faremos uso da força — afirmou Caine na coletiva de imprensa, ponderando que nenhuma embarcação precisou ser abordada fisicamente. — Até o momento, 13 navios tomaram a sábia decisão de dar meia-volta.
Initial plugin text
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA (Centcom) emitiu um comunicado na noite de terça-feira, indicando que o bloqueio aos portos iranianos anunciado por Donald Trump no fim de semana já estava em “plena aplicação”. As autoridades americanas afirmam que nenhum navio cruzou a via naval desde o início do bloqueio — embora observadores internacionais tenham apontado o aumento no uso de táticas por embarcações civis para escapar da fiscalização.
Analistas militares apontaram ao longo da semana que o bloqueio anunciado pelos EUA não se tratava de uma “barreira física” aos navios de Ormuz, alertando de que os meios militares americanos podem nem sequer estar nas águas de Ormuz ou do Golfo Pérsico. As capacidades militares destacadas para o Oriente Médio, porém, são mais do que suficientes para localizar, identificar, perseguir e interceptar qualquer embarcação civil — principalmente grandes navios-cargueiros e petroleiros. Caine indicou que mais recursos poderiam ser empregados para garantir a efetividade da medida.
— [Forças militares americanas, incluindo na região do Indo-Pacífico] perseguirão ativamente qualquer embarcação com bandeira iraniana ou qualquer embarcação que tente fornecer apoio material ao Irã — afirmou Caine no Pentágono, indicando uma ampliação territorial para aplicação do bloqueio.
Pressão americana em Ormuz: Bloqueio dos EUA aumenta as tensões no Oriente Médio
Arte/ O GLOBO
Investigação: Irã usou dados de satélite-espião comprado de empresa chinesa para atacar bases dos EUA em março, diz jornal
A medida anunciada pelo presidente americano no fim de semana foi amplamente apontada como uma estratégia de Washington para sufocar financeiramente Teerã, cuja economia é extremamente dependente das exportações de petróleo, e de pressionar a China, que em meio ao aumento dos preços internacionais de combustíveis diante da instabilidade criada pela guerra, beneficiava-se das boas relações com o Irã para garantir alguma regularidade no abastecimento via Ormuz.
Trump mencionou a China em declarações recentes relacionadas à guerra no Oriente Médio, e chegou a ameaçar Pequim com uma taxação extra de 50% sobre produtos chineses, se o país enviasse armas para o Irã. Autoridades chinesas rejeitaram versões sobre o envio de equipamento bélico para Teerã, algo mencionado por Hegseth no Pentágono nesta quinta.
— A China nos garantiu que isso de fato não vai acontecer — afirmou Hegseth ao ser questionado por repórteres, mencionando uma ligação direta entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping.
‘Piratas de Ormuz’: Com memes e IA, humor vira arma de guerra viralizada de embaixadas do Irã para zombar e ironizar Trump
Ainda de acordo com o secretário de Defesa, as forças americanas estão prontas para retomar as ações militares imediatamente, se necessário, e afirmou que centrais elétricas do Irã estariam entre os alvos a serem atacados imediatamente — o que poderia configurar um crime de guerra, segundo as regras de direito internacional, que antes do cessar-fogo de duas semanas autoridades americanas disseram não temer descumprir. Hegseth recomendou ao Irã “aceitar a proposta” já enviada pelos EUA.
A janela para a diplomacia ainda permanece aberta por meio da mediação do Paquistão, que apesar das negociações frustradas realizadas em Islamabad, segue oferecendo um canal diplomático para os rivais. O chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, se reuniu com o presidente do Parlamento do Irã e principal negociador da nação persa nas tratativas diplomáticas, Mohammad Bagher Ghalibaf, nesta quinta-feira, em um esforço para realizar uma segunda rodada de negociações presenciais.
Enquanto a incerteza permeia o campo diplomático, o tráfego no Estreito de Ormuz permanece muito limitado, segundo empresas de monitoramento de dados marítimos. O Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido, administrado pela Marinha Real Britânica, apontou que o nível de ameaça à segurança na rota naval por onde passava 20% do petróleo e gás natural do mundo antes do conflito permanece “crítico”. (Com NYT e AFP)
O Sri Lanka aproveitou o frágil cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã para repatriar mais de 200 marinheiros iranianos que estavam sob sua custódia desde o mês passado, após um submarino americano torpedear um navio de guerra iraniano próximo às suas águas.
Investigação: Irã usou dados de satélite-espião comprado de empresa chinesa para atacar bases dos EUA em março, diz jornal
‘Piratas de Ormuz’: Com memes e IA, humor vira arma de guerra viralizada de embaixadas do Irã para zombar e ironizar Trump
O cessar-fogo permitiu que a nação insular cumprisse suas obrigações perante o direito internacional sem abrir mão de sua neutralidade ou colocar em risco seus laços diplomáticos com as partes em conflito, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Vijitha Herath, em resposta ao jornal The New York Times.
Initial plugin text
A libertação dos militares resolve um impasse diplomático entre o Sri Lanka e o Irã e retira o país de um conflito no qual foi envolvido indiretamente. Os marinheiros da Marinha iraniana estavam sob custódia desde o início de março, período em que o governo do Sri Lanka resistia aos pedidos de repatriação feitos por Teerã, temendo comprometer sua neutralidade na guerra envolvendo os EUA e Israel.
O Sri Lanka declarou reiteradas vezes ser uma parte neutra, com obrigações limitadas ao cumprimento das leis internacionais das quais é signatário. Uma dessas normas, a Terceira Convenção de Genebra, determina que prisioneiros de guerra devem ser libertados imediatamente durante uma “cessação das hostilidades ativas”.
A repatriação dos marinheiros durante o cessar-fogo não afeta “nossa posição neutra” em relação à guerra, afirmou Herath.
Os militares foram enviados de volta ao Irã via Turquia, em voos realizados no fim da terça-feira, informou o vice-ministro da Defesa, Aruna Jayasekara.
Bloqueio em Ormuz: EUA vão perseguir navios ligados ao Irã além do Oriente Médio, diz general
Entre os repatriados estão 32 sobreviventes do navio Dena, destruído em um ataque dos EUA que deixou mais de 100 mortos. Segundo autoridades, 84 corpos já haviam sido recuperados e devolvidos ao Irã.
O voo também transportou 206 militares do Bushehr, outra embarcação que buscou refúgio em águas do Sri Lanka após o ataque ao Dena.
O Bushehr permanece ancorado em Trincomalee, com 15 marinheiros a bordo responsáveis pela segurança. A data de sua liberação será definida pelo Ministério das Relações Exteriores do país, em conformidade com o direito internacional, segundo um funcionário do governo.
Inicialmente, o Sri Lanka hesitou em autorizar a entrada do Bushehr, mas acabou permitindo após a embarcação relatar problemas mecânicos. Os marinheiros de ambas as embarcações receberam vistos de 30 dias por razões humanitárias e foram alojados em instalações militares próximas à capital, Colombo. Autoridades afirmaram que eles estavam em boas condições, embora sob vigilância.
Diplomatas da embaixada iraniana em Colombo mantiveram negociações diárias com o governo local sobre o destino dos militares. O Irã pressionava pela libertação, tratando o caso como uma questão bilateral entre países aliados, sem relação direta com o conflito envolvendo EUA e Israel, afirmou Alireza Delkhosh ao The New York Times no mês passado.
Inicialmente, o governo do Sri Lanka discordou dessa interpretação e avaliou o caso à luz dos acordos marítimos internacionais dos quais é signatário. O país, com cerca de 22 milhões de habitantes e localizado próximo à Índia, buscou agir com cautela para preservar relações tanto com Teerã quanto com Washington.
Em março, o jornal The Times informou que os Estados Unidos haviam solicitado autorização para pousar e estacionar duas aeronaves militares carregadas com armas e munições pouco antes do início do conflito com o Irã. O Sri Lanka recusou o pedido, citando sua posição de neutralidade.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca, nesta quinta-feira (16), na cidade espanhola de Barcelona, a primeira parada de sua viagem a três países europeus – Espanha, Alemanha e Portugal.

“O objetivo é consolidar parcerias, atrair investimentos e discutir temas globais urgentes como a defesa da democracia, do multilateralismo e o combate às desigualdades”, escreveu Lula, em publicação nas redes sociais.

A viagem também busca ampliar apoio à candidatura de Michelle Bachelet ao cargo de Secretária-Geral das Nações Unidas (ONU) e ocorre em um momento relevante para as relações com a União Europeia, às vésperas da entrada em vigor provisória do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para 1º de maio.

A agenda combina encontros de alto nível político, participação em fóruns multilaterais, reuniões com lideranças empresariais e assinatura de acordos estratégicos.

Nesta sexta-feira (17), Lula participará da 1ª Cúpula Brasil-Espanha, momento em que será recepcionado pelo presidente espanhol, Pedro Sánchez. A expectativa do governo brasileiro é de que, durante a cúpula, as convergências entre os dois países sejam ampliadas em temas como multilateralismo, direito internacional e solução pacífica de conflitos.

Há, ainda, a previsão de assinatura de atos e acordos em áreas como igualdade de gênero, economia social solidária, saúde, cultura, empreendedorismo, serviços aéreos, telecomunicações, ciência e tecnologia.

No sábado (18), ocorrerá a quarta reunião de alto nível do Fórum de Defesa da Democracia, iniciado em 2024. A reunião terá como foco questões relacionadas a multilateralismo, o que inclui a sucessão da Secretaria-Geral da ONU; desigualdades, com o Brasil defendendo incluir na declaração final aspectos relacionados à violência política e digital de gênero; e combate à desinformação.

Na sequência, no domingo (19), Lula embarcar para a Alemanha, onde participará da Hannover Messe – a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo.

O presidente brasileiro também terá uma reunião com o chanceler alemão, Friedrich Merz. A expectativa da diplomacia brasileira é de que sejam assinados 10 acordos envolvendo os dois países, em temas como defesa, mudanças climáticas, infraestrutura, inteligência artificial, inovações energéticas, bioeconomia, desenvolvimento sustentável, desenvolvimento de aplicativos e pesquisas nas áreas oceânicas e do cerrado brasileiro.

No dia 20, a programação da comitiva passa pela abertura do estande brasileiro na feira Hannover Messe e visita guiada pelos pavilhões. Na Alemanha, Lula ainda participa de um fórum empresarial.

A viagem se encerrará dia 21, com uma rápida visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, Lula se encontra com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro. Os encontros abordarão temas da agenda bilateral, como cooperação aeronáutica, ciência, tecnologia e inovação, além de questões relacionadas à imigração e ao combate à xenofobia, bem como temas da comunidade brasileira em Portugal, paz e segurança internacional.

A comitiva contará com 15 ministros, além de presidentes de órgãos como Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação Oswaldo Cruz e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil).

 

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, rejeitou um pedido dos Estados Unidos para realizar uma conversa telefônica direta com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, informou nesta quinta-feira uma fonte oficial libanesa à AFP.
Guga Chacra: Nós brasileiros na guerra do Líbano
Sem o Hezbollah: Entenda a rodada de negociação histórica entre Israel e Líbano nos EUA e o passado conflituoso entre os países
“O presidente libanês rejeitou uma conversa telefônica direta com Netanyahu” e informou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, acrescentou a fonte, segundo a qual o governo dos Estados Unidos “entendeu a postura” do Líbano.
A recusa ocorre após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que os “líderes” de Israel e do Líbano conversariam nesta quinta-feira.
Conversa direta proposta por Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou na noite de quarta-feira (madrugada de quinta em Brasília) que os líderes de Israel e Líbano participarão de uma conversa direta nesta quinta-feira, no que seria o contato de mais alto nível entre os dois países, que não mantêm relações diplomáticas desde a fundação do Estado judeu.
O anúncio de Trump, em uma publicação on-line que não ofereceu qualquer detalhe sobre o formato do diálogo, provocou respostas divergentes em Beirute e Tel Aviv — enquanto o governo israelense confirmou os planos para uma conversa telefônica entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente libanês, Joseph Aoun, autoridades libanesas disseram “não estar cientes” da tratativa, em um momento em que o país é alvo de intensos bombardeios das Forças Armadas israelenses.
Fontes militares de Israel afirmaram que uma ordem para um cessar-fogo a partir da noite desta quinta-feira teria sido encaminhada pelo comando político, o que atenderia à condição apresentada pelo governo libanês para progredir com as conversas.
O comunicado de Trump na Truth Social afirma que o diálogo entre as lideranças seria parte de uma tentativa de “criar um pouco de espaço para respirar entre Israel e Líbano”, países que aceitaram abrir um processo direto de diálogo com mediação americana, com um encontro entre diplomatas tendo sido realizado na terça-feira em Washington. O anúncio logo provocou manifestações distintas por parte de autoridades dos dois governos, que mostraram não estar na mesma página sobre a tratativa.
Initial plugin text
A ministra de Ciência e Tecnologia de Israel e integrante do Gabinete de Segurança, Gila Gamliel, afirmou em uma entrevista à Rádio do Exército nesta quinta-feira que Netanyahu conversaria com Aoun, apontando a movimentação na frente político-diplomática como complementar às ações militares no solo.
— O primeiro-ministro vai conversar pela primeira vez com o presidente do Líbano após tantos anos de ruptura total do diálogo entre os dois países. Esperamos que a iniciativa conduza finalmente à prosperidade e ao desenvolvimento do Líbano como Estado — disse a ministra integrante do partido Likud, liderado por Netanyahu, acrescentando que o país vizinho precisaria de “assistência” para “atender à necessidade de desarmar o Hezbollah”.
Em Beirute, a reação foi adversa. Fontes do governo libanês ouvidas por agências internacionais ainda na manhã desta quinta-feira disseram não estar “cientes” da iminência de uma conversa entre Aoun e Netanyahu, negando qualquer comunicação oficial. O canal de TV libanês Al Jadeed chegou a noticiar que os preparativos para uma ligação telefônica estaria em curso, e incluiria o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Horas depois, meios de comunicação libaneses e israelenses publicaram que Aoun teria dito a Rubio que não falaria com Netanyahu
Em meio às especulações sobre as conversas diretas, o presidente libanês se manifestou nas redes sociais. Sem citar o possível diálogo com Netanyahu, afirmou que um cessar-fogo seria o “ponto de partida natural” para negociações diretas entre os países, em uma reiteração da principal demanda apresentada pelo governo de Beirute, que não se envolveu militarmente no conflito entre as forças israelenses e o movimento Hezbollah.
“O Líbano está empenhado em reduzir a tensão no sul e em todas as regiões libanesas, para que os ataques contra pessoas inocentes e indefesas – mulheres, homens e crianças – cheguem ao fim, e a destruição de casas em vilas e cidades libanesas cesse”, escreveu o presidente, acrescentando que as negociações seriam conduzidas “exclusivamente pelas autoridades libanesas”, excluindo uma participação do Hezbollah.
Embora o governo israelense tenha rejeitado ao longo da semana aceitar um cessar-fogo imediato no Líbano, antes do desarmamento do grupo armado de orientação xiita, fontes militares ouvidas pelo jornal israelense Haaretz indicaram que uma mudança de planos estaria em curso. Comandantes de alta patente teriam recebido instruções para preparar uma trégua no sul do país vizinho, segundo as fontes, a ser iniciada entre às 19h e 00h — um movimento que poderia destravar a resistência libanesa.
Apesar do governo libanês tenha se mostrado aberto a uma negociação, o cenário envolvendo o fim da ação militar israelense contra o país envolve um cenário mais complexo que um acerto entre as duas partes. O Hezbollah, cujo braço armado é amplamente apontado por especialistas em temas militares como mais poderoso que as Forças Armadas do Líbano, rejeita as negociações com Israel, que exige o total desarmamento do grupo — algo que Beirute não conseguiu garantir em oportunidades passadas.
Em entrevista à agência de notícias francesa AFP, o deputado Hussein Hajj Hassan, ligado ao Hezbollah — que como movimento político tem representação no Parlamento libanês — classificou a decisão do governo de negociar diretamente com Israel “um grave erro”, fazendo um apelo para que não houvesse concessões ao Estado judeu ou aos EUA.
— Negociações diretas com o inimiga são um grave pecado e um grave erro… E não serve a nenhum interesse do país, afirmou Hassan.
Outros obstáculos se apresentam quando o conflito no Líbano é inserido no contexto regional, em que Israel e EUA travam uma guerra com o Irã, principal patrocinador do Hezbollah. Teerã tenta associar as negociações por um cessar-fogo definitivo que garanta a reabertura do Estreito de Ormuz ao fim dos ataques israelenses contra o território libanês — algo que Netanyahu já rejeitou publicamente, tentando dissociar as duas frentes. Beirute também já manifestou incômodo com a interferência iraniana nas questões envolvendo o país.
Pouco mais de um mês após Israel lançar sua ampla ofensiva contra o Líbano, cidades e vilarejos no sul do país foram arrasados por demolições israelenses, segundo imagens de satélite e vídeos obtidos pela BBC Verify. A análise, divulgada nesta quinta-feira, identificou mais de 1,4 mil edifícios destruídos desde 2 de março com base em evidências visuais verificadas. O levantamento, no entanto, é descrito como apenas um recorte dos danos totais, já que o acesso ao terreno é limitado e a disponibilidade de imagens de satélite é parcial.
Guga Chacra: A geografia religiosa do Líbano e o risco de uma nova guerra civil
Trump anuncia diálogo entre Israel e Líbano: Gabinete israelense confirma, mas governo libanês diz não estar ciente
As demolições ocorrem após o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, ordenar, em 22 de março, a aceleração da “destruição de casas libanesas” perto da fronteira com Israel, citando o “modelo de Gaza” a ser adotado como parte da campanha contra o Hezbollah. Especialistas em direito internacional disseram à rede britânica BBC que a demolição sistemática de cidades e vilarejos pode configurar crime de guerra.
Initial plugin text
Ainda assim, nesta quinta-feira, pelo menos 11 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram mortas em ataques israelenses, e o Exército de Israel destruiu a ponte Qasmiyeh, a última que ligava o sul do Líbano ao restante do país. Segundo um alto funcionário de segurança libanês, a ação “despedaçou” a estrutura e não deixou possibilidade de reparo. Israel já havia atingido a ponte em 23 de março, acusando o Hezbollah de utilizá-la para deslocar combatentes e armas. Na ocasião, Beirute classificou a ofensiva como uma “escalada perigosa”.
Nas últimas semanas, as Forças Armadas de Israel emitiram repetidos alertas para que civis no sul do Líbano evacuem para o norte do rio Zahrani, que fica ao norte do rio Litani. Segundo o governo libanês, mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas desde o mês passado, o que corresponde a aproximadamente um quinto da população local. O ritmo de deslocamento nesta fase do conflito foi descrito pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) como mais acelerado do que durante a escalada de 2024.
“A destruição deliberada de casas é uma arma de guerra e uma forma de punição coletiva, particularmente em áreas xiitas no sul rural do país. Também aponta para limpeza étnica”, alertaram especialistas da ONU. “O deslocamento forçado de uma população civil constitui crime contra a Humanidade e é um crime de guerra sob o direito internacional”.
Conflito: Israel ataca ao sul de Beirute e Hezbollah lança foguetes um dia após início de negociações de paz
O Exército de Israel, por sua vez, afirmou operar de acordo com a Lei dos Conflitos Armados, conjunto de normas internacionais que visa limitar os efeitos das guerras, proteger civis e não combatentes, e restringir os métodos de combate, e disse não permitir a destruição de propriedades a menos que haja necessidade militar imperativa. Também alegou, sem provas, que o Hezbollah instalou infraestrutura militar em áreas civis.
Destruição total
A escalada no conflito foi iniciada em 2 de março, quando o Hezbollah, apoiado pelo Irã, lançou foguetes e drones contra Israel em retaliação pela morte do líder supremo iraniano no início da guerra contra a República Islâmica. Na ocasião, as forças israelenses responderam com uma onda de ataques em todo o Líbano e iniciaram uma invasão terrestre no sul do país. Autoridades do Estado judeu ordenaram que civis libaneses próximos à fronteira deixassem suas casas, um alerta que foi ampliado para moradores ao sul do rio Litani dias depois.
O Ministério da Saúde do Líbano afirma que mais de 2 mil pessoas foram mortas desde o início da guerra, e que outras 6,5 mil ficaram feridas. Autoridades israelenses disseram que 13 soldados e dois civis foram mortos pelo Hezbollah nas seis semanas anteriores. Em cidades e vilarejos fronteiriços situados em colinas, vídeos verificados mostram áreas antes marcadas por ruas sinuosas e edifícios de pedra agora cobertas por poeira e destroços.
Guga Chacra: Trump é incapaz de controlar Netanyahu
Usando imagens verificadas e análise de satélite, a BBC Verify encontrou evidências de demolições controladas em pelo menos sete cidades e vilarejos fronteiriços. A cidade de Taybeh, a cerca de quatro quilômetros da fronteira, foi alvo de demolições intensas, com vídeos mostrando seções inteiras sendo explodidas simultaneamente. Uma comparação entre imagens de satélite de 28 de fevereiro e 11 de abril mostra que mais de 400 edifícios, incluindo uma mesquita, foram arrasados na região.
Em Khiam e nos vilarejos de Qouzah, Deir Seryan, Markaba e Aita al-Shaab, vídeos verificados também mostram explosões coordenadas atingindo vários prédios. Apenas neste último, mais de 460 edifícios foram demolidos, e imagens de satélite também mostram escavadeiras e veículos blindados no local. Na cidade costeira de Naqoura, explosões israelenses danificaram a sede da missão de paz da ONU.
A demolição deliberada de estruturas já foi empregada em áreas de Gaza após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Renad Mansour, da Chatham House, disse haver uma estratégia para revisar o equilíbrio de poder na região, enquanto a porta-voz da Força Interina da ONU no Líbano, Kandice Ardiel, disse observar demolições regulares de vários edifícios ao mesmo tempo desde o início de abril. Análises de satélite indicam que pelo menos 100 edifícios foram arrasados em Naqoura nas últimas semanas.
— Não são apenas edifícios, eles representam uma comunidade — afirmou Ardiel, ao descrever a escala da destruição como “verdadeiramente devastadora”.
Sem provas: Israel acusa Hezbollah de usar ambulâncias para fins militares e ameaça reação de acordo com o direito internacional
O plano de Katz para uma “zona de segurança” controlada por Israel, da fronteira até o rio Litani, ocuparia cerca de 10% do território libanês. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a medida serviria para “frustrar a ameaça de invasão”. Especialistas jurídicos ouvidos pela BBC, porém, afirmam que a destruição de propriedades é proibida pelo direito internacional humanitário, salvo quando exigida por necessidade militar. A professora Janina Dill disse que o critério é mais elevado do que vantagem militar.
— Certamente não abrange arrasar vilarejos inteiros como condição para a segurança nacional de longo prazo — afirmou.
O especialista Yuval Shany disse que a avaliação deve ser feita caso a caso para determinar quais edifícios têm relevância militar, acrescentando que o possível uso militar de estruturas civis não justifica uma política ampla de destruição. Também à rede britânica, a jurista Lawrence Hill-Cawthorne reiterou que objetos civis não devem ser alvo e que a criação de uma zona de amortecimento não justifica destruição total.
— Não é uma defesa admissível afirmar que a destruição total de cidades e vilarejos é necessária para criar uma zona de amortecimento — disse.
As forças israelenses responderam dizendo que qualquer sugestão de “limpeza” de populações civis ou punição com base em religião ou seita é “categoricamente falsa”. Também afirmaram que os avisos não têm a intenção de deslocar permanentemente civis.
Imagens de câmeras de segurança que circulam nas redes sociais mostram o momento em que o diretor de uma escola nos Estados Unidos enfrenta um atirador armado e impede um possível massacre. O caso ocorreu na Pauls Valley High School, nesta terça-feira (14).
Homem que derrubou árvore símbolo em área da Unesco é solto antes do previsto na Inglaterra
Mãe morre ao salvar filha de guindaste solto em acidente na Inglaterra
No vídeo, um homem encapuzado aparece entrando no saguão da escola com uma pistola em mãos. Em seguida, o diretor Kirk Moore surge e derruba o suspeito sobre um banco, segurando firmemente seu pulso enquanto pede ajuda. Um funcionário chega logo depois, e o agressor acaba soltando a arma.
Assista:
Initial plugin text
Ação rápida evitou tragédia
De acordo com a declaração juramentada de prisão, o suspeito, identificado como Victor Lee Hawkins, de 20 anos, entrou na escola armado com duas pistolas automáticas. Ele teria ordenado que estudantes se deitassem no chão e tentou atirar em um deles, mas a arma falhou. Após destravá-la, disparou contra outro aluno, sem atingi-lo.
Segundo os investigadores, os dois estudantes chegaram a implorar por suas vidas e foram liberados pelo agressor pouco antes de Moore agir por trás e contê-lo. Durante o confronto, o diretor foi atingido na perna e precisou ser hospitalizado.
Imagens circulam nas redes sociais
Reprodução/X
Em declaração após o episódio, Moore afirmou estar “saudável e se recuperando” e agradeceu pela “enorme demonstração de amor e apoio”. Ele disse ainda que pretende retornar ao trabalho o mais breve possível.
Ainda conforme os autos, Hawkins é ex-aluno da escola e teria declarado não gostar do diretor. Promotores afirmam que ele manifestou o desejo de realizar um ataque semelhante ao massacre de Columbine, ocorrido em 1999, no Colorado. O suspeito também admitiu ter levado as armas do pai sem autorização, com a intenção de matar alunos e funcionários, além de planejar assassinar Moore antes de tirar a própria vida.
O chefe de polícia de Pauls Valley, Don May, afirmou que a atitude do diretor foi decisiva. “Não tenho dúvidas de que ele salvou a vida de crianças”, disse.
Hawkins foi preso e encaminhado ao Centro de Detenção do Condado de Garvin, com fiança fixada em US$ 1 milhão. Ele responde por tentativa de homicídio, porte ilegal de arma de fogo e porte de arma em local público, e deve comparecer à Justiça no próximo dia 8 de maio para audiência preliminar.

Assine nossa newsletter

e seja avisado quando surgirem novos artigos

Copyright ® 2025 - Todos os Direitos Reservados

Este site é protegido pelo reCAPTCHA e está sujeito à Política de Privacidade e aos Termos de Uso do Google.

plugins premium WordPress