O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, fez um discurso contundente na terça-feira durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, levando os líderes globais presentes na plateia a se levantarem para aplaudir de pé. Carney descreveu o fim da era sustentada pela hegemonia dos Estados Unidos, chamando a fase atual de “ruptura”. Desde o início de seu governo, em março do ano passado, o premier tem alertado repetidamente que o mundo não voltaria à normalidade pré-Donald Trump. Ele reafirmou essa mensagem em um discurso que não mencionou o presidente americano, mas ofereceu uma análise do impacto do republicano nos assuntos globais.
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— Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição — afirmou o premier, acrescentando que uma nova realidade se instalou e que “potências médias, como o Canadá”, devem se “adaptar”.
Carney declarou que o Canadá se beneficiou de uma era de “hegemonia americana”, mas que agora precisa mudar de rumo, visto que as grandes potências utilizam cada vez mais seu poder econômico como instrumento de pressão. Potências médias, como Canadá, Austrália, Argentina, Coreia do Sul e Brasil, são nações que ainda exercem grande influência na política global, mesmo que suas economias sejam menores.
O discurso ocorreu no momento em que Trump reiterou as ameaças de anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, afirmando que imporia novas tarifas às potências europeias — que também são suas aliadas na Otan, a aliança militar liderada por Washington — por elas serem contra à sua ambição pela ilha no Ártico.
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— Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências — disse Carney no início de seu discurso. — A ordem baseada em regras está desaparecendo. Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem. As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio.
Líderes europeus, cautelosos em esgarçar ainda mais a aliança, têm se esforçado para encontrar uma resposta unificada. Carney, que escreveu o próprio discurso, deixou claro que está escolhendo um outro caminho.
O premier falou pouco depois de Trump ter publicado nas redes sociais uma montagem gerada por inteligência artificial que apresentava um mapa com as bandeiras americanas sobrepostas às do Canadá, da Groenlândia e da Venezuela. Ele reiterou que seu país apoia incondicionalmente a Groenlândia e a Dinamarca, mas, ao contrário das potências europeias, não enviou tropas à ilha.
Imagem gerada por IA mostra líderes europeus enfileirados, ouvindo Trump; ao fundo, mapa mostra Groenlândia, Canadá e Venezuela como territórios americanos
Reprodução
Carney também repreendeu outros líderes, muitos dos quais acompanhavam seu discurso em Davos, por não defenderem seus interesses.
— Há uma forte tendência entre os países de cederem para manter a harmonia. Para se acomodarem. Para evitarem problemas. Para esperarem que a conformidade lhes garanta segurança. Não garantirá — afirmou.
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O presidente francês, Emmanuel Macron, fez coro com Carney, afirmando que “preferimos o respeito aos valentões e preferimos o Estado de Direito à brutalidade”. Além disso, Macron condenou as mais recentes ameaças de tarifas de Trump como um “acúmulo interminável e inaceitável, usado como manobra contra a soberania territorial”.
Trump também quer o Canadá?
Trump iniciou seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, reivindicando o Canadá como o 51º estado e ameaçando o então primeiro-ministro Justin Trudeau, a quem ridicularizou publicamente, com o cancelamento unilateral de acordos que regiam a relação entre os países vizinhos há mais de um século.
O presidente americano também impôs tarifas ao Canadá, um dos dois principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, juntamente com o México, que estão prejudicando alguns dos principais setores econômicos de Ottawa, como o automotivo, o siderúrgico, o de alumínio e o madeireiro.
Carney e Trump na Casa Branca
Haiyun Jiang/The New York Times
Os aliados de Trump, principalmente Steve Bannon, seu estrategista de longa data, têm falado sobre os benefícios da anexação do Canadá pelos EUA. Um é sobre o vasto acesso que Washington teria ao Ártico — que também é uma das justificativas de Trump para a Groenlândia — e aos seus recursos naturais, incluindo minerais críticos e terras raras.
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O Canadá exporta cerca de 75% de seus bens e serviços para os Estados Unidos; seu segundo maior parceiro, a China, recebe menos de 5%. Os dois países compartilham a fronteira terrestre mais longa do mundo. As tropas americanas realizam exercícios e cooperam diariamente com os canadenses, inclusive no Ártico, e as duas forças armadas trabalham em estreita colaboração.
Washington e Ottawa possuem um comando conjunto para a defesa aérea da América do Norte. Esta semana, aeronaves de ambos os países estão em uma base aérea americana na Groenlândia como parte de um exercício de treinamento regular que, segundo o comando aéreo conjunto, foi aprovado pela Dinamarca. Essa situação se tornaria rapidamente muito difícil para o Canadá caso os Estados Unidos optassem por se envolver militarmente na Groenlândia.
Recálculo canadense
O discurso de Carney em Davos ocorreu ao final de uma semana de viagens oficiais, com visitas à China e ao Catar. O premier firmou um acordo com Pequim para permitir a entrada de um pequeno número de veículos elétricos no Canadá com tarifas reduzidas, rompendo com a política americana que vinha seguindo desde o governo de Joe Biden, em troca da redução de algumas tarifas chinesas sobre produtos agrícolas canadenses.
Mais importante, talvez, é que a China e o Canadá declararam estar em uma “parceria estratégica”, o que sinaliza uma nova era de cooperação com o rival dos Estados Unidos na disputa pela supremacia.
Desde o início de seu governo, em março do ano passado, Carney passou quase 60 dias viajando, tentando garantir novos acordos comerciais. Em comparação, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e Macron passaram cerca de 40 dias cada um em viagens internacionais durante o mesmo período.
O ritmo e a intensidade da atuação global de Carney, juntamente com sua promessa de ajudar o Canadá a sobreviver a essa mudança histórica no poder americano, criaram grandes expectativas entre os canadenses que o elegeram.
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Muitos analistas, por outro lado, afirmam que existe a possibilidade de os resultados não serem os esperados e reconhecem que nenhum parceiro ou acordo isolado pode substituir rapidamente o papel preponderante que os Estados Unidos desempenham na economia e segurança do Canadá.
Ainda assim, num momento em que os EUA são liderados por um presidente imprevisível e, por vezes, ameaçador, o Canadá está tentando romper com sua longa dependência da América.