O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que a Casa Branca pressiona para que russos e ucranianos cheguem a um acordo para encerrar a guerra até junho. O conflito completa quatro anos no final de fevereiro, e embora haja negociações em curso, a tarefa não é nada simples. Entre as demandas de Moscou, está a cessão dos territórios ocupados, e Zelensky teme que a Rússia e os EUA firmem um acordo entre si, sem ouvir as demandas de Kiev.
— Ele (EUA) dizem que querem concluir tudo até junho. E farão de tudo para acabar com a guerra. Eles querem um cronograma claro de eventos — disse Zelensky, em entrevista em Kiev. — Se os russos estão realmente dispostos a acabar com a guerra, então é muito importante estabelecer um prazo.
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O presidente ucraniano revelou ainda uma proposta de reunião trilateral feita pelos EUA, e que deveria acontecer em cerca de uma semana em Miami. Ele confirmou a participação de seus representantes, mas Washington e Moscou ainda não se pronunciaram.
As declarações de Zelensky vêm após mais uma reunião inconclusiva entre russos e ucranianos, mediada pelos EUA em Abu Dhabi, que terminou na sexta-feira com um compromisso de nova troca de prisioneiros — concluída na véspera — e a retomada do contato militar, mas com pontos complexos sobre a mesa, sem qualquer sinal de solução rápida.
A Rússia não abre mão de manter as áreas ocupadas da Ucrânia, equivalentes a cerca de 20% do território do país vizinho, incluindo o Donbass, área industrializada e rica em recursos naturais no leste, e a Crimeia, anexada em 2014, em um movimento considerado ilegal pela lei internacional. Em diálogos preliminares, no ano passado, Moscou exigiu que, além da cessão territorial, houvesse um reconhecimento internacional da medida.
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A Ucrânia oficialmente rejeita perder territórios (embora seja uma opinião cada vez mais popular em um país cansado da guerra), e exige garantias de segurança contra futuras invasões, na forma de compromissos de seus parceiros ocidentais. Trump vetou a entrada do país na Otan, a principal aliança militar do Ocidente, mas líderes europeus deixaram aberto o caminho para a adesão à União Europeia, embora os prazos não estejam claros.
— Mantemos nossa posição — afirmou Zelensky aos jornalistas. — Não pode haver fim para a guerra sem garantias de segurança. Isso é uma certeza absoluta.
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Antes de retornar à Casa Branca, Trump dizia que, caso fosse eleito, encerraria a guerra em 24 horas. Mas depois de empossado, percebeu que seus ultimatos não seriam tão eficazes, diante da mudança do contexto da guerra e das divergências à mesa de negociações. Os russos ignoraram suas ameaças, e uma reunião bilateral no Alasca, na qual esperava anunciar um cessar-fogo temporário, serviu de palanque para o presidente Vladimir Putin.
Na entrevista, Zelensky explicou indiretamente a escolha do mês de junho como prazo final.
— Por que antes deste verão (no Hemisfério Norte? Entendemos que seus problemas internos nos EUA terão um impacto — afirmou, em uma referência velada à campanha para as eleições que renovarão toda a Câmara e parte do Senado dos Estados Unidos, marcadas para novembro.
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Ele alertou que a pressa de Trump pode ser prejudicial à Ucrânia. No ano passado, um representante russo, Kirill Dmitriev, manteve um diálogo intenso com enviados do governo Trump, e que envolveu possíveis planos de cooperação econômica. Trump já disse que pode aceitar a cessão de territórios em um plano de paz, e o fim do prazo pode significar o risco da corda ceder para o lado mais fraco.
— Considerando os riscos potenciais, a delegação ucraniana transmitiu a posição de que, se houver algum acordo bilateral entre a Rússia e os EUA, as disposições relativas à Ucrânia não podem contradizer a Constituição — pontuou Zelensky.
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O ultimato americano ocorre em meio a uma violenta série de bombardeios russos, concentrados na infraestrutura energética do país. Na sexta-feira, Kiev afirmou que 40 mísseis e mais de 400 drones foram lançados. Os alvos principais, disse Zelensky, “foram a rede elétrica, as instalações de geração e as subestações de distribuição”.
— Este é um nível de ataques que os terroristas no mundo jamais se permitiram, e a Rússia precisa sentir a reação do mundo inteiro, de todos aqueles que estão verdadeiramente interessados em segurança — afirmou o ucraniano em discurso.