Khrystyna Yurchenko trabalhou duro para construir uma vida na região do Donbas, no leste da Ucrânia, onde dedicou toda sua energia ao popular estúdio de dança do qual é proprietária. Ela abriria mão de tudo, disse, por uma paz duradoura — somando-se a um número crescente ucranianos que afirmam que entregariam a parte da região ainda controlada pelas forças do país à Rússia, se isso pusesse fim à guerra.
Tratativas diplomáticas: Reunião trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia em Abu Dhabi tem garantias de segurança e cessão territorial em foco
Espionagem espacial: Rússia usou veículos espaciais para monitorar satélites europeus, diz jornal
A opinião sobre a cessão de território representa uma mudança notável para uma população exausta de guerra. Abrir mão de territórios que a Rússia não conseguiu capturar foi, por muito tempo, uma “linha vermelha”. Mas o que antes parecia impossível agora parece menos improvável, à medida que o Kremlin insiste que as negociações de paz apoiadas pelos EUA só avançarão se a Ucrânia concordar em se retirar do Donbas.
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— Para mim, a paz é a prioridade, e se houvesse a certeza de que não haveria mais guerra após cedermos o Donbas, eu estaria pronta para partir — disse Khrystyna, acrescentando que apoiaria a rendição do território apenas se os aliados da Ucrânia oferecessem garantias sólidas para a segurança do país no pós-guerra.
O futuro do Donbas está entre as questões mais espinhosas enquanto a Ucrânia, a Rússia e os EUA continuam tratativas diplomáticas em Abu Dhabi, nesta quarta-feira.
A Ucrânia passou anos fortificando cidades no Donbas e perdeu um número enorme de soldados defendendo a região industrial. O território abrange partes de várias províncias, incluindo Donetsk e Luhansk. A Ucrânia ainda detém cerca de 20% de Donetsk, mas perdeu todo o território de Luhansk.
Para a Rússia, capturar o Donbas — onde Moscou perdeu muito mais soldados do que a Ucrânia — permitiria reivindicar algum nível de vitória, mesmo ficando muito aquém do seu objetivo de subjugar toda a Ucrânia.
Em declarações públicas, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que o governo continua avesso a uma retirada unilateral do Donbas. Mas ele também sugeriu certa flexibilidade, dizendo que tanto a Rússia quanto a Ucrânia devem estar preparadas para concessões, enquanto a Ucrânia sofre pressão no campo de batalha e na mesa de negociações.
Fumaça sobe de dois ataques com drones em Sloviansk, em junho de 2025: Mais ucranianos estão dispostos a abrir mão da porção restante da região de Donbas ainda controlada pela Ucrânia se isso significar um fim definitivo para a guerra
Tyler Hicks/The New York Times
As pesquisas de opinião refletem uma crescente abertura a concessões territoriais. Em maio de 2022, dois meses após as forças ucranianas repelirem o Exército russo nos arredores da capital, Kiev, uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev revelou que 82% dos ucranianos acreditavam que o país não deveria render território sob nenhuma circunstância. No levantamento mais recente do instituto, publicado na última segunda-feira, 40% dos entrevistados disseram que apoiariam a entrega do Donbas em troca de garantias de segurança.
Os dois números não são diretamente comparáveis, pois as pesquisas anteriores não vinculavam garantias de segurança à questão da cessão de território. No entanto, o resultado acompanha outros dados de pesquisa que mostram uma aceitação crescente de concessões territoriais.
Ainda assim, a maioria dos ucranianos permanece oposta à ideia. Muitos dizem estar preparados para continuar enfrentando dificuldades, incluindo a campanha da Rússia para destruir a infraestrutura energética do país durante um inverno rigoroso.
Renunciar ao Donbas poderia fragmentar a sociedade ucraniana, dizem analistas. Também poderia remodelar o legado de Zelensky: de um líder heróico que defendeu o Estado para um que permitiu a ocupação russa de territórios controlados pela Ucrânia, onde hoje vivem cerca de 190 mil pessoas. Muitos presumivelmente se mudariam para áreas ainda mantidas pela Ucrânia em vez de viver sob o domínio russo, como Khrystyna, a dona do estúdio de dança, disse que faria.
— [Zelensky] ouve o seu povo, e ele não fará isso — disse Yevhen Koliada, chefe do Centro de Coordenação de Socorro, que ajudou a retirar milhares de residentes de áreas de linha de frente, inclusive no Donbas.
Civis são retirados de Kostiantynivka, em outubro de 2025: Em troca da região do Donbas, muitos ucranianos exigem fortes garantias de segurança
Tyler Hicks/The New York Times
Mykhailo Samus, diretor da rede independente de pesquisa New Geopolitics em Kiev, observou que a lei ucraniana proíbe a cessão de território que não tenha sido ocupado por força militar.
Zelensky propôs que as tropas ucranianas e russas recuem a uma distância igual da linha de frente no Donbas para criar uma zona desmilitarizada. Embora tal compromisso pudesse, teoricamente, ser considerado, Samus disse que Putin está seguindo um caminho militar e prometendo tomar a região seja pela força ou por negociações.
Para aqueles que dizem estar dispostos a abrir mão do Donbas, as garantias de segurança são cruciais, afirmam analistas. Muitos temem que, se a Ucrânia retirasse as tropas sem tais garantias, haveria pouco para impedir que a Rússia se reagrupasse e usasse a região para lançar novos ataques nas planícies abertas além das cidades fortificadas do Donbas.
— [Para os ucranianos, as garantias de segurança devem significar] uma garantia de que não haverá um novo ataque e de que os países parceiros são responsáveis por assegurar isso — disse Oleh Saakian, analista político e cofundador da Plataforma Nacional para a Resiliência e Coesão Social.
Arame farpado e ‘dentes de dragão’ antitanque em uma linha de defesa ucraniana na região de Donbas
Tyler Hicks/The New York Times
Zelensky afirmou que a Ucrânia está pronta para assinar acordos com a Europa e os Estados Unidos sobre garantias de segurança. Embora nações europeias tenham prometido posicionar tropas na Ucrânia após qualquer cessar-fogo, ainda não está claro se elas concordariam em realmente lutar contra a Rússia em defesa da Ucrânia. De qualquer forma, Moscou já declarou oposição ao plano de ter tropas europeias estacionadas na Ucrânia.
Saakian alertou que entregar o Donbas pode não ser suficiente para fazer a Rússia abandonar a guerra.
— É uma grande ilusão pensar que chegar a um acordo com a Rússia sobre alguma linha de demarcação poderia levar até mesmo a uma paz temporária — disse ele.
Aconteça o que acontecer, Khrystyna disse que a paz era o objetivo principal. No entanto, ela também demonstrou preocupação de que mesmo uma grande concessão territorial não seria suficiente para garantir que a Rússia não atacasse novamente.
— Se a Ucrânia entregasse o Donbas, teríamos que nos mudar e construir nossas vidas do zero. Seria um sacrifício difícil, mas valioso, para acabar com a guerra. — disse ela. — Mas quem pode garantir que eu não teria que fazer isso de novo?
Tratativas diplomáticas: Reunião trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia em Abu Dhabi tem garantias de segurança e cessão territorial em foco
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A opinião sobre a cessão de território representa uma mudança notável para uma população exausta de guerra. Abrir mão de territórios que a Rússia não conseguiu capturar foi, por muito tempo, uma “linha vermelha”. Mas o que antes parecia impossível agora parece menos improvável, à medida que o Kremlin insiste que as negociações de paz apoiadas pelos EUA só avançarão se a Ucrânia concordar em se retirar do Donbas.
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— Para mim, a paz é a prioridade, e se houvesse a certeza de que não haveria mais guerra após cedermos o Donbas, eu estaria pronta para partir — disse Khrystyna, acrescentando que apoiaria a rendição do território apenas se os aliados da Ucrânia oferecessem garantias sólidas para a segurança do país no pós-guerra.
O futuro do Donbas está entre as questões mais espinhosas enquanto a Ucrânia, a Rússia e os EUA continuam tratativas diplomáticas em Abu Dhabi, nesta quarta-feira.
A Ucrânia passou anos fortificando cidades no Donbas e perdeu um número enorme de soldados defendendo a região industrial. O território abrange partes de várias províncias, incluindo Donetsk e Luhansk. A Ucrânia ainda detém cerca de 20% de Donetsk, mas perdeu todo o território de Luhansk.
Para a Rússia, capturar o Donbas — onde Moscou perdeu muito mais soldados do que a Ucrânia — permitiria reivindicar algum nível de vitória, mesmo ficando muito aquém do seu objetivo de subjugar toda a Ucrânia.
Em declarações públicas, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que o governo continua avesso a uma retirada unilateral do Donbas. Mas ele também sugeriu certa flexibilidade, dizendo que tanto a Rússia quanto a Ucrânia devem estar preparadas para concessões, enquanto a Ucrânia sofre pressão no campo de batalha e na mesa de negociações.
Fumaça sobe de dois ataques com drones em Sloviansk, em junho de 2025: Mais ucranianos estão dispostos a abrir mão da porção restante da região de Donbas ainda controlada pela Ucrânia se isso significar um fim definitivo para a guerra
Tyler Hicks/The New York Times
As pesquisas de opinião refletem uma crescente abertura a concessões territoriais. Em maio de 2022, dois meses após as forças ucranianas repelirem o Exército russo nos arredores da capital, Kiev, uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev revelou que 82% dos ucranianos acreditavam que o país não deveria render território sob nenhuma circunstância. No levantamento mais recente do instituto, publicado na última segunda-feira, 40% dos entrevistados disseram que apoiariam a entrega do Donbas em troca de garantias de segurança.
Os dois números não são diretamente comparáveis, pois as pesquisas anteriores não vinculavam garantias de segurança à questão da cessão de território. No entanto, o resultado acompanha outros dados de pesquisa que mostram uma aceitação crescente de concessões territoriais.
Ainda assim, a maioria dos ucranianos permanece oposta à ideia. Muitos dizem estar preparados para continuar enfrentando dificuldades, incluindo a campanha da Rússia para destruir a infraestrutura energética do país durante um inverno rigoroso.
Renunciar ao Donbas poderia fragmentar a sociedade ucraniana, dizem analistas. Também poderia remodelar o legado de Zelensky: de um líder heróico que defendeu o Estado para um que permitiu a ocupação russa de territórios controlados pela Ucrânia, onde hoje vivem cerca de 190 mil pessoas. Muitos presumivelmente se mudariam para áreas ainda mantidas pela Ucrânia em vez de viver sob o domínio russo, como Khrystyna, a dona do estúdio de dança, disse que faria.
— [Zelensky] ouve o seu povo, e ele não fará isso — disse Yevhen Koliada, chefe do Centro de Coordenação de Socorro, que ajudou a retirar milhares de residentes de áreas de linha de frente, inclusive no Donbas.
Civis são retirados de Kostiantynivka, em outubro de 2025: Em troca da região do Donbas, muitos ucranianos exigem fortes garantias de segurança
Tyler Hicks/The New York Times
Mykhailo Samus, diretor da rede independente de pesquisa New Geopolitics em Kiev, observou que a lei ucraniana proíbe a cessão de território que não tenha sido ocupado por força militar.
Zelensky propôs que as tropas ucranianas e russas recuem a uma distância igual da linha de frente no Donbas para criar uma zona desmilitarizada. Embora tal compromisso pudesse, teoricamente, ser considerado, Samus disse que Putin está seguindo um caminho militar e prometendo tomar a região seja pela força ou por negociações.
Para aqueles que dizem estar dispostos a abrir mão do Donbas, as garantias de segurança são cruciais, afirmam analistas. Muitos temem que, se a Ucrânia retirasse as tropas sem tais garantias, haveria pouco para impedir que a Rússia se reagrupasse e usasse a região para lançar novos ataques nas planícies abertas além das cidades fortificadas do Donbas.
— [Para os ucranianos, as garantias de segurança devem significar] uma garantia de que não haverá um novo ataque e de que os países parceiros são responsáveis por assegurar isso — disse Oleh Saakian, analista político e cofundador da Plataforma Nacional para a Resiliência e Coesão Social.
Arame farpado e ‘dentes de dragão’ antitanque em uma linha de defesa ucraniana na região de Donbas
Tyler Hicks/The New York Times
Zelensky afirmou que a Ucrânia está pronta para assinar acordos com a Europa e os Estados Unidos sobre garantias de segurança. Embora nações europeias tenham prometido posicionar tropas na Ucrânia após qualquer cessar-fogo, ainda não está claro se elas concordariam em realmente lutar contra a Rússia em defesa da Ucrânia. De qualquer forma, Moscou já declarou oposição ao plano de ter tropas europeias estacionadas na Ucrânia.
Saakian alertou que entregar o Donbas pode não ser suficiente para fazer a Rússia abandonar a guerra.
— É uma grande ilusão pensar que chegar a um acordo com a Rússia sobre alguma linha de demarcação poderia levar até mesmo a uma paz temporária — disse ele.
Aconteça o que acontecer, Khrystyna disse que a paz era o objetivo principal. No entanto, ela também demonstrou preocupação de que mesmo uma grande concessão territorial não seria suficiente para garantir que a Rússia não atacasse novamente.
— Se a Ucrânia entregasse o Donbas, teríamos que nos mudar e construir nossas vidas do zero. Seria um sacrifício difícil, mas valioso, para acabar com a guerra. — disse ela. — Mas quem pode garantir que eu não teria que fazer isso de novo?









